TRABALHOS PARA DISCUSSÃO
n. 108/2001
Março • 2001

IDENTIDADE E MÚLTIPLO PERTENCIMENTO NAS PRÁTICAS ASSOCIATIVAS LOCAIS

Joanildo A. Burity*


Surge uma preocupação com a importância de uma cultura cívica para aferição da qualidade da democracia. Tem-se falado muito ultimamente das virtudes da participação em termos de geração e acúmulo de capital social fundamental para conter os efeitos da individualização, da fragmentação e do isolamento do estado em relação à sociedade. Ganhos em capital social se tornam um indicador de modernização ou de complexidade da estrutura social (cf. Putnam, 1993; 1995; Greeley, 1997a; 1997b; Coleman, 1990). Um elemento complementar importante nesta discussão foi, ao longo dos anos 90 política, o crescente interesse dos cientistas políticos pelo tema da cultura política/cultura cívica (cf. Moisés, 1995; Avritzer, 1995; Krischke, 1995; Diamond, 1999; Huntington, 1994; Laitin, 1995; Burity, 1998; 1999b). Com isto se pretendia argumentar contra a excessiva ênfase no aspecto procedimental e, portanto, no automatismo das instituições políticas, para assegurar boa governança democrática. Sem um certo grau de “internalização” de valores democráticos fica difícil, nesta leitura, confiar às instituições a garantia de um funcionamento da democracia que afaste o perigo do burocratismo, do “despotismo esclarecido” (tecnocratismo) e da corrupção política. Em que condições, entretanto, tais expectativas brotaram e até que ponto podem ser atendidas? Mais importante, se o contexto das novas democracias é o de seculares práticas de autoritarismo, tradição associativa marcada pela repressão ou pelo clientelismo, e instituições políticas impotentes para assegurar sua jurisdição no espaço social (o que implica que não apenas o estado não “chega” em vários espaços físicos e sociais, como não consegue – ou mesmo não quer – assegurar o universalismo de regras e procedimentos para todos os seus membros), qual será a agência desta geração de capital social e de mudança na cultura política? Como caracterizar tal agência sociologicamente?

Do ponto de vista mais estrutural poder-se-ia dizer que o contexto no qual emerge hoje a percepção ou a demanda por uma cultura cívica já é marcado por uma situação de pluralismo social, cultural e político, mas também pela experiência de crise do estado[1] e toda a redefinição dos padrões de relação entre estado e sociedade que o discurso liberal hegemônico sobre ela tem gerado. Também há um retorno ao local, uma tentativa de repensar o padrão das políticas públicas, muito a partir de experiências localizadas, fragmentadas em alguns casos. A ênfase sobre o aspecto local é muito forte.

Ambos os processos são amplamente favorecidos por e, ao mesmo tempo, indutores de toda uma mutação cultural em curso na sociedade, que diz respeito à prevalência de valores liberais, do ponto de vista da cultura política, da inserção das pessoas no mercado, e das próprias relações interpessoais no cotidiano. Aqui prevalece um imaginário de competição, concorrência, vantagem, principalmente a do mais forte, pensado agora como mais competente, mais eficiente, etc. Num certo sentido, tal prevalência depõe contra a emergência da cultura cívica, ou pelo menos cria uma série de problemas, porque a idéia de cultura cívica está classicamente associada a modalidades de colaboração, de solidariedade, de responsabilidade pela coisa pública, de obrigação social. No novo contexto em que se tenta desenvolver uma cultura cívica democrática prevalece, hoje, uma outra experiência de cultura, que não é diretamente favorável a essa vivência.

Finalmente, outro condicionamento importante para a emergência de uma nova cultura cívica é a prevalência gritante de desigualdades sociais – num quadro de que o Brasil é um dos líderes mundiais, mas de forma alguma isolado –, que não se expressam apenas do ponto de vista da distribuição de recursos materiais, mas também na prevalência de padrões hierárquicos de relação, os quais definem quem é mais ou menos cidadão, quem precisa se justificar para ocupar a esfera pública ou quem tem acesso "natural" a ela. Não é de admirar, então, que a correlação entre ser afro-brasileiro, mulher, pouco ou não-alfabetizado e ser mais pobre ou excluído, é sólida na sociedade brasileira. As desigualdades de renda se somam ao racismo, ao machismo, ao preconceito contra os “sem-educação”, dentre outros atributos.

Competividade associada com desigualdade econômica e verticalização das relações sociais, dessa forma, geram um quadro de dessocialização nos indivíduos, que anunciaria um perigoso vácuo no espaço público, tendencialmente ocupado por elites organizadas e pela burocracia estatal (para não falar nas redes de corrupção e do crime organizado, que revelam cada dia um presença mais insidiosa no interior do estado e de organizações da sociedade civil). Entre os mais ardorosos defensores do capital e do mercado, a eficiência e a modernização, ainda que impositiva, resultantes deste processo, justificariam os males causados à qualidade do vínculo social. Suplementar-se-ia a competição com uma filantropia comedida. Entre os mais críticos do capital e do mercado, a conjunção acima referida seria uma prova da necessidade de se recomporem as forças socializadoras para recuperar um sentido de comunidade e do valor da ação coletiva.

É contra este pano de fundo que surge, com cada vez maior insistência, a preocupação com a criação e construção de redes: redes de solidariedade, de assessoria, de informação, de comunicação, de militância, de articulação política; redes no âmbito da sociedade civil, mas também do estado[2]. Para isto contribuíram significativamente os efeitos desagregadores produzidos no campo da militância social, desde o início dos anos 90. Com o governo Collor iniciou-se um processo brutal de desmobilização, desarticulação, desorientação, do campo da sociedade civil organizada do pais, principalmente de setores populares. As redes vêm em grande medida em resposta a isso. São uma tentativa de recomposição de um sujeito político de novo tipo e uma de suas expressões.

Outro vetor da multiplicação das redes são as próprias mudanças nos padrões de relação entre sociedade e estado, que têm a ver com o encolhimento do estado sob a lógica neoliberal e com a disseminação de discursos descentralizadores, participacionistas e anti-totalitários, mas muito heterogêneos entre si. A despeito da ambiguidade de que se revestem as experiências "oficiais" (governamentais) desta relação, principalmente no campo das políticas sociais, mas em geral através da ênfase nas parcerias em diversas áreas, cresce a demanda por novas políticas públicas, apelando à necessidade de que a sociedade assuma responsabilidade ou co-responsabilidade pela sua formulação e execução[3].

O contexto de críticas e auto-críticas do perfil das organizações políticas de esquerda, das organizações não-governamentais, de segmentos da própria burocracia estatal, aliado aos efeitos desagregadores das crises econômicas e das inovações tecnológicas das últimas décadas, têm introduzido a incerteza, a provisoriedade e a precariedade das conquistas no centro da vida social. A pluralização de alternativas e agências da ação coletiva contribui adicionalmente para tornar o quadro mais complicado – seja pela via da superposição de iniciativas voltadas para um mesmo objetivo, em concorrência umas com as outras; seja pela via da dispersão ideológica, temática e de formas de atuação; seja pela multiplicidade de inserções dos indivíduos em distintas organizações ou campos de ação. Emerge uma preocupação com a identidade, tanto dos grupos quanto dos indivíduos inseridos neste contexto. Rever a identidade, questionar a identidade, reafirmar a identidade tornam-se exigências correntes, imputadas aos grupos ou desencadeadas internamente a eles. Pertencer a uma organização, grupo, movimento, torna-se uma exigência e um problema, quando os referenciais se turvam, as fronteiras se tornam incertas e a ameaça de desagregação ou perda de identidade se amplia.

Mais do que uma questão afeita ao indivíduo, trata-se de algo que atinge os atores coletivos e as organizações. Também eles se vêem às voltas com o questionamento de suas formas de estar-junto e de agir na esfera pública, também eles se envolvem em práticas articulatórias, construindo atores mais amplos, híbridos, mutáveis, plurais, onde as questões de identidade estão colocadas: pertencer a um movimento, a uma rede, a um campo ético-político, situar-se num campo discursivo, enfim, implica em inserir-se numa “tradição” e ser, ao mesmo tempo, capaz de escolher e recolher dessa tradição e de outras, experimentar o desafio da alteridade, inserir-se em lutas pelo reconhecimento ou pela reparação de injustiças e desigualdades.

Um aspecto fundamental da discussão se liga à definição de pertencimento adotada. Já discutimos o assunto em outro texto (cf. Burity, 2000), mas diríamos aqui, brevemente, que o pertencimento nessas condições implica em comprometer-se ativamente com um “projeto” sem se deixar submeter completamente a ele, circulando entre outros e/ou vinculando-se a outros. Ademais, essas experiências produzem um padrão de pertencimento diferente do da coesão grupal. Embora definam fronteiras entre um dentro e um fora (quem é participante, membro, aliado ou não; quem somos nós, quem são os outros, etc.), elas não são exclusivas; embora haja crenças comuns e formas comuns de “encená-las”, elas não são compreensivas, nem únicas, mesclando-se a outras, por vezes divergentes, descontínuas de grupo para grupo (ainda que haja pessoas participando de mais de um deles).

Nosso percurso para investigar a interface entre cultura cívica, associativismo e identidade, então, é trabalhar com a relação entre pertencimento e democracia, partindo da compreensão, desenvolvida por diversas correntes de pensamento social e político contemporâneo, de que as identidades políticas e sociais contemporâneas são internamente heterogêneas, e porque são assim, têm que dividir lealdades e compromissos, precisam negociar essas diversas formas de pertencimento[4]. Mais especificamente, nossa preocupação é investigar as novas práticas implicadas nesta identidade plural e nas modalidades de pertencimento que a caracterizam, observando como isto aponta para a reinvenção da concepção clássica de cidadania e para novos padrões de relacionamento entre atores coletivos no atual estágio da democratização no Brasil. Se a vivência pessoal destas formas de identificação assume a forma do múltiplo pertencimento, como já vimos anteriormente (cf. Burity, 2000), a vivência coletiva das mesmas se traduz no campo do associativismo, podendo assumir tanto a forma das redes sociais já mencionadas, como a de movimentos sociais ou a de participação em grupos de alcance restrito[5].

