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TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 110/2001 Abril • 2001 |
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PENSAMENTO ECONÔMICO, SABER
ECOLÓGICO TRADICIONAL E ETNOECONOMIA: UMA PROPOSTA INTRODUTÓRIA DE
NOVA PERSPECTIVA DISCIPLINAR
Clóvis Cavalcanti |
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Resumo
O estudo de sociedades na periferia do capitalismo, em que
sobressaem regimes de troca fundados no altruísmo, leva à
observação de formas locais de realizar o processo
econômico. Esta tem sido uma contribuição da antropologia
econômica, que, usando em muitos casos instrumentos da análise
econômica, tem aberto caminho para a compreensão de modos
alternativos de organização da vida econômica em diferentes
povos. Só que, hoje, manifesta-se um desafio novo, contido na
noção do desenvolvimento sustentável, cuja
solução requer mais do que alocação eficiente de
recursos. Isto impõe a necessidade da discussão dos limites
impostos pela natureza (de ordem ecossistêmica, biofísica,
termodinâmica) no processo econômico. Trata-se de examinar o
problema da escala sustentável do sistema econômico. O pensamento
econômico convencional não é um bom guia para a
solução dos desafios da sustentabilidade de longo prazo. Uma
visão distinta do processo econômico se impõe aqui – o
que já é objeto de reflexão por muitos grupos, inclusive os
que se ligam à chamada economia ecológica. Neste particular,
referências sólidas podem ser também encontradas,
partindo-se do saber ecológico tradicional (de sociedades primitivas,
tribais, aborígines, não-letradas, não-pecuniárias,
indígenas), naquilo que, junto com o etnociencista de Oxford,
recentemente falecido, Darrell Posey, estou chamando de etnoeconomia. É
sobre esse conceito, que integra, na perspectiva dos povos tradicionais ou
primitivos, suas percepções da realidade – as quais envolvem
natureza, homem, sociedade e o mundo sobrenatural –, que o trabalho
fará algumas propostas de desenvolvimento disciplinar.
Palavras-chave: Economia, Etnociência, Etnoeconomia,
Sustentabilidade, Dádiva
Introdução
O tema deste trabalho poderia ser facilmente confundido com o
que a antropologia econômica faz. Com efeito, como o antropólogo
brasileiro Roberto DaMatta assinalou em comunicação quando comecei
a refletir sobre o assunto, tudo o que a antropologia cultural ou social tem
elaborado desde seus começos como disciplina acadêmica poderia ser
classificado como “etnoeconomia”. Quem quer que tenha estudado
sociedades na periferia do capitalismo (moderno, civilizado ou selvagem) e feito
um esforço para compreender regimes de troca fundados no
altruísmo, tem referido a formas locais (“etnoformas”,
poderíamos dizer) de cada povo de realizar o processo econômico.
Certamente, a enorme contribuição do trabalho antropológico
sobre sociedades “primitivas” ilumina o caminho para
compreensão de modos alternativos de organização da vida
econômica de distintos povos. Entretanto, hoje em dia, um novo desafio
para o progresso material tem tomado a forma da noção do
desenvolvimento sustentável. Nessa perspectiva, não se
concebe mais o problema econômico de um grupo de indivíduos em
termos apenas de alocação eficiente. É da maior
relevância contemplar o requisito concomitante de sustentabilidade, que
significa encontrar soluções tanto eficientes quanto
compatíveis com limites impostos pela natureza (os quais, por sua vez,
devem ser reconhecidos). Em outras palavras, não é qualquer
tamanho do sistema econômico que pode ser alcançado. A natureza, o
ecossistema, regras biofísicas e termodinâmicas determinam o que se
pode alcançar em dada situação (cf. Daly, 1996).
Este é um problema que exige que se indique a escala da economia que se
pode sustentar, somente depois do que é que a alocação
eficiente – foco central da teoria econômica tradicional –
pode ser empreendida.
Na antropologia econômica, procura-se entender o
processo pelo qual certos meios – que englobam parâmetros
universais[1] na experiência humana –
permitem a realização de determinados fins, como quer que estes
sejam definidos. Conforme Polanyi (1944) assinala, por sua vez, “a
lição da antropologia econômica é a fusão
inextricável da organização econômica com a social e
a cultura em sociedades primitivas” (Dalton, 1971: 16). A idéia,
bem exposta por Gras (1927) e por Herskovits (1965), é de prover um senso
da variação que marca a maneira pela qual as pessoas, em toda
parte, aplicam meios escassos para a obtenção de determinados
fins. O comportamento econômico, nessa ótica, é entendido
como um esforço para se usarem recursos tendo em vista a
satisfação de certas necessidades dentro das
restrições fixadas pelos primeiros. Isto é precisamente o
que o economista convencional contempla como foco de sua análise. A
antropologia econômica apropria-se dessa interpretação,
aplicando-a às circunstâncias encontradas em grupos que, entre
outros adjetivos, são alternativamente chamados de primitivos,
inferiores, tribais, de bando, camponeses, aborígines, pequenos,
exóticos, rústicos, arcaicos, não-materiais,
não-letrados, não-máquina, não-pecuniários,
tradicionais, indígenas, etc. Considerando-se que essa
percepção está muito mais ligada ao mundo
microeconômico da satisfação de desejos e
produção de bens e serviços, um novo desafio surge quando a
busca de sustentabilidade em termos ecológicos se torna igualmente
proeminente. O pensamento econômico tradicional, mais voltado para
situações de curto prazo, quando se conhece a
dotação de recursos existente, não parece oferecer uma base
firme para que se alcancem soluções ecologicamente
sustentáveis de longo prazo, situação em que é
variável a disponibilidade de recursos. Este é o momento em que
uma nova visão do processo econômico deve ser formulada, de forma
que o conceito de desenvolvimento sustentável possa ser considerado de
modo rigoroso. A economia ecológica (ver Costanza, Daly &
Bartholomew, 1991) pretende exatamente suprir o fundamento necessário de
uma ciência para a gestão da sustentabilidade. Nesse contexto,
é minha suposição, uma série de referência
sólidas pode ser encontrada no domínio do que estou chamando
– após o termo ter sido cunhado por meu amigo, o saudoso
etnocientista Darrell Posey[2] –
“etnoeconomia”[3]. Este é um
território não somente das peculiares perspectivas
econômicas dos povos indígenas e tradicionais, mas também de
suas ricas percepções acerca de uma ordem superior da realidade,
na qual a economia se integra com a natureza, a organização
social, a cultura e o mundo sobrenatural, constituindo apenas um elemento
adicional desse grande todo.
