
|
TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 123/2001 Novembro · 2001 |
|
ONGS NO BRASIL E A QUESTÃO DE GÊNERO
Cristina Buarque & Semira Adler Vainsencher[*] |
|
Apresentação
Com o advento da Nova República, os
Movimentos Sociais ampliaram a sua atuação e, inseridas neles, as
Organizações Não-Governamentais – ONGs - passam a
ocupar um lugar de destaque na conjuntura democrática nacional.
Vinculadas diretamente às demandas populares, elas inauguram, no
âmbito da sociedade
civil[1] organizada, um
fazer interativo técnico-político, como um instrumento de combate
à exclusão social e ao elitismo político, instituindo a
própria esfera pública, como espaço mais amplo do que o de
atuação dos governos. Tal característica vai se constituir
em um ganho da sociedade brasileira como um todo, contribuindo para o surgimento
de uma concepção mais integrada entre direitos e políticas
públicas, com destaque para as sociais. Preocupação essa,
até então, ausente nas agendas de reivindicações dos
veículos de representação popular, nas
definições do sistema de proteção nacional e nos
planos de desenvolvimento.
No entanto, é necessário
esclarecer que, historicamente, excetuando-se as organizações
feministas, constituídas para a defesa dos direitos das mulheres, no
início dos anos 1980, as demais organizações da sociedade
civil não incorporaram, em seu nascedouro, ações -
comprometidas com o combate à exclusão social e ao elitismo
político - referidas na condição de gênero dos
indivíduos. Apenas nos últimos cinco anos, essas
preocupações tomaram visibilidade no interior de algumas ONGs,
partidos e sindicatos que não tinham como finalidade a
transformação da condição feminina. Tal fato vai
permitir uma renovação no espaço de trabalho dessas
organizações e corroborar para uma maior
consolidação das propostas feministas para a
transformação da sociedade: as mudanças das
relações de poder, referidas numa perspectiva de eqüidade de
gênero.
Introdução
Inicialmente, cabe registrar que a
utilização do termo ONG para nomear um amplo espectro de agentes,
parcialmente destituídos de interesses econômicos e voltados
à promoção de mudanças socioeconômicas,
impõe-se a partir de 1948, quando as Nações Unidas criaram
o Sistema Internacional de Cooperação ao Desenvolvimento, dando
destaque às ações no Terceiro Mundo. Existem
referências, contudo, de que, em vários
Estados-Nações, através da denominação ONG,
funcionam iniciativas filantrópicas datadas do século XIX,
além das chamadas entidades privadas - tais como os sindicatos patronais
e de trabalhadores, as organizações de representação
profissional, entre outros.
Diferenciando-se dessas e daquelas, a
maioria das ONGs nascidas no Brasil e em outros países em via de
desenvolvimento, nos últimos vinte cinco anos, é resultante das
novas relações
políticas[2]
entre o Estado e a sociedade civil. Contudo, observa-se, ainda, que sob a
designação ONG vem surgindo, mais recentemente,
organizações inspiradas em interesses econômicos voltadas
para o mercado de prestação de serviços técnicos.
Assim, o conjunto das entidades referidas sob essa nomenclatura não
formam um grupo homogêneo, tanto pelo momento histórico em que
passaram a existir, quanto pelos objetivos, missões, formas de
funcionamento, atribuições, competências etc. que decidiram
assumir. Com isso, seria, no mínimo, um equivoco adotar uma
definição generalizada para o termo ONG.
Porém, é a
preponderância da característica de organização
voltada para a mudança das relações de poder, nas diversas
instâncias sociais, que vai dar ao termo ONG a identidade e o peso
político que a sociedade, hoje, lhe atribui. Em resumo, observa-se, por
um lado, o descredenciamento da utilização dessa sigla na
identificação das organizações filantrópicas,
assim como daquelas relacionadas, apenas, com as mudanças
socioeconômicas e, por outro, que mesmo havendo uma certa flexibilidade
para abrigar organizações motivadas por interesses de mercado, a
presença dessas últimas não chega a reorientar a
compreensão da sociedade sobre o seu significado.
Assim, chama-se a atenção,
também, para o fato de que é a partir dos anos 1980, que o termo
ONG adquire o significado de agente articulador entre os programas de
desenvolvimento e as políticas sociais, passando a designar,
prioritariamente, nos cenários nacional e internacional, as entidades
privadas sem fins lucrativos, voluntárias, autônomas,
descentralizadas e vinculadas às questões locais.
Assim, nascidas do compromisso
político num determinado momento histórico, os seus objetivos
estão fundamentados em questões comunitárias abrangentes e
ultrapassam os interesses econômicos particulares e de poder de seus
membros. Possuem, ainda, uma cultura organizacional evidenciada por um sentido
de identidade muito forte, ao qual se atrela a sua missão social. Na
década de 1990, esse tipo de organização consolida mais uma
característica, sendo reconhecida como peça importante na
formação de uma rede internacional de solidariedade, cujo fio
condutor é a reivindicação de direitos de cidadania, em
escala mundial.
No Brasil, especificamente, essas ONGs
fazem parte dos novos movimentos sociais e têm, como pontos de
convergência, os princípios do desenvolvimento
humano[3] e do
alargamento da participação cidadã. Elas apresentam uma
grande diversidade, principalmente temática, variando desde as entidades
ligadas ao meio ambiente e aos grupos feministas, até as
organizações voltadas à proteção da
criança e do adolescente, num total de 225, segundo o cadastro/98 da
Associação Brasileira das Organizações
Não-Governamentais[4]
- ABONG. É a combinação desses dois princípios,
exatamente, que levam tais organizações, em seu conjunto ou mesmo
em separado, a apresentar as seguintes características:
• concentrar
o seu nascedouro na reconstrução da vida democrática
nacional;
• alojar-se,
política e tecnicamente, como inovadoras do fazer social, alargando o
espaço de intervenção popular;
• dedicar-se
à superação dos mecanismos de exclusão
sócio-política, ao trabalhar, localmente, o cotidiano de segmentos
específicos da população;
• definir
a sua ação, reunindo o fazer da denúncia, da
reivindicação, da prestação de serviços e da
produção de conhecimentos;
• não
representar qualquer classe de indivíduos sendo, por isso,
flexíveis;
• constituir-se
em entidades de Direito Privado que concebem a sua ação como sendo
pública;
• conquistar,
para si, o papel de agentes do desenvolvimento; e
• combinar
a inserção local com a ação
internacional.
A Democratização
Social da Democracia Política no Brasil
O início do credenciamento das ONGs,
no Brasil, coincide com a necessidade nacional de formular respostas ao
autoritarismo vigente nas relações entre o Estado e a sociedade
civil. É a rutura do modelo concentrador de poderes, na
transição para o regime político democrático, que
essas organizações propugnam, ao abarcarem a idéia de
trabalhar para o reconhecimento dos direitos humanos e cidadãos, daqueles
segmentos excluídos da população, seja por sua
localização na estrutura de classe ou na pirâmide
etária, por sua condição de gênero, etnia ou
raça, ou, ainda, por sua opção sexual ou religiosa. Dessa
forma, a sua presença na luta pela abertura de espaços
diferenciados de Direito, na Carta Magna, durante o Processo Constituinte de
1986, vai contribuir para que a democracia política, mais tarde, tanto
possa distinguir os deveres do Estado com maior clareza, quanto ampliar os
referenciais para legitimação das intervenções e
demandas de vários segmentos da população, qualificadas
anteriormente como sendo apenas representativas de interesses
específicos. Em outras palavras, vai possibilitar a compreensão de
que os ditos interesses específicos estão presentes em todo o
tecido social, constituindo-se em questões fundamentais não apenas
para alguns indivíduos, mas para o conjunto das relações
com os ambientes, seja ele político, social, econômico ou, mesmo,
natural.
