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TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 138/2002 Junho · 2002 |
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O PESQUISADOR COMO HERMENEUTA [1] Helenilda Cavalcanti [2] |
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Neste ensaio, proponho-me a refletir sobre o sentido
interpretativo produzido durante o processo de pesquisa ou
elaboração de um texto. Ao debruçar-se sobre a
problemática da compreensão e interpretação mais
geral do seu objeto de estudo, o pesquisador está recorrendo à
hermenêutica, isto é, à teoria de
interpretação dos sentidos.
A intenção do pesquisador encontra-se
contaminada pela sua posição no mundo, e a raiz do seu trabalho
está justamente localizada onde se situa o pesquisador e junto a quem ele
trabalha. Na relação com o mundo, o pesquisador estabelece um
encontro com o outro, com falas e discursos singulares, por meio da
tradução da experiência do outro, num encontro de
subjetividades. Nas várias formas de compreensão do mundo, de
nós próprios e do outro, passa-se por um conjunto de significados
embutidos na cultura, na língua, no não-dito e na pluralidade de
elementos que necessitam de interpretações. Essa questão de
interpretação se coloca como um problema. Vejamos por quê:
“A percepção de que as expressões
humanas contêm uma componente significativa, que tem de ser reconhecida
como tal por um sujeito e transposta para o seu próprio sistema de
valores e significados, deu origem ao “problema da
hermenêutica”: saber como é possível este processo e
como tornar objetivas as descrições de sentido subjetivamente
intencional, tendo em conta o fato de passarem pela subjetividade do
próprio intérprete”(Bleicher: 1980:13).
A questão da possibilidade dessa compreensão
mais geral nos remete ao que se pode chamar de “círculo
hermenêutico”, que se inicia no momento em que o pesquisador ou
intérprete começa com “a antecipação
projectante do sentido e prossegue com a articulação
dialógico-dialéctica de sujeito e objeto”(Idem:15). Isto
é, a finalidade de um texto pode deixar de ser o reconhecimento objetivo
do sentido buscado pelo autor. Na articulação
dialógica-dialéctica, o autor passa a ter consciência das
novas responsabilidades em relação a sua própria obra ou
ato. Nessa perspectiva, a fala, o discurso do outro se movimenta no interior de
uma obra mediada pelo intérprete ou pesquisador. Vista no sentido
heideggeriano, ela suscita um processo de abertura, com possibilidade de sofrer
impacto no encontro com o diferente, potencializando marcas deixadas pela sua
passagem.
A interpretação e a crítica são
princípios centrais da hermenêutica. Para a compreensão da
relação do significado(interpretação) e de
significância (crítica), reporto-me a leituras de obras de Karl
Popper, Emilio Betti, Wilhelm Dilthey, Edmund Husserl, Martin Heidegger,
Hans-Georg Gadamer e J. Derrida, a fim de cercar a experiência da
pesquisa com suportes e princípios que vão, sobretudo, elevar a
reflexão filosófica e metodológica do processo de
produção do conhecimento e de
interpretação.
Popper nos diz que o conhecimento não parte do nada -
de uma tabula rasa -, como também não surge da simples
observação; seu progresso consiste, fundamentalmente, na
modificação do conhecimento precedente. A
significação de cada descoberta que fazemos depende em geral do
seu poder de modificação do conhecimento anterior e da sua
complementação(Magee:1973:35). Explicitando seu pensamento, Popper
enfatiza que:
“(...) Embora devamos admitir que todos os homens, como
todos os animais e até mesmo as plantas, possuem conhecimento inato, e
que o mundo das sombras projetado nas paredes das cavernas onde nossos
antepassados viviam indique um esforço para compreender a realidade, esta
realidade, mesmo que esteja tão profundamente oculta, permite que
possamos explorar a profundidade(Popper:1972:92).
Nessa perspectiva, Popper enfatiza a importância da
tradição. Segunto esse autor, mesmo que não queiramos ser
tradicionalistas, uma das fontes importantes do nosso conhecimento é a
tradição: "Sem a tradição seria impossível o
conhecimento" (Idem:92). Portanto, nesse sentido, ser tradicionalista é
respeitar o movimento da História, dos significados deixados pelas marcas
do espírito de uma sociedade, e é também fugir ao
"objetivismo" rígido da investigação
científica.