Uma hipótese subjacente é que a experiência da cidadania não é mais a experiência de identidades integradas, centradas, que se apresentam sempre da mesma maneira nos diferentes espaços públicos, e privados. Antes, a cidadania se torna multi-dimensional, envolvendo às vezes as mesmas pessoas em relação com diferentes instituições, repertórios de ação, formas de se apresentarem socialmente, maneiras de construírem sua identidade. Como consequência, também a identidade dos atores coletivos assim constituídos apresenta as marcas desta circulação – quer nas modalidades de asserção coletiva (que geram movimentos específicos), quer na de disseminação de práticas originadas em algumas dessas experiências para outros espaços sociais (gerando demandas novas nestes últimos e permitindo certas formas de articulação entre atores vários, que podem levar à constituição de redes ou de "áreas de movimento").

Mais do que apontar para uma pluralidade de papéis, perfeitamente conhecidos e assumidos livre e alternadamente (como se põe uma máscara ou se veste uma roupa, mantendo-se descolados do corpo e da mente, exterior que apenas roça, mas não penetra), nos interessa assinalar um duplo deslocamento: o da identidade pública ou política de cidadão e o da concepção de um agente unitário (o movimento, a classe, o partido, o estado, a sociedade, etc.), que deixaria sempre, em suas diversas formas de ação, a marca de um núcleo de atributos ou interesses que lhe seriam intrínsecos.

No primeiro caso, o deslocamento diz respeito a duas situações contemporâneas: (i) a de uma crescente autonomização das distintas esferas sociais entre si, o que implica, de um lado, na perda de centralidade da identidade de cidadão, em outras palavras, numa "despolitização" da cidadania[6], e de outro lado, na “regionalização” da identidade de cidadão, “ao lado”, por assim dizer, de outras formas de identificação, sendo “ativada” dependendo de contingênte e com diferentes intensidades, por indivíduos e grupos; (ii) a reivindicação dos “direitos de cidadania” para um espectro cada vez mais vasto de espaços e situações sociais, econômicas, políticas e culturais. Tal ampliação corresponde a uma reabsorção pela sociedade civil de funções ou práticas de representação e provisão social classicamente atribuídas ao estado.

Há assim uma disseminação do conceito de cidadania, ao mesmo tempo em que ele perde suas conotações mais tradicionais, de posse de direitos civis e políticos ou de participação na comunidade política, fortemente referenciadas no estado, e adquire relevância em espaços institucionais hierárquicos e fechados, antes infensos à lógica da participação, da igualdade e da afirmação de direitos. Certamente, isto se faz com perda de conteúdos, com um certo "empobrecimento" do significado originário, podendo inclusive vir a ser usado de forma inteiramente vazia de implicações, de forma puramente retórica. Mas um dos aspectos produtivos das lutas sociais em torno do conceito de cidadania hoje decorre precisamente de sua disseminação, de sua capacidade de assumir conotações distintas, de ser hegemonizado por diferentes sujeitos políticos e sociais.

No segundo caso, o deslocamento aponta para a emergência de atores coletivos compósitos, cuja face pública aparece mais ou menos unificada e possuindo porta-vozes e representantes, mas que correspondem antes a redes ou articulações de atores de diferentes tamanhos e formatos, do que a um sujeito homogêneo. A identidade de cidadão torna-se uma entre outras, mas também passa a descrever uma rede de atores, ou atores-rede, figuras de um campo de articulações sociais que redefine os contornos da sociedade civil e do estado numa esfera pública híbrida, de que voltaremos a falar.

O que procuramos compreender, enfim, é como a identidade de cidadão se articula hoje com a identidade de consumidor, militante de alguma organização da sociedade civil e também com a de adepto de alguma organização ou concepção religiosa, tendo como referencial, entretanto, não a figura do indivíduo como um ser autônomo, desenraizado ou flutuante em relação a marcos institucionais (organizativos, culturais, políticos), mas de pessoas pertencentes a organizações, situadas em culturas e tradições, mobilizadas em função de sua inserção num campo de ação coletiva. Desta forma, evitamos o atomismo de diversas modalidades de individualismo metodológico ou de concepções liberais do sujeito, e nem por isso transferimos a estruturas supra-individuais o peso da determinação de suas práticas e atitudes. Entendemos, assim, poder cruzar a dimensão institucional e a "subjetiva" da identidade, de forma a contribuir para a elucidação - obviamente nos limites deste trabalho - de desafios e dilemas da cultura cívica, participativa, no curso do processo de democratização da sociedade brasileira.

Descrevendo um campo de articulações sociais no nível local

No plano de pesquisa original, nos propusemos a captar estes processos da seguinte maneira: primeiramente, identificando entidades atuantes em meios populares, em duas localidades da Região Metropolitana do Recife[7], buscando perceber sua experiência própria do deslocamento levantado como hipótese teórica mais geral, em função de indicações da literatura atual sobre cidadania, movimentos sociais, ação coletiva e novos padrões de relação entre sociedade e estado. Estas entidades, uma vez selecionadas, foram convidadas a participar, através de participantes que se dispusessem a tanto, de uma discussão em painel, em duas sessões de uma hora e meia, juntamente com representantes das demais entidades escolhidas. Os participantes teriam que possuir um vínculo explícito com a entidade, alguma experiência de participação em suas atividades e um conhecimento básico do perfil/identidade da organização, bem como de sua dinâmica interna de poder. Era preciso combinar pessoas com posição de liderança e outras, com menores responsabilidades ou intensidade de atuação.

Montamos, assim, três painéis em cada localidade, com representantes de cinco entidades. Havia, portanto, em cada painel, um representante das cinco entidades selecionadas. A repetição tinha o objetivo de perceber duas coisas: (i) como se dá a interação entre pessoas ocupantes de diferentes posições organizacionais, e participantes de diferentes entidades; e (ii) como variam as (auto-) apresentações da identidade do ator social, a partir da percepção de distintos participantes do mesmo e face à interlocução com outros atores.

Além dos painéis, visitamos diversas vezes cada uma das entidades, conversamos com outros participantes, com lideranças e beneficiários, recolhemos informações sobre elas, visando a descrever o tipo de atividade de base associativa e voltada para o atendimento a carências materiais e simbólicas, realizada pelos grupos ou entidades estudadas. Foi feito um levantamento das atividades e parcerias, do público beneficiado direta e indiretamente pelas atividades dos grupos que foram identificados; e uma identificação das temáticas associadas às atividades de provisão de serviços, porque esses grupos oferecem determinados serviços à comunidade, ou a setores da comunidade, mas a oferta daqueles não se limita a eles mesmos, antes vem associada à prestação de assessorias e à realização de oficinas de discussão e reflexão sobre, por exemplo, cidadania, gênero, as novas relações entre sociedade e estado, consumo ou geração de renda. Os serviços são, em alguns casos condicionados à participação das pessoas nas atividades mencionadas. Isto não se aplica, entretanto, como uma descrição exaustiva de tudo o que fazem os grupos. Há atividades que não são bem sucedidas, como há outras que possuem frágil ou nenhuma conexão com reflexões ou debates mais amplos. Além do mais, há diferenças de grau de organização, eficiência e abrangência das iniciativas, o que traça um quadro bastante diferenciado para o conjunto das entidades.

Na pesquisa in loco, ou nos painéis, procuramos ainda observar outros aspectos: (i) o grau de comprometimento exigido por estas atividades dos seus participantes e o espaço que permite para outras lealdades – particularmente a identidade pública de cidadã(o); (ii) até que ponto este trabalho mobilizatório ou de oferecimento de serviços absorve o tempo, o interesse e a lealdade das pessoas em detrimento de sua atuação na esfera pública institucional; (iii) em que medida já se poderia falar de uma esfera não-governamental e não-institucional (no sentido político) de democracia e cidadania, que justifique as hipóteses de uma ampliação dos conceitos predominantes; (iv) como se faz a conexão entre (consciência de) cidadania, sentimento/atitude democrática, militância social, adesão religiosa e interpelação das pessoas enquanto consumidoras; (v) se as redes de solidariedade ou de ação coletiva potencializam uma maior integração/articulação entre diferentes posições de sujeito ou se exigem que as pessoas se "especializem" num dos campos - cidadania, consumo, militância, religião e suas respectivas formas organizativas/ demandas identitárias. Parte dos resultados dessa investigação já foram discutidos no Burity, 2000, restando aqui explorar especificamente os aspectos coletivos desses temas.

1.1 Selecionando os grupos

Trabalhamos com 11 grupos (termo que descreve, aqui, por economia, entidades representativas populares, organizações não-governamentais, grupos semi-formais e igrejas), selecionados a partir de levantamento de entidades com algum trabalho comunitário ou social minimamente reconhecido nas duas localidades estudadas. Combinamos critérios para a seleção dos grupos. O critério preliminar era que cada um dos grupos selecionados precisaria manter interface com pelo menos duas das representações da identidade priorizadas na pesquisa - cidadania, consumo, militância social e religião. Outro critério era o da efetividade do trabalho realizado na localidade, sendo descartados os grupos cuja existência era apenas "virtual". Isto era perceptível através das visitas às áreas e aos grupos, realizadas no primeiro momento da pesquisa de campo.

No caso da cidade do Cabo de Santo Agostinho utilizamos um mapeamento da prefeitura, por Área Político-Administrativa (APA), das associações de diversas naturezas que realizam algum "trabalho social". Contamos com o elemento facilitador de que um dos membros da equipe havia trabalhado na Secretaria de Ação Social e conhecia vários desses grupos. No caso de Chão de Estrelas, fomos benficiados pela aplicação de um survey realizado em 1997 pelo prof. Breno Fontes, participante do projeto integrado onde este trabalho foi originalmente executado, que havia classificado os grupos locais de maior visibilidade para a comunidade, por indicação espontânea dos entrevistados (cf. Fontes, 1999 e 2000).

