
|
TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 112/2001 Julho • 2001 |
|
A POPULAÇÃO DA REGIÃO NORTE: PROCESSOS DE OCUPAÇÃO E DE URBANIZAÇÃO RECENTES |
|
Introdução
Qualquer projeto de desenvolvimento da Amazônia
contabiliza, entre outros de muitos de seus aspectos positivos, a enorme riqueza
de seus recursos naturais, florestais e minerais, assim como o seu potencial de
recursos energéticos (gás, petróleo, energia
elétrica), a fertilidade de seu cerrado para a exploração
agrícola e agropecuária, a imensa diversidade biológica e o
potencial biotecnológico a ela associado.
Entretanto, desenvolver a Amazônia, dada a sua
dimensão continental e a fragilidade de seu ecossistema, se não
adequadamente explorado, não é uma tarefa trivial. O volume de
recursos que demanda para a construção da necessária
infra-estrutura é uma ação que não pode depender
exclusivamente dos escassos recursos nacionais. Ela passa, necessariamente, pelo
crivo das organizações internacionais, na medida em que
empréstimos externos de grande vulto têm que ser obtidos para que
hidroelétricas, estradas, portos, meios de comunicação,
industrias sejam construídas.
O desafio também é o de garantir um processo de
desenvolvimento que não só irradie seus benefícios para as
populações regionais, mas, também ocorra dentro de uma
estratégia de desenvolvimento sustentável que resulte na adequada
utilização dos recursos naturais e a conservação dos
ecossistemas, garantindo, assim, a solidariedade inter-geracional, com a
preservação dos seus recursos naturais para o uso das
gerações futuras.
O desafio também é o de vencer as
resistências internacionais que, intentando transforma-la em
patrimônio ecológico mundial intocável, sob a
alegação de sua importância para o equilíbrio
ecológico em escala planetária, criam restrições que
constrangem a obtenção dos recursos necessários.
No passado recente, a ocupação de uma
fração expressiva do espaço vazio regional e o adensamento
populacional foram obtidos às custas de elevados investimentos
públicos para a criação de uma infra-estrutura
mínima que permitisse o deslanche deste processo. A
reorientação das prioridades nacionais no que respeita ao
desenvolvimento regional, com a drástica redução do
financiamento público, determinou um arrefecimento no movimento
migratório, essencial para a efetiva ocupação de
espaços selecionados na Amazônia.
A história recente da ocupação humana da
Amazônia não permite antecipar em um horizonte próximo a
repetição dos quantitativos que até então ocorreram.
Uma nova dinâmica reprodutiva estabeleceu-se em nível nacional, e
da qual a Amazônia não está afensa. Da mesma forma,
há claras indicações de mudanças estruturais nos
deslocamentos migratórios da população brasileira e
regional. Ambos os movimentos conspiram contra um adensamento da
ocupação, se tal proposta for deixada à margem de uma
política deliberada de intervenção pública no
sentido de dinamizar e orientar a ocupação da Amazônia.
Este trabalho visa contribuir para a avaliação
das tendências recentes da dinâmica populacional da Amazônia e
refletir sobre suas possíveis trajetórias futuras. Diferentemente
das demais componentes sociais, em uma população fechada, a sua
história futura está parcialmente contada pelo seu passado.
Entretanto, a Amazônia não é uma região fechada. Pelo
contrário, é altamente dependente dos fluxos migratórios.
Em assim sendo, o seu futuro demográfico está muito influenciado
não só por variáveis internas, mas também, por
determinações de ordem nacional.
1. Processos Recentes de Ocupação da
Amazônia
O Norte é a mais vasta região do País,
com 3,9 milhões de Km2. Seu efetivo populacional, segundo o
Censo de 2000 realizado pelo IBGE, atingiu 12.919,9 milhares de pessoas, o qual
correspondeu a 7,8% da população total residente no
País([1]).
Apesar de ser reconhecidamente uma das mais importantes
regiões para o ecossistema mundial, de deter, em escala nacional,
abundantes recursos minerais, madeireiros e agropecuário, e de
esforços passados direcionados mais ou menos intensamente para a sua
ocupação demográfica e econômica, o início
deste século deparou-se com uma região ainda muito esparsamente
povoada (3,3 kab/km2) e desigualmente desenvolvida, já com
graves problemas sociais([2]).
No que tange ao processo recente de sua
ocupação, pode-se dizer que ele esteve ligado, inicialmente, isto
é, nos anos 60 e 70, à ação do Governo Federal e
às políticas de desenvolvimento econômico por ele
capitaneadas. Foi a partir da expansão de formas de
acumulação e de investimentos públicos que se procedeu a
ocupação das fronteiras amazônicas, numa expansão que
privilegiou determinados espaços, alguns dos quais constituídos a
partir de condições econômicas historicamente preexistentes,
e outros nos quais tais condições foram praticamente
criadas.
O fato é que, segundo Oliveira (1996), é
possível identificar pelo menos quatro grandes eixos ou pólos da
ocupação amazônica recente, surgidos ou como frutos da
expansão da fronteira ou de ações específicas
patrocinadas pelo setor público. Este é o caso típico da
Zona Franca de Manaus, onde se gerou um grande polo moderno de crescimento
industrial, idealizado, inclusive, com o objetivo de irradiar o desenvolvimento
a vastas porções interiorizadas da Amazônia
Ocidental.
Uma segunda expansão se dá através do
polo de Carajás, abrangendo o triângulo São Luís,
Marabá-Belém, é muito ligado à disponibilidade de
recursos naturais – minero-ferríferos principalmente – e
já desde aquela época inserido num contexto de
globalização, com exportações direcionadas aos
mercados internacionais. Esse polo deve gerar hoje um valor de
produção bastante superior ao da Zona Franca de Manaus, embora a
favor desta deva dizer-se que parece ter hoje uma maior capacidade de
internalizar sua produção em nível do próprio
País.
Um outro polo a considerar é de natureza
agropecuária. Prolonga-se desde o Centro-Oeste até uma parte da
região amazônica e está vinculado aos esquemas de
acumulação prevalecentes em Estados tais como Minas Gerais e
São Paulo, no Sudeste. De fato, é facilmente perceptível
que a Região Centro-Oeste (Estados de Mato Grosso do Sul, Goiás e
Mato Grosso) tem hoje uma forte integração com a economia do
Sudeste e com um sistema de transporte orientado precipuamente para o escoamento
de sua produção para aquela região ou através dela.
Na região Norte, este eixo penetra pelo Sul do Pará e Sul do
Maranhão e por áreas de Rondônia, Acre e mesmo Amazonas. A
construção do moderno porto de Itacoatiara, no Rio Madeira, para
exportação de soja, tem a ver com a viabilização
econômica desse eixo.
Finalmente, o que se poderia denominar de um polo estritamente
amazônico ficou, de certa forma, mais isolado e economicamente
comprometido. Quis o Governo Federal criar, à época,
através da colonização, um sistema orientado no sentido de
assentar migrantes com “know how” agrícola, com pequenos
capitais, oriundos principalmente de estados sulinos. Rondônia e o Acre
foram os Estados onde tais ações teriam sido melhor sucedidas nos
âmbitos da agricultura e da pecuária, respectivamente.