Mas a expectativa pela
tradição[3] não deve
eliminar nossa capacidade crítica. O pesquisador, diante de
imposições de traços e marcas - defendidos por uma
concepção de História e cultura
“imutáveis”, proclamadas pela defesa de se preservar um
“fundo vivente” único, defendidas sob a submissão a
ferros para que se obedeça -, tem como dever realizar uma
desconstrução da racionalização de certos fatores
ameaçadores da liberdade. A razão deve estar aberta para
reconhecer a presença do não racionalizável, como diz Edgar
Morin(1996:121).
Assim, explorar a profundidade é discutir e situar o
lugar de cada autor e do conhecimento produzido em relação ao
outro e ao mundo. É buscar um conhecimento que possibilite
auto-reflexão e uma posição crítica libertadora. O
progresso da ciência está posto pela presença das
oposições e dos conflitos. Nesse sentido, Popper introduz a
idéia do papel “positivo” do negativo. Isto é, o
progresso da ciência progride pela refutação de erros.
É pelo fato de o erro ser eliminado, eliminado... que se chega a um
aproximação da realidade. Assim, nunca há a certeza de se
possuir a verdade. Há a audácia da possibilidade de refletir
(Morin: 1996:121).
Voltando à questão da tradição,
estabeleço aqui um elo através da perspectiva básica da
filosofia hermenêutica heideggeriana, quando esta conduz o pesquisador ou
o intérprete a refletir sobre o seu objeto de estudo, ligando-o à
tradição, isto é, à implicação da
existência prévia de uma compreensão, sendo, por isso, o
pesquisador ou intérprete incapaz de começar o seu trabalho com um
espírito neutro ou no vazio.
O que isso tem a ver com a intenção do
pesquisador? Sabemos que na produção de conhecimento, na
investigação científica, há diversos graus de
"objetivismo", encontrados nos distintos campos de estudo. Contudo, é
saudável para o cientista que ele se preocupe com a
condição primeira de como o conhecimento está
posto.
A filosofia hermenêutica revela sua fundamental
significância pela tentativa de falar de um escopo amplo da
compreensão do mundo e das várias formas em que essa
compreensão se manifesta: desde a comunicação entre os
seres humanos à manifestação da sociedade; desde a
experiência pessoal do indivíduo em sociedade até a maneira
com que o indivíduo lida com a sociedade; e desde a
tradição construída pela religião e lei, arte e
filosofia, até uma consciência revolucionária que
apareça na tradição pela reflexão
emanicipatória .
Apesar desse vasto escopo de significância, o que nos
interessa aqui é uma discussão menos universal da
hermenêutica e, mais especificamente, a aplicabilidade do pensamento
hermenêutico em um processo de pesquisa e de interpretação.
Para isso, recorro à hermenêutica no que ela tem de mais
próximo com a atividade de levar uma obra ao seu destino, tal qual ela
pode ser apreendida em toda a sua diferença ou em toda a sua estranheza
original.
O que está envolvido na tarefa interpretativa? Tomo
aqui a reflexão seguida de um conteúdo heideggeriano: interpretar
encerra uma forma de estar no mundo. É um ato de reconhecer o que o mundo
nos apresenta. É um ato de dar sentido aos objetos do mundo. Nessa
tarefa, encontra-se um processo criativo que é motivado pelas nossas
necessidades e experiências.
Na pesquisa e no trabalho de interpretação,
deparamo-nos com o mundo do outro. Como traduzir as vivências
psicológicas que estão refletidas na intencionalidade de um
trabalho ou numa fala? Como essas vivências podem ser reproduzidas pelo
intérprete? A hermenêutica nos ensina que o sentido da obra
é a experiência psíquica de quem produziu a obra. A obra
contém, portanto, um sentido mental, ela é a mente incorporada do
autor. Como então interpretar a obra? É aí que entra um
debate que demarca fronteiras de pensamentos.
Observamos, nesse contexto, dois níveis de
oposição: a que emite um juízo objetivo e que propõe
que a interpretação, para ser válida e verídica, tem
que obedecer a certos "cânones", como a que é defendida por Emilio
Betti, segundo a qual "a objetividade ideal dos valores espirituais só
pode ser entendida através da "objetividade real" dos objetos
palpáveis" (Bleicher:1980:48).
