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Pedra do Ingá: arte brasileira com muito mais de 500 anos

Publicado: Quarta, 15 de Mai de 2019, 11h06 | Última atualização em Quarta, 15 de Mai de 2019, 11h06 | Acessos: 12120

https://www.lugaresdememoria.com.br/2019/05/pedra-do-inga-arte-brasileira-com-muito.html?m=1

 

02/05/2019

Foto Gustavo Moura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Foto Gustavo Moura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Em uma de suas Aulas-Espetáculo*, o escritor Ariano Suassuna apresentou, indignado, o cartaz de uma exposição comemorativa aos 500 anos do descobrimento, que dizia: "Arte no Brasil: uma história de cinco séculos". Em sua opinião, a frase é preconceituosa por só considerar arte brasileira o que foi feito depois da chegada dos portugueses, relegando à condição de 'não-arte' tudo o que existia antes. E para mostrar o equívoco da mensagem, exibiu uma foto da Pedra do Ingá - considerada por ele o primeiro documento de comunicação do Nordeste e uma das esculturas mais importantes do país.

Foto Manel Dantas Vilar - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Não se sabe quando nem por quem o monumento foi esculpido, mas parece não haver dúvida de que está ali há pelo menos 25 séculos. Ainda assim, e talvez pelo fato de se pensar que no Brasil só existiu arte a partir de 1.500, é desconhecido da maioria dos brasileiros, inclusive de muitos nordestinos, embora seja tombado pelo Iphan (na época Sphan) desde 1944, e tenha entrado recentemente (2015) para a lista dos indicados à Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade.

A itaquatiara - nome indígena para pedra pintada ou pedra escrita - fica no município de Ingá, no agreste da Paraíba, à margem do Rio Bacamarte e a pouco mais de cem quilômetros da capital. É definida tecnicamente como uma formação rochosa em gnaisse que ocupa uma área de 250 m², mas o que interessa aqui é que grande parte de sua superfície está coberta por desenhos rupestres em baixo relevo, ou insculturas, como dizia o escritor.

Para Ariano, trata-se de "um lugar religioso...uma pedra de altar" **, segundo afirmou em mais de uma aula-espetáculo. Mesmo sua sua visão não sendo unânime, encontra respaldo em muitos pesquisadores, que identificam na pedra características simbólico-religiosas, astrológicas e astronômicas.

Foto Gustavo Moura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAFoto Gustavo Moura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


Isso ocorre porque, diferentemente da maioria das inscrições rupestres, compostas por figuras humanas e de animais, os desenhos da Pedra do Ingá são abstratos e coincidem, em grande parte,
com símbolos de planetas utilizados na representação de signos do zodíaco, ou com objetos litúrgicos - um deles comparado por Ariano à Menorá, o candelabro sagrado judaico.

Há quem acredite haver ali, também, um calendário -  traduzido em imagens pela sequência de pequenos círculos na parte superior da pedra. Especula-se, ainda, que os desenhos sejam fórmulas destinadas à produção de energia quântica.

Foto Gustavo Moura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O fascínio exercido pela Pedra do Ingá

Ariano era um dos maiores admiradores daquelas inscrições e visitava o lugar com alguma frequência, segundo testemunham sua família e as pessoas que tomam conta do sítio arqueológico. Como se isso não bastasse, elegeu a pedra como uma espécie de ícone da cultura brasileira, com citações constantes, seja nas palestras que fazia Brasil afora, seja em sua própria obra - romances, peças de teatro e até no raríssimo Ferros do Cariri*** -, por meio de descrições, fotos, desenhos ou de imagens mescladas com textos que ele mesmo produzia e chamava de iluminogravuras.

Em seu livro póstumo, "Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores", por exemplo, o escritor reafirma, na voz do personagem principal, a sua crença de que a Pedra do Ingá é um lugar sagrado: "Sempre que venho aqui, fico possuído de uma sensação de respeito quase religioso"****. Além disso, há imagens de seus símbolos e da própria pedra ao longo dos dois volumes - inclusive nas páginas de abertura e fechamento.

Foto Manuel Dantas Vilar- Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Embora fosse seu maior divulgador, não era o único. Os compositores Lula Côrtes e Zé Ramalholançaram, em 1975, um elepê duplo inspirado na Pedra do Ingá. "Paêbiru: o caminho da montanha do sol" é considerado o fundador de uma psicodelia genuinamente brasileira, por combinar ritmos emergentes naquele momento com sons regionais e lendas indígenas.

Foto Sylvia Leite - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Paêbirú acabou se tornando um dos vinis de maior valor comercial no país porque cerca de 1.000 exemplares de uma edição de apenas 1.300 teriam se perdido em uma enchente que destruiu a sede da gravadora Rozenblit, no Recife, restando apenas os que já haviam sido distribuídos para as lojas.