Pessoalmente, imagino que, para chegar à etnoeconomia,
devamos partir da economia convencional, apesar de seu viés de curto
prazo e de suas matrizes teóricas estabelecidas – realizando, na
verdade, uma longa caminhada. Algo desse teor tenciono realizar aqui, ainda que
de modo embrionário, despretensioso e preliminar, discutindo algumas das
bases da ciência econômica na segunda seção deste
trabalho e apresentando minha noção de
etnoeconomia[4] na quarta seção.
Para efetuar o movimento de uma à outra, entre outros elementos,
parecemos necessitar da ajuda, como uma ponte, do saber ecológico
tradicional, que é o tópico da terceira seção do
trabalho. Talvez isto se deva, como Dalton (1971: 21-23) acentuou, à
incapacidade que os antropólogos teriam para perceber economias tribais
de maneira diferente das que propõem, por exemplo, a teoria marshalliana
dos mercados ou a análise marxista. Ao mesmo tempo, os economistas
mostram grande dificuldade para compreender economias marcadamente distintas da
nossa própria, como se elas não pudessem existir.
Pensamento Econômico e Sociedades
Exóticas
Como economista que se julga de perfil menos ortodoxo,
indagado sobre qual seja a principal tarefa da economia, sinto-me inclinado a
seguir a corrente dominante e dar ênfase ao papel da economia de explicar
comportamento humano condicionado pela escassez. A vida é uma
sucessão contínua de escolhas que representam o confronto de
diferentes valorações. Isto ocorre porque, de algum modo, os
recursos, inclusive e sobretudo o tempo (mesmo no longo prazo), são
escassos. Portanto, o atingimento de fins é restringido pela escassez dos
meios. Se um fim é preferido, isto envolve o sacrifício de outros.
Não é por outra razão que uma das mais bem conhecidas
definições da economia, a que gosto de referir, sublinha o fato de
que a economia “é a ciência que estuda o comportamento humano
como uma relação entre fins e meios escassos que têm usos
alternativos” (Robbins, 1984: 16). Nas palavras de Alfred Marshall (1961:
xv), por outro lado, a economia ou teoria econômica diz respeito
principalmente a seres humanos que são impelidos para a mudança e
o progresso. Sua definição de economia, que ele iguala à
economia política, consiste em dizer que ela se dedica ao exame
“daquela parte da ação individual ou social que está
mais estreitamente conectada com o alcance e o uso dos requisitos materiais do
bem-estar” (Marshall, 1961: 1). Esta é uma
interpretação que se enquadra dentro dos moldes da economia como
uma disciplina que trata de escolhas ou como análise de comportamento do
consumidor sob condições de desejos ilimitados e recursos finitos.
Implícita nessa visão encontra-se a idéia de que se
comportar de maneira econômica significa tornar a atividade de uma pessoa
ou de uma organização “eficiente”, ao invés de
desperdiçadora (Knight, 1965: 510). Significa escolher o curso de
ação menos custoso ou aquele que maximiza os benefícios da
ação.
Para Marshall (1961: 1), pode-se delinear a
função da economia como o estudo da humanidade “em seu
habitual negócio da vida”, com a escassez de meios para a
satisfação de fins de importância variante constituindo uma
restrição praticamente ubíqua. É papel do economista
explicar como meios escassos podem ser empregados, como o modo pelo qual
diferentes graus de escassez de diferentes bens dão origem a diferentes
relações de valoração entre eles e a maneira pela
qual mudanças nas condições de escassez afetam essas
relações. Quando uma atividade envolve o abandono de outras
atividades desejadas, o que é a essência do problema de escolha,
seu aspecto econômico é exibido exatamente nesse problema. Isto
é o que, por sua vez, define custos em termos de oportunidades perdidas.
Para que se tomem decisões (escolhas sejam feitas), necessita-se de
alguma espécie de orientação, sejam ela preços,
valorações de um organizador ou planejador, ou o comando de um
patriarca ou chefe. Como Malinowski (1921: 12) assinalou no caso de uma economia
tribal, “a função econômica do chefe é criar
objetos de riqueza e acomodar provisões para uso tribal, dessa maneira
tornando possível as grandes empresas
tribais”[5]. Robbins (1984: 47) entende, de
sua parte, que “a riqueza é riqueza porque é escassa”,
não por causa de suas qualidades substantivas. O significado da economia,
pois, resumir-se-ia à questão de que, em face de uma escolha entre
determinados fins, ela possibilita optar-se por esta ou aquela alternativa com
inteiro conhecimento das implicações da escolha feita.