A segunda posição traz uma visão
diferente da que é defendida por esse autor, cuja perspectiva está
em renunciar às questões da validade e veracidade do juízo
reprodutivo para admitir a inevitável subjetividade dos juízos
interpretativos.
No primeiro caso, defende-se a positividade de um texto. Para
Betti, este existe automaticamente como uma realidade carregada por um sentido
global. A busca por evidência de um texto ocorre até o momento em
que o intérprete esgote a sua compreensão dele. A
noção de autonomia e de coerência interna do texto vai
possibilitar a atividade interpretativa. Por sua vez, é
condição para uma boa compreensão do texto que o
intérprete submeta a sua subjetividade a uma
regulação(Idem:15).
Betti não situa o sujeito em termos históricos,
como participante de uma tradição, de um discurso universal. Ele
vê negativamente a historicidade da compreensão, definindo-a como
fator que só permite "objetividade relativa"(Idem:11). Betti conserva o
mesmo sentido da tradição romântica - idealista sob a
âncora de Husserl. Ao ser influenciado por sua formação de
jurista na busca de evidências para a sua proposta interpretativa, Betti
procura estabelecer princípios normativos para uma correta
compreensão de um texto, com vista a desencorajar o subjetivismo e o
individualismo, que, para ele, impedem o movimento analítico de uma obra.
Apesar de Betti trazer uma reflexão importante sobre a
metodologia para a condução da interpretação, ele
também deixa de lado certos aspectos que envolvem a relação
do sujeito - intérprete e o objeto - da - interpretação,
como ainda, reflete pouco sobre a importância em si da obra. Há uma
preocupação em superar a vivência psicológica do
autor, defendendo a objetividade como causa maior.
A segunda posição, oposta à que foi
defendida por Betti, se apresenta no outro nível de
oposição de que falávamos antes. Temos um naipe de
pensamentos de diversos autores que podem ser ilustrados por Wilhhey Dilthey,
que valoriza os aspectos psicológicos e antropológicos como fontes
do conhecimento da vida histórica e da sociedade.
Para Dilthey a sociedade são indivíduos,
são totalidades psicofísicas (Dilthey:77). A singularidade de cada
um desses indivíduos particulares, que atua em qualquer ponto do imenso
cosmos espiritual, pode investigar-se - segundo o princípio individuum
est ineffabile - em seus elementos constitutivos particulares, somente
mediante os quais pode ser conhecido em sua plena significância
(Dilthey:77).
Ainda que acredite na importância das variáveis
psicológicas, creio que a posição de Dilthey implica uma
interpretação presa aos aspectos psicológicos da autoria e
a uma redução das unidades individuais com a sociedade na busca de
sua plena significância. Por sua vez, a introdução das
hipóteses que abarcam, como causa primeira, o contexto vivente da
realidade histórico-social, ao meu ver, empobrece outros sentidos que
são dados pela própria obra e que permitem a
constituição do sujeito.
Outro autor que importa analisar aqui, dentro dessa abordagem
da subjetividade, é Gadamer, que cria o conceito de "fusão de
horizontes" para denominar o diálogo perfeito entre o intérprete e
a obra. A apropriação do sentido da obra se dá a partir do
sentido que ela vai ter no mundo do intérprete. A questão da
linguagem é colocada como fundante na hermenêutica de Gadamer. Sem
a linguagem não se pode ver o homem nem o mundo. A nossa capacidade de
ter experiência, de perceber o mundo vai depender do lexus e da
sintaxe de uma linguagem que está implícita numa congênere
universal (Gadamer:1977:74). A linguagem universal é a matriz das
experiências possíveis. A linguagem na qual vivemos determina o
nosso campo de experiência. A linguagem transcende o ser. Gadamer afirma
que na relação com a língua há um processo de auto -
esquecimento. Por exemplo, enquanto o indivíduo fala, enquanto ele a
pratica, ele vai esquecendo dela. A língua se mantém então
retraída, esquecida (Gadamer:1977:67).