A partir dos anos 80, quando se instala a crise financeira do
Estado brasileiro e as políticas públicas passam a perder
espaço, força e rigidez, a ocupação da região
Norte passa a se reger, fundamentalmente, pela lógica do mercado. Abre-se
um vácuo no processo de desenvolvimento regional. Nessa lógica
já não está mais tão presente a
implementação daquelas políticas públicas
anteriormente voltadas para o processo de integração da
Região, para o desenvolvimento social e econômico das
populações e para a ocupação orientada dos seus
vastos espaços. Isto atinge os governos estaduais que se vêm
forçados a buscar parcerias e a procurar integração entre
si no sentido de tocar algumas obras de infra-estrutura e efetivar outras
ações de desenvolvimento, por vezes na esteira de programas e
projetos pretéritos parcialmente recuperados. O Acre é um caso
típico na sua busca de uma maior integração com os
países da pan-amazonia hispânica, inclusive apoiado no interesse de
Estados do Sudeste de buscar uma saída para o Pacífico com o
objetivo de escoar sua produção de soja destinada a mercados
agrícolas asiáticos. Isso se daria a partir da
construção de certos eixos rodoviários, algo até
agora frustado.
O Estado do Amazonas já viabilizou, em parceria com
Roraima, a construção de uma moderna rodovia de
integração com a Venezuela e com o Caribe, prevendo-se que a
partir dela, breve, se poderá atingir por asfalto a Guiana Inglesa. No
Amapá, há planos do Governo estadual de construir uma moderna
rodovia para ligar Macapá tanto a Manaus, a leste, como à antiga
Guiana Francesa, ao norte.
Mais recentemente, à esteira de
preocupações de natureza geopolítica e de segurança
nacional, estão sendo desenvolvidos esforços que, em última
análise, estariam voltados para a ocupação do vasto vazio
demográfico que ainda é a Amazônia Ocidental brasileira e,
consequentemente, para a própria preservação da soberania
nacional nesse vastíssimo espaço. De um lado, menciona-se o
interesse do Governo brasileiro, via projeto Calha Norte, de responsabilidade
das Forças Armadas, voltado, não somente para o fortalecimento
militar ao longo da fronteira, como também para desenvolver
ações de natureza social que possam beneficiar e consequentemente,
ao que se supõe, atrair população brasileira para rechear o
lado de cá da fronteira.
De outro, cumpre mencionar que já se encontram em fase
preliminar de discussão no Congresso Nacional projetos sobre a
criação de novos Estados e Territórios Federais na
Amazônia. Um desses projetos contempla a criação do Estado
do Tapajós, a ser desmembrado do estado do Pará e localizado na
fronteira deste com o Estado do Amazonas, tendo por capital a cidade de
Santarém, na confluência dos rios Amazonas e Tapajós. Por
sua vez, segundo outra proposta, também deverão ser criados
três novos Territórios Federais – Rio Negro, Solimões
e Juruá – a serem desmembrados do Estado do Amazonas e situados na
atual área limítrofe ocidental de nosso País com o Peru, a
Colômbia e a Bolívia. Finalmente, menciona-se a proposta de
criação do Estado do Araguaia, a ser desmembrado do Estado do Mato
Grasso, já fora da Região Norte, mas inserido na chamada
Amazônia Legal. (v. Mapa I)
Sem dúvida, essas tendências de
ocupação, em grande parte dirigidas e/ou estimuladas pelo Governo
Federal e Governos estaduais, determinam ou pelo menos vocacionam o crescimento
populacional da Região, talvez menos em termos de intensidade e mais em
termos de sua orientação e distribuição no vasto
espaço regional.
No que tange especificamente ao crescimento populacional
amazônico, pode-se dizer que, em termos de dinâmica
demográfica, a Região Norte já se acha na fase descensional
das taxas de fecundidade e de mortalidade. É bem verdade que a
população rural encontra-se defasada em relação
à população urbana no que respeita à
evolução da fecundidade, tendo apresentado, no período
1990/95, níveis ainda bastante elevados (5,6 filhos por mulher),
comparativamente aos que nas mesmas datas já prevaleciam no meio urbano
amazônico (3,6 filhos por mulher) e nos quadros urbanos e rurais de todas
as demais regiões
brasileiras([3]) . Com
respeito a mortalidade, há uma certa similitude entre os quadros de
domicílio quanto aos níveis gerais da esperança de vida ao
nascer (aproximadamente 66,0 anos, no período
1990/95)[4]. Pode-se até presumir que a
ampla dispersão da população rural e o crescente processo
de urbanização venham a contribuir, em futuro breve, para
distinguir com clareza cada vez maior os respectivos conjuntos de causas de
morte prevalecentes nos meios urbano e rural. Entretanto, no estágio
atual, a mortalidade da região Norte encontra-se em uma
situação transicional, com forte presença das
doenças infecciosas e parasitárias relacionadas com a pobreza que
afeta grandes segmentos da população e com a precariedade da
oferta de serviços essenciais, ao lado de uma ampla mortalidade associada
a causas próprias da vida urbana, inclusive a violência.
![]() Mapa 1 – Região Norte – Nova
Configuração Territorial
Percebe-se assim que, apesar de sujeito ainda a
decréscimos nos respectivos índices, não se deve esperar
que o crescimento vegetativo venha a exercer, no futuro, forte dinamismo no
tocante ao crescimento populacional da Região Norte. Estimativas
realizadas por Moreira (2000) indicam que a Taxa anual desse crescimento teria
sido nas décadas dos 70 e dos 80, de 36 por mil e de 33 por mil,
respectivamente. Por sua vez, não parece possível admitir que a
migração possa voltar a desempenhar um forte papel quanto ao
dinamismo populacional amazônico, a exemplo do que ocorreu nos anos 70 e
anos 80. O forte esmorecimento que parece se haver registrado nos recentes anos
90, no que respeita ao fenômeno migratório em curso na
região Norte, parece também corroborar essa expectativa. parece
também que se inicia um processo de mudança na
composição dos fluxos segundo a procedência, com
participação crescente de movimentos transfronteiriços na
região e para além dela, os quais até então eram
ainda praticamente desconhecidos. São movimentos que envolvem
questões da terra, pobreza, desruralização, e
questões indígenas. Sua gênese e sua estrutura são
ainda praticamente
desconhecidas([5]).
2. As Tendências Gerais do Crescimento Populacional
As tendências evolutivas observadas com
relação à população da Região Norte
denotam que a mesma se tem destacado, historicamente, por apresentar taxas de
crescimento quase sempre mais elevadas do que as do Brasil como um todo. O ritmo
desse crescimento, porém, caiu bastante de intensidade durante os anos
90, tento atingido então, uma média anual de 2,6%, bastante
inferior, portanto, às de 4,7% e 3,9% pertinentes aos anos 70 e 80. Mesmo
assim, a atual taxa média de crescimento da população
amazônica ainda quase que equivale à observada com
relação ao Brasil nos já remotos anos 70.