Isto porque, definidos os direitos sociais
e dos cidadãos e reconhecida a diversidade da desigualdade, na
Constituição de 1988, expandia-se o espaço público,
fazendo, primeiro, com que novos atores, para além dos sindicatos e
partidos, se colocassem como legítimos interlocutores dos governos.
Depois, porque forçava que o plano tradicional de divisão das
obrigações, entre população e governos, viesse a ser
reformulado. Uma outra dinâmica nas relações entre esses
dois blocos, onde se confrontam a concepção de um
Estado-Nação soberano em direitos, deveres e competências,
para gerir a coisa pública, e a de ruptura com a limitação
das organizações da sociedade civil à prática da
denúncia, da reivindicação e do uso de benefícios
esporádicos, até então exercitada, pôs em
questão a capacidade da Nova República absorver mudanças.
Nesse momento histórico, a sociedade
se viu impelida a empreender um trânsito ideológico, no qual a
democracia não poderia mais ser concebida, apenas, como um ideal
político: precisava, urgentemente, ser entendida como uma prática
social. Em pouco tempo, concluiu-se que, se a conquista do Estado de Direito foi
fruto de um determinado processo de intervenção social, a sua
implementação, além de representar um instrumento
disciplinador, no âmbito dos governos, exigiria mudanças no perfil
das ações dos demais atores sociais. Dá-se início,
então, ao período de esclarecimento sobre a diferença entre
a conquista e a implementação de um Estado de Direito,
consolidando-se a via da transição
democrática[5].
O campo das políticas públicas e, dentro dele, a luta pela
redefinição das políticas sociais, configurou-se, assim,
como o espaço político privilegiado à continuidade do
processo constituinte de participação popular.
Tal fato representa um avanço na
direção de legitimar instâncias que garantam a
convivência entre as formas representativa e participativa da democracia.
Desse modo, passou-se a visualizar a criação de conselhos
populares, como instrumentos de controle social sobre o Executivo, de
assessoria, para o Judiciário, e de balizamento do uso da
representação, no Legislativo. Nessa dinâmica de alargamento
dos espaços de intervenção política, as ONGs
ganharam relevância e as suas ações foram se confrontando,
simultaneamente, com as práticas autoritárias dos governos e com
as formas conservadoras das organizações de
representação popular.
Segundo Fernandes (1995), é,
precisamente, a associação das características de trabalhar
diretamente com as comunidades, e não representar uma determinada classe
de indivíduos, o fator determinante da aceitabilidade das ONGs pela
sociedade. Com isso, observa-se uma mudança nos paradigmas
filosóficos da própria organização
sócio-política. Se, anteriormente, aquilo que fundamentava a
organização popular era a representação de uma
determinada classe, naquele momento o que passava a validar a sua
existência era o trabalho que a mesma empreendia ou poderia empreender
junto às populações. Inclusive porque passa-se a reconhecer
que esse processo direto permite às comunidades se capacitarem para
solucionar parte de suas dificuldades cotidianas e, em sendo assim, a poder
avaliar os empreendimentos dos agentes que desenvolvem atividades relacionadas
à democracia social.
O Autoritarismo como
Prática Social do Estado e da Sociedade Civil frente à Democracia
Política
Vianna (1989) salienta que o Setor
Público, em nível federal, se caracteriza pela
centralização das decisões e dos comandos financeiros, pela
fragmentação institucional, pelo bloqueio da
participação social e política de amplos setores da
população nos processos decisórios, com a supressão
das formas mais eficazes de controle, por parte dos cidadãos, sobre os
destinos da proteção social no país, bem como pelo
padrão de financiamento das políticas sociais, obstaculizante de
transferências reais de rendas e impeditivo da promoção de
solidariedade, no interior do sistema.
Por sua vez, analisando o surgimento de
novos atores sociais, Menezes (1997) indica a forte
industrialização dos anos 1960 como o motivo que levou o Brasil a
saltar, de um país predominantemente agrário, para um centro
urbano, trazendo como conseqüência, nas décadas seguintes,
tanto a desestruturação dos serviços sociais, como a
emergência da organização de setores da sociedade civil, em
torno da melhoria e da ampliação daqueles serviços. Sem
discordar dessa afirmativa, registra-se, porém, a existência de um
lapso significativo entre a quebra do sistema de proteção e a
organização de atores sociais, em torno de propostas adequadas
à melhoria e à ampliação de tais serviços. A
dimensão desse lapso não se conteve ao período de
ação repressiva direta do Estado, pós-1964, mas o antecedeu
e retardou-se para além da retomada da democracia política, como
conseqüência, também, da própria visão da
sociedade civil, sobre os métodos de promover
mudanças.
Rompendo-se com a idéia de que a
organização da classe operária representa a
perfeição de coletivo político em prol da igualdade
socioeconômica e observando-se a sua passagem de única força
revolucionária para a de uma das partes organizadas da sociedade civil,
é possível perceber de forma mais objetiva os métodos e as
práticas populares de intervenção política. Por
outro lado, o esclarecimento de que a sociedade civil e o Estado são
partes indissociáveis de um mesmo todo ideológico, embora se
posicionem, com freqüência, na defesa de interesses diversos, vai
permitir “reentender” por onde são mantidas ou
reconstruídas as suas identidades orgânicas e
funcionais.
Neste sentido, vale ressaltar que a
aceleração da industrialização a partir dos anos
1960, produzida na presença do Regime Militar, desemboca no
“milagre econômico", anunciando o sucesso do autoritarismo como um
método político para se desenvolver a
economia[6] e produzir
o bem estar social. A sociedade civil acreditou nisso como um indicador de
progresso, reconhecendo o autoritarismo como forma sócio-política
de gerir o cotidiano. O referido milagre econômico foi compreendido,
corretamente, como resultado não só da aceleração da
economia, mas do autoritarismo. E se a truculência da repressão dos
governos militares foi rejeitada, isso só toma forma ampla , mais tarde,
diante dos insucessos econômicos.
Enfim, a historia de país
colonizado, com páginas consideráveis de escravidão e
ditaduras, fundada no formato patriarcal, modelou, para o conjunto das pessoas,
no Brasil, a eficácia do autoritarismo, como fórmula para defender
qualquer interesse. Assim, a correspondência ideológica entre as
ações do Estado e da sociedade civil, na ausência da
comunhão de
interesses[7],
manteve-se através dessa identificação com as formas e os
métodos autoritários de intervenção
política.
Sendo assim, o sistema de
proteção social brasileiro, por ter sido organizado, desde sempre,
em ambientes sociais
autoritários[8]
e de permanecer atrelado a um complexo produtivo estimulador da
concentração de renda, continuou servindo à
reprodução da exclusão social, mesmo depois de restaurada a
democracia política.
Inserida nesse contexto, a
atuação da maioria das organizações
políticas, até começos dos anos 1990, nem correspondia
à idéia de integração entre direitos e
políticas públicas, nem estava aberta para acolher as demandas de
certos segmentos da população, submergindo ao modelo
autoritário. São faces desse fenômeno, as disputas que o
Movimento de Mulheres e o Movimento Negro travaram e, não obstante os
avanços, ainda travam explicitamente com partidos e sindicatos, desde os
anos 1980, pelo direito de existir como sujeitos políticos
autônomos e, por este caminho, incluir, na agenda democrática,
mecanismos capazes de responder às suas questões.
Os esforços empreendidos nesse
sentido, até hoje, esclarecem que a grande barreira para o encaminhamento
de soluções mais abrangentes, frente à problemática
da opressão de sexo e de raça, reside na manutenção
do pensamento que categoriza essas opressões como apêndices de uma
realidade ou como resultantes, apenas, das desigualdades socioeconômicas.
Isso, desconsiderando-se os seus significados como elementos constitutivos da
formação e reprodução da realidade de desigualdades
no Brasil. Portanto, nesses casos, as ONGs dedicadas as questões de
gênero e raça vão trazer, através de suas
práticas, referências para uma releitura dessa problemática,
forçando o Estado e a sociedade civil a redefinirem algumas
políticas públicas no
Brasil[9].
