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TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 109/2001 Março • 2001 |
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DOIS MODELOS PARA A CONVIVÊNCIA DO
PRODUTOR RURAL COM O AMBIENTE DO SEMI-ÁRIDO NORDESTINO Renato Duarte(*) |
1. INTRODUÇÃO
A zona semi-árida do Nordeste brasileiro
caracteriza-se por ter uma das maiores densidades demográficas entre as regiões
do planeta que apresentam características ambientais semelhantes. Tendo a área
calculada em aproximadamente 882.000 km2, o semi-árido nordestino abriga cerca de 18 milhões de habitantes
e tem uma densidade demográfica em torno de 20 hab/km2. Nas situações
como as do semi-árido nordestino, em que predominam solos pobres e rasos, clima
quente e seco, onde 70% do subsolo são de formação cristalina (com escassos
lençóis freáticos), e aonde a
pluviometria mostra-se irregular tanto em termos temporais (ocorrência de secas
periódicas) quanto na distribuição espacial (incidência de chuvas com
diferentes intensidades em áreas próximas), aquela densidade pode ser
considerada alta. No caso da zona semi-árida do Nordeste brasileiro, a essa
situação natural adversa somam-se as desiguais condições de posse e uso da
terra e a utilização, na maioria das propriedades rurais, de métodos arcaicos
de cultivo do solo e de manejo dos rebanhos. Em vista disso, a produtividade média das
atividades agropecuárias naquela zona é muito baixa, chegando a níveis
baixíssimos em períodos de seca. Por isso, a maioria das famílias rurais da
zona semi-árida vive ao nível da subsistência. Como não conseguem formar
reservas em alimentos ou em dinheiro, em anos de invernos normais, ao ocorrer
uma seca elas são levadas à indigência. Daí a necessidade recorrente de medidas
emergenciais de socorro por parte do setor público, através da abertura das
frentes de trabalho e de outras medidas assistencialistas, a exemplo da
distribuição de cestas alimentares. Passados os efeitos da seca, as frentes de
trabalho são desmobilizadas e os alistados voltam a cultivar a terra utilizando
os métodos tradicionais. 2. TECNOLOGIAS PARA A AGROPECUÁRIA DO SEMI-ÁRIDODiversos especialistas têm-se ocupado do estudo das
características e das potencialidades da agropecuária do semi-árido nordestino.
José Guimarães Duque, pelo pioneirismo e amplitude da sua obra científica, foi
um dos mais notáveis dentre eles (DUQUE,
1973; 1951). Alguns centros de
pesquisa, federais ou estaduais, também vêm-se ocupando de estudos sobre os
aspectos físico-climáticos e realizando experimentos visando o desenvolvimento ou a adaptação de
tecnologias para a agropecuária do semi-árido nordestino, principalmente a
partir dos anos 80. Entende-se aqui por tecnologia, os experimentos que
envolvam: obras físicas (cisternas, barreiros, silos etc.); melhoramentos
genéticos em plantas (enxertia, cruzamentos); melhoramentos genéticos em
animais (cruzamentos etc); manejo do solo (sistema de captação de água de
chuva, preparo da terra etc.); manejo da vegetação (rebaixamento e raleamento
da caatinga, por exemplo); uso da água (dessalinização, irrigação etc.);
experimentos com animais silvestres etc. A avaliação dessas tecnologias tem
demonstrado que elas, quando utilizadas isoladamente, ou em situações restritas
quanto à qualidade dos solos e da água, ou à disponibilidade de recursos
financeiros, têm pequena capacidade de contribuir para a superação das
adversidades climáticas da zona semi-árida do Nordeste. No decorrer da década de 90, surgiram duas
tentativas independentes, visando o enfrentamento dos problemas ambientais
característicos da zona semi-árida através de modelos que enfatizam a
valorização dos recursos naturais daquela sub-região. A característica marcante
daqueles modelos é, contudo, a percepção da zona semi-árida como um todo,
procurando enfrentar a questão da convivência do homem com o meio ambiente
semi-árido de forma sustentada e integrada. A seguir, é feita a descrição dos
dois modelos e a avaliação das viabilidades do Projeto Base Zero e do sistema
CBL. 3. PROJETO BASE ZERO O
Projeto Base Zero foi concebido como uma abordagem sistêmica do problema
ambiental do semi-árido nordestino. Segundo o seu autor, o engenheiro mecânico
e agropecuarista José Artur Padilha, aquele projeto constitui uma “mudança de
paradigma na produção agroambiental nos trópicos secos”. Representaria,
portanto, uma nova forma de convivência do homem com o semi-árido, pois
propiciaria o ecodesenvolvimento baseado no uso comunitário dos recursos
naturais. Trata-se de um novo paradigma, segundo o seu autor, porque: 1) É
aplicável a todo o território semi-árido, característica esta que esteve
ausente das propostas anteriores para o desenvolvimento daquela sub-região; 2)
Conserva os solos e restaura progressivamente o meio ambiente degradado; 3)
Conserva integralmente a caatinga; 4) Soluciona em definitivo o problema da
escassez de água na zona rural, através da otimização dos recursos hídricos de
cada bacia hidrográfica; 5) É altamente absorvedor de mão-de-obra. O que segue
é uma descrição sucinta das características do Projeto Base Zero, seguida de
algumas considerações do autor deste artigo sobre aquela experiência. Como
reconhece o engenheiro José Artur Padilha, o Projeto tem fundamentação teórica
baseada nos estudos do pesquisador norte-americano Howard Odum. A descrição dos
fundamentos teóricos do projeto e a explicação do conceito de Base Zero são
encontrados em PADILHA, 1999:238-250.