As tendências evolutivas observadas com
relação às populações amazônica e
brasileira refletem-se na evolução das respectivas
participações relativas. Tal participação que
até 1970 se manteve algo estabilizada entre 4,0% e 4,4%, cresceu
rapidamente desde então, até chegar a 7,8% em 2000. Mutatis
mutantis, esta mesma tendência verificou-se tanto em nível do
contingente residente em quadros urbanos, como em quadros rurais. No primeiro
caso, tal relação praticamente dobrou entre 1970 e 2000, tendo-se
elevado de 3,4% para 6,7%. Já no caso da população rural, o
aumento dessa participação foi bem mais rápido e ainda mais
precoce: o respectivo percentual, que se situava entre 4,0% e 5,0% nos anos 40 e
50, ascendeu a quase 6,0%, ao final dos anos 60, tendo atingido 8,6% em 1980,
12,0%, em 1991 e já quase 13,0%, no ano 2000.
É evidente que na consideração dessas
tendências hão de ser levados em conta os ritmos diferenciados em
que se deram as variações tanto no numerador como no denominador
da expressão. Como demonstra a tabela 2, foi a partir dos anos 60 que a
taxa de crescimento da população nortista começou a superar
amplamente a da população brasileira. Para tanto
contribuíram, inicialmente, os diferenciais verificados com
relação ao crescimento do contingente urbano. A partir de 1970,
enquanto já se observava a desruralização populacional que
começava a ter curso em nível do País como um todo, os
efetivos residentes no quadros rurais da região Norte ainda cresciam
intensamente, particularmente no curso da década 1970/1980 (3,4% a.a.),
quando o fizeram a ritmo superior ao registrado pelo total da
população brasileira em qualquer sub-período da
série histórica considerada. Contudo, na primeira metade dos anos
90, entre 1991 e 1996, percebeu-se um forte arrefecimento no crescimento da
população rural da região Norte. Era o prelúdio de
um processo de desruralização que, a exemplo do que já
ocorria em todas as demais regiões brasileiras, também tinha
início na Amazônia, com um certo atraso, a partir de então.
Tabela 1Região Norte(*) : População Residente nas Datas dos Recenseamentos Gerais –1940/2000
Fonte dos dados básicos: IBGE. Censos
Demográficos e Contagem Populacional
(*) – Inclui os Estados de Rondônia, Acre,
Amazonas, Roraima, Pará, Amapá e Tocantins
Tabela 2Região Norte e Brasil: Taxas de Crescimento Populacional (% a.a.), por Quadro de Domicílios – 1940/2000
Fonte dos dados básicos: IBGE. Censos
Demográficos e Contagem Populacional
Prosseguiu sem interrupção a forte
tendência da população em residir em quadros de
domicílio titularmente
urbanos([6]). Assim
é que, em 1980, metade da população nortista já
residia em cidades e vilas, proporção esta que se elevou para 58%
por ocasião do Censo de 1991, para 62% quando da Contagem Populacional de
1996 e, finalmente, para quase 70%, no ano 2000. O fato é que, entre 1980
e 1991 nada menos do que 72% do crescimento líquido havido na
população nortista – da ordem de 3,5 milhões de
pessoas – foram gerados e/ou absorvidos no/pelo conjunto de cidades e
vilas. Entre 1991 e 2000, esse percentual elevou-se para 115,5%, indicativo de
terem os quadros urbanos da região absorvido o equivalente não
só a todo o crescimento populacional havido na Região durante esse
período – aproximadamente 2,7 milhões de pessoas – mas
a também uma parcela da população que se desruralizou e
deixou a Amazônia.
3. As Tendências do Crescimento Urbano
Tem-se apontado que, na região Norte, entre os efeitos
mais visíveis do processo de desenvolvimento orientado pela lógica
de mercado destaca-se o aumento da concentração populacional em
uns poucos pólos de desenvolvimento e de prestação de
serviços. A concentração de investimentos em pontos
específicos do vasto espaço regional atrai-lhes
população, ao mesmo tempo que contribui ou determina a
estagnação das atividades econômicas do interior: geram-se
fatores expulsivos de significativos contingentes de população, os
quais deixam as áreas rurais e mesmo as pequenas cidades interioranas em
busca da sobrevivência nas áreas urbanas de maior porte e/ou em
alguns novos pólos de atividade econômica que surgem, por vezes com
vida efêmera. Este “adensamento pontualizado” da
população nortista é de tal ordem que, talvez como casos
extremos, possam ser referidas Boa Vista, em Roraima, e Macapá, no
Amapá, cujos efetivos populacionais representaram, no ano 2000, 62% e 59%
dos respectivos contingentes estaduais. Capitais como Manaus, no Amazonas, e Rio
Branco, no Acre, também concentram parcelas substanciais dos efetivos
estaduais residentes: 49% e 45%, respectivamente. Pode-se dizer que, de modo
geral, a população nortista vem-se concentrando em quadros de
domicílio titularmente urbanos – 70% da população
amazônica, no ano 2000 – dentre os quais se destacam as sete
capitais estaduais além de umas poucas outras cidades classificadas numa
faixa entre 50 mil e 200 mil habitantes; algumas cidades paraenses
(Santarém, Marabá, Castanhal, Ananindeua, Itaituba e Abaetetuba) e
amazonenses (Itacoatiara, Parintins Careiro, etc.), duas cidades tocantinenses
(Araguaiana e Gurupi) e Ji-Paraná em Rondônia. São cidades
que atuam, em geral, como centros administrativos, comerciais e/ou de
prestação de serviços em níveis sub-regional e/ou
local.
Sabe-se que entre os fatores determinantes do crescimento da
população urbana de um determinado espaço figura a
incorporação como urbanos de quadros domiciliares anteriormente
classificados como rurais (inclusive povoados, lugarejos, etc.). Embora os dados
censitários de 2000 que permitiriam qualificar essa
observação ainda não estejam disponíveis, os dados
dos Censos
anteriores deixam transparecer ter havido um número
elevado de vilas que ascenderam, entre 1980 e 1991, à
condição de sedes municipais. A maioria delas correspondeu a
lugarejos quase sempre com menos de 2 mil habitantes, cuja influência
não deve ter sido significativa para explicar o acréscimo
populacional havido no total da população residente no conjunto de
sedes municipais então existentes. O próprio número de
pessoas que residiam, em 1991, no conjunto das pequenas vilas nortistas
afigurava-se bem pouco expressivo, o que serve também para indicar a
menor importância que, de um ponto de vista quantitativo, estaria
assumindo a ascensão das vilas à categoria de cidades. De fato,
nada menos do que 78% do acréscimo registrado entre 1980 e 1991 na
população urbana da região Norte tiveram lugar em cidades
que já contavam, no segundo desses anos, com mais de 20 mil habitantes,
sendo que quase 53% do mesmo referiam-se exclusivamente a cidades com mais de 50
mil habitantes.
Esse tipo de concentração determina, por sua
vez, aquela que também se observa ao considerar o fenômeno em
nível de mesorregião. Há uma forte
concentração populacional em algumas poucas mesorregiões
nortistas, como são os casos do Centro Amazonense, da Metropolitana de
Belém, do Nordeste Paraense e, mais recentemente, do Leste Rondoniense e
Sudeste Paraense. As duas primeiras encerram os dois maiores centros urbanos
regionais: Manaus e Belém,
respectivamente([7]).