Segundo Gaetani (1997), “o campo
da demanda social, da sociedade civil organizada, é o que mais vem
crescendo em importância nos últimos anos. Operando com
desenvoltura recursos de marketing institucional, as
Organizações Não-Governamentais estão consolidando
seus espaços nos processos de formulação e
implementação de políticas públicas, especialmente
pela capacidade de vocalizar interesses marginalizados pelos esquemas
oficiais”.
Da mesma maneira, são as ONGs, com
as suas especializações temáticas, trabalhando diretamente
com as populações a produção e/ou o acesso a bens e
serviços de habitação, de saúde, de
educação, de saneamento básico, de segurança etc.,
que vêm impulsionando a construção de um perfil
político diferenciado do autoritarismo dos atores tradicionais, frente
à busca de soluções para os problemas sociais. Essas
organizações trouxeram, além da reivindicação
e da crítica aos mecanismos vigentes, propostas de mudança para o
trabalho com as comunidades, contribuindo para a redefinição dos
parâmetros dos sujeitos políticos, sugerindo a idéia de
sujeito sócio-político. Tal perspectiva de mudança das ONGs
é traduzida pela utilização de duas grandes linhas de
intervenção: a do convencimento, para a adoção de
novas práticas cotidianas, e a da capacitação, para a
replicação dessas práticas. Por outro lado, como são
diversificadas através de um sem-número de interesses e de formas
de ação, as ONGs tendem a permanecer pequenas, aspecto que
permite, aos seus componentes, participar, diretamente, da tomada de
decisões, criando-se, dessa maneira, um campo experimental de quebra da
hierarquia e do autoritarismo, indispensável para estabelecimento de
relações menos autoritárias com as
comunidades.
Percebe-se, assim, que as ONGs privilegiam
o micro como um espaço de ação política para a
promoção de justiça social, marcando a sua diferença
estratégica com as perspectivas organizacionais dos movimentos sociais
anteriores ao Golpe Militar de 1964. Ou seja, liberadas da perspectiva
messiânica-autoritária de conduzir as massas a um grande porvir e,
até certo ponto, movidas pela utopia de construir o Estado de Bem-Estar
Social, essas organizações dedicaram-se a um amplo trabalho
educativo e auto-formador. E, optando pela idéia de que todas as
mudanças trazem mudanças, valorizaram a
desconstrução e a reforma dos mecanismos de
reprodução do cotidiano, como métodos para se
avançar, também, em direção a uma
transformação política. Com isso, passaram a contribuir
para que as comunidades auferissem ganhos de curto
prazo[10], bem como
para o desenvolvimento de locus de reflexão, que revelaram a
necessidade de se aprimorar os mecanismos democráticos, diante da
diversidade de interesses existentes, em uma sociedade basicamente desigual.
Como conseqüência desse processo
vem crescendo, em geral, a demanda por uma concepção mais
integrada de políticas
sociais[11]. Essa
intermediação, entre as questões de competência dos
governos e as questões de interesse das comunidades, feita pelas ONGs,
através do desenvolvimento de novos métodos e práticas
sócio-políticas é, justamente, o que as faz se destacar
dentro do conjunto dos Movimentos Sociais.
Contudo, Cabannes (1997) observa a
existência de alguns pontos presos na atuação das ONGs,
diante do processo de divisão de responsabilidades entre o Estado e a
sociedade civil, referidos na seguinte concepção: os governos dos
Estados-Nações seriam os únicos a deter os direitos e os
deveres de promover o bem-estar das populações, mesmo que
requerê-lo fosse direito e dever exclusivos da população. O
autor explica que a participação da sociedade civil é
vista, pelos governos, como uma usurpação de seus deveres e
só a tolera porque se trata de um direito. Por sua vez, a sociedade
civil, através das ONGs, ainda vê a sua participação
como sendo a prestação de um serviço extra: um direito, mas
não um dever.
Não obstante todas as
limitações que possam ser identificadas, o que se deseja
evidenciar neste artigo é o fato de as ONGs terem inaugurado uma forma
diferenciada de convivência com as questões sociais, através
da vinculação do fazer político à
prestação de serviços à comunidade. A simultaneidade
de tais componentes possibilitam a comunidade mobilizar-se no sentido de
abandonar o comportamento puramente reivindicatório e de melhorar a sua
capacidade de crítica e de controle sobre as ações do
Estado. Esse é um tipo de intervenção em favor da cidadania
porque trabalha o empoderamento de setores tradicionalmente marginalizados.
E isto, hipoteticamente, interessa tanto
às populações quanto aos Governos, cada um em seus
papéis. Faz-se necessário destacar, inclusive, que não
é desprovido de significado o fato da formação desses novos
atores ter ocorrido sob a proteção do Sistema Internacional de
Cooperação ao Desenvolvimento e à margem dos partidos e dos
sindicatos, assim como longe de comprometimentos com empresas públicas e
com o mercado. Por fim, observa-se, no período subsequente, um
crescimento na demanda das comunidades por serviços de assessoria pari
passu aos anúncios de restrições da
ação do Estado no campo das políticas
sociais.
Os Novos Agentes do
Desenvolvimento
Para se observar a relação
das ONGs com o Sistema Internacional de Cooperação, é
preciso salientar inicialmente que, a partir da Segunda Guerra Mundial e
até quase o final dos anos
1980[12], o conceito
de desenvolvimento esteve vinculado à idéia de crescimento
econômico, tendo sido o aparelho de Estado, nesse setor, tanto o
responsável pelas iniciativas, como o agente preferencial daquele
sistema. À sociedade cabia somente o lugar de beneficiária e,
às suas instituições, a condição de meras
cooperantes, o que em outras palavras quer dizer: nem articulavam-se
politicamente, nem participavam como parceiras nesse espaço. Durante todo
esse período, tanto as ações governamentais, quanto aquelas
das organizações privadas, limitaram-se a investir no sentido de
minorar os efeitos decorrentes da reprodução da pobreza, sem
questionar sob que condições os programas de desenvolvimento
poderiam passar a implementar mudanças nas relações de
exclusão e contribuir para o empoderamento das populações
alvo de suas ações.
O desmantelamento das ditaduras nos
países subdesenvolvidos, propiciando o surgimento de novos sujeitos
políticos, a quebra do bloco socialista, a discussão referente ao
papel do Estado, diante das novas territorialidades definidas pelos mercados, a
revolução das comunicações transformando a
informação em um bem de primeira grandeza e, em última
instância, a globalização, como um processo
inexorável, incidiram sobre a matriz do Sistema Internacional de
Cooperação ao Desenvolvimento, e se constituíram nas
grandes questões que insuflaram o debate sobre uma “terceira
via” para o desenvolvimento. Através desse conjunto de fatores,
resgata-se a dimensão social do conceito de desenvolvimento, ao mesmo
tempo em que se idealiza a redução do papel do Estado, como
“valor universal”.
Neste ponto, cabe salientar a
habilitação técnica e política das ONGs que, mesmo
estando atreladas à necessidade de se promover a
democratização social da democracia política brasileira,
não deixam de corresponder à busca de estratégias para
atender as urgências dos capitais internacionais, dentre as quais se
encontra a redução das responsabilidades do Estado diante dos
cidadãos.
Segundo Hans Enzensberger (1995), essa
diminuição faz parte da dinâmica da
globalização que decreta o descarte dos
excluídos[*]
da exploração capitalista. As novas tecnologias de
produção dispensam a necessidade de se manter exércitos de
reserva de grandes contingentes de mão-de-obra desqualificada, fazendo
com que os contingentes populacionais que pagavam o ônus do sistema com a
própria existência de extrato periférico fossem, agora,
excluídos da lógica do sistema.