Essa edição praticamente perdida trazia um livro com informações sobre a Pedra do Ingá e suas lendas. Quatro décadas depois, o disco e a Pedra do Ingá foram tema do documentário "Nas paredes da Pedra Encantada", dirigidos pelos jornalistas gaúchos Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim.

Nas artes plásticas, a Pedra do Ingá está presente na obra do artista Luiz Barroso, que estuda as inscrições desde a década de 1980. A instalação "Metalinguagem", realizada em 2012, talvez seja a mais representativa dessa inspiração pois reúne peças de papel machê - em um painel de um metro e meio de altura por cinco de largura - que são claras releituras dos símbolos da itaquatiara.

Foto Divulgação-Mercado Livre- Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

A Pedra do Ingá chegou também aos quadrinhos em uma releitura do personagem Piteco, de Maurício de Souza, feita pelo artista paraibano Shiko. O romance gráfico Piteco - Ingá , lançado em 2013, transforma o personagem - originalmente descrito como um homem das cavernas pertencente ao povo de Lem - em um indígena 
brasileiro que viveu cerca de 5 mil anos antes de Cristo na região onde está localizado o sítio arqueológico e Lem passa a ser o nome de sua tribo. Mais que cenário, a Pedra do Ingá aparece na história como uma espécie de oráculo onde está previsto, por meio de símbolos, o destino do povo de Lem.

Foto Divulgação-Livraria Cultura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Acredita-se, ainda, que Mário de Andrade, em seu romance Macunaíma, tenha se referido à  Pedra do Ingá na seguinte passagem: “Na Paraíba, indo de Manguape pra Bacamarte passou na Pedra Lavrada com tanta inscrição que dava um romance. Só não a leu por causa da pressa...".

A Pedra do Ingá: obra de artistas anônimos

 

Tanto quanto aos artistas, a Pedra do Ingá impressiona a arqueólogos, ufologistas e místicos que debatem, há anos, sobre a autoria e o significado das inscrições. As versões variam segundo a formação, orientação teórica e às vezes até quanto ao período de atuação dos pesquisadores.Inicialmente, predominava a tese de que os petróglifos - como são chamados em linguagem técnica - foram inscritos pelos Cariris, mas há quem afirme que esses índios só chegaram à Paraíba depois de 1.500, vindos da bacia do São Francisco junto com os portugueses, e as inscrições parecem ter sido feitas pelo menos mil anos antes. Outra corrente acredita que a pedra foi insculpida por povos pré-históricos.Na medida em que o tempo passa, multiplicam-se as hipóteses, que vão de navegadores fenícios aportados acidentalmente na costa da Paraíba, a moradores do lendário continente perdido de Atlântida, passando por culturas pré-incaicas e por polinésios da Ilha de Páscoa. Um documentário sobre a Pedra do Ingá atribui sua autoria a um sacerdote egípcio que teria vindo ao local para sepultar uma amante do faraó. Já alguns ufologistas acreditam que os desenhos foram feitos por extra-terrestres, e um deles chegou a apresentar amostras do solo onde a nave teria pousado.
Foto Gustavo Moura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIASegundo uma lenda corrente na região, as inscrições podem ter sido obra de um semideus, denominado  Sumé  e essa versão encontra amparo entre alguns arqueólogos. O nome Sumé seria a corruptela de São Tomé (apóstolo de Cristo) e o suposto semideus seria, na verdade, um evangelizador homônimo do apóstolo, que teria passado pelo local e gravado ali um tratado cosmogônico.As lendas de Sumé são atribuídas aos povos Tupi Guarani. Ele seria um homem branco, de cabelos longos e barbas brancas, que flutuava no ar. Ensinava técnicas de agricultura e realizava curas. Suas qualidades teriam despertado a ira dos caciques locais que o expulsaram da região. Ao se deslocar para  o Paraguai, e em seguida para o Peru, ele teria aberto o Caminho das montanhas do sol, ou caminho Peairú, de que fala o disco de Lula Cortês e Zé Ramalho.

Foto Sylvia Leite - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


Do museu arquelógico ao molde de silicone

                  

Seja qual for a verdade, a Pedra do Ingá segue fascinando artistas e pesquisadores que, além de estudarem os desenhos, recolhem material na região a fim de identificar grupos humanos que viveram no local e, quem sabe um dia, descobrir os autores das insculturas.Foto Sylvia Leite - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Parte do material encontrado por esses especialistas está exposta em um pequeno Museu de História Natural localizado na entrada do sitio arqueológico. Entre as peças em exposição estão fósseis de animais extintos há mais de 10 mil anos. O museu exibe, ainda, a reprodução de um dos desenhos do Ingá insculpido com a técnica que alguns pesquisadores acreditam ter sido usada pelos autores da itaquatiara.Com o fim de preservar a memória da Pedra do Ingá, foi realizado na década de 1990 um molde em silicone das inscrições. O projeto, de autoria de especialistas da Universidade de Lyon, na França, contou com a parceria da Universidade Federal de Pernambuco, que aprovou e supervisionou todas as etapas. O mérito desse trabalho é o de haver possibilitado a obtenção de réplicas da Pedra do Ingá em fibra de vidro, uma das quais está no Departamento de História e Geografia da Universidade Federal de Campina Grande. Entre as possíveis desvantagens, estaria o a possibilidade do contato de produtos com as inscrições ter provocado algum tipo de desgaste.

