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A volta do Seminário de Tropicologia

Publicado: Segunda, 25 de Julho de 2016, 09h46 | Última atualização em Segunda, 03 de Agosto de 2020, 14h56 | Acessos: 15781

A LITURGIA DA VELA 

Fátima Quintas



Gosto de castiçais acesos. Velho hábito que me acompanha desde a adolescência. As chamas me fascinam. Olhou-as com avidez, o fogo me convida a mudanças revolucionárias. Calor instigante, a ele entrego-me em doação. Esqueço o tempo, o espaço, sou apenas um pensamento vazio. Consigo elevar-me às dimensões etéreas do nada. Então alcanço o paroxismo da interioridade. E à noite, quando todos dormem e o mundo parece estagnado na circunferência do sono, eu existo.

As velas choram. Sua essência vagueia entre a alegria e a tristeza, entre o sim e o não, entre o dia e a noite. O fogo sugere êxtases, as lágrimas decantam os sentimentos derrotados. Ao longo do cilindro de cera, os pingos vão se acumulando, se acumulando, se acumulando... até formarem indecifráveis estalactites. Do pequeno choro às cataratas do espírito, o ritual tem começo e fim, semelhanças e diferenças, compassos e descompassos. Eu vejo a vela, a vela me vê; diante dela já não consigo manter um monólogo ortodoxo. A proximidade se faz tão amiúde que a vela fala por mim. Um solilóquio a dois. Uma interação silenciosa, firmada na simbiose da cumplicidade.

O pavio virgem, as mãos em lenta gesticulação, o fósforo riscado, os sentidos, alguns, reforçados pelo excesso da expectativa. Não me basta olhar. Quero mais que isso. Quantas vezes debruço-me sobre eufemismos com o objetivo de enganar-me? Agarro-me aos recursos de que disponho para neutralizar a dor dos abraços não dados. Ninguém duvide da magnitude da magia do disfarce. Não me negarei à sobrevivência dos sentimentos, ainda que recorra aos salva-vidas da alma.

Ao redor da chama, uma aura indecifrada. Do vermelho matizado à própria fumaça que se espraia sobre a retangular mesa de jacarandá, não há hiatos entre o calor da vela e o frio do choro.  A tristeza arrepia e traz sensações estranhas que se comparam à ventania gélida dos desertos silenciosos. Não estou a meio, estou no mimetismo dos heráldicos castiçais. E escrevo em voz baixa com receio de que alguém me leia; afinal, meu sussurro é recôndito, quero-o para dentro, bem guardado nos vazios do coração. De agora em diante falarei o essencial, e procurarei encobrir-me sob as vestes da proteção. A subjetivação me agrada, não tenho limites para impor-me, ainda que essa invasão exija a coragem de uma severa faxina interior. Tenho apenas de estar comigo e saber-me plena. 

A procura não cessa, mas a vela se apaga ou queima até a derradeira possibilidade de exibir-se. Resta um belo quadro de lágrimas, os estalactites se acumulam, o desenho é abstrato. A imaginação flui, perscruto o que me agrada, a espontânea justaposição da cera elabora imagens com formas diversas, regulares, irregulares, um diagrama carregado de significações. Prudentes ressignificações medram, de modo a alimentar a potencialidade de criar. Eis que o jardim das idealizações ganha forma quase corpórea.   

O escuro se agiganta. O ritual termina. Amanhã, voltarei a olhar os castiçais acesos. Avigoro a esperança de vê-los perenemente iluminados, a clarear os contornos da alma. 

 

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.





A LITERATURA É UM JOGO

Fátima Quintas


O homem conformado com o mundo não está pronto para escrever. A resignação paralisa, impede qualquer movimento. É preciso um mínimo de inquietação para deixar-se explodir em desabafos. As entrelinhas de uma escrita, com silêncios prolongados, fantasmas implícitos, ocultas sugestões, derrapam em um cenário que se modula à maneira de cada um. Não há como fugir desse jogo tão instigante que se chama literatura. Tudo isso me vem à mente a partir do excelente tema, rico de complexidade e beleza, escolhido pela Fliporto 2013: “A Literatura é um jogo”. Assim como a vida também o é. Quantas vezes a vida surpreende mais que a literatura? Somos reféns de um destino ignorado: “duelo” que se faz intrigante na medida em que bifurca o placar — vitoriosos ou derrotados. Destino é uma palavra perigosa, implica em tantas conotações que tenho receio de usá-la. Mas ela existe e aponta inúmeros caminhos que confundem a escolha. Nem sempre temos consciência de qual jogo jogar. Então, a literatura abriga os desassossegados, os apreensivos, os impacientes — embate a exigir emoções e sentimentos. 