Abandonada a lógica do stand
by, a frenética onda economicista logrou afastar completamente das
discussões sobre o desenvolvimento qualquer questão que possa por
em confronto os ganhos do capital, como, por exemplo, os temas referentes ao
respeito à liberdade dos povos e à fraternidade inter e
intranações. Numa dialética sempre mais perversa, o social
ganha relevo no discurso político dos governantes do Terceiro Mundo,
simultaneamente à queda de suas economias, à
retração de suas políticas sociais e ao empoderamento
absoluto dos interesses de mercado dos países
ricos[13].
E a resistência das ONGs, em assumir
a sua ação como um dever e não apenas como um direito,
talvez encontre, também, explicação, justamente, na
consciência de que, tal processo de transferência de
responsabilidades traria conseqüências adversas, para um país
onde o desenvolvimento humano sustentável de seus habitantes nunca
representou uma fonte de inspiração para o
progresso.
De uma maneira geral, na verdade, se os
governos dos Estados-Nações, do mundo subdesenvolvido, perderam,
por um tempo, para as ONGs o lugar de interlocutores privilegiados daquele
sistema, enquanto os partidos políticos e os sindicatos, por sua
própria formação clientelista, insurrecionista ou
corporativista, não chegaram a se credenciar como uma alternativa,
aqueles primeiros também abdicaram de sua soberania diante da
globalização, enquanto os sindicatos e partidos foram obrigados a
aproximar-se das ONGs.
Assim, não é de se desprezar
a interação entre as ONGs e os Organismos Internacionais de
Cooperação ao Desenvolvimento. Ela vem ampliando o contato da
população com o mundo exterior, o que possibilita ao
cidadão distinguir o representante e o indivíduo de uma
nação. A fobia ou a paixão pelo estrangeiro, tão
características das relações entre colonizadores e
colonizados - ou entre dependentes e soberanos - e tão manipuladas nos
processos políticos, ao serem trabalhadas nas
micro-relações e no cotidiano, criam ambientes de fraternidade que
influenciam, inclusive, agentes nacionais e internacionais. Por outro lado, como
as ONGs se profissionalizaram, assumindo compromissos diretos com as comunidades
e passaram a ter a sua sobrevivência dependente de financiamentos de
organismos internacionais, ficaram sujeitas, também, a fazer
concessões, por vezes, não compatíveis com as
próprias definições. E Isso faz parte da
construção da democracia do presente, espaço onde se
estabelecem relações considerando os diversos interesses
envolvidos, inclusive os de sobrevivência.
Ainda no âmbito dos programas de
desenvolvimento é interessante ressaltar, então, que o grande
divisor de águas, entre as ações das ONGs e aquelas das
entidades filantrópicas privadas/programas assistencialistas do Estado,
se encontra na base ideológica das Organizações
Não-Governamentais: a alimentação da perspectiva de
empoderamento crescente dos setores marginalizados e uma atuação
no cotidiano mais imediato, para transformar as condições de
sobrevivência e as relações de poder no espaço da
própria comunidade. Em outras palavras, as ONGs abraçam a
tentativa de promover mudanças na realidade, já no presente e,
portanto, com e para os presentes. Em termos culturais, essa é uma
proposta muito ousada, pois advoga a libertação da ordem do
sacrifício, que funciona à base de recompensas futuras, bem como a
do paternalismo, que informa aos excluídos sobre as benesses de adotar a
proteção dos poderosos. E tudo isto significa, direta ou
indiretamente, uma pressão sobre a supra-estrutura
patriarcal[14], sobre
a cultura centrada no masculino todo poderoso: guardiã estratégica
das desigualdades dos sistemas socioeconômicos modernos.
No contexto das mudanças culturais,
destacam-se as contribuições das ONGs feministas, esclarecendo
sempre que a consolidação da democracia social está sujeita
a ruturas com o padrão patriarcal, contido na concepção dos
ideais transformadores e, conseqüentemente, diretivo de seus modelos
operacionais. A eficácia das novas leis, das políticas e dos
mecanismos de promoção do desenvolvimento, no Brasil, dependem,
por conseguinte, de sua capacidade de acionar mecanismos voltados para superar o
déficit sócio-político-econômico da cultura para com
as mulheres, fazendo com que o acesso aos direitos sociais não sofra
flexão diante do sexo do indivíduo e que as políticas
públicas contemplem as diferenças, que marcam a riqueza da
condição humana, e que combatam as desigualdades de gênero,
que interditam na base a construção de uma sociedade
democrática e soberana.
O Feminismo entre as
Organizações da Sociedade Civil, o Estado e a
Cooperação Internacional
Quando Scott (1991) define gênero,
deseja ressaltar as relações de poder que encerra essa
construção, tanto nos espaços publicos quanto privados da
sociedade. Segundo a autora, freqüentemente, a ênfase que se coloca
sobre gênero não é explícita, porém se
constitui em uma dimensão decisiva da organização da
igualdade e da desigualdade. Por sua vez, as estruturas hierárquicas se
baseiam em compreensões generalizadas da relação,
pretensamente natural, entre o masculino e o feminino, ou seja, a visão
do feminino como subordinado, inferior e mais fraco e, a do masculino, como
dominante, superior e mais forte. Esses significados atribuídos a homens
e mulheres se produzem e reproduzem através de relações de
dominação. Negar que tais relações fazem parte das
proposições e determinações da grande
política ou, em outras palavras, afirmar que a mesma é neutra,
significa criar um impedimento concreto aos caminhos da sociedade rumo à
práticas solidárias e participativas da gestão da coisa
pública, com repercussões diretas sobre os espaços
privados. Trata-se de um ciclo vicioso, no qual as relações de
opressão e de exploração de gênero favorecem a
manutenção das desigualdades no conjunto da sociedade.
Nesse sentido, não é
possível compreender a formação de um amplo movimento de
mulheres sem enfatizar “a notável contribuição que o
Movimento Feminista, em suas formas próprias e variadas, deu e continua
dando à tomada de consciência do Estado sobre os seus deveres.
É uma democratização que se dá ao nível do
cotidiano e que, portanto, tem tudo para ser de uma radicalidade, numa sociedade
tão desigual, que os mais otimistas não são capazes de
suspeitar” (Oliveira, 1995).
O Feminismo
renasce[15] no
Brasil, em fins dos anos 1970, como resultado das experiências das
mulheres no Movimento Contra-Cultura, nos partidos clandestinos de esquerda, no
exílio, no Movimento Feminista Internacional, nos Movimentos contra a
Carestia e pela
Anistia[16] e
Redemocratização do país, preservando a
estruturação da ação política das mulheres,
voltada para a transformação da cultura androcêntrica, fora
dos espaços e do controle das organizações patriarcais.
Esse fenômeno, entendido como de
auto-exclusão e apontado como propício à
ampliação do separatismo entre os sexos, ao ser analisado a partir
de uma perspectiva histórica da condição feminina, explica
que de uma maneira objetiva as mulheres - independentemente de portarem ideais
transformadores da sociedade, baseados em suas experiências concretas, os
quais incluem mudanças nas relações de poder entre homens e
mulheres - estiveram excluídas, e não auto-excluídas, de
participação não só dos espaços de
direção dos partidos, sindicatos, igreja e governos, como indicam
as estatísticas ainda hoje, mas, também, de se apresentarem nesses
espaços, por proibições legais. Dessa maneira, a
construção de grupos autônomos significou, primeiro, a
tomada de consciência da opressão das mulheres, segundo, o
exercício do direito do oprimido a se organizar. E com isto a
construção de relações de inclusão das
mulheres nos espaços públicos e não simples
adaptações participativas aos paradigmas vigentes,
institucionalizando-se um perfil de cidadania muito mais amplo, baseado
não apenas em direitos iguais mas, também, em direito à
diferença.