Tal percepção é diferente, convém
lembrar, da que postula o pensamento clássico da economia
política, cujo foco reside no problema da reprodução
social e econômica com que todas as sociedades se deparam e que solucionam
das mais diversas formas. Assim, no centro focal dos primeiros economistas
políticos (séculos XVIII-XIX) encontram-se as
relações sociais de reprodução de sistemas sociais
particulares. Todas as sociedades, para se reproduzirem, devem produzir,
consumir, distribuir, trocar. Esse problema é tratado na economia
convencional do ponto de vista mais estreito da racionalidade econômica,
que se entende como o uso de meios deliberados, desenhados ou planejados para a
realização eficiente de determinados fins (Knight, 1965: 513), o
que oferece uma classe de paradigma distinto do da economia política. De
fato, trata-se, este último, de um enfoque que privilegia o estudo de
relações sociais de reprodução ao invés do
estudo da escolha individual. Via de regra, os economistas defendem a
idéia de que “os princípios mais gerais [da economia]
não são diferentes em diferentes situações de
cultura – exatamente como os princípios da matemática
não diferem” (Knight, 1965: 510). Tal posição
é elaborada por Robbins (1984: xiii) com base no fato de que “mesmo
onde não existe mercado, o aspecto econômico das decisões e
atividades relacionadas com tempo e meios escassos pode ser encarado como uma
operação de troca de uma situação de negócios
por outra”. Entretanto, argumenta-se corretamente que a teoria
econômica foi desenvolvida para explicar o caso especial da economia
capitalista européia, trazendo dessa forma, à baila, o problema
imediato da utilidade de tal teoria para a compreensão de economias
não-européias (Gregory, 1982: 6). Por sua vez, os sistemas
econômicos reais são contingências históricas
transitórias. Dando conta disso, Marshall (1961: 29) identifica a tarefa
da economia como sendo colecionar fatos, arrumá-los e
interpretá-los, e deles retirar inferências. Mas isso não
é o que faz o economista típico, e sim o antropólogo,
sobretudo o praticante da antropologia econômica, que procura
generalizações válidas a partir de uma base ampla de
material fatual. Nisso reconhece o significado do primeiro mandamento da
ciência, de apoiar-se nas manifestações visíveis da
realidade para entendê-la. Nas palavras de Herskovits (1965: 524), quer-se
dizer que “somente através de constante e contínua
referência cruzada entre hipótese e fato, o entendimento de
problemas e interpretações válidas de dados podem ser
extraídos”. Ou, em outras palavras, veredictos sobre a realidade
devem estar alicerçados em elementos de fatos. Aos economistas agrada,
porém, fazer generalizações com fundamento em postulados de
conduta completamente racional (ou escolhas com completa ciência das
alternativas rejeitadas), chegando dedutivamente a relações entre
fins concebidos como possíveis objetivos de conduta, de um lado, e o
ambiente técnico e social, do outro. É próprio do
método da economia seguir a noção de que a economia
é uma ciência de princípios. Assim, ela se apresenta
não possuindo a natureza primária de uma ciência descritiva
no sentido empírico, mas de uma que se baseia em conhecimento intuitivo
(Knight, 1965: 510).
Seguindo as linhas de Malinowski (1921: 1), cabe perguntar
se, e em que medida, as conclusões do estudante de economia, com sua
visão estática e seu axioma de racionalidade, e de posse de uma
teoria sistemática, podem ser aplicadas a um tipo de sociedade
inteiramente distinto do nosso. Mais ainda, cabe também indagar em que
grau as conclusões do estudante de sociedades exóticas podem ser
de utilidade na interpretação de problemas de uma sociedade
moderna em face dos desafios do desenvolvimento sustentável. Herkovits
(1965: 11) observa que surgem dificuldades quando tentamos aplicar os conceitos
mais refinados da economia a sociedades não-letradas,
não-máquina, devido à natureza dos mecanismos e
instituições que demarcam suas economias. É tarefa
gigantesca o esforço de tentar apreender um sistema de significado e
ação, como o encontrado em economias indígenas, tão
diferente do nosso próprio (Tonkinson, 1991: 16-17). Por exemplo, as
categorias da economia, tal como propostas por Stanley Jevons e empregadas pelos
economistas em geral, segundo Gregory (1982: 210), “não conseguem
descrever mesmo as feições básicas de uma economia de
dádiva ou mercadoria, quanto mais explicar sua
interação”. A procura do lucro não é a
força principal que alimenta as “sociedades
não-letradas” de Herskovits (1965: 204-205), embora se encontre
largamente espalhada ali a instituição do crédito. Polanyi
(1944: 47) alude também à ausência do motivo de ganho como
elemento de concordância entre etnógrafos no que toca a suas
observações de sociedades não-letradas, do mesmo modo que,
entre elas, “a ausência de qualquer instituição
separada e distinta [das demais] baseada nos motivos econômicos”.
É que, em regra, as trocas são efetuadas em sociedades primitivas
sem o intento de ganho ou lucro.
Para os economistas, não é fácil
estabelecer a distinção elementar que o antropólogo
vê entre dádivas e mercadorias, “muito menos uma moldura para
classificação dos muitos diferentes tipos de economias da
dádiva e de mercadorias” (Gregory, 1982: 210). Este é um
ponto que tem a ver com o feito de que a troca de mercadorias estabelece uma
relação entre os objetos trocados, enquanto que a troca de
presentes estabelece uma relação entre os sujeitos. Enquanto a
troca de bens é um processo de formação de preço, um
sistema de compra e venda, a troca de dádivas não é nada
disso. A última, nas palavras de Gregory (1982: 101), “é um
intercâmbio de objetos inalienáveis entre pessoas que se encontram
em um estado de dependência recíproca que estabelece uma
relação quantitativa entre os atores da
transação”. Este sistema de troca difere do nosso, ainda que
o próprio mercado tenha existido mesmo antes da instituição
dos mercadores, “e antes de sua maior invenção – o
próprio dinheiro” (Mauss, 1990: 4). Sociedades exóticas
não parecem ser destituídas de mercados econômicos, mas
nelas a dádiva, aplicada ao comportamento econômico, vai muito
além da percepção do economista que não consegue
perceber a essência da doação. Como Mary Douglas insiste no
prefácio, “No Free Gifts” (Nada de Dádivas Livres), do
The Gift (1990: xiii) de Mauss[6], o
sistema da dádiva na economia moderna dá lugar ao sistema
industrial. Onde ela existiu ou ainda existe, a dádiva complementa o
mercado na medida em que opera onde o último está ausente,
fornecendo “a cada indivíduo incentivos pessoais para colaborarem
no padrão das trocas” (Mauss. 1990: xiv). Com respeito a esse
ponto, Gregory (1982: 100) sublinha o fato de que onde coisas, terra e
também trabalho tomam a forma da dádiva, vai-se achar uma forma
especial de unidade do produtor com os meios de
produção.