E a disputa se inicia quando o “eu” agrupa vários “eus” em uma partida nem sempre harmoniosa. O conflito dá ensejo à roleta do pensamento. Refletir decorre de uma dúvida atormentante. A inspiração corresponde à pulsão de vida; sem ela o desejo desaparece e o abismo do vazio aflora. Nem sempre estamos inspirados para preencher uma folha de papel em branco, mas aliados, sim, à máquina propulsora de evocações; são as reminiscências, mexidas e remexidas, que tecem o sonho, ressignificando-o em símbolos e metáforas. O jogo resulta dos próprios desencontros. E o tempo é a matéria prima desse jogo.

Escrever é desabrochar-se em signos, utilizando a palavra como meio libertador. O drama humano reclama por portas de saída. A angústia favorece a compreensão da existência, delegando à literatura o ato de exorcizar as agruras da alma. Há uma voz que fala através da letra: as exclamações despontam; as interrogações, também. E tudo parece desaguar numa pergunta que jamais será respondida. Impossível decifrar o mistério da existência! Que os vulcões interiores entrem em erupção; somente assim a humanidade poderá caminhar na direção do incognoscível. Cada palavra desenhada expressa o que lá de dentro emerge, dando forma a uma peleja que convive com o ontológico. A literatura é feita de flashes da vida; por efeito, como fugir desse embate constante e imprevisível? O jogo persiste.

No túnel do dizer, a cronologia tem forte representação. Lembranças de infância acorrem como se a nossa história retornasse ao passado, tempo realmente sólido que nos fortalece. Joaquim Nabuco já afirmava que a infância é a fonte da nossa ebulição. E Proust construiu sua obra em base de memórias aparentemente perdidas, porém reencontradas. A memória consiste no fermento da escrita; dela brota o processo criativo. Sem receio de errar, oferto à memória o elemento desencadeador de toda narrativa. Impossível imaginar que semeamos do nada. As anterioridades, já advertia Ernesto Sabato, são transbordamentos de um eu-vivente. A memória tem o poder cumulativo, nela agregam-se várias caixinhas, umas mais recentes, outras distanciadas, além daquelas arcaicas. A soma dos séculos que em mim habitam provoca um redemoinho de épocas que servem de alento ao ato de devanear. O encadeamento acontece tal qual elo de sustentação. E a batalha pede armistício, reivindica a paz que deriva do fenômeno da palavra.

A Literatura é um jogo entre o homem, o tempo, a memória e a existência. Um jogo que tem árbitro implacável e regras nem sempre conhecidas. Não adianta camuflar as pedras da contenda, porque prevalecerá sempre a contingência do humano. Continuar em pleno jogo é a única forma de entender a literatura. 

Fátima Quintas é membro da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

A GRUTA

Fátima Quintas

 

Enquanto eu tiver a mim não estarei só, guardarei a sensação da existência como uma chama que me preserva. E posso sorrir e chorar. Mais ainda: imaginar grutas como refúgios da alma. Seduzem-me lugares secretos, sem alardes, quase escondidos, silenciosos e receptivos. A quietude me envolve em mistérios que não consigo decifrar; amo-os, porém. Não importa a sua materialização, basta apenas o que há de subjetivo nos significados. As abstrações são divinas porque ensejam um intenso imaginário. A objetividade é pobre e exige uma razão isolada, hirta, decifrável. A vida é tão complexa que rejeita o excessivamente explícito. Há de se render vênias ao que não se diz e ao que não se vê.