Nesse contexto, faz-se necessário
destacar, de uma forma ou de outra, que a família vem ocupando um
espaço privilegiado na trajetória do pensamento feminista. Durante
150 anos, pelo menos, as reivindicações do Movimento estiveram
relacionadas à inserção das mulheres na vida pública
Moderna, tendo sido o núcleo familiar indicado como o grande
beneficiário de suas conquistas. Portanto, no passado, e até pouco
tempo atrás, foram as necessidades da família, que justificaram as
demandas femininas por educação, por um trabalho remunerado e,
até, pelo voto. (Buarque, 1991)
Tendo as mulheres conquistado, no Ocidente,
praticamente todos os direitos civis e políticos, o que coincide com os
anos 1960, a abordagem feminista muda de figura, levando-se a família ao
escrutínio da lógica de gênero, o que trás como
decorrência a sua passagem, então, da condição de
beneficiária para a de opressora. A efetivação das
conquistas no espaço público passa a exigir
transformações nas relações do mundo privado. A esse
respeito, Hannah Arendt (1993), mesmo longe de se declarar feminista, esclarece
que o espaço privado não é, apenas, o lugar da intimidade e
do aconchego, mas, por excelência, o lugar da privação. No
caso das mulheres, além de ser o lugar da privação,
é o lugar de sua privatização, ou seja, o lugar onde elas e
os seus destinos têm um dono, que se encarrega de controlar a
manutenção das interdições femininas com o mundo
público, para além dos direitos civis e políticos
conquistados. Em virtude disso, na contemporaneidade, o ponto fundamental da
discussão feminista se concentra em torno da manutenção de
práticas patriarcais, no interior da família, reconhecendo-se que
a mesma representa o espaço ideal para a reprodução de
sociedades desiguais.
Foi mediante tal base
teórico-metodológica que as relações, existentes no
espaço privado, puderam se tornar objeto de discussões
políticas, credenciando a inserção das demandas femininas
no âmbito das agendas dos sindicatos, partidos políticos, ONGs,
diversas políticas públicas e planos de desenvolvimento. Essa
é uma tentativa de se colocar barreiras na reprodução das
desigualdades entre homens e mulheres, o que descortina, para o conjunto da
sociedade, a possibilidade de uma maior integração entre direitos
e políticas sociais.
O Exemplo das ONGs Feministas em
Pernambuco
Inseridas no contexto das
organizações sócio-políticas, as ONGs feministas, no
Estado de Pernambuco, surgem no mesmo momento histórico que a maioria das
Organizações Não-Governamentais, pontuando, contudo, as
faces das desigualdades de gênero para além e aquém das
questões de classe, de raça, de etnia e de geração.
Sua ação sócio-política vem buscando, desde
então, legitimar as propostas de novas formas de
participação das mulheres na família, no mercado de
trabalho, na sociedade civil organizada e no aparelho de
Estado.
Em 1984, o projeto
“Ação Mulher Pernambuco”, coordenado pelo CENDO-Mulher
Centro de Estudo e
Documentação[17],
registrou a existência de diversas formas de organização
feminina, num total de duzentas entidades não-governamentais no
Estado.
Nesse grande grupo, foram cadastradas desde
as ONGs feministas até as associações de mulheres, como os
clubes de mães e coletivos de produção, passando pelos
núcleos de estudos das universidades e departamentos de mulheres dos
partidos e sindicatos, revelando uma surpreendente cobertura da
ação das mulheres em todas as micro e meso-regiões de
Pernambuco.
A maioria das entidades registradas, no
entanto, era constituída por grupos informais, que se concentravam,
expressivamente, nas zonas urbanas. Chama a atenção, porém,
a existência, já naquela época, de
Organizações Não-Governamentais voltadas para a defesa dos
direitos das trabalhadoras rurais, bem como aquelas localizadas no setor urbano
e que se dedicavam ao meio rural. Na atualidade, não se dispõe de
registros organizados sobre o destino da maioria dessas
organizações de mulheres.
No tocante aos palcos de luta, pela
ampliação da ação política das mulheres na
sociedade, a ABONG/98 destaca em seu cadastro que, das trinta
Organizações Não-Governamentais sediadas no Estado, seis
delas são feministas. As listas de presença do Fórum de
Mulheres de
Pernambuco[18]
apontam, por outro lado, a existência de organizações que
não constam das listagens da ABONG, permitindo inferir um quantitativo
superior àquele registrado por essa Associação, pelo menos,
no tocante às ONGs feministas. As mesmas vêm mantendo, inclusive,
uma ligação com o meio rural, tanto para o desenvolvimento de
projetos de pesquisa e de capacitação para a saúde, quanto,
diretamente, de apoio à produção.
Por outro lado, muitas ONGs
não-feministas, que naquele momento não tinham linhas de trabalho
voltadas para as mulheres, hoje possuem grupos temáticos relacionadas
às questões de gênero, a exemplo do “Fazendo o
Gênero”, do Centro Josué de Castro, e outras, como o
CAATINGA, que incorporaram alguns pontos da agenda feminista em seu planejamento
estratégico. Ambas com programas nas áreas rurais.
Analisando-se agora, especificamente, o
conjunto do Movimento de Mulheres, observa-se o seguinte: ainda que a maioria
dos seus grupos não contenha, como objetivo estrutural, a
transformação da condição feminina, até mesmo
o setor dedicado, apenas, às reivindicações mais imediatas,
conseguiu trazer, para o espaço público, a discussão de uma
série de questões antes encaradas como sendo de competência
doméstica, ou seja, do setor privado, cuja responsabilidade de
atendimento era concebida como sendo uma obrigação dos membros da
família, cabendo ao homem, no papel de provedor, a responsabilidade
financeira e, à mulher, os cuidados diretos com a prole. A esse respeito,
têm-se registrado uma série de reivindicações, tais
como: creches, leite para as crianças, reconhecimento da mulher da zona
rural como uma trabalhadora, geração de renda e
aquisição de casa própria. Em outras palavras,
reivindicações, veiculadas pelas mulheres, contendo uma forte e
diversificada demanda por políticas sociais, tanto no
campo[19] quanto na
cidade.
Na outra ponta do Movimento, e em
consonância com as tendências do feminismo internacional, observa-se
uma parcela reduzida que vai trabalhar pela ampliação e
concepção de novos direitos, inclusive de eqüidade entre
homens e mulheres, em se tratado da gestão da coisa pública e dos
destinos da vida privada, prerrogativas estas capazes de dar conta tanto das
desigualdades quanto das diferenças entre os gêneros.
Neste sentido, as ONGs feministas têm
contribuído para a transformação da esfera pública
nacional quando introduzem, na discussão política, três
questões recorrentes da vida privada, em todas as classes sociais: a
violência contra a mulher, em particular a denúncia da
violência doméstica (aquela perpetrada por maridos, pais,
padrastos, namorados, irmãos e amantes), a paternidade
irresponsável e o direito à contracepção (com
destaque para a problemática do aborto), buscando explicitar o
conteúdo político desses fenômenos e desnudando as
injustiças sociais, contra as mulheres, cometidas pelos regimes
democráticos, no processo de reprodução da vida.
Vale salientar que, diante da perspectiva
feminista, os partidos e as igrejas, no Brasil, inclusive em suas linhas mais
progressistas, se destacam como as grandes trincheiras do conservadorismo
patriarcal, em prol da manutenção da cultura
androcêntrica[20].
No entanto, as ações
simultâneas e, muitas vezes, combinadas, desses dois grandes agrupamentos
de mulheres, em direção ao aparelho de Estado, vêm
arregimentando mudanças na correlação de forças
entre o segmento feminino da população e os Poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário, atingindo até as instâncias
religiosas e influindo para a criação de ações
afirmativas,[21]
baseadas na perspectiva de gênero, no âmbito das políticas
públicas[22].
