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TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 113/2001 agosto • 2001 |
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GÊNERO E EXCLUSÃO SOCIAL
Izaura Rufino Fischer Fernanda Marques |
Introdução
A relação de gênero formada por homens e mulheres é norteada pelas diferenças biológicas, geralmente transformadas em desigualdades que tornam o ser mulher vulnerável à exclusão social. A exclusão que atinge a mulher se dá, às vezes, simultaneamente, pelas vias do trabalho, da classe, da cultura, da etnia, da idade, da raça, e, assim sendo, torna-se difícil atribuí-la a um aspecto específico desse fenômeno, em vista de ela combina vários dos elementos da exclusão social. Desse modo, mais que qualquer outro assunto ligado ao feminino que se deseja analisar, dificilmente se poderá compreender a exclusão particular da mulher sem antes conhecer o fenômeno da exclusão e suas formas de manifestação. Diante de tal premissa serão expostas algumas informações sobre a exclusão social, que em seguida será relacionada com a questão do feminino. A exclusão social O termo exclusão social, de origem francesa, toma vulto a partir do livro Les Exclus (1974), de autoria de Lenoir, que define os excluídos como aqueles indivíduos concebidos como resíduos dos trinta anos gloriosos de desenvolvimento. Seguindo as idéias de Lenoir, o estudioso brasileiro Hélio Jaguaribe, em meados de 80, prevê, a partir da pobreza crescente, a exclusão de contingentes humanos e a define como resultado da crise econômica que se inicia em 1981-83. Para este autor, a exclusão assume as feições da pobreza. O escritor e político brasileiro Cristovam Buarque (in Nascimento, 1996), seguindo a mesma perspectiva de compreensão, ao analisar a crise econômica, publica escritos (1991, 1993 e 1994) que chamam a atenção para a ameaça à paz social. Segundo Buarque, a exclusão social passa a ser vista como um processo presente, visível e que ameaça confinar grande parte da população num apartheid informal, expressão que dá lugar ao termo “apartação social”. Para ele, fica evidente a divisão entre o pobre e rico, em que o pobre é miserável e ousado enquanto o outro se caracteriza como rico, minoritário e temeroso. A exclusão social remonta à antigüidade grega, onde escravos, mulheres e estrangeiros eram excluídos, mas o fenômeno era tido como natural. Somente a partir da crise econômica mundial que ocorre na idade contemporânea e que dá evidência à pobreza é que a exclusão social toma visibilidade e substância. A partir de 1980, os seus efeitos despontam, gerando desemprego prolongado e, parafraseando Castel (1998), os desafiliados do mercado passam a ser denominados de socialmente excluídos. A partir de então, este tema ganha centralidade nos meios acadêmicos e políticos. A discussão sobre exclusão social, de acordo com Gary Rogers (In Dupas, 1999), apareceu na Europa com o crescimento da pobreza urbana, e sua orientação varia de acordo com as conjunturas políticas e econômicas das sociedades. Silver (in Dupas, 1999), tentando entender a problemática da integração social na Europa e nos Estados Unidos, seleciona três paradigmas, ligando cada um deles a uma filosofia política. Assim, o paradigma da “solidariedade” estaria associado ao republicanismo, sendo a exclusão vista como quebra de vínculo entre o indivíduo e a sociedade. Nesse paradigma cabe ao Estado a obrigação de ajudar na inclusão dos indivíduos. No da “especialização”, associado ao liberalismo, a exclusão se refere à discriminação. Nesse caso, o Estado deve garantir o trânsito do excluído nas categorias sociais. No paradigma do “monopólio”, ligado a social-democracia a exclusão seria explicada pela formação de monopólios de grupos sociais. De acordo com Rogers (In Dupas, 1999), a exclusão, em sua essência, é multidimensional, manifesta-se de várias