Interessam, para os propósitos deste trabalho, os resultados práticos do
projeto. José Artur Padilha desenvolveu as suas experiências a partir do ano de
1989, na fazenda Caroá, de sua propriedade. A fazenda, localizada no município
pernambucano de Afogados da Ingazeira, tem uma área de 650 ha, dos quais 450 ha
se encontram em uma mesma bacia hidrográfica, a microbacia Carapuças. Aquela
microbacia se caracteriza por ter um relevo acentuadamente ondulado e ser
cortada longitudinalmente por um delgado curso d’água, o riacho Carapuças. A
microbacia representa a unidade maior de exploração, que está dividida em duas
áreas: as áreas elevadas e declivosas, recobertas pela vegetação natural,
equivalentes a 97% da área da propriedade, e a área de baixada, em forma de calha,
correspondente aos 3% restantes. Nos 10 anos que se seguiram aos experimentos
realizados por Padilha, ele foi idealizando ou aperfeiçoando instrumentos e
práticas que permitissem a integração das duas partes, de modo que as baixadas
formam o eixo principal, onde se encontra a infra-estrutura necessária ao
desenvolvimento das atividades agropecuárias. Foram construídos, na área das
baixadas, meso e microbarramentos em formato de arco romano deitado e rampado,
utilizando-se exclusivamente pedras secas, que se ajustam naturalmente às
condições do terreno, e não necessitam de fundações estruturais. Os sedimentos
trazidos pela correnteza vão fechando os espaços existentes entre as pedras e,
aos poucos, em decorrência da decantação, assoreamento e sedimentação, vai-se
formando um terraço com solos ricos em minerais e em materiais orgânicos. Essa
área pode, dependendo da topografia, ser ampliada à medida que se for
aumentando a altura da parede do barramento. Nesses terraços umidificados e
fertilizadas pode-se desenvolver uma agricultura familiar. Os barramentos
distanciam-se uns dos outros conforme a topografia, pois o parâmetro para a
localização de cada barramento é dado pelo terraço que o sucede. Significa
dizer que, quanto maior for a inclinação, mais próximos os barramentos estarão
uns dos outros. A
maximização na utilização de água é obtida através da construção de vários
barramentos em série. Esses barramentos têm a função de reduzir
consideravelmente, durante a estação das chuvas, a velocidade de escoamento das
torrentes de água, contendo a erosão laminar e ciliar, formando, como antes
mencionado, áreas com solos agricultáveis e armazenando água no subsolo. Os
barramentos atuam também como dessalinizadores, pois a lixiviação do solo reduz
a quantidade de sal na água. O Projeto Base Zero é complementado por sistemas
gravitacionais de captação, redes de condução, sistema de armazenamento
intermediário e distribuição de água. Foram construídos na fazenda Caroá mais
de 100 barramentos, com extensões que variam de 2,5 a 10,0 metros e altura
entre 0,5 e 4,0 metros. O custo de construção de um barramento é baixo, já que
se resume ao pagamento da mão-de-obra, pois as pedras são encontradas
facilmente em toda a
zona semi-árida. Em
maio de 2000, o
custo da diária paga a trabalhadores braçais na maioria dos
municípios do interior nordestino
era de R$ 10,00 (em alguns
municípios chegava à metade desse valor). Dependendo do tamanho do barramento e
do número de horas necessárias para a sua construção, o custo pode variar entre
R$ 100,00 e R$ 250,00. Na
fazenda Caroá existem duas fontes primárias de água, que são ligadas, por
gravidade, a nove reservatórios revestidos de pedra, denominados castelos, onde bóias controlam a água
que irá abastecer os 50 bebedouros distribuídos estrategicamente por toda a
fazenda. Os bebedouros, feitos de pedra e areia, custam R$ 15,00 a unidade. A
distribuição da água a partir das duas cacimbas para os castelos, e daí para os bebedouros, é feita através de canos de PVC
de 20mm, que custavam, em maio de 2000, R$ 0,15 o metro linear. Os canos, assim
como a estrada de terra que corta a fazenda, margeiam o riacho