Selecionamos, assim, no Cabo, o Centro das Mulheres do Cabo, o Movimento de Moradores de Vila Claudete, a Igreja Evangélica Batista da Vila da COHAB, o Lar Beneficente São Lázaro, o Serviço de Tecnologia Alternativa (SERTA) e a Cruzada Mista Social dos Cultos Afro-Brasileiros. Em Chão de Estrelas, selecionamos, o Centro de Organização Comunitária, o Centro Cultural Daruê Malungo, o Movimento Cultural Desperta Povo, o Grupo Esperança e a Associação de Moradores de Campina do Barreto.

1.2 Atividades e perfil dos grupos

Apresentamos em seguida um breve perfil dos grupos selecionados, procurando apontar tanto a diversidade de atividades como a de conexões com que eles estão envolvidos. Mesmo tratando-se de organizações pequenas, e com um raio de atuação que não vai além dos limites estaduais, percebe-se facilmente o emaranhado de vínculos que estabelecem na realização de suas atividades. Vínculos que ora são instrumentais, ora baseados em convergências de princípios, ora um ambos, e são ditados pela urgência das carências e por contingências (oportunidades, pressões, demandas de outros atores, habilidades de alguns de seus participantes, etc.).

1.2.1 Na cidade do Cabo

O Centro das Mulheres do Cabo (CMC) é uma organização não-governamental, criada em 1984, com o fim de organizar e instrumentalizar as mulheres e diminuir as desigualdades de gênero. Tendo mobilizado mulheres, a partir de um núcleo pequeno de militantes, através da realização de um seminário sobre Mulher e Religião, o trabalho cresceu e ganhou visibilidade, diversificando-se para englobar uma série de programas. Desde muito cedo, a ONG teve o apoio de uma agência para-eclesiástica protestante, a Visão Mundial, que, veremos, também apóia o trabalho do Centro de Organização Comunitária, em Chão de Estrelas. No momento da pesquisa, o CMC vivia um momento de avaliação interna, de rever suas linhas programáticas e elaborar um planejamento estratégico para o período 1998-2000. Os programas desenvolvidos na entidade são descritos brevemente a seguir.

O Programa de Saúde da Mulher visa a um trabalho sócio-educativo. Combina atendimento à saúde da mulher: consultas ginecológicas e prevenção do câncer de útero e mama com ações educativas em saúde reprodutiva, acompanhamento de grupos de gestantes e de adolescentes, com ênfase em contracepção e doenças sexualmente transmissíveis. Através deste programa o CMC articula-se com o Governo Federal, Estadual e Municipal, com vistas à implantação do PAISM – Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher; participa do Conselho Municipal de Saúde, da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos e Sexuais e do Fórum de Mulheres de Pernambuco. O principal órgão financiador do programa é a Unicef.

O Programa de Apoio Jurídico dirige-se às vítimas de violência doméstica e sexual, formando grupos de apoio ou tomando iniciativas jurídicas. É desenvolvido com recursos próprios e com apoios pontuais da Igreja Unida do Canadá e da Visão Mundial. Uma outra ação realizada nesta área é o combate ao abuso infanto-juvenil. As ações são realizadas em conjunto com a Articulação da Zona da Mata Sul, promotores públicos, advogados, juizes, conselhos da criança e adolescente. O financiamento vem do Projeto POMMAR e da organização suíça Terra dos Homens.

O Programa Adolescente e Cidadania tem cunho sócio-educativo e profissionalizante. Promove cursos e realiza oficinas de discussão sobre gênero, corpo e sexualidade, identidade social do homem e da mulher, etc. O programa visa a capacitar e profissionalizar 360 adolescentes (meninos e meninas), de 14 a 19 anos, através de parceria com o SENAI. A preocupação com esta faixa etária surgiu após ter-se trabalhado muito tempo com adultos e percebido a importância de incidir sobre a fase de formação das pessoas, de modo a oferecer espaço/oportunidade para que tenham outros elementos e pontos de vistas para tomarem suas decisões de vida. Isto não está sendo satisfatoriamente feito na escola. Há ainda uma ação voltada para a faixa dos 12 aos 14 anos, incluindo dança, teatro, capoeira, ensaios fotográficos, artes e esportes, em cinco bairros da cidade. Esta linha tem sido financiada com recursos da Comunidade Européia, e contado com a parceria do Programa de Capacitação Solidária, do governo federal, e buscado, numa de suas ações mais recentes, de formação de guias de turismo, a participação das universidades.

O Programa de Creches é um dos primeiros iniciados no Centro. Atende a crianças de zero a 14 anos, sendo que as de 3 meses a 6 anos recebem atendimento direto, e as de 7 a 14 anos, atendimento indireto. Há três núcleos em bairros diferentes. Procura-se oferecer um espaço educativo de socialização para a primeira infância, e de desenvolvimento cognitivo e oficinas de criatividade (sobre corpo e sexualidade; artes plásticas; iniciação à profissionalização; teatro) para os adolescentes, provendo uma alternativa para as mulheres que trabalham fora de casa. Na creche da Charnequinha, 171 crianças são atendidas. Através da creche encamparam-se lutas da comunidade local pelo fornecimento de água e energia elétrica. Realizam-se também no espaço da creche reuniões comunitárias e oficinas sobre cidadania, saúde da mulher, etc., com as mães das crianças. Esta linha de ação dá apoio ao Programa Saúde na Família (PSF), da Secretaria da Saúde. Os recursos são viabilizados pela Visão Mundial, através de apadrinhamento das crianças por doadores nacionais e internacionais, e pela Prefeitura da cidade, através de convênio de cooperação nutricional, para complementação da merenda escolar.

Os outros três programas são o Menina, Mulher e Cidadania na Zonza da Mata Sul de Pernambuco, o de Comunciação e o de Geração de Renda. O primeiro possui a mais clara interface com o movimento feminista, buscando favorecer a construção de uma nova identidade social da mulher na região (13 dos seus 21 municípios), focalizando em cinco temas: organização e gênero; sexualidade e saúde reprodutiva; capacitação de parteiras tradicionais; promoção dos direitos da infância e da adolescência; e educação. As ações procuram envolver tanto mulheres como homens e incluem assessoria técnica à produção agrícola. Diversos parceiros estão envolvidos, como Articulação de Entidades da Mata Sul, o Serviço Tecnológico Alternativo (SERTA, estudado por nós aqui), a Comissão Estadual de Erradicação  do Trabalho Infantil. O programa tem financiamento da EZE (Alemanha) e da Unicef. O programa de Comunicação se faz num enfoque de rádio comunitária, no Cabo, e através da Rádio Cultural de Palmares (do Sindicato dos Trabalhadores Rurais), tendo como temática os direitos reprodutivos e sexuais da mulher. A rádio de Palmares é ouvida em 19 municípios da Zona da Mata Sul. O programa é financiado pela Fundação MacArthur e tem apoio da Unicef, para organizar grupos de mulheres. Por fim, o Programa de Geração de Renda desenvolve trabalho com agricultores em prestar assessoria  técnica nas áreas de assentamento rural no Cabo e município vizinhos, como vimos acima, no âmbito do programa Menina, Mulher e Cidadania, em parcerias com o SERTA, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), Sindicatos Rurais, o Centro de Estudos e Ação Social-Rural e os Centros das Mulheres de Joaquim Nabuco, Palmares e Água Preta. Além da Unicef e a EZE, também recebem financiado da Intermón (Suíça).

O Movimento de Moradores Vila Claudete é outras entidade de visibilidade no Cabo, compreendendo uma Associação de Moradores e uma Cooperativa Habitacional. Os primórdios de sua existência estão no final dos anos 1980, quando um grupo de aproximadamente quarenta pessoas invadiu terras próximas à estação ferroviária de Ponte dos Carvalhos, um dos distritos do Cabo. Após terem sido expulsos, procuraram a Associação de Moradores de Ponte dos Carvalhos, cujo presidente à época veio a se tornar um dos principais líderes do movimento. Após muita resistência e vários pleitos junto à Assembléia Legislativa e ao Governo do Estado, o movimento conseguiu a promessa de assentamento, num terreno pertencente ao Complexo Portuário de Suape. Houve dificuldades com mudanças de governo e devido à não-aceitação pelos participantes de algumas alternativas oferecidas. No momento em que a pesquisa se realizou, o movimento havia conseguido um terreno, onde começou a implantar um projeto de auto-construção, apoiado por uma ONG especializada em métodos alternativos de construção de casas populares, a Habitec, e por um fundo de financiamento obtido junto à Novib, entidade católica da Holanda. Este fundo libera pequenos financiamentos aos cadastrados, que precisam reembolsá-los após o recebimento da casa, em cinco anos. O retorno possibilitaria, em tese, a ampliação do financiamento a outros candidatos. Nem todos os cadastrados, porém, têm requisitado o financiamento. Parte do trabalho, nas poucas casas que estavam em construção até meados de 1999, era feito em regime de mutirão (os futuros moradores atuando como ajudantes dos profissionais contratados).

A demora em se conseguir respostas concretas para a demanda, levou ao desânimo de muitos. Das mais de 2200 famílias cadastradas, chegou-se, em 1998, a apenas 70 sócios contribuindo regularmente. Com o início das construções, cerca de 300 a 400 pessoas começaram a participar das reuniões. Percebemos, num levantamento parcial feito em uma das assembléias do movimento, que mais de 50% dos respondentes havia se vinculado ao movimento há um ano ou menos[8], provavelmente estimulados pelo financiamento e o início da construção. Outra dificuldade enfrentada é que parte da área concedida (que já é a metade da reivindicada pelo movimento) - que possui hoje, a partir de uma série de critérios), é de preservação ambiental, e não pode ser desflorestada. Tem havido, então, uma longa e difícil negociação com o IBAMA, o que não impediu que se iniciasse, em meados de 1998, o trabalho de loteamento e construção, numa área liberada, de 24 hectares. Os reivindicantes admitem receber uma área em outra parte, contanto que complete um total de 55 hectares reivindicados.

