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‘A história de Zumbi não termina em 1695’, diz socióloga em live da Fundaj

Publicado: Quinta, 30 de Julho de 2020, 21h57 | Última atualização em Quinta, 06 de Agosto de 2020, 13h32 | Acessos: 174

Trajetória do líder pernambucano e reflexos na formação de quilombos são destaque em última edição da série Grandes Personalidades da História do Nordeste

Não foram poucas as investidas contra o Quilombo dos Palmares, nos séculos XVI e XVII. Embrenhado na Serra da Barriga, na então Província de Pernambuco, o território foi palco do nascimento e ascensão de um dos maiores líderes negros do Brasil: Zumbi (1655-1695). Sua importância e trajetória foram refletidas pela socióloga Delma Josefa da Silva, pesquisadora em questões raciais e doutora em quilombos, durante a sétima e última edição da série Grandes Personalidades da História do Nordeste. A iniciativa da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) foi transmitida, nesta quinta-feira (30), no canal oficial da instituição no YouTube.

O evento contou com a participação do presidente da Fundaj, Antônio Campos, que saudou à socióloga e memória do homenageado. “Zumbi é um símbolo de resistência não só para os negros, como para o Brasil. A escravidão é, sem dúvida, um dos temas de maior importância da nossa formação e história, um dos últimos países a fazer a liberdade da abolição — ainda não completada”, diz Antônio sobre a dívida do País pelas desigualdades a que as populações africanas foram expostas no continente. “Só será completada [a abolição] com mais igualdade, respeito, educação e oportunidades para os afrodescendentes.”

Responsável pela curadoria dos personagens, Mario Helio, diretor de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca) celebrou o encerramento desta temporada do Grandes Personalidades. “Não há como concluir esta iniciativa de uma forma neutra — apenas nos reportando ao passado —, se não estamos todos comprometidos com o presente. Esta série teve como característica uma preocupação prática pela diversidade”, apontou, ao lembrar as edições de Nísia Floresta, Nise da Silveira, Lampião, Antônio Conselheiro, Padre Cícero e Delmiro Gouveia. “A história do Nordeste, como em qualquer país, tem todo o tipo de personagem.”

Mario agradeceu à socióloga, a quem chamou de “herdeira direta de Zumbi dos Palmares”. “Há um fio lógico que a remete até o século XVII — até antes. Essa saga que continua de uma série. O Brasil é também uma série, é também uma saga”, disse. “Esta menção me emocionou bastante”, declarou Delma Josefa. “Penso que a prática por liberdade em condições tão adversas é o que deve nortear todas as pessoas que de alguma maneira estejam passando por opressão. A busca pela liberdade sempre vai gerar inspirações e a inspiração de Zumbi permanece até os dias de hoje”, defendeu a socióloga.

Ao longo de sua fala, a especialista em questões raciais relembrou o tráfico negreiro como projeto econômico no Brasil Colônia, assim como a formação dos primeiros quilombos no território brasileiro a partir da constituição de Palmares. “Havia diversas vilas [no entorno de Palmares], como a Angola Janga. Eram pequenos territórios, como estratégia de acesso e observação das investidas contra o quilombo, que sofreu mais de 60 investidas e resistiu mais de um século”, apontou da Silva. “Esses espaços eram observados permanentemente através dos mirantes. Hoje, em Palmares, existe um parque no alto da Serra [da Barriga] que tenta reproduzir o que se vivenciava.”

Zumbi foi preparado para assumir a liderança do quilombo pelo perfil estratégico. No dia 20 de novembro de 1695, foi vitimado em uma emboscada do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. “Para os que contestam sua existência, há documentos que atestam a morte de Zumbi e detalham as condições em que foi capturado”, aponta a socióloga, ao mencionar os arquivos públicos presentes no livro História da América portuguesa (1730), de Sebastião da Rocha Pita. “Ele teve sua cabeça cortada, salgada e exposta no Pátio do Carmo, no Recife, como referência para que ninguém mais ousasse contrariar o estabelecido”, lembra.

Delma Josefa destaca que, no Período Colonial, a expectativa de vida de uma pessoa negra era de 35 anos. Para a socióloga, a exposição da morte de Zumbi atesta que ele “estava lutando por uma condição de existência não só para si, como para uma coletividade” e sua dimensão é evidenciada, ainda, na marginalização e perseguição aos quilombos após sua morte. “A história de Zumbi não termina em 1695”, conclui. Em 1740, a existência de quilombos é tipificada, no Brasil, como ‘território em que cinco ou mais negros estão reunidos mesmo que não haja pilões’. Só em 1988, a Constituição Federal reconhece e dignifica os assentamentos.

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