maneiras e atinge as sociedades de formas diferentes, sendo os países pobres afetados com maior profundidade. Os principais aspectos em que a exclusão se apresenta dizem respeito à falta de acesso ao emprego, a bens e serviços, e também à falta de segurança, justiça e cidadania. Assim, observa-se que a exclusão se manifesta no mercado de trabalho (desemprego de longa duração), no acesso à moradia e aos serviços comunitários, a bens e serviços públicos, à terra, aos direitos etc. Silver, ao enumerar várias categorias de excluídos, reúne os velhos desprotegidos da legislação, os sem-terra, os analfabetos e as mulheres que, a nosso ver, apesar de excluídas como indivíduos, no espaço privado, devem levar apoio aos demais excluídos no âmbito da sociedade. A exclusão social da mulher é secular e diferenciada. A compreensão sobre a condição bipolarizada do sexo possibilita indicações dos nortes da exclusão social fundamentada na diferença. É sabido que o fenômeno da exclusão não é específico da mulher, mas atinge os diferentes segmentos da sociedade. É também notório que a exclusão não é provocada unicamente pelo setor econômico, embora se admita que este é um dos principais pilares de sustentação desse fenômeno. A exclusão é gerada nos meandros do econômico, do político e do social, tendo desdobramentos específicos nos campos da cultura, da educação, do trabalho, das políticas sociais, da etnia, da identidade e de vários outros setores. A reprodução da exclusão social feminina As relações entre homens e mulheres, ao
longo dos séculos, mantêm caráter excludente. São assimiladas de forma bipolarizada, sendo designada à mulher a
condição de inferior, que tem sido reproduzida pela maioria dos formadores de
opinião e dos que ocupam as esferas de poder na sociedade. Assim, segundo
Alambert (1983), Platão, em A República, V livro, desenhava a mulher como
reincarnação dos homens covardes e injustos. Aristóteles, em A História
Animalium, afirmava que a mulher é fêmea em virtude de certas características:
é mais vulnerável à piedade, chora com mais facilidade, é mais afeita à inveja,
à lamúria, à injúria, tem menos pudor e menos ambição, é menos digna de
confiança, é mais encabulada. Os ideólogos burgueses destacaram sua inclinação
natural para o lar e a educação das crianças. Nesse sentido, Rousseau vê a
mulher como destinada ao casamento e à maternidade. Kant a considera pouco dotada intelectualmente, caprichosa
indiscreta e moralmente fraca. Sua única força é o encanto. Sua virtude é
aparente e convencional. Esses são alguns dos atributos
imputados à mulher, que reforçam a base da exclusão do feminino na sociedade e
cuja reverssão tem tomado longo tempo das feministas na sua busca por construir
conceitos de eqüidade entre os dois sexos, e tentando, dessa forma, tirar a
mulher do ambiente propenso à exclusão. Essa iniciativa faz parte de uma guerra
no campo das idéias que avança de forma heterogênea nas conjunturas sociais,
econômicas, políticas e culturais em diversas partes do planeta. A tradicional exclusão da mulher na esfera do trabalho No campo do trabalho, a exclusão da
mulher não encontra explicação nas conjunturas econômicas, pois suas raízes
estão fincadas em matrizes diversificadas, a exemplo dos interesses do
patriarcado em manter a mulher distante do patrimônio e numa relação
hierárquica inferior, imputando-lhe a atribuição de prestar serviço social
gratuito, de importante relevância para a sociedade pensada para o homem. A
desconstrução dessa forma de exclusão da mulher e sua integração no mundo do
trabalho se dão a partir do século XIX através do empenho e da luta feminista
travada na sociedade mundial. De acordo à narrativa histórica de
Michel (1983), a penetração da mulher no mercado de trabalho se dá pela via da filantropia que é usada
pela mulher da classe dominante como reação para sair do isolamento do lar.