Para a viabilização do projeto de construção, foi criada a Cooperativa Habitacional de Vila Claudete (COOHAVIC), em 1997. Mas em pouco tempo surgiram impasses no relacionamento da Cooperativa com a Associação de Moradores, motivadas por questões políticas e pessoais. Durante a realização dos painéis, estourou ainda um conflito aberto entre a cooperativa e a ONG que participou ativamente do projeto e intermediou a negociação do fundo para a construção, por acusações de má administração dos recursos, que também, provavelmente, tiveram relação com uma capacitação deficiente dos militantes para gerir a cooperativa. Estão tentando construir a sede do movimento no local da construção para poder contar com as pessoas já envolvidas no trabalho, um galpão para reuniões da comunidade e para os cultos religiosos - católicos, evangélicos e de candomblé. Há resistências à proposta da Associação.

Ao longo dos dez anos do movimento, diversos apoios e parcerias foram conseguidos. Além da Assembléia Legislativa (devido à necessidade de regularização da posse da terra), da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Recife e Olinda, o movimento tem se relacionado e/ou negociado, de modo temporário ou permanente, com a HABITEC, a, a Secretaria de Planejamento do município, o IBAMA, a COHAB, a Companhia de Proteção aos Recursos Hídricos do Estado.

A Igreja Evangélica Batista do Cabo foi organizada em 1981, no bairro Vila da Cohab. A igreja tem como pastor o também presidente do Movimento Evangélico Progressista (MEP)[9] no Cabo. A igreja tem 300 membros e possui uma ativa presença em ações na área social. Não apenas cede suas instalações para atividades da comunidade, como usa espaços públicos para realizar atividades religiosas (como salas de aula de escola pública municipal, para sua escola dominical). Estimulada pelo pastor, que está ali há mais de 10 anos, a igreja inicialmente tentou fazer uma série de coisas na área social isoladamente, até perceber que havia outros órgãos fazendo coisas semelhantes e com experiência acumulada. Hoje, busca estabelecer parcerias e atuar juntamente com entidades, mesmo as que têm posições religiosas muito diferentes. Realiza ações na área de saúde, educação, arte e qualificação profissional.

Em saúde, além de um consultório médico-odontológico, a igreja tem enfatizado o uso de plantas medicinais, possuindo uma farmácia fitoterápica e promovendo cursos nesta área. Com apoio da Cruzada de Ação Social do Estado, um grupo da igreja fez cursos na EMATER sobre plantas medicinais. Juntamente com o Centro de Saúde Popular Raízes da Terra (CESPRATE), têm-se promovido cursos sobre alimentação alternativa e fitoterapia. Em 1998, 368 jovens de 14 a 25 anos participaram de treinamento sobre plantação, preparação e conservação de remédios feitos com plantas medicinais; também há um trabalho de medição de pressão arterial com 68 pessoas da terceira idade, articulado à farmácia fitoterápica e a instruções sobre alimentação alternativa.

As ações na área educacional têm incluído cursos de alfabetização de jovens e adultos, e de educação para crianças especiais (25 crianças com sindrome de Down e outros problemas), que começaram nas dependências da igreja, passaram a funcionar numa escola pública próxima, o Educandário São Bartolomeu, e hoje são realizadas no Centro Social Urbano. Mantem-se um convênio com o DERE-SUL, para a provisão de professores, e conseguiram-se doações de bancos escolares da Prefeitura e de um empreendimento imobiliário local (Loteamento Cidade Garapu). Na área de arte e teatro, há uma escola de música, aberta à comunidade, onde se ministram teoria musical, voz e instrumentos; e um grupo teatral, o GET (Grupo Evangélico Teatral), que procura promover valores de dignidade humana e integrar crianças e adolescentes envolvidos com drogas. Há ainda algumas atividades com artes plásticas (pintura).

Na área de qualificação profissional, a igreja identificou ações a partir de meados de 1997, sob influência do 1º. Encontro de Lideranças Evangélicas promovido pelo MEP, no Cabo. Têm-se realizado cursos de criação de pequenos animais, criação de hortas comunitárias e plantação de árvores frutíferas. O estímulo inicial tem sido à suplementação da renda familiar, mas o projeto visa, no longo prazo, a estimular a produção comercial. Há uma parceria com a Sociedade Pernambucana de Medicina Veterinária e a Cruzada de Ação Social, contando-se com recursos do FAT. A igreja adquiriu recentemente uma área de 180m2, para implantar uma unidade-piloto a fim de executar estas atividades agrícolas. Juntamente com a Associação de Moradores de Gaibu, uma das praias do município, a igreja realizou ainda um curso de hotelaria para cerca de 90 pessoas, 30% das quais conseguiram empregos no setor turístico local.

O Lar Beneficente São Lázaro surgiu em 1984, mas somente foi registrado como entidade filantrópica em 1995, possuindo reconhecimento de utilidade pública. Sua idealização está fortemente ligada à trajetória pessoal de sua fundadora, que tendo vivido, com sua família, grandes dificuldades financeiras, fome, e pressões psicológicas, fez uma promessa de que, se superasse essas adversidades, se dedicaria a ajudar  espiritual e assistencialmente as famílias carentes de sua comunidade. O Lar trabalha fundamentalmente com crianças e idosos, através de um trabalho de creche, escola, abrigo e geração de emprego e renda. A orientação básica é filantrópica.

Oito comunidades da cidade são atendidas pela entidade, mesmo algumas bastante distantes de sua sede. Cento e setenta e quatro famílias recebem atendimento (um idoso por família), em termos de alimentação, vestuário, ações de saúde e desenvolvimento pessoal – integração em atividades produtivas, aulas, recreação. No início, era feito um trabalho de “porta a porta” para arrecadação de alimentos, roupas, etc., que eram repassados aos idosos conforme necessidades. Hoje, eles participam de atividades de coleta seletiva de lixo reciclável - garrafas plásticas e de vidro, latas de alumínio, ferro, cobre e papelão. A casa da líder principal funciona como sede do Lar, espaço de beneficiamento do lixo para venda, e abrigo para idosos que não têm onde ficar durante o dia. Através de parcerias com empresas e a Prefeitura, o Lar tem vendido o lixo reciclado à Açonorte; Latasa, Termetrol, Fortilit, Refinações de Milho Brasil e, no caso do papelão, a intermediários. O Lar recolheu, em 1998, mais de 4 mil toneladas de lixo reciclável.

O trabalho de Creche tem o objetivo de permitir que as mães deixem seus filhos para poderem trabalhar. Há um trabalho específico com mães solteiras, que são selecionadas e indicadas pelo Lar para empregos domésticos. Os recursos para a creche vêm de uma prática de coleta porta-a-porta. Inicialmente, pediam-se alimentos, roupas, etc. e faziam-se pedágios no Cabo, Jaboatão dos Guararapes, Recife e Olinda. Mas a tendência recente tem sido a de priorizar a coleta seletiva de lixo para ser vendido a empresas que trabalham com matérias-primas recicladas, envolvendo mulheres e homens (muitos dos quais desempregados) cujos filhos ou idosos são assistidos. Continua o porta-a-porta, só que agora para coleta de lixo. O Lar mantém ainda um convênio de cooperação técnica, administrativa, pedagógica e nutricional com a Prefeitura e também promove cursos de alfabetização de adultos, através do método Paulo Freire, por meio de professores voluntários, embora venha recentemente buscando uma forma de ajuda de custo junto ao poder público. Uma psicóloga mensalmente participa na avaliação das pessoas que se apresentam como voluntários.

O Serviço de Tecnologia Alternativa (SERTA) foi fundado em 1989, por técnicos em agropecuária, Agrônomos, educadores pedagógicos, professores e agricultores do Agreste e Zona da Mata Sul de Pernambuco, oriundos do trabalho social da Igreja Católica (Regional II da CNBB)[10]. Tem o objetivo de capacitar agricultores, jovens, educadores, professores e técnicos que procuram buscar alternativas de produção, organização social e educação rural. A partir de 1991, o SERTA vem se dedicando a pesquisas e estudos do meio rural, antes na região do Agreste e, a partir de 1995, na Zona da Mata Sul. A entidade passou por uma significativa reorientação e reformulação entre 1996 e 1997, que levou inclusive a um deslocamento da sua área de atuação, passando a enfatizar a Zona da Mata em relação ao Agreste, foco original das ações da entidade. Interessa-se não só por questões técnico-produtivas, mas também na proposição e avaliação de políticas de desenvolvimento municipal sustentável.

O SERTA tem o perfil de uma entidade que trabalha diretamente com a animação e organização de comunidades da população-alvo (pequenos produtores rurais e suas famílias) e presta assessoria a prefeituras e outros atores públicos, segundo o perfil mais recente das ONGs, ainda que relute em se auto-definir como ONG e procure enfatizar que a ação terá sempre como referência central os agricultores, a perspectiva da sociedade civil. Ultimamente tem dado grande ênfase à área de educação, buscando integrar suas preocupações de geração de alternativas tecnológicas e sustentáveis de produção rural com as exigências curriculares formais[11]. Mas envolve ainda agentes comunitários de saúde e ações na área de desenvolvimento sustentável. Trata-se de um grupo de profissionais bastante coeso e militante, que tem contado com parcerias diversificadas: Prefeitura do Cabo, Ministério da Previdência e Assistência Social, Ministério da Justiça, Secretaria Nacional de Assistência Social, Programa Comunidade Solidária, Unicef, Visão Mundial, Associação Menonita de Ação Social, Serviço de Cooperação Alemã-DAD. Participa da Articulação de Entidades da Zona da Mata Sul, e de uma pequena rede de entidades, todas originadas no trabalho da Igreja, com perfil semelhante, em Campina Grande, João Pessoa e Feira de Santana. É parceiro do Centro das Mulheres do Cabo num programa de geração de renda.

A Cruzada Mista Social dos Cultos Afro-brasileiros tem como principal liderança o Pai José Geraldo, que também é presidente do Partido Verde em Pernambuco. A cruzada é uma associação religiosa-cultural. Fornece alvarás de funcionamento de terreiros e promove debates com participantes de outras religiões (padres, pastor anglicano, etc.), sobre raça, economia, a mulher negra, drogas, justiça social, partindo do princípio de que o importante é salientar o cidadão e não seu credo religioso, cor ou preferências. A entidade é um espaço de culto (candomblé), mas também é um espaço para discutir o cotidiano, os problemas sociais. Articula terreiros de 25 municípios do Estado. Seu principal foco é a questão cultural, destacando que ainda há preconceito contra o negro e o índio, ainda há muita resistência a que pais de santo assumam posições em público, seja em relação a atores religiosos ou a atores seculares. Atua em atividades de cunho comunitário, juntamente com outras entidades, em campanhas para creches, reivindicações de assentamento de terras, saúde.