Um tipo distinto da economia (sistema econômico) dessa
forma surge – uma etnoeconomia?[7] –
“onde produção, troca e consumo são socialmente
organizados e regulados pelo costume, e em que um sistema especial de valores
econômicos tradicionais governa suas atividades e as esporeia para que
andem” (Malinowski, 1990: 15). Enquanto a ciência econômica
trata da teoria dos bens, com seu foco na relação subjetiva
entre consumidores e objetos de desejo[8], a
economia de outro tipo (de sociedades exóticas ou rústicas) vai se
referir às “relações pessoais entre gente que
a troca de coisas [dádiva] cria em certos contextos sociais”
(Gregory, 1982: 8). Nesta conexão, merece ser lembrado que o assim
chamado homem primitivo não faz a troca por causa de lucros ou ganhos
esperados, mas “devido a que tem um excedente de alguns bens e necessidade
de outros bens” (Einzig, 1966: 416). No caso dos Mardu, da
Austrália, por exemplo, nota-se que qualquer comércio que ocorra
entre eles tem lugar ou como atividade ritual durante grandes encontros, ou como
intercâmbio de presentes entre clãs amigos quando grupos pequenos
se congregam, ou “como parte de obrigações devidas a certos
parentes próximos e afins” (Tonkinson, 1991: 53). Os valores do
itens são de importância menor no caso do que o ato de
reciprocidade, “o qual afirma e reforça um laço
continuado” (ib.). Por conseguinte, dar livremente é
aclamado como uma virtude, levando a que se constate que “a suposta
propensão a comerciar, permutar e trocar [do selvagem] não
apareça” (Polanyi, 1944: 49), o sistema econômico sendo, com
efeito, mera função da organização social.
O mercado é um lugar onde as pessoas se encontram para
o propósito de mercadejar ou vender e comprar. Como tal, mercados sempre
existiram, mesmo entre os aborígines da Austrália, como o caso dos
Mardu indica. A economia de mercado como estrutura institucional e compreendendo
um sistema de auto-regulação é outra coisa. Em
“nenhum tempo existiu coisa igual, exceto no nosso” (Polanyi, 1944:
44). Dentro desse arcabouço proposto e fundamentado por Polanyi, a
divisão de trabalho “aparece a partir de diferenças
inerentes aos fatos de sexo, geografia e conteúdo institucional, a
alegada propensão do homem para comerciar, permutar e trocar sendo quase
inteiramente apócrifa”. O que prevaleceria, em verdade, não
é a propensão do indivíduo ao comércio, mas a
reciprocidade no comportamento social, uma constatação que levou
Mauss (1990: 76) à conclusão de que o “homem
econômico” é uma criação da sociedade
ocidental. O homem primitivo, sendo tudo menos esse “homem
econômico” da ciência econômica e da economia de
mercado, é influenciado em suas transações de natureza
comercial por elementos considerados inteiramente insensatos pelas sociedades
modernas (ver Einzig, 1966: 416). No caso estudado por Malinowski (1999) dos
Trobrianders, todos os procedimentos de comércio são regulados por
etiqueta e magia, dominados pela reciprocidade no comportamento social e
não por uma suposta propensão a traficar. O resultado de um modelo
de sociedade como apêndice do mercado é que, tal como Polanyi
(1944: 57) tão bem nos mostra, ao invés de uma economia embasada
nas relações sociais, tem-se uma situação em que
“as relações sociais são embasadas no sistema
econômico”.
O estudo da etnografia permite observar – tal como
percebeu Mauss (1991: 7) – que no tipo primitivo de lei e economia, o
traço mais importante é a obrigação da reciprocidade
com respeito ao presente que se recebe. Não é preciso que exista
aqui um mercado que se auto-regule. Basta haver normas legais e do costume, com
as idéias mágicas e mitológicas desempenhando o papel de
introduzir princípio no esforço econômico e de
organizá-lo sobre uma base social (a economia embasada nas
relações sociais de Polanyi). O fenômeno do valor, dessa
forma, torna-se parte do fenômeno mais abrangente da cultura e só
pode ser entendido como um componente deste (Herskovits, 1965: 237). Os
mecanismos e instituições da sociedade exótica podem
não diferir acentuadamente dos que se encontram na sociedade moderna; as
distinções entre sociedades indígenas e avançadas
podem não ser de essência mas de
grau[9]. Todavia, as percepções
peculiares das sociedades tribais, exóticas, primitivas levam a uma
diferente paisagem de idéias com respeito à
reprodução social relativamente às idéias dos grupos
de tipo ocidental. Um problema como o da autarquia, que tem amedrontado a
economia de mercado desde o começo, certamente não aflige o homem
primitivo. É neste contexto que se pode identificar no saber tradicional,
por exemplo, uma orientação para um tipo de etnoeconomia que possa
lançar luz sobre o problema do desenvolvimento sustentável. Os
processos e instituições do mundo não-letrado podem ser
menos agudamente diferenciados do que sua contrapartida nas sociedades modernas,
como Herskovits (1965: 488) assinala. Sua ciência pode também ser
mais difusa e permeada de religião e magia. No entanto, sua utilidade tem
se comprovado – e quem pode garantir que a sociedade moderna esteja
vacinada contra o mágico?[10]
Além do mais, os “antigos sistemas de moralidade da espécie
mais epicurista”, das reflexões de Mauss (1991: 76), nos quais o
bom e agradável é buscado, e não a utilidade material, pode
nos oferecer orientações bastante relevantes. Por conseguinte,
parece apropriado seguir a sugestão de Polly Hill (1966), citando W.W.