Uma outra característica da língua é que
ela não é centrada no "eu". E nesse sentido, só existe
língua numa comunidade de falantes. O “eu” é uma
modalidade de uma fala. Falar, pois, não pertence à esfera de um
“eu” mas a esfera de um “nós”. Tem um
múltiplo que não está só dentro de um eu mas fora
dele. O indivíduo está sempre envolto em outras vozes. Portanto,
onde quer que exista fala há um diálogo. E não existe fala
que não seja parte de um diálogo. Assim, entrar em um
diálogo é uma forma de o indivíduo se perder, porque
há uma perda do controle do outro no momento em que o indivíduo
deixa-se levar pela fala do outro (Gadamer).
A comunicação vai ser bem sucedida se houver
"fusão de horizontes". Se há uma transformação no
indivíduo que está falando e no outro que está escutando,
então, há um diálogo. Mas não existe uma perspectiva
ideal de encontro, como a idéia de um símbolo de duas metades.
Todo outro em sua alteridade está sempre além do “tu”
que o indivíduo conhece(Gadamer).
Ainda no marco do pensamento de Gadamer, o aspecto da
universalização da linguagem levanta a questão do tradutor.
Este já se encontra situado em um campo dialógico, movido por
interesse e sensibilidade, criados no contexto da língua
materna.
O tradutor sempre chega próximo de uma obra levando
consigo o seu mundo de experiências. O tradutor entra em contato com o
mundo do autor (com o horizonte externo), e é naturalmente levado a uma
imersão na cultura do outro. O tradutor passa a escutar o que foi dito e
o que não foi dito. O que não foi dito é o silêncio
qualificado que atravessa e circunda qualquer obra(Gadamer).
Essa tarefa envolve uma recriação da obra,
produzindo um novo campo intersubjetivo. Diante de uma obra, o tradutor deve
buscar que perguntas estavam atravessando aquela subjetividade. Assim,
compreender um texto ou uma obra é compreender a pergunta ou as perguntas
feitas, consciente ou inconscientemente, pelo autor.
Outro conceito importante em Gadamer é o da
"consciência efetiva" - ou consciência em que a História
já está operando (Gadamer). É a História que
constituiu o indivíduo como sujeito histórico. Ela vai estar
sempre trabalhando na constituição do interesse do
indivíduo. É como compararmos com uma obra de arte. As obras de
arte, antes de serem objetivadas, já se constituem como subjetividades
.
Do que foi dito, podemos destacar diferenças
básicas no pensamento desses autores, que correspondem também a
orientações filosóficas distintas.
No primeiro caso, de Betti, é possível sentir
influência forte da obra de Husserl. Eles pensam o sentido da obra
não como vivência psicológica, mas recorrem a Husserl tendo
o sentido como objetivo.
Segundo Husserl, o sentido do objeto permanece apesar de
mudarem as intenções. Para o ser identificar o objeto, ele precisa
usar uma função expressiva, onde o signo vai revelar a sua
capacidade de ter sentido. Os referentes mudam, mas o sentido não muda
(Figueiredo:1994). Em Husserl é possível haver compreensão
de uma experiência sem que o indivíduo tenha que ter a
experiência tal como o outro a teve. Nesse sentido, a linguagem prepara o
sujeito para a experiência. Não é necessário repetir
a experiência do outro para compreendê-lo.
Por outro lado, para compreender a intenção
significativa de uma coisa, quando o referente leva a um aspecto ainda
desconhecido do objeto, o indivíduo tem de algum modo, que idealizar o
objeto. E essa coisa que é idealizada é a coisa mesma, que o
indivíduo evidencia com a sua mente. A verdade seria então uma
correspondência entre o que eu consigo pensar e a realidade aparente das
coisas. Aí estão envolvidas expectativas lógicas sem
interferência psicológica. O significado está numa
posição quase de quem não está no mundo. O sujeito
encontra-se numa objetividade idealizante.
Husserl não considera o idealismo no sentido de que a
consciência determina o mundo. Do seu ponto de vista, há uma
abertura da consciência do mundo. Mas não há algo pré
- formado. Husserl está mais preocupado com uma estrutura para formar o
conhecimento, propondo uma estrutura do idealismo.