Tabela 3
Região Norte: Número de Cidades,
População Residente e Taxas de Crescimento por Classe e Tamanho
das Cidades
1980-1991
Fonte: Moura; Moreira [1997]
Assim sendo, de um ângulo estritamente
demográfico, a urbanização da região Norte estaria
sendo bastante vocacionada para a ampliação do tamanho dos
núcleos urbanos já existentes, principalmente daqueles que
já atingiram uma dimensão considerável em
relação às características de dispersão da
população e concentração das atividades
econômicas. Esta é uma tendência que se reflete na
elevação do tamanho mediano das cidades da região, que
passou de 1,8 mil habitantes, em 1970, para 3,8 mil habitantes, em 1980, para
5,2 mil habitantes, em 1991 e, quem sabe, para uma dimensão ainda maior
por ocasião da virada do século.
Judiciosamente, porém, Hebette & Moreira (1996)
chamam a atenção para a grande cautela que se deve ter ao adotar
certos conceitos – inclusive o de “urbanização”
– ao manejar estatísticas globais e ao realizar análises
macro sobre certas áreas da região Norte, pois pode ser que
não se levem na devida conta as dimensões, a natureza e as
características de um processo que esses autores denominam de uma
“nova ruralidade” em formação, principalmente nas
áreas de fronteira, da Amazônia Oriental, acrescentamos nós.
Esses autores destacam que a nova “...ruralidade avança, ainda na
escala regional e a nível administrativo, com a criação de
novos municípios...” e conseqüente rebaixamento da
superfície média do conjunto deles. De fato, essa
criação tem sido significativa, sobretudo em período mais
recente: de 195, em 1970, o número de municípios da região
Norte (não necessariamente nas áreas de fronteira) passou para
203, em 1980, para 298, em 1991 e para nada menos do que 450, apenas cinco anos
depois (1996). Segundo Hebette & Moreira,(1996, p. 393) “a
criação de municípios, em si, não é
necessariamente benéfica para a população; sua
lógica nem sempre é muito racional deste ponto de vista.
Entretanto, globalmente tomada, ela corresponderia à novidade da
situação, principalmente no caso paraense: ela remodela o
território, no sentido do que poderíamos chamar de um ecologismo
sócio-administrativo, em função notadamente das
concentrações populacionais e dos novos meios de
comunicação e socialização. Ela significa a
aproximação de serviços básicos ao alcance das novas
aglomerações (que vão surgir). Administrações
municipais distantes, às vezes, de dois a três dias de viagem em
barco, tornam-se acessíveis em algumas horas de transporte
rodoviário. Postos telefônicos, serviços de
assistência técnica à agropecuária, bancos
públicos e privados foram implantados...”. O que tais
observações parecem refletir é que o limiar
(“threshold”) urbano em nível local ou até mesmo
sub-regional surge, nessas áreas, em aglomerações humanas
de tamanho bem reduzido e que a importância de tais centros como
prestadores de serviços de uso coletivo não pode ser aquilatada
pela simples contribuição quantitativa que aportam ao crescimento
populacional da região.
4. A Dinâmica Migratória Recente
A dinâmica econômica que tomou corpo na
região, com atividades bem mais intensivas em capital e poucos efeitos
centrípetos sobre o que seriam as respectivas zonas de influência,
inclusive (para não dizer sobretudo) no que concerne a áreas de
fronteiras agrícolas, sugere ter havido redução, em
período mais recente, dos fluxos migratórios inter-regionais. O
fato de ainda ter persistido, no período 1980/1991, um ritmo
relativamente elevado de crescimento da população rural resultaria
de migrações internas pretéritas orientadas em
direção às fronteiras agrícolas da região,
sobretudo na primeira metade do referido período. Assim sendo, o
dinamismo migratório da região Norte, na década dos 80,
ainda teria sido, em boa medida, fruto da expansão demográfica e
econômica dessas fronteiras. Isto é o que sugere Martine (1994) em
estudo sobre a distribuição espacial da população
brasileira. Com base nos dados do Censo de 1991, esse autor levanta a
hipótese de que a existência de fluxos migratórios com
destino rural para a região Norte teria-se cingido, quase que
exclusivamente, aos primeiros anos do período 1980/1991, quando ainda se
faziam sentir alguns dos efeitos atrativos de vários programas e
políticas de desenvolvimento encetadas pelo setor público a partir
de décadas anteriores. Na segunda metade dos anos 80, para Martine, e nos
anos 90, acrescentamos nós, o crescimento populacional da Região
Norte, sem os atrativos à imigração rural, teria passado a
ser uma ocorrência de natureza quase que exclusivamente urbana, em grande
parte representada por migrantes que anteriormente haviam buscado os quadros
rurais de domicílio.
A diminuição na intensidade dos fluxos
migratórios inter-regionais para o Norte do País também
teria a ver com o arrefecimento da desruralização populacional
provocada pelas transformações na estrutura produtiva de alguns
estados do Sul, como o Paraná e o Rio Grande do Sul, impactantes nos anos
70 e início dos 80. Conjugar-se-ia a isto a rápida
redução havida desde então nas taxas de fecundidade das
populações rurais residentes nesses Estados que até
então figuravam como importantes emissores de população
para as regiões Norte e Centro-Oeste, bem como a própria
saturação quanto à abundância de terras
férteis baratas em algumas importantes áreas nortistas de destino
desses fluxos (caso de Rondônia, por exemplo). Suspeita-se que até
mesmo o Nordeste, que tradicionalmente tem participado como a principal
região de origem dos fluxos migratórios para a Amazônia,
tenha reduzido ou, pelo menos, estabilizado o volume dos seus fluxos devido, em
parte, à inexistência de uma grande seca durante o período
e, também, à redução significativa do seu potencial
emigratório por efeito da rápida queda da fecundidade que ali se
tem registrado nas últimas
décadas([8]).
Infelizmente, os dados do censo de 2000 que permitiriam
analisar com detalhes a migração interna ocorrida na Região
Norte em período recente somente estarão disponíveis a
partir do próximo ano. Em razão disto, serão aqui
utilizados como aproximação para esse efeito os dados da Contagem
Populacional realizada pelo IBGE em 1996, mesmo tendo-se, em conta de um lado, a
fluidez temporal que caracteriza a variável migratória e, de
outro, os percalços vários que afetaram a realização
do referido levantamento e, consequentemente, podem comprometer a sua
própria utilização.
Apresenta-se à Tabela 4 o número de migrantes
inter-regionais residentes no município onde foram captados pela Contagem
de 1996 e que dez e cinco anos antes (1986 e 1991, respectivamente) residiam em
outro município diferente daquele no qual habitavam por ocasião
desse inquérito. Quantificam-se, assim, os movimentos migratórios
nos quinquênios 1986/1991 e 1991/1996 referidos a datas fixas
pré-determinadas para o início de cada um deles. As
informações abaixo acham-se referidas aos movimentos
interestaduais ocorrido entre as macrorregiões de destino e origem dos
migrantes.
Tabela 4Região Norte: Migrantes Inter-regionais Segundo
Macrorregiões de Destino o Origem 1986/1991/1996
Fonte: Moura; Moreira.[1997], Tabela 11, p. 29.