Foto Gustavo Moura - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 

A eternização pela arte  

Enquanto arqueólogos, ufólogos e místicos estudavam as origens da Pedra do Ingá, e produziam registros que garantissem sua memória científica, Ariano Suassuna ocupava-se em construir uma memória artística, inserindo os símbolos da Pedra do Ingá em praticamente tudo que fazia.
Foto Sylvia Leite - Matéria Pedra do Ingá - BLOG LUGARES DE MEMÓRIASua ligação com o monumento chegou a tal ponto que, poucos anos antes de morrer, ou de se encantar, pediu a seu filho - o artista plástico Manuel Dantas Vilar Suassuna - que criasse uma espécie de santuário na fazenda da família, no município paraibano de Taperoá, com uma releitura da Pedra do Ingá. Ariano batizou o monumento de Ilumiara Jaúna e fez dessa expressão um conceito maior tanto na vida como na literatura.Na vida, a palavra ilumiara é usada por ele tanto para "se referir a 'anfiteatros' formados por pedras insculpidas e ou pintadas que os primeiros habitantes do Brasil provavelmente usavam como locais de culto", como a conjuntos artísticos e "lugares que pudessem ser vistos como símbolos da força criadora de um povo ou espaços de celebração da sua cultura", como explica um dos maiores estudiosos de sua obra Carlos Newton Júnior*****.Na literatura, mais especificamente em seu livro póstumo "Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores", a expressão Ilumiara refere-se tanto a essa espécie de espaço físico sagrado como à concretização de um livro síntese a ser escrito pelo personagem principal, inspirado no próprio Ariano, que ao tentar escrever seu romance dentro da narrativa de alguma maneira reescreve e sintetiza a obra do autor.O monumento denominado Ilumiara Jaúna, que está sendo construído em Taperoá, pode ser considerado uma espécie de tratado poético escultórico e arquitetônico (para mencionar apenas algumas artes envolvidas em sua concepção) sobre a Pedra do Ingá, mas isso é assunto de outra matéria que virá em breve.
* A 'Aula espetáculo' a que o texto se refere foi realizada na Universidade Federal da Paraíba e está publicada em forma de livro, pela mesma universidade, sob o título "Aula Magna". Posteriormente,  Ariano repetiu as afirmações em outras aulas-espetáculo, algumas das quais circulam na internet.** Citação extraída da mesma palestra publicada no livro "Aula Magna".*** "Ferros do Cariri - Uma Heráldica Sertaneja" é o resultado de uma pesquisa de Ariano Suassuna sobre os ferros de marcar da região da Paraíba denominada Cariri. Além do texto, a publicação reúne 10 xilogravuras de sua autoria e foi lançado em edição numerada e assinada.**** Citação extraída do livro póstumo "Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores".***** Citação extraída do prefácio ao livro póstumo "Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores".

Pedra do Ingá - Município de Ingá - Paraíba

Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
Fotos: Fotos da Pedra do Ingá e de Manuel Dantas Vilar Suassuna na Ilumiara Jaúna: Gustavo Moura

Site do Fotógrafo / Site Paraíba criativaFotos do museu: Sylvia LeiteFotos de livros e capas diversas
Divulgação, Manuel Dantas Vilar, Sylvia Leite.

Referências:Livros de Ariano Suassuna:Aula Magna
Ferros do Cariri
Romance de Dom Pantero no Palco dos PecadoresLivro sobre a Pedra do IngáA Pedra do Ingá, de Vanderley de BritoPara realizar esta matéria, o blog 'lugares de memória' contou com:1- A importante colaboração de três pessoas:

  • O artista plástico Manuel Dantas Vilar Suassuna, filho de Ariano e herdeiro do projeto da Ilumiara Jaúna.
  • O advogado Manuel Dantas Vilar, sobrinho de Ariano e um dos grandes conhecedores de sua obra. 
  • O fotografo Gustavo Moura que proporcionou o encontro com a família Dantas Suassuna, participou de todas as conversas e é autor das fotos da Pedra do Ingá e da Ilumiara Jaúna. 

 

2- O apoio institucional da Universidade Federal da Paraíba - UFPB/ PRAC/COEX.

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