Da perspectiva da língua, Husserl pensa-a como
cálculo, como sistema que pode manipular representações
para conseguir objetivos. Isso implica objetivar a língua,
abstraí-la e usá-la. É como que olhá-la de fora e
transformá-la em um objeto. Língua como sistema serve então
para: objetivar, contemplar e dizer como ela funciona. Tal
condição permite pensar em um sujeito auto – subsistente
separado de si mesmo. Um sujeito auto – suficiente que lança
mão de instrumentos para produzir certos efeitos. Permite pressupor uma
subjetividade auto – gerada, auto-sustentada.
Quanto à influência que percorre o pensamento de
Gadamer quando ele fala das condições prévias do
conhecimento, é originada em Heidegger, em sua primeira fase de
reflexão.
Para Heidegger, que estava mais preocupado com as
condições ontológicas do ser, o conhecimento do mundo
ocorre após uma constituição inaugural de uma
história que já está aí. A função do
ser é compreender o mundo e os entes. Heidegger evita referir-se ao homem
e ao conceito de sujeito para fugir de uma carga filosófica em que esses
elementos estão compreendidos. Ele procura dizer qual é o modo de
ser que somos referindo-se ao "ser aí” como abertura. Existir
é ser – fora. Essa abertura para fora vai propiciar que o ser seja
lançado para fora. E é aí que o dentro vai se constituir.
Heidegger vai usar o termo Daisen, que significa ser – aí
que é igual a ex – por (Figueiredo:1994). Sendo abertura o ser,
este está permanentemente em contato com as coisas, com o mundo. Ao lidar
com as coisas, o ser está determinando as possibilidades que as coisas
podem ser. Assim, esse ente homem é ontológico porque estou sempre
colocando a pergunta: - “o que fazer com isso? ”
(Idem:1994).
Para Heidegger, essa abertura tem uma estrutura, uma forma. A
cultura, a família, as formas de poder, as relações
sociais, as condições socio – econômicas, por exemplo,
vão dar à abertura uma forma particular. E essa forma Heidegger
vai chamar de mundo. O mundo aberto, organizado e estruturado do ser vai dar ao
ser a possibilidade de ele atuar. O mundo, assim, é uma
condição pré – compreendida. São
condições de intra-mundos, aquelas que não possuem mundos
próprios e que pertencem ao mundo de possibilidades do ser-aí, que
é a abertura de cada um (Idem:1994 ).
Essa estrutura aberta da abertura de um ser no mundo é
compartilhada com o aberto da abertura do outro. E desse modo ocorre um processo
social. E é aí que Heidegger vai falar de um “ser –
com”. Esse modo de ser aberto e de “ser – com” os outros
se dá sob a tutela do impessoal e do domínio do cotidiano. O ser
no cotidiano ele vai chamar de impropriedade, de
inautenticidade(Idem:1994).Existimos, pois, em um mundo pré-compreendido
porque nascemos em uma família numa certa cultura. É essa
compreensão prévia do mundo que vai orientar o indivíduo no
mundo. O ato de interpretar vai se dar por meio das convenções que
aprendemos. As coisas podem ser tudo e não ser nada. Por isso é
que se pode dizer que o mundo é uma estrutura de significância. Um
campo organizado que permite ao indivíduo dizer que isto significa alguma
coisa.
Gadamer então reabilita seus pressupostos tomando os
princípios de Heidegger para fundamentar a sua teoria de
interpretação. Com esses princípios ele desenvolve, como
já foi citado antes, o seu conceito de compreensão prévia
do texto; o de sentido da história eficaz; o da
transformação do mundo do intérprete pela obra num processo
de reconstituição e constituição do
intérprete e da obra; e o conceito da intersubjetividade dada pelos
acordos prévios, condição de aproximação
entre o intérprete e a obra.
Contudo, é na segunda fase de Heidegger que é
possível resolver aquelas oposições de que falávamos
antes, entre o mundo objetivo e subjetivo do autor e do intérprete, para
o entendimento da interpretação como realização do
sentido.
Aqui supõe-se que antes de o sujeito –
intérprete e objeto – da interpretação se defrontarem
como elementos de oposição, a obra já deve ter feito seu
próprio caminho na constituição do sujeito, deve
tê-lo afetado, deve ter-se imposto a ele e nele engendrado
experiências novas.
No segundo Heidegger é posta uma questão: a de
que o ser, do ponto de vista dos entes, é o nada. O ser e o nada
são a mesma coisa. O ser é condição para que o ente
se mostre. Qualquer coisa que se mostre é um ente. A diferença
entre o que se mostra e o que possibilita que o ente se mostre é o ser e
o sendo(Figueiredo:1994:21).