1.2.2 Em Chão de Estrelas

O Centro de Organização Comunitária (COC) foi fundado em 1985, por um grupo de pessoas com dificuldades face à Associação de Moradores, seguindo um padrão que é típico da comunidade: forte competição entre os grupos existentes e desconfianças mútuas entre suas lideranças. Foi estruturado através de grupos de trabalho: o grupo da sopa; o grupo de saúde; o grupo da escola; o grupo de artesanato, que era um trabalho com crianças adolescentes; a rádio comunitária; a padaria comunitária; a horta comunitária (trabalho com plantas medicinais). Seu caráter é o de uma entidade paralela à Associação de Moradores. Ocorre que a desmobilização desta última, e os conflitos entre lideranças, levaram à formação do Centro e mais do que isso, a sua transformação na grande referência local de trabalho comunitário. Toda sorte de demandas chega ao Centro e é encaminhada através dele, apesar de sua principal atividade se dar na área de atenção à saúde da população, principalmente das mulheres. Além do atendimento médico, oferecem-se cursos e palestras. Há parcerias com a Prefeitura, o Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP) e a Visão Mundial, que viabilizam a manutenção da estrutura física, o fornecimento de medicamentos para a farmácia do posto e a remuneração de monitores e agentes de saúde, embora parte do trabalho - notadamente o de mobilização da comunidade, se dê em bases voluntárias.

Hoje, os grupos de trabalho ainda existem, não mais com esta denominação, com exceção da sopa (que durou enquanto a precariedade das condições de vida na comunidade era extrema - era financiada pela ONG alemã Pão para o Mundo, e por doações de políticos e de outras ONGs). Ao longo dos anos, os grupos foram-se separando do Centro ou sendo institucionalizados ("registrados" junto a órgãos públicos para recebimento de apoio técnico e financeiro) e mantendo uma relação "federativa" com este último. Separaram-se a padaria e a escola, mantendo-se o posto de saúde como principal referencial da entidade. O posto é a própria sede física da entidades e empresta o espaço para suas outras atividades. A rádio continua fazendo parte do COC e em 1997 foi começada uma nova escola comunitária ligada a ele, com cerca de 60 alunos. A horta foi praticamente desativada, devido à necessidade de ampliação do espaço físico para abrigar a escola.

A Visão Mundial é um dos principais parceiros do Centro de Organização Comunitária, trabalhando ali desde 1992, recebendo apoio técnico e financeiro. Em 1997, uma nova relação foi estabelecida, com a transformação da área num espaço prioritário para a atuação da Visão Mundial no Estado. Mil e cem crianças são atendidas (além de atividades extensivas às suas famílias) com recursos da Visão. Somente meses antes do início da pesquisa o COC formou um Conselho Gestor, contando com  a participação da Igreja Luterana, de representantes da Comunidade e da diretoria do próprio Centro. Como diz uma gerente de campo da entidade, para se ter uma idéia da relação tensa entre os grupos, "quando o Centro formou o Conselho Gestor chamou alguns participantes desses grupos, mas ninguém apareceu. Para essas pessoas, o conceito de parceria é  o de repasse financeiro, não reconhecem a parceria num sentido de se trabalhar coletivamente em prol da comunidade".

A rádio comunitária é um instrumento importante na divulgação do trabalho do Centro e na mobilização da comunidade em torno dele, representando um diferencial significativo frente a outras entidades - especialmente a rival Associação de Moradores de Campina do Barreto. Mas a rádio funciona como espaço aberto para a divulgação de todo tipo de informação de interesse comunitário, não sendo assim um recurso exclusivo da diretoria do Centro. Faz parte da Associação das Rádios Comunitárias Livres de Pernambuco, que oferece treinamento e credenciamento de repórteres e comunicadores. A rádio tem contado com patrocínio parcial de comerciantes locais e divide meio a meio os recursos conseguidos com publicidade entre sua manutenção e a remuneração dos locutores.

O Centro Cultural Daruê Malungo é uma entidade trabalhando fundamentalmente na área cultural, com o objetivo de preservar e difundir a cultura popular, especialmente a afro-brasileira, e de alfabetizar as crianças da comunidade. Surgiu em 1988, com a organização de grupos de dança (para mulheres) e capoeira (para homens). Antes de possuir sede própria, funcionou nas dependências da escola São Judas Tadeu. A sede própria foi construída num terreno doado pelo seu fundador. Além de manter uma oficina de fabricação de instrumentos de percussão, possui grupos de dança e capoeira e organiza cursos nestas áreas. Os grupos de dança  se apresentam em inúmeras situações, mantém uma escola para crianças da área, sustentada com doações e trabalho voluntário, com cerca de 70 alunos. Há uma preocupação em garantir a retirada das crianças e jovens das ruas e de prover oportunidades de profissionalização dos mesmos, na área da promoção cultural. Isto exigiu, por exemplo, que jovens de 14 a 20 anos que participavam do grupo de capoeira, fossem alfabetizados para que se pudesse envolvê-los em atividades profissionalizantes.

As atividades permanentes da entidade incluem turmas de alfabetização, pré-escolar e reforço escolar, aulas de capoeira, cursos de crochê e bordado e oficinas de dança, percussão, canto, teatro, maquiagem (todas voltadas para a produção de espetáculos em que as crianças e jovens envolvidas com o Daruê participam). Cerca de 120 crianças e adolescentes estão diretamente envolvidos com estas atividades. As atividades escolares procuram explorar sistematicamente aspectos da cultura negra com a preocupação de criar um sentido de identidade afro-brasileira e de afirmação da cidadania. O Daruê empenha-se em conseguir vagas nas escolas públicas para as crianças que vão sendo alfabetizadas. À noite, o espaço é utilizado para apresentações teatrais abertas à comunidade.

O presidente da entidade e seu principal líder desde a organização, atua como intermediário junto aos órgãos públicos e privados, na negociação de projetos e captação de recursos, enquanto os demais membros, em número de 13 à época da pesquisa, atuam como monitores das atividades internas ao centro. As parcerias têm incluído a articulação de grupos Retome sua Vida (que trabalha com crianças e adolescentes e financia dois educadores no Daruê, com recursos do BIRD), o Conselho Estadual de Educação (que repassa recursos para o funcionamento da escola: material didático, de consumo e merenda escolar), o Conselho Britânico, o Conselho das Entidades de Defesa da Criança e do Adolescente (CONDICA), universidades locais e estrangeiras (que enviam estagiários), o Programa Comunidade Solidária, a ONG Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda, e alguns políticos que mantêm um compromisso de subvenção da entidade. Os recursos provêm ainda das apresentações de dança e da venda de materiais produzidos pelo Centro (particularmente instrumentos de percussão).

O Movimento Cultural Desperta Povo visa ao resgate e manutenção da história de lutas da comunidade, bem como da cultura negra e popular e à sensibilização para a questão ambiental. Sua existência está estreitamente ligada com uma personalidade carismática, extremamente importante na história da localidade e bastante controvertida, suscitando o reconhecimento tanto quanto a crítica de inúmeras outras lideranças. Há um forte viés personalista na entidade, que foi criada em consequência do afastamento de seu principal mentor do Centro de Organização Comunitária (do qual fora um dos fundadores). O Desperta Povo tem se especializado em questões culturais e ambientais. Começou com trabalhos na área cultural, apoiando um grupo de caboclinhos, um de mamulengos e outro, circense. A entidade tem atuação pulverizada em toda a Região Metropolitana do Recife, principalmente em Chão de Estrelas, em bairros próximos, localizados já no município de Olinda e em Abreu e Lima. Já esteve envolvida com um trabalho de reciclagem que envolveu catadores de lixo numa ação mal sucedida, mas cuja idéia não foi ainda abandonada. Durante a pesquisa, a entidade promoveu um seminário sobre desenvolvimento sustentável, numa parceria com outras (inclusive o COC e a Associação de Moradores) que acabou gerando vários atritos ao final. O trabalho atual da entidade é basicamente de articulação entre movimentos e grupos existentes na comunidade, não tendo beneficiários diretos. Entre os parceiros atuais encontram-se a ASPAN, o COC, a ONG Casa de Passagem e comerciantes locais, mas através de seu líder, há contatos com órgãos públicos e ONGs.

O Grupo Esperança não chega a ser uma entidade. É um grupo organizado em torno da pequena capela católica existente na comunidade, que possui um trabalho permanente junto a mulheres (cursos de bordado, corte e costura e outras prendas domésticas), a distribuição de uma sopa comunitária para 100 pessoas, de Segunda a Sexta-feira, e cursos de alfabetização de adultos. Além destas, o grupo possui atividades propriamente religiosas, como reuniões semanais de estudo bíblico e oração e preparação de catecúmenos. O caráter socializante e lúdico das atividades oferecidas às mulheres (principalmente as idosas) é uma marca do grupo. O referencial da Igreja Católica - particularmente a doutrina social da igreja - é fundamental para o núcleo mais militante do grupo, que surgiu como tal precisamente durante a construção, em 1990, do salão/capela onde se reúne hoje. Quase todas as atividades são auto-financiadas, não havendo parceiros institucionalizados de qualquer espécie. Através de bingos, rifas, festas, doações (em pequenas quantias) e outras atividades o Grupo viabiliza seus objetivos. O grupo não busca nem aceita qualquer suporte governamental e faz opção por uma atuação estritamente local. Sua principal referência é um casal, sendo ele um padre irlandês casado.