Como é possível observar, estas
informações confirmam o que as inferências feitas a partir
de informações não específicas já estavam a
indicar: um forte e quase que generalizado esmorecimento do movimento
migratório inter-regional na primeira metade da década dos 90.
Ademais, os dados dessa Tabela, se comparados àqueles pertinentes aos
anos 80, também revelam que o referido esmorecimento seqüenciou e
intensificou a tendência que realmente já se manifestara na segunda
metade da década anterior, vindo a confirmar a suspeita de
Martine([9]).
Como se observa, entre um e outro desses quinquênios, o
saldo migratório regional caiu de metade. Isto se deu em
conseqüência de uma intensidade algo maior do declínio havido
no movimento imigratório em relação ao do movimento
emigratório. O fato é que, na primeira metade dos 90, a
Região Norte tornou-se deficitária em suas trocas da
população com todas as demais macrorregiões brasileiras,
excetuando o Nordeste, onde, mesmo assim, o respectivo saldo apresentou uma
queda da ordem de 15%. É de suspeitar, inclusive, que tais
déficits estejam, em alguma medida, associados a uma
intensificação da (e)migração de retorno, o que
contribuiria para explicar um ligeiro crescimento havido no número dos
emigrantes que deixaram o Norte em demanda ao Sudeste em anos recentes. Mas o
fato é que o Norte se tornou, nos anos 90 uma região de perdas
populacionais em favor de quase todas as demais regiões brasileiras
exceto o Nordeste.
A Tabela 5 apresenta, para cada Estado da Região Norte,
os movimentos migratórios interestaduais alusivos aos quinquênios
1986/1991 e 1991/96, segundo os âmbitos intra-regional e inter-regional de
ocorrência desses movimentos.
Através dela é possível perceber que a
entrada de migrantes, na maioria desses Estados, arrefeceu bastante no
último quinquênio. No Pará, por exemplo, que é o
Estado nortista mais destacado em termos de volume dos fluxos
migratórios, o movimento da imigração interestadual ali
registrada caiu de 20%, proporção esta que se verificou em bases
muito aproximadas, tanto no que toca aos fluxos de âmbito intra-regional,
como aos de âmbito inter-regional. Mas, sem dúvida, foi
Rondônia o estado da Região Norte a apresentar o maior
decréscimo relativo no tocante ao ingresso de migrantes: o seu volume
ficou reduzido, no quinquênio 1991/1996, a apenas 52% do que fôra no
quinquênio anterior. O Amazonas, por seu turno, teve esse ingresso
diminuído em uma quarta parte, enquanto que Roraima permaneceu com o
mesmo volume de imigrantes de origem intra-regional registrado no
quinquênio anterior, mas teve reduzida também em uma quarta parte o
influxo migratório de outras regiões do País.
Tabela 5Região Norte: Movimento Migratório Segundo o
Âmbito do Deslocamento, por Estado – 1986-91 e 1991-96 - (em
milhares)
I – Imigrantes
II – Emigrantes
III – Saldo Migratório
Fonte: Moura; Moreira.[1997], Tabela 12, p. 31.
Obs: Os saldos migratórios antecedidos de sinal
negativo indicam emigração líquida de
população e, quando positivos, indicam imigração
líquida.
As exceções quanto a esse comportamento disseram
respeito ao estado do Tocantins e, principalmente, ao do Amapá. No
primeiro deles, o número de imigrantes aumentou em pouco menos de 15%
mas, no segundo, apesar de sua menor expressão relativa no cômputo
da região, o incremento registrado chegou a nada menos do que 80%. Vale
referir também que, apesar da imigração de outras
regiões ter apresentado, no caso do Amapá, crescimento relativo
considerável, tendo praticamente duplicado, foi o crescimento do
número de imigrantes oriundos da própria região Norte
– historicamente o de maior significação em nível
desse Estado – o que mais contribuiu para o referido crescimento total. O
conhecimento factual da realidade aponta que o grosso desses imigrantes é
representado por populações desassistidas residentes nas Ilhas
paraenses próximas à foz do Amazonas que migram para Macapá
em busca dos benefícios propiciados pela infra-estrutra social lá
existente.
A exemplo do que ocorreu com a corrente (i)migratória
dominante, também se registrou, no tocante à maioria dos Estados,
um esmorecimento da respectiva contracorrente (e)migratória. Apenas o
Amapá, o Pará e Roraima apresentaram, no segundo quinquênio,
volumes de emigrantes superiores aos do período anterior. Vale considerar
também que apenas o último destes Estados mostrou crescimento
relativo de alguma expressão no seu diminuto volume
emigratório.
A desintensificação havia nos fluxos
emigratórios da maioria dos Estados evitou que os respectivos saldos
migratórios despencassem ainda mais do que o fizeram. O fato é
que, no quinquênio 1991/1996, somente Roraima, Amapá e Tocantins
apresentaram saldos positivos e, apenas nestes dois últimos, crescentes
em relação aos do quinquênio anterior. Os estados de
Rondônia e do Pará foram aqueles cujos saldos mais
diminuíram em termos absolutos, chegando a se tornar negativos.
É bem possível que essa
desentensificação esteja manifestando uma maior capacidade de
retenção dos fluxos migratórios previamente chegados a
maioria dos Estados, paralelamente a uma redução nos estoques dos
emigrantes em potencial.
Tabela 6
Região Norte – Pessoas que não Residiam
no Município de Residência Atual em 1/9/91, Segundo a Origem do
Movimento Migratório, por Unidade de Federação –
1/9/1996
(*) Inclusive Exterior e origem ignorada
Fonte: Moura; Moreira.[1997], Tabela 14, p. 35.
A Tabela 6 detalha o movimento migratório havido no
quinquênio 1991/1996 pertinente a cada Estado da região Norte
segundo sua origem interestadual ou intra-estadual. Percebe-se que, na maioria
dos casos, predominaram fluxos de natureza intra-estadual, ou seja, aqueles que
se verificaram a curta distância, entre municípios do
próprio Estado. Em nível de região Norte, os migrantes de
origem interestadual corresponderam a 47% do total, contra 52% daqueles que
realizaram migração intra-estadual.
As principais exceções corresponderam aos
Estados do Tocantins e, principalmente, Amapá e Roraima. Os migrantes de
origem interestadual (não necessariamente de origem inter-regional)
representaram algo mais de quatro quintas partes de todos aqueles que se
deslocaram para o Amapá e para Roraima durante o quinquênio
1991/1996. Tocantins também mostrou uma participação
levemente majoritária dos migrantes de origem interestadual.
No caso da migração intra-estadual, a sua maior
incidência relativa registrou-se nos anos 90, no Estado do Pará,
onde os migrantes desse tipo corresponderam a cerca de três quintas partes
do total.
Tendo em conta as tendências já identificadas de
concentração da população nortista nos principais
centros urbanos, geralmente as capitais dos Estados, procurou-se distinguir esse
movimento (i)migratório ocorrido no quinquênio 1991/1996 segundo a
sua localização ou não na microrregião de cada
capital de Estado.
Dessa observação destaca-se, de um lado, que em
nível das microrregiões das capitais, os migrantes de origem
interestadual revelaram-se majoritários no Amapá, Roraima,
Tocantins, Rondônia e Amazonas. De outro, que a microrregião da
capital do Pará, Estado que isoladamente apresenta o maior volume de
(i)migrantes, constituiu uma das exceções (sendo a outra a
microrregião da capital do Acre) onde foi maior a incidência
relativa (cerca de 74%) de migrantes de curta distância, oriundos dos
próprios municípios do Estado.