Carapuças, – que, como foi dito,
representa a espinha dorsal do projeto –, constituindo um sistema coerente e integrado
de infra-estrutura. Como
seria de esperar, o uso da água e a preservação do solo estão na essência do
funcionamento da fazenda Caroá, pois ele se baseia no aproveitamento, de forma
sustentável, da caatinga para a produção agropecuária. Durante a estação das
chuvas, os rebanhos se alimentam de matéria verde; no período seco, havendo
água, a matéria seca existente na caatinga assegurará a sobrevivência dos
animais. A distribuição estratégica dos bebedouros na fazenda tem o objetivo de
tornar a água disponível para os rebanhos sem que eles tenham que percorrer
grandes distâncias – o que implicaria dispêndio de energia – visto que, no
período seco, eles bebem água várias vezes durante o dia. A fazenda Caroá
contém outros experimentos (alguns deles constituindo, na realidade,
aperfeiçoamentos ou adaptações de práticas usuais na atividade agropecuária da
zona semi-árida) de manejo da caatinga e dos rebanhos, o que contribui para dar
maior eficiência ao Projeto Base Zero. Para
os objetivos deste trabalho, importa, principalmente, o que José Artur Padilha
chama de “replicabilidade”, ou seja, a possibilidade de se reproduzir a
experiência da fazenda Caroá no restante da zona semi-árida do Nordeste. Ele
afirma que sim. Diz ele que,
tendo em vista
a organização de
unidades agropecuárias de base familiar, poder-se-ia pensar –
considerando-se as variáveis geográficas, sociais e demográficas – que os
tamanhos programáticos médios de cada unidade seria de 2.000 ha (IDEM: 251). Essa seria também a área
aproximada de cada microbacia hidrográfica (MBH). Como a área total da zona
semi-árida do Nordeste é de aproximadamente 88 milhões de hectares, poder-se-ia
pensar na existência de cerca de 40 mil MBHs naquela sub-região. Cada uma
dessas MBHs poderia abrigar, de forma sustentável, cerca de 50 famílias, à
razão de 40 ha por família. Haveria, portanto, capacidade na zona semi-árida
para se assentarem cerca de dois milhões de famílias e de se criarem
aproximadamente seis milhões de ocupações produtivas rurais. Considerando-se o
tamanho médio aproximado de cinco pessoas por família, das quais três
encontrassem ocupação, ter-se-ia, por esse raciocínio, a ocupação de
aproximadamente 10 milhões de pessoas (IBIDEM).
O exercício de Padilha em relação à “replicabilidade” da experiência da fazenda
Caroá leva-o a considerar a possibilidade de cada MBH “sustentar
cumulativamente de forma efetiva e contínua, nos seus 2.000 ha, 500 bovinos,
2.000 caprinos/ovinos, 250 colméias, 30 ha de agricultura sazonal para consumo
familiar e 60 ha em média de fruticultura de ciclos curtos”. Ao estimar o
retorno financeiro dessas atividades, Padilha afirma que “apenas com a produção
de gado de corte, em pé, estima-se uma renda de mais de 2 bilhões de reais/ano
em toda a zona semi-árida. Se a consideração estender-se para outros produtos e
subprodutos, o agregado econômico se multiplicará para proporções de economias
sustentáveis. Ou seja, é possível antever a erradicação da miséria nos
sertões”, afirma ele (IDEM: 253). O
objetivo deste artigo, como já foi dito, é de avaliar as tecnologias voltadas
para a agropecuária do semi-árido nordestino. Assim, depois de conhecer a
bibliografia sobre o Projeto Base Zero, o autor deste trabalho visitou a
fazenda Caroá no mês de maio de 2000. Uma consideração a fazer é de que não se
pode desconhecer que aquela fazenda é um empreendimento bem-sucedido de
exploração agropecuária sustentável. Haveria, no entanto, que se levantarem
alguns questionamentos sobre o que lá se viu. A primeira observação diz respeito
à existência, na fazenda Caroá, de uma separação entre o sistema de barramentos
sucessivos – a essência do Projeto Base Zero – e a estrutura de captação,
conservação, distribuição e utilização de água nas atividades produtivas.