Nos últimos cinco anos, cresce,
ainda mais, a dinâmica de trocas entre as demais expressões do
Movimento de Mulheres e as ONGs feministas, revelando os caminhos para se
trabalhar as desigualdades de classe, de raça e de gênero, entre
outras, sem reproduzir o paradigma hierárquico do modelo patriarcal de
transformação da sociedade, que começa privilegiando as
lutas de classe, referidas na questão econômica, depois cola,
simplesmente, a opressão e exploração de raça
às questões econômicas e, por fim, desqualifica as
iniqüidades de gênero, numa tentativa de negar a existência de
uma comunhão de interesses entre as mulheres de diferentes
condições socioeconômicas. A solidariedade
intragênero, porém, vem propiciando a abertura de novos canais que
influenciam as demais ONGs, aumentando a pressão feminista sobre o
conjunto dos atores sociais.
Logo, quer se tratem de grupos informais ou
de ONGs (feministas ou não), quer existam em menor ou maior número
do que os registrados, as organizações de mulheres, em Pernambuco,
de forma direta ou indireta, marcaram e continuam marcando a sua
presença, em todos os setores da sociedade e em todos os momentos da vida
brasileira recente. Em seu conjunto, elas são reconhecidas, nacional e
internacionalmente, por sua capacidade de formulação e
articulação de demandas, junto ao aparelho de Estado, voltadas
para promover uma maior eqüidade entre os valores das esferas
pública e privada.
Em relação à
influência feminista sobre as demais ONGs, em particular, verifica-se que
a mesma vem sendo reforçada, também, pelo desenvolvimento da ABONG
- como um fórum de discussão - e pelas recomendações
das agências
internacionais,[25]
relativas à incorporação do tratamento de gênero, nos
programas por elas financiados. Tal posição do sistema de
cooperação, por sua vez, é resultante da ação
feminista internacional, onde Pernambuco se faz
presente[26].
Hoje, as ações voltadas para
as mulheres, nos projetos de desenvolvimento, longe de referenciar o feminino
tradicional[27]ou de
sugerir a incorporação dos referenciais masculinos de
empoderamento, se baseiam na seguinte premissa feminista sobre o poder: homens e
mulheres não cumprem papéis diferentes e possuem status
desiguais na sociedade devido à sua compleição
física natural, mas porque lhes foram cerceados, culturalmente, as
possibilidades de escolha. Na prática, portanto, junto às
comunidades, manter essa postura significa atuar no sentido de inibir a
reprodução das relações patriarcais, através
de ações que atinjam, além da faceta patrimonial da
desigualdade, as raízes psicossociais que a respaldam.
Nessa conjuntura histórica, como
infere Wee (1995), não é suficiente falar de mulheres no
desenvolvimento, de mulheres e desenvolvimento, ou ainda de
gênero e desenvolvimento. A crise global, ecológica e
social, segundo a pesquisadora, não pode ser tratada de maneira adequada,
somente, através de processos de redistribuição: faz-se
necessário um processo maior de reestruturação. Em sendo
assim, o empoderamento econômico e político das mulheres não
se refere, meramente, à melhoria do seu status, nos
parâmetros de uma estrutura hierárquica herdada, ou seja, da
patriarcal. Outrossim, vai além de sua participação no
desenvolvimento: diz respeito à transformação do
próprio desenvolvimento.
Por sua vez, no ambiente daquelas ONGs, em
que a missão de combater a exclusão social e o elitismo
político foi, a princípio, definida genericamente, privilegiando o
enfoque das relações de classe, a introdução da
perspectiva de gênero se constitui em um amplo processo de revisão
de conceitos e de ajustes metodológicos. Essa mudança não
significa um ato trivial de inclusão de novas técnicas, nos
métodos de trabalho das organizações, mas representa, em
verdade, a definição e a implementação de
ações que venham ampliar, internamente, os níveis de
reflexão do grupo e a construção de novas
estratégias de trabalho, face à abrangência de sua
interação com a comunidade, inclusive para atender aos novos
conflitos decorrentes do referido processo.
Considerações
Finais
A assimilação das
questões de gênero, como resultante de uma ação das
ONGs feministas, vem esclarecer, primeiro, o caráter político das
relações entre homens e mulheres e, depois, que a
desconstrução das desvantagens socioeconômicas,
paralelamente ao empoderamento das mulheres, representa um ponto
nevrálgico para a democratização do social. Isso, por sua
vez, traduz-se na própria razão de existir das ONGs. Tal
desconstrução afigura-se, então, como o indício de
um deslocamento nas relações de poder entre os sexos, uma vez que
evidencia a influência político-transformadora das mulheres, na
base concepcional da vida em sociedade.
Por outro lado, a tendência de
apropriação da perspectiva de gênero, pelo campo das
ações técnicas e políticas da sociedade civil, mais
do que pela máquina estatal, favorece a uma quebra ideológica no
perfil androcêntrico da cultura, já que esses setores se
encarregam, também, de conceber os ideais transformadores nos processos
de desenvolvimento socioeconômicos.
Pode-se afirmar, além disso, que a
quantidade e a diversidade de demandas, por parte das mulheres, desenharam um
cenário bastante nítido da grande insatisfação
popular com o formato da sociedade, identificando-o negativamente nas esferas da
produção e da reprodução. Isso veio livrar, da
alcunha de específicas, as questões que as mulheres vêm
levantando e colocar às claras a perspectiva androcêntrica de
transformação da sociedade, mantida por alguns atores sociais.
Nessa passagem, esclareceu-se que o atendimento àquelas demandas
ultrapassava a capacidade de respostas da democracia patriarcal. Dito de outra
maneira: as exigências e as experiências das mulheres foram moldando
um espaço para a rutura com as limitantes culturais do desenvolvimento
humano.
Toda essa dinâmica veio servir,
ainda, para elucidar alguns aspectos importantes no campo dos estudos sociais.
Primeiro, que não cabe estudar o feminismo como um fenômeno
importado, conduzido por mulheres intelectuais de classe média ou, mesmo,
como um movimento separatista, mas como um processo de construção
do sujeito político, no feminino, para a inclusão incondicional
das mulheres na totalidade do espaço público Moderno. Segundo, que
as desequilibradas relações de poder entre homens e mulheres
só se esfumaçam sob a pretensa condição de naturais,
justamente por perpassarem todas as estratificações sociais e se
imporem em todos os campos da atividade humana. E, finalmente, que as
hierarquias estabelecidas entre o público e o privado, entre a
produção e a reprodução, são,
conseqüentemente, instrumentos de grande eficácia para a
manutenção das opressões de classe, de raça e de
sexo.
É possível observar,
claramente, que as ONGs feministas, através de uma
articulação política - no mínimo, historicamente
surpreendente - nos níveis internacional, nacional, regional e local -,
abriram uma fenda de extrema relevância no tecido social, dando
espaço à inclusão na política de elementos concretos
do cotidiano, aspecto esse que não constava do rol das tradicionais
preocupações dos governantes, nem de “iluminados” ou
de lideranças. Rompe-se, assim, a invisibilidade da
contribuição das mulheres à democratização
social[28] e
política. Por outro lado, obriga-se a sociedade a revisar o desprezo
pelas ditas “questões domésticas”, fustigando a tomada
de consciência sobre as relações de poder que estão
contidas nas esferas micro do complexo societal e que, em última
instância, facilitam a perpetuação das
desigualdades.
Cabe ressaltar, por fim, que as ONGs
feministas - como entidades políticas detentoras de capacidade
técnica e de negociação, no campo da
cooperação internacional - através de sua imersão
nos processos de reordenação das políticas sociais, em
nível local, vêm contribuindo para promover uma série de
mudanças importantes nas relações entre o Estado e a
sociedade civil, funcionando como um vetor que sinaliza, constantemente, um
lugar para a democracia participativa, dentro da democracia representativa. E,
apenas mergulhando-se na democracia participativa, é possível se
abrir um espaço onde as questões de gênero podem ser,
sempre, levadas em consideração.
Referências BibliográficasARENDT, HANNAH. La Condición
Humana. Barcelona: Paidós, 1993.