Heidegger fala numa diferença ontológica entre
ser e ente. Sempre que o indivíduo coloca uma tese de uma essência
ideal como possibilidade de ser, ele está transformando esse nada em um
ente(Figueiredo:1994:). Heidegger critica, com esse pensamento, toda a
metafísica ontológica desde Platão sobre a crença em
Deus. Ele diz que a metafísica desde Platão esqueceu o ser
(Figueiredo:1994).
Tomando, então, o pensamento do segundo Heidegger, o
que vai permitir que uma coisa seja reconhecida como texto não é o
modelo ideal de texto. Representar uma coisa como texto depende de uma
pré – compreensão, depende de uma inserção
numa cultura onde isso possa ser chamado de texto. Mas o que possibilita que o
ser seja interpretável é apenas a sua condição de
possibilidade. O ser é somente aquilo que dá, é apenas o
envio, é possibilidade. Ao mesmo tempo em que oferece, ele se retira.
Por isso é que Heidegger diz que o ser é o nada (Heidegger:1996).
E isso gera angústia.
A angústia se localiza nesse fundo sem fundo. Esse ser
sem fundo vive abrigado na língua. Por isso, Heidegger fala que a
língua é a morada do ser. Ser que não é ente. Dessa
imagem do ser na língua, Heidegger vai apresentar o ser como mero
traço que faz a diferença. Assim, o que dá sentido a que um
texto seja texto é uma série de marcas que o diferenciam de
outros. O ser é um sistema de marcas que ele deixou para tornar
reconhecido aquilo como sendo. E como marcas, o ser constitui os sendo. O ser
é reduzido a um sistema de diferenças. Ele não permanece em
nenhum lugar: deixou marcas e se retirou.
O que esse pensamento tem a ver com a proposta deste texto? O
que ele traz de novo como reflexão para a pesquisa?
Primeiro posso dizer que todo esse caminho percorrido neste
ensaio, que teve a retaguarda de vários autores sob a
orientação de um mestre em sala de aula, de sua fala anotada e
interpretada ali, dos escritos e da orientação sobre leituras
extremamente cuidadosas e ricas em conteúdo, que foram lidos e debatidos,
coloca-me diante da responsabilidade que envolve o desafio de uma
tradução e que possui o risco de dissolução da
alteridade do outro. Mas, com certeza, o mergulho nessa reflexão da
teoria da interpretação me ajudou a ter novas experiências,
inquietantes, sim, mas também gratificantes.
A primeira questão compreendida é a de que o
comportamento na pesquisa muitas vezes pode ser de alienação. O
método científico sem uma perspectiva hermenêutica,
separando da realidade da pesquisa o que se constitui na História,
produz uma alienação que Figueiredo chama de metódica
(Figueiredo:1996). O pesquisador pode ser levado a escapar de uma
relação original no encontro da pesquisa em que as subjetividades
se constituem ao falar, ao agir. Esse distanciamento do original pode levar ao
esquecimento de que o sujeito se constitui na História. Escapar dessa
originalidade, do que vem antes, é separar e se alienar do fato de que o
pesquisador pertence a uma tradição.
Em segundo lugar enfatizo que a experiência
hermenêutica vai ajudar o pesquisador a uma rememorização
dessa situação primeira: a de que o pesquisador pertence a um
determinado campo de conhecimento e de cultura, pois ele nunca chegou vazio onde
se encontra. Ele chegou trabalhado, condicionado pelo ser histórico que
é. Condição que vai ser revelada naquilo que está
sendo objetivado na pesquisa.
Por fim, entendo que para um trabalho sobreviver, é
preciso que ele deixe a sua marca, que leva a produzir efeitos e a originar
alteridades. É necessário que o pesquisador esteja atento ao entre
que se instala no diálogo com os sujeitos. O que é posto nesse
diálogo tem a ver com o que se tem antes e se torna uma
condição de realização de novos significados.
Derrida fala de resignificados. Para ele, é o processo de abertura de uma
obra que vai sendo realizado tanto para trás como para a frente. Isto
é, a marca se abre para o futuro, com efeitos adiados que vão
suplementar a obra (Derrida:1991).