A Associação de Moradores de Campina do Barreto é dentre as organizações selecionadas em nosso estudo a mais desarticulada. Apesar de facilmente indicada pelos moradores (refiro-me ao survey conduzido pelo colega Breno Fontes da sub-área 3 do projeto integrado), mostrava à época da pesquisa sérias dificuldades de realizar um trabalho reivindicativo e organizativo próprio. Segundo sua presidente, dívidas deixadas por administrações anteriores (a maio de 1996, quando ela assumiu a direção da entidade) junto a órgãos públicos, praticamente inviabilizaram a continuidade da Associação. Sua origem está fortemente ligada à competição com o Centro de Organização Comunitária. As pessoas que fundaram este último participavam dos primeiros movimentos de resistência e mobilização dos moradores que foram removidos da beira do rio Beberibe para a área onde hoje está a comunidade de Chão de Estrelas. A Associação surgiu à época de Gustavo Krause como prefeito do Recife, como parte do estímulo deste último à criação de organizações populares, e em oposição ao grupo hoje participando do COC/Desperta Povo. Mas estas rusgas passaram ao longo dos anos por diversas recomposições e novas rupturas.

A Associação mantém uma escola comunitária em suas dependências e cede espaço para o funcionamento da rádio comunitária do COC. Como o COC, também encaminha ofícios a órgãos públicos com reivindicações de infra-estrutura para a comunidade. Suas atividades adicionais, muito referenciadas no trabalho de sua presidente, superpõem-se quando comparadas com o COC, o Grupo Esperança e o Daruê: cursos de bordado, decoração, corte e costura, confeitaria (doces e salgados) e trabalho com adolescentes, com preocupação profissionalizante. Não conseguimos obter informações sobre os parceiros e públicos das atividades realizadas pela Associação.

Múltiplo pertencimento e transição permanente

Num trabalho anterior (Burity, 1994a), procurei mostrar como os processos sociais e políticos que tiveram efeito com a transição à democracia no Brasil anunciavam algo mais do que uma mera conjuntura de mudança de regime político. A lógica de negociação e a conflitualidade envolvendo múltiplos atores (obviamente de dimensões e poder de barganha diferentes entre si), as articulações constituídas em função da definição de um campo de antagonismo, que serve como espaço de agregação de posições, um "nós" e um "eles" em disputa, são indicadores de uma transformação no espaço tempo da ação coletiva e da ação político-institucional. Esta transformação faz das regras democráticas uma exigência, instaura uma disputa intelectual e moral pela hegemonia dos valores da participação, da pluralidade ideológica e cultural, da transitividade dos arranjos políticos. Chamamos a este novo espaço-tempo de transição permanente, sem uma preocupação de atribuir-lhe um juízo de valor positivo a priori, mas destacando que o caráter contingente das escolhas e decisões políticas/coletivas gera a necessidade de avaliações contextuais.

Os anos 90, e toda a crise que eles trouxeram para a política de base e os valores ideológicos radicais (não somente os socialistas, mas mesmo os comunitaristas, coletivos por contraposição a individualistas) reforçaram a validade desta representação. Em nossa pesquisa pudemos constatar na fala dos informantes e entrevistados as marcas de um deslocamento que os coloca frente a desafios a sua identidade como militantes sociais, partidários e como indivíduos com algum trajetória de compromisso com setores excluídos da sociedade. Os atores coletivos no plano local vivenciam hoje uma transição que parece ter-se tornado também permanente. A rapidez das mudanças em diversos campos de ação que incidem sobre movimentos e organizações atuantes na esfera local e a dinâmica de tensão e negociação entre as fronteiras culturais e institucionais das identidades envolvidas impulsiona uma situação em que a ênfase na conexão, na articulação, na auto-iniciativa e na flexibilidade/pragmatismo como estratégia tornam-se objetivos válidos em si mesmos.

Em meio à transição permanente e em função dela, crescem em importância as questões identitárias ligadas à auto-definição, ao reconhecimento do/pelo outro, ao antagonismo que ajuda a demarcar fronteiras. Busca-se construir (ou “resgatar”) a identidade como forma de ancorar-se a algo menos flutuante. E experimenta-se a identidade como problema, face ao desafio posto por outras formas de identificação (por exemplo: participação e solidariedade versus isolamento e competitividade).

O múltiplo pertencimento coloca para a cidadania o desafio de manter sua “vocação” universalista e igualitária em meio à fluidez do pertencimento, à retração particularista (desmobilização, isolamento ou competição com outros atores pelos mesmos recursos limitados) e à ênfase na legitimidade do plural, do diferente. Ademais, atesta a proliferação de espaços de vinculação e de disputa, alguns dos quais podem ser priorizados sobre outros, mas não indefinidamente, uma vez que as carências são tantas e tão profundas que é preciso fazer-se muitas coisas ao mesmo tempo, em meio a formas de associação que exigem certo grau de adesão, ao mesmo tempo em que reconhecem/disputam o espaço de outras.

Uma das consequências desta situação para os grupos é a de abrir sua agenda para incorporar novas áreas de atuação ou temas de interesse, à medida que ampliam sua definição do problema central que os mobiliza e dá identidade - pobreza, gênero, meio ambiente, religião, cultura, etnicidade, etc. Ou seja, os grupos tornam-se multifocalizados (embora nem sempre de forma sincrônica). Há migrações de interesses ou ênfases. Parte disso decorre da busca de sustentabilidade para as organizações, que leva a formular projetos que, para serem financiados, precisam atender a determinadas exigências de organismos governamentais ou não-governamentais, nacionais e internacionais (cf. Fernandes, 1993:79-82). Nesta busca de recursos que viabilizem os objetivos do grupo, vai-se alargando, de forma não planejada ou muito controlada, o raio de atuação, mas também o número de interlocutores, parceiros e penetra-se em espaços cada vez mais marcados pela pluralidade de atores - concorrentes ou articulados - onde não é possível assegurar a "pureza" de suas identidades. Pressões, crises e negociações tornam-se moeda corrente. Múltiplo pertencimento, que tanto abrange a constatação pura e simples de que se está imerso em redes de relações cada vez mais complexas, quanto a questão mais forte do deslocamento e recomposição permanentes da identidade coletiva.

Não há porque ignorar o efeito desorientador que isto produz em muitos agentes. Tampouco se pode deixar de assinalar que a múltipla inserção dos atores coletivos os leva a multiplicar atividades praticamente idênticas numa mesma área, em busca de legitimação ou reconhecimento por parte do público. O lado negativo desta superposição foi percebido por vários dos painelistas. Ela é uma consequência das divergências políticas e da incapacidade de negociação entre os líderes locais, levando a uma fragmentação do campo reivindicativo na comunidade e, em certas situações, ao enfraquecimento das demandas, na medida em que fica aberta a porta para que os grupos mais próximos da posição governamental ou de segmentos da burocracia nos órgãos públicos levem vantagem sobre os demais. Acesso diferencial que pode ser usado como trunfo na disputa por influência local, na medida em que se pode apresentar maiores realizações. Por sua vez, esta é uma base de poder na barganha com os atores externos à comunidade. Dois depoimentos deixam claro o problema: “não deve haver orgulho, auto-engrandecimento, porque é um trabalho participativo. Assim, cada um dentro de sua área, da sua possibilidade, da sua boa vontade, contribui positivamente para o engrandecimento de todos. Afinal de contas nós somos democratas, né. Vivemos num país democrático e nossa prática, a democracia, é respeitar os direitos dos outros” (participante do Centro de Organização Comunitária de Chão de Estrelas) e “às vezes temos a pretensão de que só a igreja, só o Centro das Mulheres, só o SERTA, etc. tem a resposta” (participante da Igreja Evangélica Batista do Cabo).

Caminhos de uma cidadania híbrida: constituição do novo espaço público em meio à condição de exclusão

O contexto brasileiro dos anos 90 foi marcado por sinalizações fortemente contraditórias: a intensificação dos processos de modernização no âmbito do aparelho estatal e das suas relações com a sociedade deu-se a par com um mais do que documentado agravamento das condições de vida da população, apesar dos efeitos iniciais da estabilização monetária pós-1994. A extensiva “reengenharia” política, econômica e organizacional que incorporou uma série de inovações tecnológicas e de gestão alargou o mapa da exclusão e o rol de demandas e carências a enfrentar (aumento do desemprego e das exigências de qualificação da mão-de-obra sem a contrapartida de maiores salários, precarização do vínculo de trabalho, restrição de direitos e condenação ao desprezo daqueles desadaptados ao novo sistema).

Por outro lado, uma pluralidade de atores, que havia constituído um espaço público para a “volta” da democracia nos anos 80, experimentou uma trajetória que foi da desarticulação (ainda sequer pluralidade, mas pulverização, desorientação e/ou repressão contra esforços agregadores) à articulação em torno do significante democracia[12], em função de uma ameaça ou inimigo comum[13], e, em seguida, encaminhou-se para um processo de “realinhamento” que envolveu tanto a crise de diversas das identidades em jogo, como a emergência de uma lógica política e cultural avassaladora, epitomizada nas idéias de “mercado” e “desregulamentação”. Um significativo processo de redefinição ideológica e estratégica, tornou muitos atores mais “colaborativos” com o estado (inclusive com administrações de diferentes matrizes político-ideológicas), mais reflexivos em relação a sua própria prática, e mais flexíveis/pragmáticos em sua definição de objetivos, formas de atuação e construção de apoios e articulações.

No nível instrumental, passou a prevalecer uma ênfase na conexão e na articulação. No nível valorativo, cresceu a ênfase na solidariedade e na busca de formas de estar ou atuar junto em meio ao reconhecimento de diferenças - embora ainda haja uma tendência a pensar estas últimas como diversidade de atribuições, quando se fala de projetos a realizar, e como experiência difícil de estranhamento e conflito, quando se fala das tentativas de mobilizar ou coordenar grupos específicos em função de interesses maiores. Ainda há espaço para políticas mais agressivas, de pressão e confronto, mas estas precisam ser bem calculadas, aproveitando-se vulnerabilidades do adversário, numa conjuntura em que há pouca “paciência” para o debate aberto.