Segundo a autora, a importância dada à vida familiar e à casa pelas classes
médias, desde o século XVII, fortaleceu a ideologia dos papéis domésticos e
educativos para o feminino. De igual modo, as mulheres dos meios populares
reagem ao isolamento do lar, buscando alternativas de forma coletiva. Assim,
saem juntas para exigir a paz, e como domésticas, denunciam ao parlamento seus
horários exaustivos, sufocantes, enquanto as comerciantes protestam contra as
prisões por dívidas. Como se pode observar, a quebra do
isolamento do lar e a participação da mulher no espaço público se deram por um
processo de reações e conquistas que se arrasta até os dias atuais. Até mesmo a
sua iniciação no trabalho remunerado, que se deveu a uma necessidade do capital
de ampliar o seu consumo, ocorreu de forma desigual, pois ela não foi colocada
no mercado apenas na condição de força de trabalho, mas também na de mulher
estigmatizada e vítima de relações desumanas na esfera privada. Assim, como
observam Bruschini e Rosemberg (1982), a atuação da mulher no mercado de
trabalho se dá, até os dias atuais, em condições visivelmente desiguais e
excludentes. O preconceito de inferioridade designado ao sexo feminino, durante
séculos – através da religião, das leis, da escola e da família, onde,
cotidianamente, a própria mulher reproduz a superioridade masculina através da
educação familiar ou informal – é apropriado, inclusive, pelo capital e
reproduzido nas relações de trabalho pelo mesmo sistema capitalista, que
convoca a mulher para o mercado de trabalho remunerado e que a aceita como
trabalhadora legítima. No mercado, dada a sua condição de
mulher (paciente, obediente, dedicada etc.),
vende a sua força de trabalho a preço mais baixo: o seu trabalho é
considerado ajuda no orçamento familiar; concentra as atividades em setores
extensivos do doméstico, a exemplo da educação, saúde, assistência social,
enfermagem e têxtil; desenvolve tarefas dificultosas, que o homem, muitas
vezes, se nega a fazer; e permanece distante das esferas de comando e decisão
entre os próprios trabalhadores. Na classe dos trabalhadores, a situação
de desigualdade se repete. Os preconceitos que favorecem a reprodução de sua
inferioridade (mãe, dócil, frágil, dedicada etc.) são apropriados pelos colegas
masculinos, que, ao invés de acolhê-la como companheira, parceira, indivíduo,
aceita-na na condição particular de mulher (Pateman, 1993). Na interseção do público e do privado,
a desvantagem feminina é total. O homem, de modo geral, ainda continua ausente
na divisão das tarefas domésticas. Por não ter conquistado a eqüidade de gênero
na esfera privada, ou seja, a participação do masculino nas tarefas da casa, a
mulher assume uma carga de trabalho no espaço público semelhante ou mais
exaustiva do que a do trabalhador masculino, e no âmbito privado cabe-lhe a
responsabilidade da labuta da casa, do preparo do alimento, do cuidado dos
filhos e sua educação informal, do cuidado dos velhos da família, da saúde dos
familiares e, evidentemente, da reprodução biológica e física da força de
trabalho (Bruschini, 1990). A contradição na super exploração das múltiplas
jornadas de trabalho desempenhadas pela mulher se constrói no fato de que,
mesmo se sacrificando para conciliar as várias tarefas cotidianas, essa
trabalhadora descobre na esfera pública a trilha da sociabilidade,
possibilitada pelo trabalho coletivo que lhe permite desconstruir preconceitos
secularmente designados ao ser mulher e substituí-los por suas reais
qualidades. No espaço da sociabilidade do trabalho, ela toma ciência de que
pode gerenciar a própria vida, pode
exercer a chefia da família e, através do convívio coletivo, livra-se da
timidez, aprende a sorrir e a criar sonhos (Fischer, 1997). A reestruturação do trabalho e a exclusão da mulher Mesmo na tempestade da globalização, a
importância da mulher tem se tornado evidente. A lógica da globalização e das
cadeias produtivas, muito oportunas para o capitalismo contemporâneo,
incorporou os bolsões mundiais de trabalho barato, sem necessariamente
elevar-lhes a renda. Os empregos formais crescem menos rapidamente do que os
diretos. Quando o trabalhador encontra oportunidades bem remuneradas no
trabalho flexível, exerce uma jornada que lhe rouba qualquer possibilidade de
lazer e capacitação. O setor informal acumula o trabalho precário e a miséria.