Observou-se que vários dos mais de 100 barramentos ainda não haviam formado
terraços onde se fizesse algum tipo de cultivo. Digno de referência, seja pela
sua área, seja pelo que ali se cultiva, deve ser mencionado um barramento
próximo ao castelo localizado na
cota 146.20 m, em cujo terraço havia uma plantação de milho – mais viçosa nas
laterais e mais acanhada na parte central do terraço – e de alguns pés de
mamão, de bom aspecto. Há na fazenda, ainda, um barramento antigo, feito de
pedra e cimento, que forma um terraço de aproximadamente 1,5 ha, onde se
cultiva o capim Estrela Africana,
com bom rendimento físico. Há barramentos construídos em 1994, onde a
sedimentação tem sido lenta, e outros, de construção mais recente, que já
formaram terraços com várias camadas de solo. A
topografia irregular e a existência de duas fontes de água nas partes mais
elevadas da MBH das Carapuças permitem a distribuição de água, por gravidade,
para a porção economicamente explorada da fazenda Caroá. Essas condições
naturais são fundamentais para a sustentabilidade do sistema produtivo ali
desenvolvido. A fonte mais elevada localiza-se na cota 155.60 m e, próximo a
ela, encontra-se, na cota 146.20 m, outra cacimba, maior, com 5 m de
profundidade. É dessas duas fontes que sai a maior parte da água usada na
propriedade. Como a quantidade de água é insuficiente, está sendo instalado um
catavento na altura da cota 55.00 m, que deverá bombear água para o castelo situado na cota 117.80 m,
próximo ao qual existem dois bebedouros. Parece
ao autor deste artigo que a possibilidade de “replicabilidade” da experiência
desenvolvida na fazenda Caroá dependeria de fatores variados. Primeiro, haveria
que se comprovar, cientificamente, que as cercas de 40 mil MBHs existentes na
zona semi-árida do Nordeste contam com recursos hídricos suficientes para que
os rebanhos disponham de água no decorrer do período seco, que dura entre 6 e 7
meses. Além disso, deve-se considerar
que o potencial de utilização econômica da caatinga é muito diversificado, e
que se estimam em cerca de 500 mil o número de propriedades rurais no
semi-árido nordestino que, devido à secular exploração predatória, carecem,
atualmente, de condições de sustentabilidade. Naturalmente, um dos objetivos do
Projeto Base Zero é de recuperar o meio ambiente degradado. Nesse caso, seria
necessário muito tempo até que se criassem as condições que permitissem a
“replicabilidade” daquilo que se faz na fazenda Caroá. Outra
questão essencial à viabilização do Projeto Base Zero diz respeito à posse e ao
uso da terra. A exploração dos recursos naturais de uma MBH por 50 famílias
representaria uma verdadeira “revolução” em matéria de legislação sobre o
conceito de propriedade da terra e na mentalidade do agricultor sertanejo.