A Tabela 6 também destaca a importância relativa
da microrregião da capital no que toca à
“absorção” dos (i)migrantes referidos aos respectivos
Estados onde residiam por ocasião da contagem populacional de
1996.
Rio Branco (AC) e Macapá (AP) foram as duas capitais
submetidas à maior pressão da (i)migração ocorrida
na primeira metade dos anos 90. As microrregiões dessas duas capitais
teriam sido responsáveis por 75% ou mais por cento da
absorção dos migrantes desses dois Estados, tanto os de natureza
interestadual, como os de natureza intra-estadual. Ao contrário, as
microrregiões de Belém (PA), Porto Velho (RO) e Palmas (TO) teriam
sido aquelas submetidas a uma menor pressão relativa. Já as
microrregiões de Manaus (AM) e Boa Vista (RR) destacaram-se pelo fato de
a pressão migratória relativamente intensa a que estiveram
submetidas durante o quinquênio ter sido principalmente decorrente de
movimentos migratórios interestaduais, sendo de pouca expressão
relativa aquela decorrente de fluxos oriundos de municípios dos
próprios Estados.
Chama-se a atenção para última coluna da
Tabela 6 que apresenta as razões de sexo dos contingentes (i)migrantes
segundo o Estado e as microrregiões de localização.
Percebe-se que, na maioria dos casos, prevaleceram em tais contingentes
proporções maiores de elementos do sexo masculino,
proporções estas que, em geral se mostraram menos desequilibradas
com respeito aos contingentes que passaram a residir na microrregião da
capital. Chamam a atenção, porém, os casos dos contingentes
(i)migrados durante o quinquênio nas microrregiões de Palmas (TO)
e, principalmente, de Belém (PA), que excepcionalmente se caracterizaram
por uma participação majoritária de elementos do sexo
feminino.
Finalmente, cumpre mencionar os movimentos
transfronteiriços de indocumentados, uma vertente migratória nova
na região Norte. Mesmo sem ainda se ter levantamentos mais gerais a
respeito desses fluxos, estudo realizado com relação ao Estado do
Amazonas denotou, em primeiro lugar, a dificuldade que têm os instrumentos
de coleta convencionais (Censos, Contagem, etc.) para captar este tipo de fluxo.
Trata-se de uma população que prefere se manter na clandestinidade
diante do risco de ser deportada. Portanto, pouco se sabe ainda a respeito
desses migrantes, quais as suas origens, suas características
básicas em relação à idade, ao sexo, à
escolaridade, etc.
Há indícios, porém, de que se trata de um
fluxo em pleno crescimento e que o reduzido número de 1.026 estrangeiros
residentes no Estado do Amazonas captado pela Contagem Populacional de 1996
está longe de representar uma grandeza real se comparado aos de duas
outras fontes que também podem propiciar informações a
respeito. Assim é que, segundo a Polícia Federal, o número
de migrantes estrangeiros entrados no Estado do Amazonas, no período de
1995 a 2000, teria sido de 106,8 mil pessoas e o número de saídas,
no mesmo período, de 91,2 mil. Assim sendo, o número anual de
entradas e saídas de estrangeiros no estado do Amazonas teria sido de
17,8 mil e 15,2 mil, respectivamente, havendo, portanto, um excedente
médio anual de 2,6 mil entradas em relação ao número
de saídas. Portanto, o saldo deste movimento durante o período
mencionado estaria correspondendo, só no Estado do Amazonas, a um
acréscimo de 15,5 mil estrangeiros que teriam ingressado no Estado.
É possível, porém, que parte deste saldo, a julgar por
outras informações, se escoe para outros Estados da
Amazônia, para o resto do Brasil ou mesmo para outros países
fronteiriços.
Outra fonte de informações acerca da
migração estrangeira é o Serviço da Pastoral do
Migrante, que tem uma presença ativa no Estado através de
várias paróquias católicas. Segundo a Pastoral, a
população de imigrantes estrangeiros que estaria residindo no
Amazonas à virada do século pode ser estimada em torno de
aproximadamente 40 mil pessoas, grande parte da qual representada por nacionais
peruanos ïndocumentados.
Segundo a Pastoral, tais migrantes nada teriam a ver com o
narcotráfico, como muitos falsamente poderiam imaginar. São
migrantes pobres que buscam, em geral, melhores condições de vida
no Brasil. Chegam geralmente solteiros, com idades entre 25 e 34 anos, com
alguma escolaridade de nível técnico. Os casados ou em
união consensual acabam deixando para trazer a mulher e os filhos quando
já instalados no Estado. O número médio de filhos tidos por
estes casais encontra-se ao redor de dois. Tais migrantes trabalham,
principalmente, no comércio ambulante, alguns prestam assistência
técnica em domicílios, ou trabalham como carpinteiros, ou em
serviços gerais. Geralmente, suas condições de vida
são precárias em relação ao acesso a serviços
básicos de educação, saúde, saneamento, ao emprego
formal, etc.
O ingresso desses imigrantes no Estado se dá tanto por
via terrestre mas, principalmente, por via fluvial, através dos diversos
barcos que atracam nos vários portos existentes. O preço
acessível da passagem facilita-lhes a viagem.
Esses imigrantes sofrem constrangimentos de toda ordem:
freqüentemente, os nacionais, ao descobrirem sua situação de
clandestinidade, procuram tirar proveito financeiro da mesma. Por isto, tais
migrantes vivem, muitas vezes, em condições desumanas, residindo
em habitações precárias e carentes de direitos que lhes
permita a utilização de serviços básicos de
saúde, de educação, de abastecimento d’água de
esgotamento sanitário, de lazer, etc.
Este, portanto, é um tipo de movimento
migratório que precisa ser melhor conhecido já não se
mostra quantitativamente desprezível e deverá crescer de volume na
medida em que se acentuem os atuais conflitos e problemas fronteiriços.
Tal conhecimento também se justifica em termos de uma base para
proposições de medidas a serem implementadas em benefícios
dessa população indocumentada que trabalha e reside no
País. Como se recorda, o Brasil é signatário de
convenções internacionais como a que assinou por ocasião da
Conferência Mundial de População, do Cairo, em 1994,
patrocinada pelas Nações Unidas, em cujo capítulo sobre a
migração internacional foi firmado pelos países-membros o
compromisso de tomar providências efetivas no sentido de resolverem ou
amenizarem, até mesmo por questão humanitária, esse tipo de
problema.