E especialmente nos países pobres, os
governos comprometidos com a
estabilidade não têm conseguido orçamentos suficientes nem estruturas eficazes para garantir a
sobrevivência dos novos excluídos (Dupas, 1999). Na conjuntura da reestruturação
produtiva e implementação do projeto neoliberal, ou seja, no quadro que Mota
(In Duque 2000) define como busca de estabelecimento de um novo equilíbrio
instável, que tem como exigência básica a reorganização do papel das forças
produtivas na recomposição do ciclo de reprodução do capital, tanto na esfera
da produção como das relações sociais, a situação da mulher vem tomando
visibilidade. O desemprego provocado pela chamada onda tecnológica tem levado a
mulher a assumir cada vez mais a chefia da família. O homem, como tradicional
provedor da família, cede lugar à mulher, que se torna provedora parcial ou
total das necessidades da prole,
afirmando assim sua competência no desempenho da atividade masculina,
mesmo numa conjuntura adversa e desigual. Elas permanecem ganhando, em geral,
menos do que o homem e sujeitam-se a realizar tarefas em situação precária
adequando-se à flexibilização do trabalho defendida pelo projeto neoliberal,
como sugerem os seguintes dados do PNAD usados por Saffioti (1997). Em 1990, no
topo da escala de salário estava o macho branco, em relação ao qual a mulher
branca ganhava em média 55,3%; o homem negro 48,7% e a mulher negra ou parda 27%. As diferenças convertidas em
desigualdades alijam a mulher do exercício de atividades de maior prestígio e
melhor remuneração. É a igualdade, num contexto social burguês,
contribuindo para tornar o projeto neoliberal mais perverso. A igualdade
pressupõe um ordenamento a ser alcançado através de políticas de eqüidade, pois
são estas que consideram as diferenças e presumem as identidades. A diferença
constitui uma face da identidade, ou seja, da relação entre o eu e os outros,
sendo esta a forma de as diferenças serem construídas e percebidas. Nesse
sentido, um indivíduo só pode ser portador e criador de conhecimentos, criador
e executor de práticas quando se relaciona com os outros. A práxis é
responsável pela construção das subjetividades que se objetivam por meio de
novas práticas. Assim sendo, cada ser humano é a história de suas relações
sociais. Exclusão e violência As clivagens que sustentam a ordem
burguesa e que contribuem para aprofundar as desigualdades carecem de uma nova
conjuntura, composta por outra sociabilidade. Uma conjuntura em que todos
tenham acesso aos bens e serviços produzidos socialmente e em que prevaleça,
principalmente, educação igual para meninos e meninas, possibilitando a
formação de comportamentos semelhantes nas relações de gênero. A educação, seja
a informal doméstica, seja a instrução escolar, se constitui numa das bases da
exclusão e da violência contra o feminino, disseminada em vários contextos da sociedade. É a partir
de detalhes sutis como os brinquedos infantis, a exemplo do carrinho, da arma e
da boneca, que a criança é preparada para o espaço público, reservado ao
masculino e, portanto, o mais violento, e o privado, reservado ao feminino, o
da submissão. O carro e o revólver, simbolizando o espaço público, representam
a violência, a decisão, o domínio etc. A boneca está associada ao trabalho da
casa, ao fogão e à maternidade. Dessa forma, vão sendo atribuídas
personalidades para homens e mulheres, gerando a necessidade da existência de
um ser frágil - sensível, dócil - para
justificar o outro ser forte – provedor, agressivo, frio, intolerante,
reiterando assim a cultura patriarcal e sexista e garantindo a assimetria entre
os gêneros. Tal assimetria justifica desigualdades e exclusões e gera pólos de
opressores e oprimidos, que se manifestam com maior visibilidade nas relações
de gênero no espaço privado através do fenômeno universal da violência, que atinge
de forma particular mulheres de diferentes partes do mundo e perpassa
etnias, raças e classes sociais. No Brasil, a violência exercida contra
a mulher tem se constituído em preocupação de pesquisadores e pesquisadoras,
juntamente com a luta pelo direito à cidadania nos âmbitos jurídico,