Essas mudanças profundas, embora não sejam impossíveis, parecem distantes se
encaradas à luz da presente realidade brasileira. A reorganização fundiária, de
modo a transformar as MBHs da zona semi-árida em unidades produtivas de
natureza comunitária, seria um desafio muito grande. Além disso, usar a terra,
e sobretudo a água, sob padrões coletivos, seria tarefa ainda mais complexa. Na
fazenda Caroá, de propriedade exclusiva de José Artur Padilha, o acesso às duas
fontes de água situadas nas cotas 146.20 m e 155.60 m requereu longas e pacientes
negociações com dois fazendeiros vizinhos, por cujas terras passam os canos que
transportam a água; como parte das negociações, Padilha concordou em ceder-lhes
água para abastecer um bebedouro em cada fazenda. Esse exemplo demonstra o grau
de sensibilidade existente na zona semi-árida – mas não só ali – em relação ao
uso da terra e da água. A
administração de unidades produtivas comunitárias nos padrões sugeridos pelo
Projeto Base Zero requereriam uma verdadeira "obra de engenharia"
para a reorganização da produção agropecuária”. Uma decisão importante a tomar
seria a distribuição de tarefas produtivas entre as famílias; outra seria a
divisão das áreas da MBH conforme as respectivas vocações econômicas; outra
ainda seria o suprimento dos insumos – inclusive a água – para as várias
atividades econômicas; finalmente, haveria que considerar a responsabilidade
pela tarefa de comercialização e, conseqüentemente, a questão da distribuição
dos lucros entre as famílias. Outro
importante questionamento a fazer em relação à “replicabilidade” do Projeto
Base Zero refere-se ao volume de recursos financeiros necessários à sua
implementação. Inicialmente, haveria o custo de desapropriação das terras. Em
seguida, viriam os investimentos nas obras de infra-estrutura. Como foi visto,
os custos de construção dos barramentos, dos castelos, dos bebedouros e os preços dos canos de PVC e das bóias
são baixos. No entanto, uma visita à fazenda Caroá sugere que esses não foram
os maiores investimentos ali realizados. Mesmo desconhecendo-se o valor do
investimento total feito naquela fazenda, a lógica sugere que não haveria um
custo-padrão para a implantação do Projeto Base Zero nas 40 mil MBHs existentes
na zona semi-árida do Nordeste, dada a sua diversidade físico-ambiental e, portanto,
os volumes diferentes de investimentos a serem realizados nas unidades
produtivas. Finalmente,
haveria que considerar a questão da vontade política, por parte dos
governantes, de adotarem o novo sistema de convivência do homem com o
semi-árido nordestino. O histórico das políticas públicas naquela sub-região
mostra que, mesmo as ações simples e incontroversas – a exemplo do Projeto do
Trópico Semi-Árido, do Polonordeste e do Projeto Sertanejo –, não contaram com
a totalidade dos recursos materiais e humanos essenciais à sua implementação. A
mudança de paradigma representada pelo Projeto Base Zero implicaria, como foi
mencionado acima, profundas transformações legais, administrativas e culturais.
A tudo isso se soma a filosofia prevalecente na administração pública
brasileira, hoje, de restringir a presença do Estado às tarefas que são – na
interpretação dos seguidores daquela filosofia - inerentes ao setor público.
Nesse contexto, é pouco provável que - a continuar prevalecendo aquela
filosofia – se venha a cogitar da implantação do Projeto Base Zero nas 40 mil
MBHs existentes na zona semi-árida nordestina. Esta observação não deve ser
encarada como um posicionamento contrário à opção pela implementação do Projeto
Base Zero onde ele mostrar condições de viabilidade, mas sim como ceticismo,
por parte do autor deste artigo, quanto à adoção de uma política oficial para
implementá-lo. 4. SISTEMA
CAATINGA-BUFFEL-LEUCENA O
Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-Árido (CPATSA), tendo constatado
as limitações das tecnologias que dominaram as suas pesquisas na década
de 80, passou a elaborar
um modelo de
desenvolvimento sustentado para o
semi-árido que tivesse, ao mesmo
tempo, a abrangência espacial de um
processo integrado e a adequação
às diferentes condições ambientais daquela zona fisiográfica. Em outras
palavras, o CPATSA passou da fase de desenvolvimento e adaptação de tecnologias
específicas, para a elaboração de um modelo integrado e sustentado de
exploração das potencialidades do semi-árido. Assim, foram definidos dois
grandes eixos de desenvolvimento: ¨ Áreas de agricultura
irrigada onde há disponibilidade de água e solo de boa qualidade; No primeiro eixo seria realizada a agricultura
irrigada, aproveitando a disponibilidade de água e solo. Estima-se que existem
no semi-árido nordestino cerca de 1 milhão de hectares irrigáveis a partir de
recursos hídricos locais (COELHO, 1988:
67), área essa que poderia ser ampliada para 2,4 milhões de hectares
mediante a transposição de bacias hidrográficas. Dado o alto custo da irrigação
com técnicas modernas, e considerando a experiência adquirida em perímetros
irrigados no semi-árido, indicam-se, para cultivo naquele eixo, culturas de
elevado valor comercial e de mercado consumidor em expansão, a exemplo da
fruticultura e da horticultura. A área mais extensa, estimada em cerca de 40,8
milhões de hectares, apresenta condições edafoclimáticas para a implantação do
sistema CBL (EMBRAPA.CPATSA, 1995: 7),
sendo que outros 18,4 milhões de hectares também se prestam para o sistema,
embora sob condições mais restritivas de implantação e operacionalização. O
sistema CBL baseia-se na recria e engorda de bovinos azebuados, utilizando a
forragem natural da caatinga (C), no período de dois a quatro meses, quando a
oferta de alimentos é satisfatória em termos quantitativos e qualitativos.