ASTELARRA, Judith. Las mujeres podemos:
otra visión política. Barcelona: Icaria, 1986.
AZEVEDO, Ana Maria. Quatro Grupos de
Mulheres e Quatro ONGs no Nordeste Brasileiro. Symposium,
Brasília, v. 36. n. 1-2.
BARROS, Henrique O. Monteiro. As
ONG’s de Assistência Técnica no Meio Rural do Nordeste:
Perfil e Condições de Atuação Recente. Recife:
CEDIP/SUDENE/PNUD, 1993. (mimeo)
BARSTED, Leila de A. Linhares. Em Busca
do Tempo Perdido: Mulher e Políticas Públicas no Brasil,
1983-1993. Rio de Janeiro: Revista Estudos Feministas, Número
Especial, pp. 38-54, out.1994.
BUARQUE, Cristina. Feminismo: a
Mudança do Paradigma. Recife, Mestrado de Ciência
Política, Universidade Federal de Pernambuco – UFPE - 1991.Tese de
Mestrado. (mimeo)
_______ O Movimento de Mulheres no
Nordeste. Recife, 1986. (mimeo)
CABANNES, Yves. “Uma
experiência urbana de co-gestão”. Brasília:
Síntese, n.1, ano 2, maio de 1997.
CFEMEA. Discriminação
Positiva - Ações Afirmativas: Em Busca da Igualdade.
São Paulo: CFEMEA/ELAS, 1996.
COSTA, Delaine M. & VERGARA, Moema de
Rezende (Org.). Gênero e ONGs: Proposta para o Fortalecimento
Institucional. Rio de Janeiro: IBAM/ ENSUR /NEMPP, 1997.
ENZENSBERGER, Hans Magnus. Guerra Civil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
FERNANDES, Rubem C. Elos de uma cidadania
planetária. Rio de Janeiro: Revista Brasileira de Estudos Sociais,
n. 28, ano 10, pp. 15-34, jun. 1995.
FORUM DE MULHERES DE PERNAMBUCO. O que
as mulheres de Pernambuco querem como políticas públicas
municipais: de 1997 ao ano 2000. Recife: SOS Corpo - Gênero e
Cidadania, 1997.
GAETANI, Francisco. Gestão e
Avaliação de Políticas de Programas Sociais:
subsídios para discussão. Brasília: ENAP, 1997. 15f.
(Texto para Discussão, 14)
IPEA-DIPES. Mulheres Sem Medo do Poder:
Chegou a Nossa Vez. Cartilha para Mulheres Candidatas a Vereadoras. Rio de
Janeiro, 1996.
MENEZES, Alfredo da Mota. Conquistas
Sociais e Políticas: Um Paralelo Histórico entre os EUA e o
Brasil. Brasília: Idéias & Debates, n. 11,
1997.
MUÇOUÇAH, Paulo S. As ONGs:
dos bastidores ao centro do palco - A propósito dos dois artigos
anteriores. . Rio de Janeiro: Revista Brasileira de Estudos Sociais, n.
28, ano 10, pp.35-37, jun. 1995.
MULHER, HABITAT E DESENVOLVIMENTO.
São Paulo: Cadernos do CIM, n. 3, dez. 1996.
MULHER, IGUALDADE E DESENVOLVIMENTO.
São Paulo: Cadernos do CIM, n. 2, 1995.
MULHER, POPULAÇÃO E
DESENVOLVIMENTO. São Paulo: Cadernos do CIM, n. 1, 1994.
NEVES, Maria da Graça Ribeiro das
(Org.). Gênero e Desenvolvimento Institucional em ONGs. Rio de
Janeiro: IBAM\ENSUR\NEMPP; Madrid, Instituto de la Mujer, 106 p., 1995.
OLIVEIRA, Francisco de (Chico).
Vulnerabilidade Social e Carência de Direitos. São Paulo:
Cadernos da ABONG. n. 8, 1995.
RAMOS, Alcida R. O índio hiper-real.
Rio de Janeiro: Revista Brasileira de Estudos Sociais, n. 28, ano 10, pp.
5-14, junho 1995.
SCHMUKLER, Beatriz. Las Mujeres en la
Democratización Social. Rio de Janeiro: Revista Estudos
Feministas. vol.3, n.1, pp. 136-155, 1o.
sem.,1995.
SCOTT, Joan. Gênero: Uma categoria
útil para análise histórica. Recife: SOS Corpo,
1996.
VIANNA, Maria Lúcia T. W. A
Emergente Temática da Política Social na Bibliografia Brasileira.
Rio de Janeiro: BIB, n. 28, pp. 3-41, 2º sem.,
1989.
WEE, Vivienne. Assegurando nossas
conquistas e avançando para o século XXI: posicionamento de DAWN -
MUDAR na IV Conferência Mundial sobre Mulheres, Beijing, setembro de
1995. s.l. s.d. (mimeo)
[*] Cristina
Buarque é Mestre em Ciência Política pela Universidade
Federal de Pernambuco - UFPE - e pesquisadora da Fundação Joaquim
Nabuco.
Semira Adler Vainsencher é
Mestre em Educação pela Boston University (USA) e pesquisadora da
Fundação Joaquim Nabuco.
[1]
Entenda-se por sociedade civil o conjunto de associações,
instituições e indivíduos que trabalham, criando elos, para
garantir a participação cidadã nas decisões da vida
política. Neste sentido, funciona em oposição ao Estado e
ao mercado.
[2] A
presença das ONGs, com essa característica, é um fato
identificado em grande parte dos países considerados em via de
desenvolvimento.
[3]
Desenvolvimento Humano é um conceito construído pelo Programa para
o Desenvolvimento das Nações Unidas – PNUD -, que, a grosso
modo, pode ser explicado como um processo de mudanças conduzido de acordo
com as necessidades, talentos e aspirações das pessoas. Dirigido
ao desenvolvimento econômico, o desenvolvimento humano tem como
propósito imediato apoiar as pessoas ou grupos, para que estes possam
administrar empresas ou desempenhar-se em empregos, de maneira competitiva. Para
uma noção aprofundada da idéia, recorrer ao PNUD,
Desarrollo Humano: Informe 1991 e Desarrollo Humano: Informe 1992;
Bogotá: Tercer Mundo Editores, 1991,1992.
[4] A ABONG
é também uma Organização Não-Governamental,
fundada em 1992, que reune várias ONGs, porém que não
engloba o total dessas organizações existentes no País.
[5]
Indicadores importantes do desejo de participação
democrática podem ser considerados tanto as novas categorias de
eleitores, como o aumento relativo do número de pessoas votantes, que
ocorreu entre o último pleito (1960) - antes do Golpe Militar e o pleito
de 1989 - quando esse quantitativo passa de ¼ (16 milhões) para a
metade (80 milhões) da população
brasileira.
[6]
Deseja-se ressaltar que o autoritarismo não foi desenvolvido, como
prática do Estado e das organizações da sociedade civil,
no território nacional, a partir dos anos de Governo Militar. Ele vem de
séculos passados, da Colônia, do Império, do Governo de
Getúlio Vargas, mantendo-se em todas as repúblicas. Foi o
autoritarismo que permitiu a chegada de Castelo Branco e de seus sucessores ao
poder. O que os militares fizeram foi escancarar a violência e a
truculência do poder político, num país que se orgulha de
não haver conhecido grandes guerras.
[7] Segundo
Fernandes (1995), “as décadas que se seguiram à Segunda
Guerra Mundial preservaram o espírito guerreiro como fonte máxima
para a solução dos dilemas políticos. A divisão do
Mundo garantida pela presença militar, guerras de
libertação na Ásia e na África, guerrilhas na
América Latina, golpes militares, confrontos táticos entre
super-potências, revoluções e
contra-revoluções...” Porém, o mesmo autor observa
que, nos últimos vinte anos, esse espírito começa a
declinar e mesmo que, ainda, se mantenham muitos daqueles mecanismos
introjetados na ação política, a tendência
predominante é a de se optar por formas democráticas de governo.