Por exemplo, na pesquisa, no encontro com os sujeitos, com os
informantes, as marcas deixadas pela fala dos sujeitos vão permitir a
construção de um novo original. A partir daí, vai sendo
ampliado o sistema de marcas, deixando o pesquisador as suas próprias. Em
termos de Gadamer, constitui-se uma intersubjetividade; em termos de Derrida,
constroem-se mal – entendidos, que geram diferenças que produzem
diferenças.
Nesse sentido, digo que o pesquisador, ao lidar com o discurso
do outro, não se envolve apenas com uma questão de método,
mas com interpretação. Parodiando Figueiredo, o pesquisador
é um intérprete no momento em que ele não apenas decifra e
torna inteligível a fala do outro vinculada a um problema, mas no ato da
realização dessa inteligibilidade o que ele faz mediante uma
atividade hermenêutica (Figueiredo:1996).
É só aí que os usos mais ativos da
interpretação começam a vir à luz, pois
“hermeneutas, convém recordar, são primordialmente os
emissários que transmitem (ou transportam) uma mensagem para os que ainda
não puderam ter acesso a ela, deixando a estes a tarefa de dar
prosseguimento à atividade decifrada (Idem:1996). Na prática da
pesquisa, o pesquisador interpreta o discurso do outro orientado por uma
questão, com a intenção de ao decifrar a
problemática, transmiti-la e trazê-la à comunidade de
estudiosos e à sociedade em geral, enriquecendo assim o conhecimento. Ele
traz sua interpretação a uma realidade concreta sobre a qual ela
pode incidir. Porém, é mais que isso ?
Tal problemática envolve uma reflexão de fundo,
a tomada de uma discussão filosófica da epistemologia do
conhecimento. E para essa finalidade, é necessário uma
reflexão sobre os caminhos traçados pelo “segundo
Heidegger”, ao lado de outras fontes que forem convenientes ao trabalho de
pesquisa, as quais vão permitir escolhas que poderão ajudar a
fazer emergir interpretações novas da experiência que o
contato com o outro ou com a obra/realidade propicia. E isso pode ajudar o
pesquisador a olhar o seu objeto de estudo com a perspectiva de desfamiliarizar
o encontro, vendo diferenças solicitadas pela percepção que
está nas possibilidades de compreensão do foco de sua
atenção.
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Janeiro.
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Desconstrução (referência incompleta)
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Paulo.
Figueiredo, L. Cláudio (1993). A
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“negativa”. Essas notas foram preparadas para a palestra
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Paulo.
Figueiredo, Luis Cláudio (1994). Escutar, recordar,
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Gadamer, H. G. (1977). Man and Language. Phylosofia
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São Paulo.
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Hohsbawn, Eric. Ranger, Terence (1984). A
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Editor Frank Kermode, London.
Morin, Edgar (1996). Ciência com
consciência. Editora Bertran Brasil, São Paulo.
Popper, R. Karl (1972). Conjecturas e
Refutações. Coleção Pensamento
Científico. Universidade de Brasília. Trad. Sérgio Bath.
4a edição. Título original: Conjectures and
Refutations: The growth of scientific knowledge. Brasilia.
[1] Este texto nasceu em
função da conclusão da disciplina “Questões
Conceituais da Análise de Textos e Discursos”, oferecida à
pós-graduação em Psicologia, pelos professores Luis
Cláudio M. Figueiredo e Nelson E. Coelho Júnior, no Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo, no qual fui aluna.
[2] Pesquisadora da
Fundação Joaquim Nabuco, Doutora em Psicologia Social pelo
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
[3] Apesar de não ser esta a
intenção de Popper, lembro que a tradição pode
também ser traduzida dentro daquilo que Hobsbawm fala no seu livro
“A invenção das tradições”:
“Muitas vezes, “tradições” que parecem ou
são consideradas antigas são bastante recentes, quando não
são inventadas”. Por “tradição
inventada” “ entende-se um conjunto de práticas, normalmente
reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas,
de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas
de comportamento através da repetição, o que implica,
automaticamente: uma continuidade em relação ao passado”.
Ver Hobsbawm, Eric. E Ranger, Terence ( 1984). A invenção das
tradições. Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, p. 9.
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