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Último dia de Seminário destaca um Gilberto da moda ao sobrenatural

Publicado: Quinta, 12 de Março de 2020, 20h44 | Última atualização em Sexta, 13 de Março de 2020, 10h02 | Acessos: 276

Evento reuniu especialistas e estudantes de nível médio para discutir contribuições pioneiras do sociólogo pernambucano. Editora Massangana encerrou atividade com lançamento de livro

Moda e terror foram dois dos assuntos discutidos, nesta quinta-feira (12), no Seminário Gilberto Freyre: 120 anos de pioneirismos. O segundo dia do evento contou com a presença de diversos estudiosos e admiradores da obra freyriana, além de estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Silva Jardim, do bairro do Monteiro, no Recife. A atividade, promovida pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e encerrada neste mesmo dia, ocupou a Sala Calouste Gulbenkian, no Campus Casa Forte, na Zona Norte da capital pernambucana.

Para explanar sobre “Gilberto Freyre: memória e contemporaneidade”, integraram a mesa o presidente da Fundaj e escritor, Antônio Campos; o professor de Pós-Graduação em Letras da UFPE Anco Márcio Tenório Vieira; o professor de Literatura da UFPE André de Sena; e a escritora Fátima Quintas, que coordena o Seminário. Abrindo o trabalho, Anco Márcio apresentou seu estudo comparado “Gilberto Freyre e Flávio de Carvalho: diálogos sobre as pequenas utopias da moda”, disponível para consulta no livro Casa-Grande Severina (Massangana, 2020).

Anco Márcio ilustrou as contribuições do sociólogo para a reflexão em torno da vestimenta utilizada no Brasil, um país tipicamente tropical. Dentre os exemplos apontados está a tese defendida por Freyre no artigo publicado no Diario de Pernambuco, em 1925, “de que as roupas brancas de linho ou brim, sejam permitidas em quaisquer solenidades onde o traje de rigor seja exigido”. Um ano depois a sugestão foi registrada e acatada no 1º Congresso Regionalista do Nordeste. Algo modesto, se comparado à defesa do uso de saiote feita pelo amigo Flávio de Carvalho, em 1956.

“Assim, em Freyre, a roupa é tomada e estudada como um dos signos que revela não apenas o modo como o homem situado histórico-socialmente vê e quer ser visto pelo outro, mas também como ele se relaciona com o seu meio: seja se subordinando aos ditames da moda, seja se insurgindo contra as regras e o sistema que organiza a moda em seu tempo. Em Flávio, há uma preocupação em pensar um trajo que seja adaptado ao trópico e, também, uma preocupação em tomar o corpo humano como meio para testar os limites entre o sujeito e o outro”, destacou o professor.

Na sequência, André de Sena discorreu sobre a relação de Gilberto Freyre com a ‘literatura fantástica’, gênero literário centrado em elementos não existentes ou não reconhecidos na realidade. Falando em “sociologia dos fantasmas”, para brincar com os conceitos majoritariamente abordados ao se falar de Gilberto, refutou como pioneira a iniciativa do sociólogo pernambucano ao resgatar narrativas populares na obra Assombrações do Recife Velho (1955), que explora crendices regionais e o sobrenatural no passado da capital pernambucana.

“Gilberto Freyre desenvolveu um hibridismo entre as histórias de fantasmas e as narrativas populares, a exemplo dos casos popularescos publicados inicialmente em jornais policiais. Foi um dos primeiros, no Brasil, a explorar esta literatura tida fantástica, por trabalhar com elementos ficcionais”, destacou o especialista. Organizador do livro Literatura fantástica em Pernambuco & histórias de fantasmas (Editora UFPE, 2015), Sena ajudou a construir uma linha cronológica do gênero no Estado e destacou, ainda, a contribuição da obra freyriana para seu alastramento.

“Muitos atuam, hoje, neste campo da Literatura Fantástica por culpa de Gilberto Freyre”, brincou. “Toda essa difusão é resultado desse resgate que ele fez, ao longo de 20 anos, das narrativas populares. Isso impulsionou as gerações seguintes, que, não tenham dúvida, sabem que ele é e o consomem mais do que se imagina”, ponderou André. Para finalizar, o professor recordou o filme “Recife Assombrado”, com direção de Adriano Portela, e o site de mesmo nome, inspirados no livro de 1955. Apresentou também novos nomes deste gênero no Estado, como André Balaio e Frederico Toscano.

Fátima Quintas, por sua vez, apresentou seu ensaio “Gilberto Freyre e a saudade tríbia”, na qual recorre ao conceito de de tempo tríbio cunhado pelo sociólogo. A leitura foi bastante apreciada pelo presidente da Fundaj, que caracterizou como “um grande instante”. Antônio Campos evidenciou, também, o desejo de que um livro e um DVD sejam produzidos a partir do Seminário. “Gilberto era um homem múltiplo, de pioneirismos, de contemporaneidades e de tempos tríbios. Como antropólogo, enveredou pela culinário, pela arquitetura, escreveu guias, e, como bem apontado hoje, também pela moda”, costurou o escritor Antônio Campos.

Encerrando o Seminário, o professor universitário da USP Antônio Dimas, especialista em Literatura Brasileira, apresentou os resultados de suas pesquisas sobre Gilberto Freyre e o escritor baiano Jorge Amado junto à Universidade do Texas, nos Estados Unidos. No local, Dimas explora correspondências mantidas pelos autores e destaca, por exemplo, a relação do pernambucano com o editor norte-americana Alfred A. Knopf. Outros pontos apresentados por ele, são as influências deste ciclo na trajetória de Freyre para a pesquisa e escrita de sua obra-prima Casa Grande & Senzala (1933).

“Ele esteve em dois locais distintos: Wako, uma pequena cidade do Texas onde o racismo é uma realidade quase que tangível, e Nova York, um centro migratório e extremamente cosmopolita. É claro que esse contraste o influenciou. Ao ponto de buscar justo essas contraposições em sua pesquisa antropológica e histórica. Acredito que tenha decidido pela sociologia a partir dessa experiência”, compartilhou Dimas. Ao fim da conferência, a Editora Massangana promoveu o lançamento do livro Casa-Grande Severina: 120 anos de Gilberto Freyre, 100 anos de João Cabral de Melo Neto (2020).

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