Readway, de que um novo conjunto de suposições intuitivas pode nos
auxiliar a compreender melhor os desafios do desenvolvimento.
Saber Ecológico Tradicional e
Sustentabilidade
Penso ser o saber ecológico tradicional –
que entendo de conformidade com a conceituação de Darrell Posey
(2000: 209), baseada por sua vez na definição de Gadgil et al.
(1993)[11] – uma ponte importante
ligando a economia convencional à etnoeconomia. Ou à
economia etno-ecológica, como também a chamou Darrell Posey
em nossas discussões sobre o assunto, por dizer ela respeito à
compreensão e promoção da sustentabilidade, que é a
preocupação central na economia ecológica. Tonkinson (1991:
3), falando dos Mardu da Austrália, comenta acerca do desenvolvimento,
entre os aborígines, de uma vida social e cerimonial complexa como base
da reprodução de recursos de valor do grupo. Os Mardu,
porém, sempre foram caracterizados em termos negativos, por não
possuírem instrumentos de metal, agricultura, animais domesticados, a
roda, uma linguagem escrita, vilas, chefes, uma economia de mercado e outros
atributos (ver Tonkinson 1991: 36). O certo, porém, é que nos
Mardu se acham capacidade empreendedora e aptidões admiráveis em
termos de uma explotação bem sucedida de seu território
árido. Tonkinson (1991), com sua demorada pesquisa, demonstra o
êxito gerencial desse povo, chamando atenção para o fato de
que a significação de tal sucesso pode ser percebida na
“natureza e funcionamento de ... complexas formas não-materiais,
especialmente laços de parentesco e organização social
[dentro desse povo]”, além de sua religião. Em suma, esses
rústicos caçadores-coletores têm perfeita
noção daquilo que fazem, preservando, manipulando e gerindo seus
recursos naturais de forma competente (Tonkinson, 1991: 51). Isto não
é diverso do que tem sido encontrado em outros estudos recentes, que
demonstram que povos caçadores-coletores não agem passivamente
diante do meio. Pelo contrário, os povos tribais “gerenciam
ativamente seus recursos, seja através de direcionamento
estratégico da ação ecológica ou econômica,
via controle social e manobra política, seja por virtude do poder do
símbolo e do ritual” (Hunn e Williams, 1982: 1). Interessante ainda
é o que Reichel-Dolmatoff (1990: 12), antropólogo colombiano que
estudou o povo Tukano durante mais de cinqüenta anos, salienta, mostrando
que os ameríndios têm muita noção, por exemplo, do
princípio da conservação consciente e planejada dos
recursos naturais. Segundo ele, os pajés (shamans) medem
cuidadosamente o montante adequado de veneno para peixe (espécie de
sonífero) para se pôr num igarapé a fim de facilitar a
pesca; controlam a derrubada de árvores, a queimada de clareiras, a
construção de habitações, a feitura de canoas, a
fermentação de bebidas, o processo de preparação
diária de comida, e uma multidão de outras atividades –
seguindo para isso orientação meticulosa.
É certo que, como Tonkinson (1991: 36) não
deixa de salientar no caso dos Mardu, o impacto dos nativos sobre o ambiente
natural, sendo leve, passa a impressão de um ethos de
conservação para o observador. No entanto, “isto pode ser
uma ilusão – simples produto de condições
ecológicas e demográgicas” (ib.). Na opinião
contrastante de Posey (2000: 188), o conceito de sustentabilidade está
embutido nos sistemas de vida indígenas e tradicionais. Ele se refere
à evidência histórica existente, que demonstra a
produtividade sustentada de sistemas indígenas, em alguns casos, por
milhares de anos na mesma terra (ib.). Herskovits (1965: 88) menciona
igualmente a capacidade efetiva de manipulação de recursos como um
dos aspectos mais fundamentais do sistema econômico das sociedades
exóticas. Certamente, os nativos da Amazônia vivem ou viveram ali
por milhares de anos – o mesmo sendo verdade, em dezenas de milhares de
anos, no tocante aos aborígines da Austrália. Enquanto isso, a
moderna sociedade industrial existe há quanto tempo? Pouco mais de
duzentos anos. É óbvio que as populações
indígenas no Brasil, na Austrália e em todo o mundo têm
vivido em bases inequivocamente sustentáveis; do contrário, teriam
desaparecido “naturalmente” – caso, talvez, dos Maia. E uma
grande dose da explicação para a existência dessas
sociedades sustentáveis parece repousar no saber ecológico
tradicional. Além disso (ver Malinowski, 1921: 6), a
organização e regulação da atividade econômica
através das forças sociais e psicológicas do cacique, da
crença na magia, do prestígio dos pajés e assim por diante
não devem ser esquecidas. O saber ecológico, com efeito,
não existe como entidade separada no mundo primitivo. Ele não se
restringe tampouco a uma simples compilação de dados (Posey, 2000:
188). Sua existência, antes, configura um elemento da totalidade de
laços do indivíduo com a terra e todos os seres viventes, como
parte de uma ordem logicamente unificada do humano, outros seres e a natureza,
ordem essa que também possui uma dimensão espiritual,
sobrenatural. Esta, na verdade, é uma fisionomia muito comum nas
percepções dos povos
exóticos[12].