Tento transformar sentimentos em palavras; as entrelinhas me chegam ao ritmo da penumbra. O essencial se esconde na gruta que fabriquei entre o sussurro e a voz interior. Os passos são leves e há bancos de pedra que me recebem. Um derredor ermo, oculto, silente traduz o misticismo da prece. A letra se confunde com a oração que nasce de murmúrios. Uma forma de levar o Eu a um patamar digno dos Altares. Tenho as mãos vazias, logo logo vou preenchê-las com sonhos difusos. O chão de areia permite que os pés se misturem à terra. No cimo da montanha, a gruta se edifica. Busco a proteção de grossas paredes — ninguém me vê, ninguém sabe que por lá me asilo.

O ambiente convida à meditação. Não quero frios pensamentos. Amo a abstração do mundo. Sozinha, os sussurros se dilatam no redemoinho dos segredos. Vivo em pleno estado confessional — ninguém me escuta, estou só no diálogo que crio e recrio. Tenho por hábito reelaborar o que vejo, jamais me limito a fotografia impressa, opto pelo reflexo das circunvoluções. A gruta convida à reflexão... Quantos sigilos me invadem! Estou surpresa diante da própria capacidade de gerar visões enigmáticas.  Serei eu a própria indefinição do nada? 

Não necessito me enganar no abrigo de mim; resta aglutinar os fetiches que rodeiam o “animus”. Inúmeros. Quase infinitos. Acendo uma vela para clarear os sortilégios. A chama evolui à medida que me entrego à versatilidade do fogo. Não há vento. A vela se mantém estática, como se tudo ali transmitisse a simbologia do âmago. Visito-me, essa é a tarefa maior. Estou em plenitude no abraço que ainda não dei.  Convido os fantasmas para a festa da madrugada. Já faz dia. O sol brilha. Então ganho a liberdade de gritar por Amor. 

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.   

 



TRÉGUA

Fátima Quintas

 

O sol clareia o quarto desabitado. Encandeia-me. Ninguém me vê. Os olhos piscam insistentemente à procura da meia-luz. Vou e volto na lentidão da busca. Não me satisfaz apressar o advir. Há tanta miragem a ser recriada neste despretensioso espaço que tudo parece começar agora. 

Começo. Apalpo a peça solitária, a cadeira silente, isolada ao canto esquerdo. Tateio os seus saibos de ausência. Espio a nudez do chão na certeza de que os tempos no ar fervilham, fortalecendo a ancestralidade. Estou só. Não quero companhia. Qualquer diálogo quebraria a lucidez do gesto. Se fui até onde não devia, cabe-me arcar com as possíveis consequências. Trago no peito a infalível arma da emoção. E basta. A artilharia de que faço uso se resume a portentosos renascimentos. Desprezo o que antes se fez ali. Meu ofício é inventar. Brinco com o espaço que se alarga pouco a pouco na infinitude do que me apraz. As horas tentam me sugar, mas escapo, driblo minutos e segundos, vigio o relógio inexistente. Diante da majestática imagem, recuo. Não posso duvidar da minha parábola. A antiguidade representa o único recurso de que me valho para avigorar a seiva das coisas findas.

O quarto cresce para dentro. Tenho medo das distâncias interiores. Penetro nos recôncavos de um corpo frágil e débil. Encolho-me. Abstraio o visível. Toco no imponderável. E eis-me no absurdo de um espaço sem princípio nem fim. Estou a meio, a gravitar sobre o pequeno universo que me hospeda. Que albergue será esse? 

   De repente retorno à incurável timidez. Quantos amores deixei perecer à revelia? Que faço agora? Reabro a porta do túnel de um calendário vencido? Acode-me o frenesi de aproveitar o tempo. Logo. Logo. Logo. Sem demora. Com a firme consciência dos que abandonaram desejos ao longo da estrada. Desde que comecei a escrever sumiram cinco minutos. Aproveitei-os ou não? Se escaparam-me, que saberei de outros minutos?!   

 Idealizo a imagem do que nunca quis em verdade. Traços incertos e irregulares perfilam uma figura quiçá indecifrável. Há tantos intervalos entre eu e eu mesma que os hiatos vencem qualquer continuidade. Não importa o pontilhado de um desenho em tela assimétrica. Reduzirei a lupa invasora para evitar inelutáveis enganos.  Desde muito, já nem me recordo quando, talvez em um inverno enlameado de outrora, cobicei a discrição dos anacoretas. Não obstante a inclinação aos esconderijos, represo muralhas de vontades que se vão interpondo em uma cadência voluptuosa. Não consigo deter as pulsões que me instigam. Ainda bem que assim vivo, ao modo de um turbilhão inconformado, prestes a rebentar os diques que se levantam à minha frente.  