educacional, sexual e econômico. Estudos sobre tal problemática revelam o seu
caráter complexo e multidimensional, que se estende sem fronteiras por
diferentes países e regiões sob vários ângulos, a exemplo da violência
doméstica, o assédio sexual, o estupro, exploração sexual de crianças e
adolescentes, e turismo sexual. A luta
feminista contra a exclusão da mulher Um dos primeiros esforços das estudiosas feministas centrou-se na temática de estudo sobre a mulher, área que ainda sofria para impor sua legitimidade no campo universitário. Esses estudos eram tributários dos movimentos sociais dos anos 60 e 70 e resultantes da segunda onda do feminismo. Como expressão pública de uma luta manifestada em outros momentos, em razão da conjuntura internacional que favorecia as mudanças, o feminismo desenvolveu-se com força e organização que pareciam lhe garantir continuidade. Esse movimento, a partir da década de 80, toma novo direcionamento, enveredando para a formação de um novo conceito, o de gênero. Várias feministas envolvidas com a
militância se iniciaram nos trabalhos de reflexão e produção acadêmica. O
conceito de gênero, surgido no contexto anglo-saxão, passou a ser utilizado com
o sentido de caracterizar uma relação. Sem dúvida não tratava apenas de um novo rótulo, porém de opção
por uma mudança de ordem epistemológica, ou seja, uma via teórica. A
desvinculação da militância não se deu de imediato, e as mulheres permaneceram
centradas no eixo da denúncia da opressão, que tinha um caráter mais descritivo
do que analítico. Gradualmente, o
recorte analítico ganha espaços, e as feministas realizam análises consistentes
nos campos da sociologia, da história, da literatura e da educação. Ao voltar-se para si próprio, as estudiosas
do feminismo tentam construir um conceito de gênero desvinculado do sexo, que
se referia à identidade biológica de uma pessoa. Gênero é construção social do
sujeito masculino ou feminino. Nesse sentido, Joan Scott (1989), associando a
categoria gênero aos limites das correntes teóricas do patriarcado, do marxismo
e da psicanálise, tenta explicar a subordinação da mulher e a dominação dos
homens. Aquela autora analisa o gênero como elemento constitutivo das relações
sociais baseadas nas diferenças entre os sexos e como a primeira forma de
manifestar poder a partir de quatro dimensões inter-relacionais: simbólica,
organizacional, normativa e subjetiva. A dimensão simbólica enfatiza as
representações múltiplas e contraditórias, a exemplo de Maria evocando pureza e
bondade, e Eva simbolizando o pecado, o mal. A dimensão normativa evidencia
interpretações do significado dos símbolos que tentam limitar e conter suas
possibilidades metafóricas, ou seja, conceitos que são expressos nas doutrinas
religiosas, educativas, científicas, políticas e jurídicas que trazem duplo
sentido na definição do masculino e do feminino. A dimensão organizacional diz respeito
às organizações e instituições sociais como mecanismos que aprofundam as
assimetrias entre os gêneros. A dimensão subjetiva versa sobre as
necessidades de examinar as maneiras como as identidades de gênero são
construídas e relacionadas com atividades organizacionais, sociais e
representações culturais historicamente situadas. Joan Scott fundamenta suas abordagens
nos seguintes eixos teóricos: a.
As relações de gênero
possuem uma dinâmica própria, mas também se articulam com outras formas de
dominação e desigualdades sociais (raça, etnia, classe). b.
A perspectiva de
gênero permite entender as relações sociais entre homens e mulheres, o que
pressupõe mudanças e permanências, desconstruções, reconstrução de elemento
simbólicos, imagens, práticas, comportamentos, normas, valores e
representações. c.
A categoria gênero
reforça o estudo da história social, ao mostrar que as relações afetivas,
amorosas e sexuais não se constituem realidades naturais. d.
A condição de gênero
legitimada socialmente se constitui em construções, imagens, referências de que
as pessoas dispõem, de maneira particular, em suas relações concretas com o
mundo. Homens e mulheres elaboram combinações e arranjos de acordo com as
necessidades concretas de suas vidas. e.