O povo Mardu do deserto australiano, conforme Tonkinson
(1991: 37), possui extenso vocabulário para tipos de nuvem e chuva e
fenômenos do clima[13]. Eles
também são peritos em estimar a probabilidade e possíveis
conseqüências das precipitações pluviométricas
em seu território. Essa é outra ilustração de uma
elaborada forma de conhecimento, encontrada também no caso dos
Kayapó, dos estudos de Posey e outros, que classificam, só para
exemplificar, sessenta tipos distintos de diarréia, cada um com seu
respectivo tratamento à base de ervas. Os Shuar da planície
amazônica do Equador, por sua vez, usam 800 espécies de
plantas como remédio, comida, forragem animal, combustível,
material de construção, meio para a pesca e suprimentos para a
caça (Posey, 2000: 188-189). Curandeiros tradicionais no Sudeste
Asiático apoiam-se na impressionante cifra de 6.500 plantas medicinais
para exercer suas atividades, enquanto cultivadores itinerantes através
dos trópicos freqüentemente semeiam mais de cem cultivos diferentes
nas suas fazendas de floresta (Posey, 2000: 189). Saber ecológico dessa
categoria compreende um entendimento do inteiro ecossistema e de seus recursos
econômicos e possibilidades. Referindo-se ao estudo das moedas
primitivas, Einzig (1966: xiv) comenta que a única maneira pela qual
alguém poderia adquirir um conhecimento confiável acerca do
comportamento econômico dos povos indígenas seria se absorvesse
toda a informação que fluísse das várias fontes
possíveis. A tarefa seria completada através de um esforço
para, da ricamente diversa e, às vezes, conflitante, massa de dados
disponível, encontrar o denominador comum que deve existir dentro dela.
Isso é mais ou menos o que a tentativa de erigir os alicerces da
etnoeconomia confronta neste momento. Um esforço assim justifica-se,
parafraseando Einzig (1966: 3), na suposição de que ele adicione
alguns grãos de conhecimento sobre um assunto assaz relevante. E que
possa prover material para uso de outros ramos do conhecimento, além de
contribuir para uma nova perspectiva do problema da sustentabilidade, como se
pode deduzir da avaliação de Tonkinson (1991: 20) acerca dos
Mardu, cuja sociedade tem sabiamento mantido “um status quo
ecológico e social de longo prazo”. No seu caso, tendo dominado as
necessárias técnicas de subsistência, eles impõem sua
vontade de maneira intelectual ao invés de física sobre um meio
ambiente áspero e um ritmo irregular de vida (Tonkinson, 1991: 55). O
abandono do interesse nas culturas de tais humanos “incivilizados”
não pode ser aceito como uma forma de entendimento dos problemas da
sociedade moderna (ver Polanyi, 1944: 45).
Na Direção da
Etnoeconomia
A primeira vez que escutei a palavra
“etnoeconomia” foi no dia 26 de abril de 1996, no Recife, Brasil, ao
final de uma conferência que eu havia organizado sobre políticas de
desenvolvimento sustentável, saída da boca de Darrell Posey. Nessa
ocasião, ele propôs que deveríamos organizar um grupo de
trabalho ou força tarefa sobre o assunto. E gentilmente sugeriu, para
minha agradável surpresa, que o que eu estava fazendo era etnoeconomia
(eu o fazia sem me dar conta disso, algo como o bourgeois gentilhomme, de
Molière...). Com efeito, eu estava tentando desde 1990, mais ou menos,
entender o desenvolvimento sustentável tanto dentro do âmbito da
economia ecológica quanto da perspectiva de estilos de vida como o dos
ameríndios. Em 1991 escrevi um artigo sobre a noção (que
acredito haver cunhado) do “etno/eco-desenvolvimento” (Cavalcanti,
1992), que foi apresentado numa conferência sobre ecologia humana em junho
daquele ano em Gotemburgo, Suécia. Mais tarde, reelaborei a idéia
em outro texto no qual tentava comparar os estilos de vida dos Estados Unidos
com o do índios da Amazônia (Cavalcanti, 1997). Minha
percepção, após numerosas leituras do que os
antropólogos têm escrito sobre sociedades primitivas, era que, se a
sustentabilidade deve ser apreendida em termos da duração de um
grupo social, um bocado de lições podem ser extraídas dos
povos indígenas – que são aqueles que mostram um longevidade
social realmente notável. A sociedade industrial é muito jovem
para ser considerada sustentável, e os sinais, em toda parte, são
de sua insustentabilidade social e ecológica (ver Goulet, 1997). Embora
Roberto DaMatta, como antes mencionado, considere que tudo que a antropologia
cultural ou social tenha produzido desde seus albores como disciplina
acadêmica possa ser classificado como etnoeconomia, o fato é que
nunca vi escrita essa expressão na literatura, nem tampouco Posey.