Calcula-se que a caatinga tenha uma capacidade de suporte, para a criação de
bovinos, na razão de um animal por cada 15 hectares. Na fase seguinte, quando
rareia a alimentação na caatinga, o rebanho passaria a ser alimentado com capim-buffel (B) por um período de oito a
dez meses. A leucena (L) é uma leguminosa arbustiva que complementaria a
alimentação, sendo "utilizada como pastejo rotacionado até meados do
período seco, e, a partir daí, é fornecida aos animais sob a forma de feno e/ou
silagem" (IDEM: 5). Devido aos
prolongados períodos de estiagem, outras alternativas alimentares poderiam ser
introduzidas no sistema, a exemplo da palma forrageira e da maniçoba. Para a implantação do sistema CBL, deve-se fazer a
seleção das áreas com solo mais profundo e bem drenado para a plantação da
leucena, destinando-se as áreas de solos mais pobres para o pasto nativo da
caatinga. As áreas ocupadas com a plantação de leucena e capim-buffel devem
representar de um a dois terços de área total, sendo que a área plantada com
leucena não deve ultrapassar um terço daquela ocupada pelo capim-buffel, visto
que este é a base de suporte do sistema. Como foi visto, o CPATSA calcula que a
área mínima total do sistema não deve ser inferior a 20 hectares e, se
possível, deve ultrapassar os 100 hectares (IDEM:
11) Considerando os 40,8 milhões de hectares onde se implantaria o sistema
CBL, seria possível beneficiar mais de 400 mil famílias rurais. Acrescentando a
mão-de-obra absorvida aos empregos que seriam criados em projetos de irrigação
nos 2,4 milhões de hectares adequados à agricultura moderna, ter-se-ia um
aumento expressivo de ocupações
produtivas na zona semi-árida, embora ainda não fossem suficientes para
proporcionar oportunidade de trabalho com níveis de produtividade e renda para
a maioria da população. Considerando o exemplo hipotético de uma propriedade
com área de 120 hectares dedicada à recria e engorda, o CPATSA calcula que um
terço da área permaneceria como caatinga e dois terços como pastos cultivados,
na seguinte proporção: ¨
Caatinga = 40,0 ha ¨
Capim-buffel = 72,8 ha ¨ Leucena = 7,2 ha Esse sistema poderia abrigar um rebanho de 64 garrotes recriados e engordados, sendo
que, em condições edafoclimáticas mais favoráveis, o plantel poderia chegar a
80 cabeças (IDEM, 12-13). O sistema
CBL mostra-se promissor porque poderia proporcionar às famílias da zona semi-árida
uma renda monetária proveniente da venda de parte de seu rebanho e de leite e
seus derivados, além de complementar a dieta da família com alimentos de alto
valor protéico. Nas duas visitas feitas à fazenda do CPATSA(1) onde fora implantado o sistema CBL,
em abril de 1999 e maio de 2000, observou-se que, no espaço de 13 meses,
ocorreram algumas mudanças significativas. A primeira delas foi a constatação
de que a leucena não apresentou os resultados esperados, pois não resiste a uma
seca prolongada. Fala-se, entre os técnicos do CPATSA, na conveniência de se
rebatizar o CBL para CBS, onde o “S” significaria suplementos alimentares, tais
como melancia forrageira, feno de guandu, feno ou silagem de maniçoba, vagem de
algaroba e raspa de mandioca, entre outras. A maniçoba tem-se mostrado
excelente, seja como feno, seja como silagem. A maniçoba permite que se façam
de dois a três cortes por ano, sendo a produtividade de 4 t/ha/ano. A maniçoba,
graças ao xilopódio que caracteriza o seu sistema radicular, pode sobreviver
até três anos sem água. O CPATSA tem experimentado outras combinações de
suplemento alimentar para os rebanhos, em que se combina o capim-buffel com
uréia, acrescidos de feno de maniçoba, de guandu ou de leucena. A experiência do CPATSA com o sistema CBL
demonstrou, como já foi mencionado, que a capacidade de suporte da caatinga é
de um animal bovino por cada 15 ha, em vista das perdas na folhagem. Em um ano
de chuvas regulares, o animal, alimentando-se da caatinga, ganha cerca de 80 kg
de peso. Em um ano de inverno ruim, o peso fica inalterado. A experiência com o
capim-buffel é de que é necessário 1 ha plantado para cada animal bovino
adulto. Nessas condições, produzem-se 4 t de matéria seca por ano.