As relações de
gênero, como relações de poder, são marcadas por hierarquias, obediências e
desigualdades. Estão presentes os conflitos, tensões, negociações, alianças,
seja através da manutenção dos poderes masculinos, seja na luta das mulheres
pala ampliação e busca do poder. Outra autora que traz importante
contribuição à temática do gênero é Teresita Barbieri (1992), que centra sua
análise nos limites teóricos do patriarcado, desenvolvendo estudos sobre as
condições de vida, de trabalho e sobre a cultura produzida pela mulher. Além
disso, tece suas considerações sobre a sociedade como elemento gerador da
subordinação feminina, enfatizando, ainda, que é da sociedade que surge e se
expande a categoria gênero. Como se pode observar, Scott e Barbiere
compartilham da idéia de que o gênero se instaura questionando ordens
epistemológicas, atravessando territórios interdisciplinares, efetivando o
diálogo entre o movimento social (o feminismo) e a academia. Tendo realizado o feito de formular um
conceito de gênero que ilustra as diferenças reais entre homens e mulheres, ou
seja, a de origem biológica e a cadeia de desigualdades socialmente construídas
a partir das diferenças, os movimentos feministas tentam dar visibilidade às
restrições impostas à mulher nos diversos segmentos da sociedade. As restrições impostas à mulher dão
lugar a um processo de exclusão que freqüentemente se ancora nas diferenças. Essa
idéia da diferença permeia discursos hegemônicos, estando presente em falas
sobre as desigualdades de gênero, impedindo que se lide adequadamente com o que
distingue homens e mulheres. Diferença faz par com identidade, assim como
desigualdade o faz com igualdade. No pensar de Laurentis (1987), o ser humano,
ao tornar-se o “sujeito múltiplo”, percebe suas identidades sociais básicas
(gênero, raça, etnia) e, por conseguinte, as diferenças que apresentam entre
si. No entanto, como são típicos da
ideologia, os fenômenos são apresentados de forma inversa, traduzindo
desigualdade por diferença, inversão que está, muitas vezes, presente nas
esferas dos valores, crenças, benefícios, direitos e privilégios. Segundo
Saffioti & Almeida (1995), “Rigorosamente, toda diferenciação, seja da
natureza, seja da sociedade, é positiva, porquanto representa enriquecimento.
Representações sobre a diferença podem ser apropriadas pela ideologia” e
transformadas em estigmas, portanto, em algo negativo, conforme tem ocorrido com
o feminino ao longo dos séculos. Considerações finaisO desafio de romper o esquema binário,
em que o masculino e o feminino se constroem na oposição um ao outro, tem sido
desafiante para o movimento feminista, que se propõe a desmontar um esquema
construído numa lógica patriarcal que dificulta a percepção e construção de
mundo de outras formas. Algumas das estudiosas do feminismo, a exemplo de Joan
Scott, se apropriam de teorizações pós-estruturalistas da desconstrução, como a
de Derrida - para o qual o pensamento ocidental vem operando na base de
princípios expressados pela hierarquização de pares opostos - para pensar as
relações de gênero. A proposta de desconstrução é, pois, a
de desmontar a lógica das oposições binárias do pensamento tradicional, evidenciando
que estas são históricas e socialmente construídas, e rejeitar o caráter fixo e
permanente da oposição binária de uma historicização genuína em termos de
diferença sexual, dando visibilidade aos sujeitos diferentes. A descontrução da
polaridade masculino/feminino poderá ser útil para desmontar a lógica binária
que rege outros pares de conceitos a ela articulados, tais como público/privado
produção/reprodução, cultura/natureza etc. No processo de desconstrução, é
necessário atentar para o fato de que o oposto da igualdade é a desigualdade,
ao invés da diferença. Ao lado da proposta de desconstrução, está a de
construir a lógica da diferença como elemento positivo, pautado na identidade e
sem a desigualdade, considerando a diferença dos termos, mas mostrando que um
está presente no outro, e portanto, ambos podem ser equivalentes. As diferenças
entre homens e mulheres, ao se afirmarem, rompem a unidade, impossibilitando a
existência de uma identidade masculina e de uma outra identidade feminina. Elementos
como classe, etnia, religião, idade etc. atravessam a pretensa unidade de cada elemento do par,
transformando em múltiplo o sujeito masculino ou feminino pensado no singular. Biblografia ALAMBERT, Zuleika. Feminismo: o ponto de vista marxista.Nobel: São Paulo, 1986. BANDEIRA, Lourdes e SUAREZ, Mireya (Orgs.) Violência e crime no Distrito Federal. Paralelo 15, Universidade de Brasília, Brasília:1999. BARBIERI, Teresita. Sobre a categoria de gênero: uma
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