Encontrei, sim, em inglês, para, inclusive, completa surpresa do
último, quando lhe comuniquei meu achado no final de novembro de 2000, a
palavra “etno-economista”, no artigo de uma economista (Hill, 1966:
16), usado uma única vez, sem maiores explicações, em
trecho em que ela fala do “interesse obsessional do
‘etno-economista’”. Sua análise é sobre
“economia indígena” e “a necessidade, em regiões
subdesenvolvidas, ... de se dedicar atenção a um tópico
que, por falta de melhor termo, [chama] de ‘economia
indígena’” (Hill, 1966: 10). Esse tipo de economia se
voltaria para o conhecimento do tecido básico (basic
fabric) da vida econômica existente. Polly Hill (1966: 11) insiste
“quanto ao escopo estreito da economia”, afirmando:
“Não estou exagerando. Somos muito mais ignorantes do que
conhecedores” da organização e princípios da economia
indígena. Em sua opinião, somente admitindo que a última e
a economia convencional, ocidental são idênticas, pôde aquela
tornar-se merecedora de estudo (Hill, 1966: 13). Mas esse não era o
caminho correto para ser trilhado. A questão era se a economia
indígena é simples demais para o economista (eu perguntaria
não seria ela complexa demais?). Ela deve trata do tecido básico
da vida econômica, o que implica a necessidade de estudar a qualidade da
vida econômica, ou identificar mais do que quantificar as variáveis
importantes.
Isso nos traz de volta ao que se poderia considerar como
preocupações essenciais da etnoeconomia. Certamente, ela
não se interessaria em medir com espúria precisão o
conteúdo do tecido básico da vida econômica. Este
último tem a ver com valores, mas não valores monetários, e
certamente com “valores naturais”, os quais são independentes
de uso e troca (Branco, 1989: 93)[14]. Marshall
(1961: xiv) julga que o que denomina de “Meca do economista” reside
na biologia econômica e não na dinâmica econômica,
embora concepções biológicas sejam mais complexas do que
aquelas da mecânica. É aqui precisamente que devemos penetrar em um
novo entendimento dos fatos econômicos, porque a natureza tem sua
própria vontade, expressa na noção de homeostase (Branco,
1989: 125) e a economia, como um subsistema que é do ecossistema (Daly,
2000), não pode ser considerada à parte do tecido da vida
biológica. A natureza é um todo orgânico, enquanto o sistema
econômico nas formulações da economia é apresentado
dentro da moldura da mecânica clássica, como se fosse um mecanismo
não suscetível à mudança qualitativa. Isto significa
que, para o economista, o processo econômico não contém a
noção biofísica fundamental de uma medida da mudança
qualitativa, ou seja, a entropia (Georgescu-Roegen, 1971). Como
conseqüência, deve-se requerer da etnoeconomia que ela adote uma
cosmovisão distinta, orgânica, holista, muito mais em sintonia com
o raciocínio da economia ecológica (ver Costanza, Daly e
Bartholomew, 1991) do que com a economia convencional. Da mesma forma, ao
invés de concentrar seu foco em situações de
equilíbrio, a etnoeconomia tem que adotar uma perspectiva dinâmica,
de não-equilíbrio, que leve em conta uma aboradegem em
multi-escala, de longo prazo. Orientada para o desenvolvimento
sustentável, além do mais, ela deve discutir o progresso no quadro
de suas limitações ecológicas, principalmente quanto a
referências como resiliência e escala (Begossi, 2000). E estando
apoiada na diversidade cultural e cosmovisões de povos indígenas,
ela deve prestar a devida atenção ao saber ecológico
tradicional – que seria seu suporte básico.
Muitas tentativas já foram feitas para reconceituar e
reestruturar o pensamento acerca de modelos econômicos que afetam a
diversidade cultural e ecológica. Entrementes, as forças da
globalização em curso estão solapando a diversidade
cultural e ecológica de que dependem a estabilidade política, a
segurança alimentar e o bem-estar geral da sociedade. Uma tentativa de
internalizar externalidades ambientais levou ao ramo da economia pura chamado de
economia do meio ambiente. Mais que isso, uma nova abordagem da análise
do funcionamento do processo econômico da perspectiva da natureza ou do
ecossistema emergiu sob a égide da economia ecológica.
Paralelamente e com uma história mais longa, tem sido o fortalecimento da
antropologia econômica e seus esforços para melhorar o entendimento
de como povos indígenas, tradicionais e locais se adaptam e gerem as
forças externas que ameaçam suas condições de vida e
sua existência. Ao mesmo tempo, a etnoecologia tem se expandido para
descrever de que forma o saber ecológico tradicional é usado para
criar, administrar e conservar paisagens culturais. Há, entretanto, uma
aflitiva falta de diálogo e colaboração entre essas esferas
de pensamento e pesquisa alternativos. Malinowski (1999: 167) chamou
atenção em 1922 para esse mesmo problema que ainda persiste hoje.
Herskovits (1965: 516) refere-se ao requisito de um melhor entendimento
recíproco entre economistas e antropólogos, sugerindo a
necessidade dos últimos de ter “algum domínio das
diferenças de categorias ... entre a economia como uma
exposição de princípios ... e como uma
exposição descritiva de fatos”. Ele salienta o ponto
importante de que somente a discussão por muitos especialistas envolvidos
com o problema das sociedades primitivas pode realizar um verdadeiro ataque
transdisciplinar na busca de conhecimento. De fato, disciplinas e abordagens
são em geral complementares, requerendo assim cooperação e
diálogo efetivos.