5. Territorialidades em Formação na
Região Norte
Prevê-se que novas territorialidades deverão
surgir em breve na Região Norte, algumas das quais na esteira do Projeto
Calha Norte liderado pelo Exército brasileiro. Este tem como um dos seus
objetivos últimos alocar população brasileira ao longo dos
6,0 mil quilômetros da desguarnecida fronteira do Brasil com a Venezuela,
Colômbia, Peru e Guianas. O projeto vem sendo implementado desde 1985, com
maior ou menor ímpeto, inspirado em preocupações com a
segurança nacional . Atua no sentido de estimular o povoamento de uma
área esparsamente habitada situada na Amazônia Ocidental
brasileira, ao norte dos rios Amazonas, Solimões e Negro. A
execução do projeto sofreu um certo esmorecimento nos primeiros
anos da década dos 90 mas foi retomada em 1996. Presentemente, já
estão implantadas 17 unidades militares ( em nível mínimo
de pelotão) e cinco outras encontram-se em fase de
implantação. A idéia é que tais unidades venham
futuramente a se transformar em núcleos urbanos que dificultem
invasões fronteiriças. No sentido de dinamizar esses futuros
núcleos, o Governo brasileiro tem investido e/ou deverá continuar
investindo em infra-estrutura física (pequenas centrais elétricas
por exemplo) e social (hospitais, principalmente) no sentido de atender e
também de adensar a esparsa população indígena e/ou
cabocla que habita a região sob influência do projeto (v. Mapa
II).
Foi no seio das discussões pertinentes às
estratégias de ação do Projeto Calha Norte que surgiram as
primeiras propostas de desmembramento de uma parte do Estado do Amazonas, na sua
porção mais ocidental, e a fim de transformá-la em
Territórios a serem administrados pela União. Atuariam como uma
espécie de base de apoio ao projeto. Posteriormente, surgiram
várias outras propostas de desmembramentos de Estados situados na
Amazônia Legal, como as da criação dos Estados do
Tapajós e Araguaia, a serem desmembrados dos Estados do Pará e do
Mato Grosso, respectivamente (neste último caso, o Estado proposto
situa-se na Amazônia Legal mas fora da Região Norte). O fato
é que já se acha em discussão, no Senado Federal, um
projeto de lei do Senador Mozarildo Cavalcanti (PFL-RR) que consolida
várias dessas propostas. Além da criação dos Estados
do Tapajós e do Araguaia, propõe-se também a
criação dos Estados do Rio Negro, Juruá e do
Solimões, a serem desmembrados do Amazonas. Neste caso, já existe
até um substitutivo do Senador Jeferson Peres (PDT-AM) que altera
proposta de criação destes Estados em favor da
criação de Territórios Federais. No fundo, estaria latente
uma preocupação com a disponibilidade de recursos financeiros para
investir nessas futuras Unidades da Federação, algo que se
viabilizaria através da União no caso de prevalecer o
substitutivo.
Vale notar que esta proposta de criação de novos
Territórios a partir da configuração atual do Estado do
Amazonas já está dando margem a um intenso debate no seio da
sociedade amazonense. Os argumentos prós e contras vêm sendo
desenvolvidos, ao sabor de grande paixão, e nos seus mais diferentes
aspectos (ambientais, geopolíticos, sócio-econômicos,
geográficos, políticos, administrativos, de segurança
nacional, etc.) Oxalá desta discussão venham a resultar propostas
que contemplem a maioria das questões envolvidas e sejam, ao final de
contas, consentâneas com as necessidades da população e com
a preservação do ambiente natural amazônico. Mas vale
advertir que a implementação da proposta envolve ainda um longo e
penoso processo. Ela exigirá, entre outras coisas, a
realização de plebiscitos com as populações
envolvidas, votação posterior e confirmação dos
resultados pela Assembléia Legislativa do Estado e, em caso de
aprovação, votação no Congresso Nacional,
além de toda uma série de outras providências orientadas no
sentido de implantar um mínimo de infra-estrutura
político-administrativa em vastas áreas onde ela é
praticamente inexistente.
Mapa II – Região de Influência do Projeto
Calha Norte
![]() Tabela 7Região Norte: Territorialidades em
Formação – 1991/2000
Fonte: IBGE. Censos Demográficos
É possível que, pelo menos de início, a
criação destes novos territórios venha
“esvaziar” os respectivos interiores, pelo fato de as melhores e
maiores oportunidades de emprego serem criadas nas futuras capitais.
O objetivo principal deste texto, a esta altura, é
apresentar os perfis populacionais das novas Unidades de Federação
que se intenta criar na Região Norte propriamente dita:
Territórios do Rio
Negro([10]).
Solimões([11]) e
Juruá([12]), a
serem desmembrados do Amazonas, e Estado de Tapajós, a ser desmembrado do
Pará. Os dados referidos à Tabela 7 revelam, inicialmente com
relação aos futuros territórios “amazonenses”,
situados nas mesorregiões do Norte e Sudeste amazonense:
Além dessas características,
informações outras aqui não explicitadas revelam a
prevalência de:
Quanto ao Estado do Tapajós,
deverá abranger 22 municípios que integram as mesorregiões
do Baixo Amazonas e Sudeste Paraense. As informações constantes da
Tabela revelam que o mesmo, ao ser criado, já deverá contar com
uma população de aproximadamente 1,0 milhão de habitantes,
correspondentes a cerca de 16,0% da atual população paraense. Essa
população estaria crescendo a um ritmo inferior à do
Pará como um todo. Por sua vez, mais da metade estaria residindo em
quadros de domicílio urbanos, dentre os quais avultaria aquele
representado pela importante cidade de Santarém, situada na
confluência dos rios Amazonas e Tapajós que, provavelmente,
deverá ser indicada como a capital do novel Estado.
6. Considerações Finais
Qualquer projeto de efetiva ocupação do
espaço amazônico pela presença física do elemento
humano tem que ser espacialmente seletivo, quando se tem em conta a
dinâmica demográfica regional e, em especial, a nacional.
A trajetória recente da população
amazônica não permite antecipar nenhuma possibilidade de que uma
significativa expansão espacial da presença humana ocorra com base
nos estoques regionais. O crescimento vegetativo regional é incapaz por
si só de promover um crescimento populacional suficiente para ampliar de
forma significativa a expansão da densidade demográfica regional.
Em escala nacional as taxas de crescimento são menores ainda em
função da acelerada queda de fecundidade ocorrida nos
últimos decênios, situando-se em níveis atuais já
bastante próximos da reprodução, o que significa que, na
eventualidade de que venham a declinar ainda mais, que o Brasil apresente taxas
de crescimento negativas ainda neste século. As restrições
a um processo de disseminação populacional são ampliadas
quando se encontra que todos os indicadores apontam para um forte processo de
urbanização da população amazônica com forte
concentração nas capitais estaduais e alguns núcleos de
médio porte. As pequenas comunidades dispersas pelo interior dos estados
apresentam, quando não taxas de crescimento negativos, incrementos muito
modestos, afirmando claramente a opção preferencial da
população em assentar-se em núcleos que desfrutam de uma
razoável infra-estrutura de serviços sociais e possíveis
alternativas de renda.