Ah, quem me dera a liberdade das aventuras inconscientes! Se desabarem as barreiras que me sufocam, refugiar-me-ei nas prateleiras desérticas do meu eu. Há recantos não preenchidos, sei que os há; resta-me o garimpo do querer. Não receio os descompassos que regulam a bússola hesitante. Clamo por pontos de fuga — passagens secretas para os casulos da alma. Ando escondida do mundo. Essa é a verdadeira história de quem não tem o que narrar. 

Enchi linhas vazias, eu, a própria imensidão do vazio no quarto desabitado. Longe de qualquer apreensão da realidade, assumo a intrepidez de dizer: existo. 

Fátima Quintas é escritora. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

 

 

INCERTEZAS DO EU

            Os dias acompanham o tempo em uma ritmada travessia. Cada acordar é um nascer diferente. Abro os olhos com a sensação de novos começos. Por mais que tente elaborar os fragmentos que me pertencem, eis que me sinto pobre para decifrá-los. Viver é curtir os instantes com a esperança de profundas renovações. Adivinhar é uma brincadeira do Ser. E vale a pena renová-la continuadamente, assim, estaremos sempre alimentando perspectivas. A cada dia as indagações florescem, como se a bússola que retenho, alhures ou nenhures, me estimulasse a refazer-me.

            Desde cedo me surpreendo com o mistério do que sou. Por mais que busque alguma resposta, nenhuma me serve. Acabo por aumentar o volume das inquietações. Serei sempre um alguém que não se entende. Por isso, invento um novo jeito de me descobrir. Tentativas vãs me perseguem, todavia. Pela manhã, sou uma; à tarde, outra; à noite, mais questionadora e irrequieta. Não sei explicar a razão de dias acumulados. Há turnos que me fazem construir um Eu mais totalizante; outros me reduzem ao nada. Quando imagino a descoberta de alguma coisa, logo me chega a sensação do engano. Então percebo que sou tão somente um amontoado de incertezas.

            O sol se apresenta com excesso de clareza e confunde os pensamentos. Como se me invadisse em conflitos a mais; após o crepúsculo, me retraio em mim mesma; despontam tantas ilações que por vezes me asfixio. O círculo se faz em um retorno permanente. Os minutos me parecem longos ao perscrutá-los. Não há solução para o enxame dos conflitos. Tantos sigilos em paradoxos! Não me deixo abater diante das interrogações.  Ao contrário, respiro fundo e permito a mudança do rosto no próprio espelho. Estarei sempre em plena meditação.
             
            Clarice Lispector reforça a dubiedade: “Eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente”. Multiplicam-se os contrapontos, a única certeza é a dúvida; entre o somatório de todas as inflexões, persevera a incapacidade de mim.

           Olho o relógio. Há um tempo indefinido. Não me aflijo. Apego-me ao ontem e me surpreendo com uma história para contar. Começarei devagar, quando a lembrança se acentuar no acúmulo do que fui. Daqui a pouco irei narrando os sonhos que me invadem. Estarei pronta para complementar-me, não se apressem: que dia foi ontem? E anteontem? Assim inicio o inventário que me cerca.

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras- Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.    



Fonte: Fundação Gilberto Freyre



Em 27 de julho de 2016, após uma década de interrupção, a Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ retomou o Seminário de Tropicologia.

O Seminário foi iniciativa do sociólogo Gilberto Freyre, tendo iniciado suas reuniões em 1966. Sua criação propiciou o funcionamento de espaço destinado a discussão de temas relevantes para o desenvolvimento regional e nacional.

O formato do seminário é o preconizado pelo sociólogo americano, Frank Tannenbaum. Apresenta a palavra de um palestrante e análises de comentaristas que abordam o tema segundo a visão de suas especialidades. Procedendo-se uma síntese dos debates. As reuniões do Seminário são coordenadas pela escritora Fátima Quintas.


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