Ao longo da década foi-se desenhando uma esfera pública plural – ou uma pluralidade de esferas públicas – que reduziu a centralidade do estado[14] e ampliou a noção de público através de uma incorporação de funções de provisão e controle (ainda que experimentais e circunscritas) pela sociedade civil. Alguns já falam de uma esfera pública não-estatal como contrapartida da esfera pública tradicional do estado. Há quem fale de um esquema tripartite em que, ao estado e ao mercado vem se interpor um terceiro setor em que outros valores, interesses e repertórios de ação prevalecem. Em ambos os casos, ainda que se recomende a cautela devida a percepções de tendências pouco sedimentadas, pode-se falar da constituição de uma esfera híbrida de cidadania. Híbrida por ser estatal e não-estatal, tanto no sentido de que abriga essas duas distintas lógicas de funcionamento do social como no sentido das experiências de trânsito entre as fronteiras do estado e da sociedade civil (que põem em xeque a clássica distinção entre público e privado). Híbrida, ainda, por ser ideologicamente heterogênea, mesmo ambígua, em sua utilização da linguagem dos direitos e da participação como alternativa à força do dinheiro e do poder político tradicional.

3.1 O sujeito híbrido: atores-rede no espaço da promoção e extensão da cidadania

Este espaço híbrido pode ser construído conceitualmente por diferentes caminhos. Um deles, que remonta a estudos feitos por Melucci sobre movimentos sociais no início dos anos 80, enfatiza a especificidade da ação coletiva na sociedade contemporânea vis-à-vis a política institucional e o caráter compósito dos atores que ali se movem. Para ele, o campo da ação coletiva tende a autonomizar-se da ação institucionalizada, o que implica também uma diferenciação entre esta forma de ação e a ação política tradicional. O conceito de “área de movimento”, tomado à teoria da mobilização de recursos americana, tentou, num primeiro momento (cf. Melucci, 1984), dar concretude empírica ao estudo desses atores plurais que são via de regra descritos como movimentos sociais. As áreas corresponderiam a campos de estruturação de identidades coletivas e a espaços de recomposição da identidade (a qual estaria continuamente exposta à fragmentação na sociedade complexa).

Neste caso, porém, os indivíduos e grupos encontrariam na área de movimento um espaço para recomporem a identidade dividida pelo múltiplo pertencimento e pelos diferentes tempos e papéis experimentados na sociedade. Isto nos coloca diante de duas dificuldades na comparação entre a realidade analisada por Melucci (ou sua representação dela) e a brasileira: uma empírica e uma conceitual. É que sendo seu conceito de sociedade complexa algo linear – opondo-se a uma sociedade “simples” ou, quem sabe, “sub-desenvolvida” –, Melucci acaba falando de uma “fase industrial” que estaria ficando para trás e marcando uma quebra no perfil dos movimentos sociais. Nesta fase industrial, os conflitos dos quais os movimentos participavam inseriam-se numa luta mais ampla pela cidadania – a ação não-institucional estava subordinada e/ou era englobada pela ação institucional. Os movimentos, nesta fase, seriam “personagens” confrontados ao estado e demandando inclusão/ampliação da cidadania. Na nova fase, quando o institucional e o não-institucional se separam, os movimentos “assumem ao invés a configuração de áreas em que se forma, se negocia, se recompõe a identidade coletiva” (Idem:436; cf. o contexto mais amplo das pp. 435-37).

A diferença aqui é que se esta representação é verdadeira, então o caso brasileiro apresenta uma complexidade diversa da que fala Melucci: aqui há coexistência sim, mas de um enfoque voltado para o estado e a luta pela cidadania e um enfoque que estimula a diferenciação entre a ação coletiva (sociedade civil) e a ação política (estado), desafiando a primeira a encontrar soluções para problemas que não podem mais (ou não se quer mais que sejam) resolvidos pelo estado e a suplementar a segunda, conferindo-lhe a legitimidade e a referência de eficiência e eficácia que ela perdeu. Há uma ampliação do alcance da cidadania que tanto justifica a ação institucional, como constrói espaços de autonomia em relação a ela (notadamente no nível micro, tão valorizado por esse autor). Melucci em nenhum momento está em condições de dar conta desta configuração[15], refletindo assim ou uma leitura exclusivamente européia dos caminhos da ação coletiva ou um resquício de etapismo bastante questionável (cf. Gohn, 1997:130).

A dificuldade conceitual está em que, de um lado, o conceito de área de movimento - ou redes de movimentos, como Melucci tem preferido chamar mais recentemente, sem que haja, a meu ver, qualquer mudança em relação ao ponto aqui desenvolvido - está em tensão com o múltiplo pertencimento, tornando-se um refúgio da identidade contra a “segmentação ou desestruturação” (Melucci, 1984:436), quando tudo parecia apontar para uma relação de complementaridade e referência mútua, dada pela definição relacional, pluri-organizacional e pluri-ideológica da área/rede e do ator coletivo.

De outro lado, se a sociedade complexa tende à mundialização e nela há uma tendência a contemporaneizar tudo, a desfazer as sequências cronológicas em favor de uma coexistência, ficamos entre duas alternativas. Ou bem a coexistência no interior dos movimentos de sociedades complexas é mera aparência de diferentes fases – pura diversidade, sem antagonismo –, as quais estariam conciliadas num todo harmônico e complementar; ou então, os movimentos de sociedades “industriais” (não-complexas?) também partilham da heterogeneidade das áreas de movimento/redes, não são "personagens", mas "formas" e, assim, a utilização da periodização industrial/complexo para a análise dos movimentos não pode ser entendida no sentido de uma polaridade Sul/Norte, atraso/avanço, uma vez que sob a globalização, não estando mais os problemas e lugares dos conflitos presos à referência local, torna-se insustentável esta distinção entre personagem e área enquanto corolário de uma interpretação da sociedade complexa como sociedade (mais) avançada (cf. Burity, 1999a).

Assim, aplicam-se também, na caracterização analítica das formas de ação coletiva em sociedades como a brasileira dos anos 90, os traços característicos do campo dos movimentos como espaço de afirmação de uma pluralidade de agentes e lógicas sociais: articulação/formação de redes, trânsito e multiplicidade de identidades coletivas em busca de recomposição (não tanto contra o múltiplo pertencimento, ressalvamos, mas através dele), a conflitualidade e a tensão entre ação coletiva e ação institucionalizada. Como elemento contextual importante acrescentaríamos o que foi explorado no trabalho anterior (cf. Burity, 2000): o holismo das carências leva a uma crescente diversificação da atuação dos grupos e sua inserção em redes de articulação - governamental e não-governamental - em busca de atender às inúmeras demandas das populações pobres.

A narrativa dos grupos sobre sua história, nas questões sobre quem eram e o que faziam, e quais eram os temas de maior interesse para eles, indica uma crescente consciência e diversificação dos temas, ações, orientações e parcerias com outros atores, de modo que, invariavelmente, em torno de um núcleo básico, que dá o tom da identidade do grupo – cultura, mulheres, crianças, religião, moradia, trabalhadores ou pequenos produtores rurais, etc. – vai-se delineando um leque holístico de demandas, que leva à adoção de temáticas mais amplas e menos diretamente vinculadas à história particular do grupo. Em certos casos, a dispersão obedece a uma lógica em que, quanto mais se diversifica o leque de atuação, menor é a possibilidade de assegurar um sentido comum – um objetivo claro, um princípio determinado, etc. – que articule todo o conjunto (cf. Laclau, 1996c). O avanço em horizontalidade do ator coletivo ou temática aglutinadora que assim se constitui também representa uma dispersão do sentido e uma superficialização do acordo substantivo entre os participantes, passando a ênfase ao impacto possível da articulação e aos ganhos diferenciais dos atores envolvidos.

Este holismo das carências tem como contrapartida uma atuação local e em certa medida contingente ou intermitente, que se alimenta das oportunidades de recursos - materiais e humanos - bem como da implementação de determinadas políticas públicas. O localismo tem duas referências básicas: (i) a “comunidade” como lugar da ação; (ii) a ausência de projetos generalizantes a partir da “questão” que deu origem ao grupo. Tal ausência de macro-projetos, entretanto, não significa ausência de horizontes ideológicos – cidadania, direitos, igualdade, primazia da comunidade, compromisso ético com as necessidades dos outros, a importância da articulação e das parcerias – que remetem à imagem de uma sociedade reconciliada consigo mesma, emancipada, justa, etc.

Uma recente processo de discussão sobre estratégias locais para ao enfrentamento da pobreza, coordenado por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas, chegou a uma conclusão que vem reforçar nossa interpretação:

“Uma outra constante [no processo de reflexão, JAB] foi o reconhecimento que as experiências, projetos e programas discutidos têm muito mais as características de processos do que de atividades planejadas antecipadamente. Eles nunca se iniciam já totalmente estruturadas [sic]; ao contrário, tendem a ir ganhando forma no decorrer da prática e do tempo, integrando outros elementos e idéias à ação. Não havia, mesmo nas atividades ditas ‘integradas’, um plano programático que, definido previamente, fosse capaz de garantir resultados. Estratégias, portanto, são muito mais um reconhecimento posterior de encaminhamentos adaptados, do que etapas programáticas anteriormente definidas” (Camarotti e Spink., 2000:209).

As marcas desta trajetória aparecem, por exemplo, nas variações encontradas na forma como os participantes descrevem seu próprio grupo. Elas expressam apreensões distintas do que o grupo seja e do que faz, bem como o olhar desde o tipo de atividades que as pessoas realizam com maior frequência no interior do grupo. Num dos grupos, uma igreja batista no Cabo, isto ficou bem nítido. Enquanto uma senhora muito atuante nas atividades de evangelização e ação social da igreja destacou como objetivo do grupo "apresentar Jesus como o senhor da vida, única esperança", ressalvando discretamente[16] que apesar de outras entidades ajudarem à comunidade, "o único caminho mais verdadeiro é Jesus, pois o homem por si só não tem forças suficientes para resolver o problema da vida", um outro participante, que lida com as ações de saúde da igreja na área de fitoterapia, destacou o trabalho com plantas medicinais como forma de resgatar a tradição indígena. A mesma senhora demonstra maior atenção à diversidade de ações que sua igreja realiza do que nosso segundo informante: enquanto ela acrescenta que a igreja provê atendimento médico-odontológico (não só aos evangélicos, mas à população local), sopão, "quentinhas", pregações, cursos profissionalizantes, distribuição de remédios e alimentos em viagens evangelísticas a outras cidades, aquele somente menciona o atendimento médico-odontológico. Já o pastor procurou dar um tom mais ecumênico à definição do seu grupo, apresentando-o como empenhado em "cumprir a missão que o próprio Jesus deixou a todos nós, independente até de ... [religião, ideologia, posição social, área de atuação?, JAB]. Ele tem a visão mais sistemática do que faz a igreja: ela procuraria atuar sobre três dimensões -  saúde, educação e pregação do evangelho. Na saúde, com terapias alternativas, e assistência médico-odontológica. Já na pregação, atua-se "cobrando uma consciência, orientação, o alcance da integralidade da condição humana", buscando "uma maior consciência comunitária nos batistas, para que vejam além da dimensão transcendente, as condições de vida reais".