Fornecendo-se 10 kg do capim por dia, seria possível alimentar um animal
durante 365 dias. O ganho de peso em um ano de inverno bom é de aproximadamente
150 kg. Quanto à leucena, o rendimento por corte pode variar entre 1,3 toneladas de matéria seca por hectare, em
áreas de menor pluviosidade, e 6 toneladas onde a pluviosidade mais intensa
permite maior número de cortes por ano. O custo de implantação de 1 hectare de
capim-buffel pode variar entre R$ 300,00 e R$ 400,00, a depender das condições
edáficas da área e da técnica de plantio utilizada. Considerando a mesma
situação na implantação do capim-buffel, no caso da leucena o custo pode oscilar entre R$ 500,00 e R$
600,00 por hectare(2). 5. CONTEJO ENTRE OS DOIS MODELOS Um dos méritos dos dois modelos analisados neste artigo é o de abordar a questão da convivência do homem com o semi-árido nordestino desde uma perspectiva integrada e auto-sustentada, em que as unidades produtivas formam um conjunto macroeconômico coerente. Outro mérito dos dois modelos é o de procurarem aproveitar ao máximo o potencial da caatinga para alimentação dos rebanhos, que, por sua vez, constituem o fundamento econômico dos dois modelos. A diferença, em relação ao uso da caatinga, é que o Projeto Base Zero utiliza integralmente a vegetação nativa, em vista da disponibilidade de água, mesmo em períodos de estiagem, quando é aproveitada a matéria seca da caatinga para alimentação dos animais. A existência de água é, portanto, essencial à viabilização daquele modelo, o mesmo ocorrendo com a preservação integral da caatinga. Uma diferença basilar entre os dois modelos é que o Projeto Base Zero tem a sua área determinada pelas características geográficas das MBHs. No sistema CBL, embora a dimensão da unidade produtiva seja condicionada pelas características edafoclimáticas do local, existe menor dependência das condições geográficas (relevo, fontes de água etc.) do que o Projeto Base Zero. A água, embora fundamental também no sistema CBL, não é um condicionante locacional. Nesse modelo, a água poderá provir de fontes diversas (rios, poços, cisternas), dependendo da situação(3). Outra diferença entre os dois modelos - determinada justamente pela disponibilidade de água - é que, enquanto no Projeto Base Zero a caatinga fornece alimento aos rebanhos durante o ano inteiro, no sistema CBL isso só ocorre enquanto houver matéria verde, ou seja, no máximo durante quatro meses. Outra importante diferença entre os dois modelos diz respeito às formas de propriedade e de uso das terras e da água. O Projeto Base Zero pressupõe a sua utilização comunitária, através de uma divisão de áreas e de atribuições, enquanto que o sistema CBL baseia-se em unidades familiares. De qualquer modo, ambos modelos requerem algum tipo de reorganização fundiária. Deve-se considerar, ademais, que os vários experimentos atualmente realizados com vistas à criação ou adaptação de tecnologias para a agropecuária da zona semi-árida nordestina, anteriormente mencionados, poderiam ser utilizados proveitosamente nas duas experiências. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS O Projeto Base Zero é uma experiência bem-sucedida nas condições ambientais da fazenda Caroá e na situação cultural e financeira do seu proprietário, o engenheiro mecânico José Artur Padilha. A possibilidade de “replicabilidade” daquela experiência nos 88 milhões de hectares da zona semi-árida nordestina dependeria da existência de um número considerável de condicionantes ambientais, legais, econômicos, administrativos e culturais difíceis de superar. Certamente, as condições ambientais poderiam existir em algumas áreas, mas parece improvável que se reproduzam em todo o perímetro semi-árido do Nordeste. Há que se ter em mente, por outro lado, que em grande parte do semi-árido nordestino a caatinga foi totalmente devastada. Nessas áreas, mesmo havendo fontes de água, faltaria a matéria seca para alimentar os rebanhos durante o verão. Quanto aos outros condicionantes, haveria que adaptá-los à nova realidade exigida pelo Projeto Base Zero. Os fatores limitantes