O tempo parece maduro para o desenvolvimento de uma
etnoeconomia que enxergue de que maneira povos locais, tradicionais e
indígenas conceituam as diversas relações econômicas
que têm construído, caracterizado e mantido suas sociedades; uma
disciplina ou campo de trabalho que examine a idéia de progresso entre
povos exóticos, que considere as noções de riqueza,
justiça e eqüidade, que interprete as múltiplas
manifestações de mercados, comércio, dádiva e troca,
que tente compreender a maneira pela qual interesses individuais se combinam
para erguer um sistema social durável e um processo econômico
sustentável. Há certamente considerável
informação dispersa sobre as categorias cognitivas ou êmicas
utilizadas por sociedades não-ocidentais para descrever os tipos de
relações “econômicas” que estabelecem a rede do
relações societárias. Existem bem menos estudos que
investiguem ou integrem conceitos indígenas da “natureza” ou
“ambiente” como fatores da manutenção de economias
saudáveis e duradouras. O esforço a ser empreendido sob o
guarda-chuva da etnoeconomia deve ir além das economias ecológica
e convencional, da antropologia econômica, e da etnoecologia e
etnociência. Ela deve desenvolver que conceitos, categorias e
práticas as sociedades utilizam para avaliar, calcular, monitorar e
administrar os recursos humanos, naturais e de patrimônio (incluindo
espirituais e estéticos). A proposta é de encontrar uma
“nova” perspectiva que possa promover diálogo entre
disciplinas e que seja conduzido e guiado pela miríade de
noções e experiências dos povos locais. Este é um
desafio que demanda intensa colaboração e a
convicção de que uma seção da humanidade,
comparativamente rica[15], está aqui
para oferecer alternativas saudáveis à consideração
no nível intelectual sobre como se viver sã e
sustentavelmente.
Referências
Bibliográficas
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[1] Marcel Mauss (1990: 79),
escrevendo na década de 40, afirma que “a idéia de que
valor, utilidade, auto-interesse, luxo, riqueza, a aquisição e
acumulação de bens – tudo isto, por um lado – e, por
outro, que o consumo, mesmo o que representa gasto deliberado por seu
próprio fim, puramente suntuário: todos esses fenômenos
estão presentes em toda parte, embora nós os compreendamos
diferentemente hoje”.
[2] Darrell Posey faleceu em
Oxford, Inglaterra, no dia 6 de março de 2001, de uma enfermidade
(melanoma maligno que teve metástase cerebral) talvez decorrente de seu
trabalho de pesquisa junto aos índios Kayapó, no Pará,
trabalho esse que o submeteu a longas exposições ao sol
tropical.
[3] Como Lionel Robbins (1984:
2) assinala, citando Stuart Mill, “a definição de uma
ciência tem quase invariavelmente, não precedido, mas seguido a
criação da própria ciência”. Não se
trata de dizer que a etnoeconomia seja uma ciência nova, mas certamente
ela é sugerida como um novo campo de trabalho a ser desenvolvido (e
corretamente definido). O uso da definição é, como sugere
J. Shield Nicholson, citado por Einzig (1966: 13), “desnudar o sinificado
dos termos empregados, clarificar as idéias que eles representam e assim
livrar-se de todas as ambigüidades”. Espero poder iniciar essa tarefa
aqui.
[4] Essa noção
foi submetida a uma primeira discussão em workshop convocado
especialmente para isso por Darrell Posey, no Centre for Brazilian Studies da
Universidade de Oxford, no dia 7 de dezembro de 2000.
[5] E “ao fazer isso, [o
chefe] acentua seu prestígio e influência, os quais também
exerce através de meios econômicos” (Malinowski, 1921: 12),
um ponto de não menor significação na abordagem da economia
de sociedades tribais..
[6] Traduzido para o
português como Ensaio sobre a Dádiva.
[7] Em inglês, o termo
seria ethnoeconomy, diferente da disciplina que a estudaria, ou seja,
ethnoeconomics. Este é um problema na língua portuguesa,
que dificulta o entendimento de certos conceitos, porquanto em ambos os casos se
teria a palavra etnoeconomia (do mesmo modo que economia eqüivale tanto a
economy quanto a economics).
[8] A economia política
se interessa por relações entre mercadorias (não
bens, que são uma criação da economia convencional),
cuja troca dá origem a relações objetivas na medida
em que uma mercadoria é definida como uma coisa socialmente
desejável tanto com um valor de uso quanto um valor de troca
(ver Gregory, 1982: 8).
[9] Como Sir James
Fraser, citado por Einzig (1966) na epígrafe de seu livro, escreve,
“quando tudo tiver sido dito e feito, nossas semelhanças com o
selvagem serão ainda mais numerosas do que nossas diferenças com
ele; o que temos em comum com ele e deliberadamente retemos como verdadeiro e
útil, devemos aos ancestrais do selvagem, que lentamente adquiriram pela
experiência e transmitiram para nós por herança aquelas
idéias aparentemente fundamentais que acreditamos ser originais e
intuitivas”.
[10] Ver, a propósito,
o inteligente e original livro de Hans Christoph Binswanger, 1994. Money and
Magic: A Critique of the Modern Economy in the Light of Goethe’s
Faust. Trans. J.E. Harrison. Chicago: The University of Chicago Press.
[11] “Um corpo
cumulativo de conhecimentos e crenças, passado adiante através das
gerações por transmissão cultural, acerca da
relação dos seres vivos (incluindo os humanos) uns com os outros e
com seu ambiente.” M. Gadgil, F. Berkes e C. Folke, 1993.
“Indigenous Knowledge for Biodiversity Conservation”, Ambio,
v. 22, n. 2-3: 151-156, p. 151.
[12] Conversando comigo,
certa vez, em dezembro de 2000, Darrell Posey, notando meu uso da palavra
exótico (tal como o faz Dalton, 1971) para referir a povos
indígenas, comentou com um sorriso suspicaz: “Não seremos
nós os exóticos?”
[13] Como eles estão
se dando com as turbulências climáticas atuais é outra
questão...
[14] Aludindo às
sociedades arcaicas da Polinésia, Mauss (1990: 73) observa que lá
não existe nem a prestação livre, puramente gratuita, de
serviços, nem a produção e troca puramente centradas no que
é útil. “Trata-se de uma espécie de híbrido
que floresceu.”
[15] Acerca de riqueza de
povos primitivos, Mauss (1990: 34) oferece importante testimônio,
enfatizando uma situação em que, em vários níveis de
rituais, “tudo armazenado com grande labor ... é prodigamente
despendido”.
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