[8] O termo
autoritarismo aqui não está sendo utilizado como forma de governo,
porém como prática social. A ruptura política com o regime
autoritário não significa, necessariamente, uma ruptura com as
práticas sociais autoritárias. E é nesse sentido que se
está usando o termo.
[9]
Remeter-se à produção de pesquisas e de textos, por parte
das ONGs, a exemplo do Centro de Informação da Mulher (CIM), do
SOS Corpo Gênero e Cidadania, do Instituto da Mulher Negra
(GELEDÉS), da Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e
Ação (CEPIA), da Rede Regional Norte e Nordeste de Estudos sobre a
Mulher e Relações de Gênero (REDOR), do Centro Feminista de
Estudos e Assessoria (CFEMEA), do Centro Josué de Castro, entre
outros.
[10] Muito
embora não se tenha conseguido levantar os dados sobre o número de
pessoas beneficiadas pelas ONGs, no Brasil, considerou-se interessante trazer a
informação do PNUD, referente a esse total, nos países em
desenvolvimento: cerca de 250 milhões de pessoas.
[11]
Consultar o estudo de Vianna (1989).
[12] No
final dos anos 1980, a ONU trabalha no sentido de recuperar as bases
éticas do conceito de desenvolvimento, como o aperfeiçoamento das
sociedades e a melhoria da qualidade de vida, resultando, em seguida, no
conceito de Desenvolvimento Humano, trabalhado pelo PNUD.
[*] Grifo
nosso
[13]
Segundo Wee (1995), não obstante as conquistas do Movimento de Mulheres
nas quatro Conferências Mundiais da ONU, o capital internacional, apoiado
pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional e pelos
países do Norte, impuseram limitações aos Estados
assinantes dos protocolos de intenção, em prol das mulheres.
Fenômeno muito claro na Conferência da Cúpula Mundial e
Desenvolvimento Social, quando aqueles agentes, a fim de manter o status quo
das vantagens econômicas, varreram, para baixo da tapête, as
críticas sobre as políticas de ajuste estrutural e de
mercado.
[14]
Segundo Astelarra (1986), o patriarcado seria o conjunto das
relações sociais que determinam a opressão e a
subordinação da mulher, através do controle da suas
capacidades reprodutiva e produtiva, da sua sexualidade, e da
interdição do seu acesso ao poder.
[15] De
acordo com Buarque (1991), no Brasil, as primeiras manifestações
do pensamento feminista surgem no século XIX, através da obra de
Nísia Floresta Augusta Brasileira, publicada em 1832, sob o título
Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens. Trata-se de uma
versão do livro A Vindication of the Rights of Woman, da feminista
inglesa Mary Wollstonecraft. Em 1842, Nísia volta a
publicar Conselhos à Minha Filha e, em 1853,
Opúsculo Humanitário. Registra-se, ainda no século
passado, o surgimento de periódicos femininos tais como o Jornal de
Senhoras (1852), o Sexo Feminino (1873) e a revista Família
(1880). Toda essa literatura enfocava o problema da
emancipação da mulher. Porém, é a
agitação republicana, no final da década de 1880, que vai
dar vigor ao desejo das mulheres por direitos políticos, culminando com a
Proclamação da República, em 15 de novembro de 1989. Esta,
por sua vez, ao estender o direito de voto a todos os homens alfabetizados, traz
novos argumentos em favor do sufrágio feminino. Num processo crescente de
demandas por direitos civis e políticos, as feministas brasileiras
criaram, em 1919, a Liga para a Emancipação Intelectual da
Mulher. Em 1922, a mesma vai se transformar na Federação
Brasileira para o Progresso Feminino, estimulando o surgimento de uma
série de associações de mulheres, no país. Com o
Golpe Militar de 1964, o Movimento de Mulheres foi silenciado e massacrado, como
os demais movimentos sociais no Brasil.
[16] Ver o
trabalho O Movimento de Mulheres no Nordeste, de Buarque
(1986).
[17] O
CENDO-Mulher Centro de Estudos e Documentação foi uma ONG que
funcionou entre 1986 e 1990, voltada para estudos e documentação
sobre a mulher e as relações de gênero no Nordeste.
[18] O
Fórum de Mulheres de Pernambuco é uma articulação
a-partidária, criada em 1988, que reúne, hoje, trinta
entidades.
[19] A
partir dos anos 1970, foi considerável a expansão das ONGs no meio
rural do Nordeste, podendo-se constatar que 67,3% delas foram criadas no
período de 1981 à 1990. Calcula-se, hoje em dia, que existam mais
de cem organizações desse tipo, na região, atuando de
formas diversas e destinando as suas ações, principalmente, aos
pequenos produtores rurais. Registra-se, ainda, uma ampliação da
participação das ONGs em programas públicos,
particularmente no PAPP - Programa de Apoio ao Pequeno Produtor do Nordeste
(Barros, 1993).
[20] O
termo androcentrismo é definido em Un Diccionário Feminista
(1981), como “o homem como medida de todas as coisas. Enfoque de um
estudo ou investigação a partir, unicamente, da perspectiva
masculina e posterior utilização dos resultados como
válidos para a generalidade dos indivíduos homens e
mulheres”.
[21] As
ações afirmativas foram concebidas como uma medida para compensar
os efeitos da discriminação racial, nos Estados Unidos. O termo
ação afirmativa foi usado pela primeira vez pelo Presidente John
Kennedy, sendo depois utilizado para beneficiar alguns segmentos da
população que, historicamente, vêm sendo tolhidos de chances
de participação, devido a preconceitos e barreiras existentes. No
caso brasileiro, as ações afirmativas, relacionadas às
mulheres, vêm sendo implementadas nos últimos anos. Nas
eleições municipais de 1996, por exemplo, elas obtiveram uma
grande projeção, muito embora existam propostas anteriores, no
campo do mercado de trabalho e, mais recentemente, em relação ao
acesso ao crédito para mulheres chefes-de-família. Vale ressaltar
que essa estratégia de promoção da igualdade tem sido
questionada, pelo temor que os indivíduos possuem de não serem
justos na tentativa de corrigir as injustiças. No entanto, o que é
preciso ser compreendido é que a sociedade é dinâmica, e que
as soluções para as suas dificuldades não trazem, somente,
satisfações, como, ainda, insatisfações. E que
não se deve, em nome das insatisfações futuras, deixar
sobreviver as injustiças presentes. É preciso, primeiro,
resolvê-las e, então, deixar vir as novas demandas.
[22] A
participação de Pernambuco no Lobby do
Batom23, na Constituinte de 1987-88, na revisão
Constitucional, em 1992-93, na Campanha Mulheres sem Medo do Poder, com a
Lei 9.100/9524, e nas lutas pela implementação do
PAISM (Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher),
são alguns exemplos ilustrativos de tais ações.
[25]
Curiosamente, muitas agências internacionais são implementadas por
instituições religiosas e partidos, no
estrangeiro.
[26] A
delegação de Pernambuco, nas conferências internacionais da
ONU dos anos 1990, e a assinatura, pelo Governo Nacional, dos protocolos de
intenções, em prol da promoção da igualdade entre
homens e mulheres, ilustram a pressão do feminismo sobre o Sistema
Internacional de Cooperação ao Desenvolvimento. Da mesma forma,
pode-se observar a sua pressão, sobre o aparelho do Estado,
através dos Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais dos Direitos da
Mulher, e da construção de Redes setoriais e temáticas.
[27]
Feminino como condição de não referenciador dos interesses
da vida pública, sinônimo de domesticidade, de inaptidão
política.
[28]
Schmukler (1995) se refere à democratização do social, a
partir de uma análise do Cone Sul, trazendo as mulheres para a cena
principal desse fenômeno.
|