à implementação daquele projeto fazem com que as expectativas otimistas de criação de 10 milhões de ocupações produtivas sejam encaradas com a devida cautela. O sistema CBL constitui um avanço significativo como proposta de exploração econômica do semi-árido a partir da pecuária adaptada às condições ambientais da caatinga. No entanto, o sistema, para ser amplamente disseminado, dependeria da superação de obstáculos nada desprezíveis. Primeiramente, haveria que realizar uma reestruturação fundiária, já que, para o funcionamento do sistema, a área da propriedade deveria ser adequada à condições edafoclimáticas de cada local. Em segundo lugar, a área de 40,8 milhões de hectares, onde se poderia implantar o sistema CBL, limitaria a quantidade de propriedades a um número provavelmente inferior à de imóveis rurais necessários para acolher a população nas condições satisfatórias de convivência com as irregularidades climáticas do semi-árido. Terceiro, o problema "água" não é de fácil solução em várias partes do semi-árido, seja pela inexistência, seja pela salinidade e sodicidade, seja ainda pelos elevados índices de evaporação. Outro problema que se apresenta para a implantação do sistema CBL é o dos custos. Embora não haja informação por parte do CPATSA quanto a isso, a natureza das intervenções representaria, com certeza, custos consideráveis, seja devido à necessidade de redimensionamento das propriedades rurais, seja pelo requisito de dotação de cada unidade produtiva de infra-estrutura, seja ainda porque o sistema requereria, inicialmente, gastos com a formação dos rebanhos. O esforço despendido pelos especialistas que se dedicaram à elaboração dos dois modelos descritos e analisados neste artigo, merece todo o reconhecimento por parte daqueles que, a seu modo e de acordo com os seus meios, têm-se empenhado na busca de uma melhor convivência da população do semi-árido nordestino com as condições ambientais ali prevalecentes. Dois pressupostos básicos dos dois modelos são o aproveitamento da caatinga na alimentação animal e a compreensão de que a pecuária deve ser a base da atividade econômica naquela área, completarmente à agricultura alimentar de ciclo curto e a outras lavouras comerciais, entre as quais surge, promissoramente, o algodão geneticamente melhorado, assim como os avanços genéticos desenvolvidos na pecuária. Um dia, quando houver vontade política, e a conseqüente disponibilização de recursos humanos e financeiros para o enfrentamento das adversidades climáticas do semi-árido nordestino, os fundamentos que embasaram aqueles dois modelos certamente ainda poderão ser levados em conta, naquelas áreas onde as condições ambientais recomendarem a implantação de um ou de outro modelo. 7. BIBLIOGRAFIA COELHO, Jorge (1988): Tecnologia agrícola para o semi-árido brasileiro. Recife, Editora
Massangana. DUQUE, José
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secas. 2a ed. Fortaleza, Indústria Gráfica Urânia. ______
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Caderno 1. João Pessoa. PADILHA, José
Artur (2000): “Base Zero Ano 2000: mudanças de paradigma na produção
agroambiental nos trópicos secos”. In: Pedro Sisnando Leite et alii (orgs.). Reforma agrária e desenvolvimento
sustentável. Brasília, Ministério do Desenvolvimento Agrário/NEAD. (*) Ph.D. em Economia. Diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas da Fundação Joaquim Nabuco (1) A partir de 1999, o CPATSA passou a se chamar EMBRAPA Semi-Árido. Por uma questão de uniformidade, manter-se-á, neste artigo, a denominação original daquele centro de pesquisas agropecuárias. (2) IDEM: 19-21. Como os valores haviam sido calculados pelo CPATSA em dólares, foi feita a conversão ao câmbio de dois reais por dólar. (3) Embora isso pudesse ser visto como um elemento simplificador, na prática não o é, pois não é fácil encontrar água em quantidade e qualidade em extensas áreas do semi-árido nordestino. A propósito, quando da visita do autor deste artigo à fazenda do CPATSA, em maio de 2000, a cisterna ali existente encontrava-se completamente vazia. |