Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Imprensa > Último mergulho do ano nos rios de Freyre e João Cabral
Início do conteúdo da página

Último mergulho do ano nos rios de Freyre e João Cabral

Publicado: Sexta, 06 de Dezembro de 2019, 23h18 | Última atualização em Sexta, 06 de Dezembro de 2019, 23h20 | Acessos: 290

Marcando o encerramento, o escritor Joaquim Falcão entrevistou Gilberto Freyre utilizando recursos multimídia e surpreendeu o público

Ao longo de três dias, a Fundação Joaquim Nabuco realizou uma imersão nas vidas do escritor e antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987) e do diplomata e poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999). O Seminário Internacional Casa-Grande Severina: 120 anos de Gilberto Freyre, 100 anos de João Cabral de Melo Neto fez da proximidade das datas de celebração de vida dos autores, ensejo para refletir justo isso: suas vidas. Estudiosos das obras, familiares, amigos e admiradores integraram a programação diversa, que teve início na quarta-feira (4) e chegou ao fim nesta sexta (6).

O último dia de evento foi iniciado na Sala de Leitura do campus Derby da Fundaj, onde, desde as 9h, crianças entre 4 e 11 anos integraram as atividades educativas conduzidas pela Coordenação de Artes (Coart) da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca). Às 10h, o Cinema da Fundação exibiu o curta-metragem O mestre de Apipucos (1959), de Joaquim Pedro Andrade. A película conta com Gilberto Freyre interpretando a si mesmo em seu cotidiano enquanto trechos de sua obra são narrados.

Na sequência, o professor Anco Márcio Tenório Vieira, do Departamento de Letras da UFPE, e o pesquisador espanhol Pablo González Velasco dividiram a mesa sobre Gilberto Freyre, as Espanhas e os Portugais, com mediação do jornalista Marcelo Abreu. Em sua exposição, o professor universitário refletiu acerca do método de produção literária freyriana, correlacionando-o com o português Camões, o que caracterizou como lusotropicalismo. “Ele trouxe inovações no campo das ciências sociais no mundo ocidental e ocidentalizado. Inovações que talvez não tiveram impacto mundial, na década de 1930, porque escrever em português é, em alguma medida, se manter inédito”, destaca.

Utilizando de recursos visuais, o pesquisador espanhol Pablo González apresentou achados documentais que revelam a relação estreita entre Freyre e a Espanha. Ao longo dos slides, a apresentação passeia dos convites e honrarias recebidos pelo autor, a cartas que revelavam a intimidade das relações em construção ou nutridas pelo autor. Velasco abordou a hipótese levantada por Gilberto Freyre acerca da relação do Brasil com a Espanha. A teoria do pernambucano é de que, por ter pertencido a Espanha por cerca de 60 anos, Portugal também foi atravessado pela cultura hispânica.

Encerrando a programação da manhã, o crítico literário Cristiano Ramos refletiu sobre lugares comuns na literatura. “Em minha vida inteira as pessoas falavam mal de João Cabral. Na escola, uma freira proibiu Morte e vida Severina de ser recitada pelas menções escatológicas. Mais tarde, na academia, as pessoas criticavam a obra, consideravam-na hermética. Ou seja, ele foi colocado no lugar comum, dos clichês”, recordou Ramos. “Nós temos o papel de pegar esses lugares comuns e discuti-los.”

Cristiano implica na incompreensão sobre o autor, que julga mal interpretado. Falou a respeito da perpetuação destes lugares comuns. “Para pesquisar o que realmente foi dito sobre o autor é necessário buscar arquivos”, conta. O conferencista aponta que as principais obras de João Cabral vieram depois, em muitos casos se tratam de compilações de textos soltos. “Ele desde muito cedo recebeu uma atenção destes grandes críticos e aí se construiu essa fortuna rica de referência.” Ao fim de sua explanação, comentou os desafios do mercado literário: do cenário vivido por João Cabral de Melo Neto até a contemporaneidade.

Encerramento
“Eu gostaria de ser cineasta”, confessa João Cabral de Melo Neto. “Os dois trabalham com o tempo, né?”, conjectura o interlocutor. “E com a imagem”, arremata o poeta. O diálogo apresentado nos primeiros minutos do documentário Recife/Sevilha (2003), de Bebeto Abrantes, revela o desejo intenso de pertencer a sua obra, antes mesmo que ela a pertença. Essa, aliás, é uma evidência presente no decorrer do longa, que integrou a programação audiovisual do último dia do Seminário Internacional Casa-Grande Severina. A obra retrata as relações de João Cabral com as cidades de Recife e Sevilha, lugares que morou em sua vida e onde sua obra ainda reverbera.

Uma verdadeira surpresa. O advogado e escritor Joaquim Falcão, membro da Academia Brasileira de Letras, brindou o público com uma intervenção tecnológica intitulada “Uma conversa na varanda com Gilberto Freyre”. Utilizando de gravações de áudio do Freyre, Falcão estabeleceu um diálogo atual com o antropólogo. O diálogo de perguntas e respostas levou os espectadores ao delírio, fosse pela surpresa diante do uso de recursos documentais ou pela graça nas declarações afiadas, bem humoradas e até ousadas. Nesta conversa, Gilberto Freyre refletiu o Brasil de hoje, falou de diversidade, de características pessoais como sua vaidade e até de maconha.

Para arrematar, Antonio Maura, diretor do Instituto Cervantes no Rio de Janeiro, abordou as marcas hispânicas na obra de Gilberto Freyre e de João Cabral de Melo Neto. Maura foi o único conferencistas a discutir ambos autores em sua apresentação e, ao longo de sua fala, destacou a miscigenação cultural dos povos. Questão observada pelos homenageados. Defendeu que Freyre não deve “ser reduzido” a antropólogo quando sua obra carrega consigo uma carga filosófica.

registrado em: ,
Fim do conteúdo da página