As tendências de crescimento da população
brasileira não permitem nenhum otimismo quanto à possibilidade de
repetição de substantivos fluxos migratórios advindos de
excedentes populacionais. Não só o estoque de migrantes potenciais
declinou substantivamente em função da queda da fecundidade, como
a própria movimentação populacional mostrou mudanças
estruturais de natureza tal a não permitir nenhum otimismo quanto
à possibilidade de que a ocupação da Amazônia se
faça por meio da imigração. A região mostra
indícios de estar se tornando perdedora líquida de
população para o restante do País, exceto quanto ao
Nordeste – e ainda assim em razão das amplas
comutações populacionais na fronteira do Maranhão com o
Pará e Tocantins. Mesmo assim, no que depender de excedentes
demográficos este movimento tende a diminuir, na medida em que
também no Nordeste tem sido intensa a queda da fecundidade. Para reduzir
ainda mais o movimento populacional em direção a Amazônia
há que se ter em conta que o conjunto de fatores de expulsão da
população do Centro-Sul para a Amazônia parece ter-se
esgotado, assim como parece estar concluído o processo de direcionamento
da população, em grandes números, para Rondônia e seu
entorno imediato. O que se observa mais recentemente é a cauda dos
movimentos de criados pela força dos amplos fluxos migratórios que
adentram a região no passado recente e criaram as condições
para a chegada destes novos migrantes. São movimentos com origem e
destino determinados, de pequeno volume numérico, estruturalmente
distintos dos movimentos anteriores, mas nem por isso menos importantes para o
processo de efetiva ocupação da região do que as
maciças migrações de trabalhadores sem terra e pequenos
proprietários que ocuparam a Amazônia no período recente.
Os novos possíveis pólos de dinamismo regional
gerados a partir dos investimentos em infra-estrutura que permitiram a
regularização do fluxo do Madeira e a construção do
porto de Itacoatiara, abrindo a oportunidade de escoamento da
produção agrícola para o mercado internacional; a
consolidação dos eixos-rodoviários da
Cuiabá-Santarém, Cuiabá-Porto Velho, Manaus-Venezuela,
além das projetadas construções rodoviárias; a
expansão da produção energética no eixo
Tucuruí; os efeitos irradiadores da produção de gás
e petróleo no Juruá, quando associados aos pólos anteriores
desenham um processo de ocupação demográfica seletiva ,
pontual, em torno destes eixos de expansão, em termos distintos do que
ocorreu até agora.
Afetar estas “tendências naturais” demanda
políticas deliberadas de planejamento do desenho e de
intervenção do setor público sobre os rumos da
ocupação da Amazônia brasileira.
7. Referências Bibliográficas
AJARA, César. “Os Processos Recentes de
Ocupação Expansão e Apropriação das
Fronteiras Amazônicas”, IN: MOURA, Hélio A. de (Org.) A
Pesquisa Social na Amazônia: Avanços Lacunas e Prioridades.
Recife: Editora Massagana, 1996, p. 16-31.
BRASIL, Marília C. Os Estados do Pará e do
Tapajós: uma discussão. Manaus: FJN/IESAM, s/data,
inédito.
BRASIL, Marília de C. “Urbanização
na Região Norte: Uma Análise Exploratória das
Mesorregiões: IN: SANTOS, Taís de F. (Coord.) Dinâmica
Populacional das Regiões Norte e Nordeste: Questões Atuais e
Emergentes. Recife: Editora Massagana, 2000, p. 139-162.
CAETANO, André J. Migrações nos
Municípios das Capitais da região Norte na Década de
70, Manaus: FJN/IESAM, 1998, Texto IESAM nº 6.
HEBETTE, Jean; MOREIRA, Edna S. “Situação
Social nas Áreas Rurais Amazônicas”; Cadernos de Estudos
Sociais, Recife, v. 12, n.2, jul/dez 1996, p..383-406
MARTINE, George. A Redistribuição Espacial
da População Brasileira Durante a Década de 80,
Brasília: IPEA, 1994, Texto para discussão n. 319.
MOREIRA, Morvan de M. “Regiões Norte:
Evolução populacional Recente” IN: SANTOS, Taís de
Freitas (Coord.) Dinâmica Populacional das Regiões Norte e
Nordeste: Questões Atuais e Emergentes. Recife, Massangana, 2000, p.
45-82.
MOURA, Hélio A.; MOREIRA, Morvan de M. As
Migrações na Região Norte em Período Recente: Uma
Abordagem Preliminar. Manaus: FJN/IESAM, [1997], Textos IESAM, n.
1.
MOURA, Hélio A.; TEIXEIRA, Pery.
“Tendências Recentes do Crescimento Populacional do Nordeste”,
Estudos Avançados, São Paulo, v. 11, n. 29, jun/abr, 1997,
p.95-116.
OLIVEIRA, Luiz Antonio P. de. Comentários a AJARA,
César; “Os Processos Recentes de Ocupação,
Expansão e a Preocupação das Fronteiras” IN: MOURA,
Hélio A.de. A Pesquisa Social na Amazônia: Avanços,
Lacunas e Prioridades. Recife: Massangana, 1996, p. 35-38.
OLIVEIRA, Luiz Antonio P. de. “Perfil das
Condições de Vida na Amazônia” Cadernos de Estudos
Sociais, Recife, v. 12, n.2, jul/dez, 1996, p. 181-202.
RODRIGUES, Roberto N. & Wong, Laura R.
“Evolução da Fecundidade na Região Norte do
Brasil” Cadernos de Estudos Sociais, Recife, v. 12, n.2, jul/dez,
1996, p. 315-344.
SANTOS, Carlos A. dos; MOURA, Hélio A. A Divisão
do Estado do Amazonas: achegas no debate. Manaus, FJN/IESAM, 2001,
inédito.
SANTOS, Carlos A. dos et al. “Personae Non
Gratae?” A Imigração Indocumentada no Estado do Amazonas.
IN: ABEP. ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS, 12, Caxambu. Anais...Belo
Horizonte, ABEP, 2000 (Em CD-ROM).
TEIXEIRA, Pery. “Níveis e Tendências da
Mortalidade na Região Norte” Cadernos de Estudos Sociais,
Recife, v. 12, n. 2, jul/dez, 1996, p. 341-356.
[*] Superintendente do
Instituto de Estudos sobre a Amazônia da Fundação Joaquim
Nabuco.
[**] Diretor do Departamento de
Pesquisas Populacionais do Instituto de Pesquisas Sociais da
Fundação Joaquim Nabuco.e Professor da Universidade Federal de
Pernambuco
[1] - A Região Norte
é constituída pelos Estados de Rondônia, Acre,
Amazônia, Roraima, Pará, Amapá, e Tocantins.
[2] - Oliveira (1996)
[3] - Cf. Rodrigues; Wong
(1996) , p. 315-344, notadamente Tabela 3, pág. 322.
[4] - Teixeira (1996),
notadamente Tabela 3, p.348.
[5] - Santos et al. (2000)
[6] - Assim consideradas pelo
fato da sua classificação atender exclusivamente a
critérios de natureza política-administrativa.
[7] - Ver, a propósito,
Brasil (2000)
[8] - Moura; Teixeira.
(1997), notadamente tabela 20.
[9] - Martine, George, op.
cit.
[10] - Constituído
pelos Municípios de Barcelos, São Gabriel da Cachoeira e Santa
Isabel do Rio Negro.
[11] - Municípios de
Alvarães, Amaturá, Atalaia do Norte, Benjamin Constanti, Fonte
Boa, Japurá, Jutaí, Máraã, São Paulo de
Olivença, Souto Antonio de Içá, Tabatinga, Tocantins,
Uariri.
[12] - Municípios de
Carauari, Eurinepé, Guajará, Ipixuma, Itamarati e
Juruá.
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||