O contraste, neste caso, fica com grupos que possuem uma história de atuação conjunta mais intensa. Aqui estão as ONGs estudadas - o Centro das Mulheres e o SERTA -, apesar de se tratarem de entidades que igualmente estendem suas atividades a uma grande diversidade de ações: do gênero à geração de renda de agricultores, na primeira; de tecnologias alternativas na produção à mudanças na prática educativa nas escolas públicas, na segunda entidade. Mas também fazem parte disso entidades populares, como o Movimento de Moradores de Vila Claudete, o Centro de Organização Comunitária e o Centro Cultural Daruê Malungo.

Já a dispersão das atividades numa mesma temática pode ser captada na preocupação com a saúde. Aqui temos o exemplo do Centro das Mulheres do Cabo, do Centro de Organização Comunitária de Chão de Estrelas, da Igreja Batista do Cabo, cada uma com um perfil bastante distinto, em termos de seu "núcleo básico". Há o atendimento convencional de saúde, mas também medidas preventivas e de formação de hábitos pessoais e coletivos; há ênfases sobre a questão da sexualidade e reprodução ou sobre a conexão entre fitoterapia e alimentação alternativa; há ações articuladas a órgãos e políticas públicas, outras, oferecidas isoladamente ou através de parcerias pontuais.

Outra temática generalizadora é a cultural. Todas as entidades estão engajadas em resgatar, promover ou questionar o social através do cultural, desde as preocupações de incidir sobre mentalidades historicamente formadas, modificando-as para incorporar novos temas e práticas econômicas (tecnologias alternativas ou as novas exigências do mercado de trabalho) ou políticas (a participação, a interação com parceiros públicos e privados), até a promoção de formas de diversão pública associadas a heranças culturais das comunidades locais ou à consciência mais recente da questão racial e de gênero. Crianças e adolescentes são outra preocupação recorrente, e embora seja abordada desde o prisma de cada grupo, há muitas superposições em termos valorativos ou de atividades realizadas: corpo e sexualidade, formação educacional e profissional, violência e drogas, prostituição, atendimento pré-escolar, o problema dos "limites" e do reconhecimento do outro como questão pedagógica fundamental na fase da adolescência.

Uma entidade como o Lar São Lázaro tipifica a interconexão dos temas, impulsionado pelo holismo das carências já apontado: preocupando-se com as consequências do desemprego e da fragmentação do laço familiar para os segmentos pobres da população, principalmente as mulheres e os idosos, o Lar é um espaço ambíguo entre a filantropia mais tradicional, de base explicitamente religiosa (predominantemente espírita, no caso), e preocupações muito recentes com o equilíbrio ambiental e a geração de renda. Mantém uma creche e salas de aula de alfabetização, mas também procura mediar conflitos familiares (principalmente os que envolvem violência contra mulheres e crianças), indicar pessoas para emprego, e estimular a geração de renda, através de um trabalho de reciclagem de lixo.

O sujeito híbrido da cidadania assume crescentemente o formato de redes. Estas nem sempre se apresentam como atores em si, como movimentos ou articulações que estão estruturalmente configurados como redes de grupos e se apresentam publicamente como tal. Este momento de visibilidade só emerge "onde um campo de conflito público emerge" (Melucci, 1989:71). Cotidianamente, entretanto, a rede de relações e de grupos se mantém em latência, que não significa inatividade, mas um regime de existência em que o espaço público da comunidade não se confunde com o espaço público da sociedade. A movimentação no primeiro espaço segue ritmos próprios e aparentemente invisíveis desde o lugar do último. Segundo Melucci,

“[a] situação normal é a de uma rede de pequenos grupos submersos na vida cotidiana (...) A rede submersa, embora seja composta de pequenos grupos separados, é um circuito de trocas. Indivíduos e informações circulam ao longo do espaço e algumas agências (os núcleos profissionalizados) asseguram uma certa unidade da área. A rede submersa: a) permite um pertencimento múltiplo; b) é part-time tanto com relação ao curso da vida, quanto com relação ao tempo que absorve; c) o envolvimento pessoal e a solidariedade afetiva são uma condição para a participação” (1984:444-45)[17].

Assim, entre a visibilidade e a latência, multiplicam-se as redes, na esfera do cotidiano e, nos últimos anos da década de 90, na esfera pública, roubando espaço à posição central do estado e levando à emergência de um espaço híbrido que enfocaremos mais adiante. As redes possuem diferentes níveis, formatos e graus de densidade (cf. Wellman, 1988; 1998; Garton, Haythornthwaite e Wellman, 1997; Scherer-Warren, 1993; 1998; Fontes, 1999; Lopes, 1995; Mische e White, 1998). Em nossa pesquisa não trabalhamos com o nível mais desagregado, o das relações pessoais (redes egocentradas), mas focalizamos, por força de nossa preocupação com a relação entre ação coletiva e cidadania, exclusivamente as redes secundárias, entre grupos e organizações.

De forma puramente indicativa, faltando-nos o espaço para explorar as modalidades de relação e as dificuldades e perspectivas abertas por estas conexões, elencamos na tabela 1, por tipo de organização, as entidades que trabalham em parceria, até onde pudemos apurar ou tivemos acesso a informações pertinentes, sem pretensão de exaustividade.

TABELA 1

REDES DE CONEXÕES ENTRE OS GRUPOS ESTUDADOS, POR TIPO DE ORGANIZAÇÃO, NO PERÍODO DE 1997-1999

Tipo de OrganizaçãoGrupos estudados3.1.1 Organismos internacionais (multilaterais ou não-governamentais)Visão MundialCentro das Mulheres do Cabo (CMC) e Centro de Organização Comunitária (COC)UnicefCMC, Serviço Tecnológico Alternativo (SERTA)Terra dos Homens (Suíça)CMCEZE (Alemanha)CMCFundação MacArthurCMCIntermón (Suíça)CMCComunidade EuropéiaCMCNovib (Holanda)Movimento de Vila Claudete (MVC)Serviço de Cooperação Alemã (DAD)SERTACáritasSERTAIgreja Unida do CanadáCMC3.1.2 Organismos não-governamentais e privados nacionaisServiço de Tecnologia AlternativaCMCRede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos e SexuaisCMCFórum de Mulheres de PernambucoCMCCentro Social UrbanoIgreja Batista da Vila Cohab (IBC)Articulação de Entidades da Zona da Mata SulCMC, SERTAFederação de Órgãos para Assist. Social e Educacional (FASE)CMCTipo de OrganizaçãoGrupos estudadosAssociação Brasileira de Organizações Não-GovernamentaisCMCRede Estadual de Combate a Exploração Infanto JuvenilCMCMovimento Pró-EducaçãoCMCRede Estadual de Direitos HumanosCMCRede de Mulheres Latino AmericanasCMCMovimento Pró-CrecheCMCConselho BritânicoCentro de Cultura Daruê Malungo (CCDM)Rede Latino Americana de Combate à Violência Doméstica e SexualCMCCentro de Estudos e Ação Social-Rural (CEAS-Rural)CMCSindicatos RuraisCMC, SERTAArticulação Aids PernambucoCMCHabitecMVCAssociação de Moradores de GaibuIBCSociedade Pernambucana de Medicina VeterináriaIBCCentro de Estudos de Saúde Popular Raízes da  Terra (CESPRATE)IBC, MVCLoteamento Cidade Garapu (empresa)IBCAçonorte (empresa)Lar Beneficente São Lázaro (LBSL)Latasa (empresa)LBSLTermetrol (empresa)LBSLRefinações de Milho Brasil (empresa)LBSLFortilit (empresa)LBSLCentro de Cultura Luiz FreireCCDMConselho das Entidades de Defesa da Criança e do Adolescente (CONDICA)CCDMAssociação das Rádios Comunitárias Livres de PernambucoCOCGrupo OrigemCOCSOS CorpoCOCMovimento de Meninos e Meninas de RuaCOCMovimento Retome Sua VidaCOC, CCDMCasa da Mulher do NordesteCOCInstituto Materno-Infantil de PernambucoCOC3.1.3 Organismos governamentaisPrograma de Atenção Integral à Saúde da MulherCMCConselhos MunicipaisCMC, COC, SERTAPrefeitura MunicipalCMC, IBC, LSL, SERTA, COC, MVCServiço Nacional da Indústria (SENAI)CMCPrograma Comunidade SolidáriaCMC, IBC, SERTA, CCDMPrograma Saúde na FamíliaCMCComissão Estadual de Erradicação  do Trabalho InfantilCMCAdministração portuária de SuapeMVCIBAMAMVCAssembléia LegislativaMVCCOHAB/PEMVCCompanhia de Proteção aos Recursos HídricosMVCCruzada de Ação SocialIBC, COCEMATERIBCSecretaria da Educação Estadual (DERE-SUL)IBCConselho Estadual de Educação CCDMSecretaria de Trabalho e Ação SocialSERTALegião Assistencial do RecifeCOCFórum do Programa de Regulamentação das Zonas Especiais de Interesse Social (PREZEIS)COC

3.2 O espaço híbrido: entre o público e o privado, práticas tradicionais e novas

Muito se fala hoje, entre atores da sociedade civil, no caráter híbrido deste espaço público que se abre entre o estatal e o não-estatal. As primeiras formulações desta idéia parecem remontar a análises pós-68, que viam na emergência dos movimentos culturais e sociais de então a transposição da fronteira do espaço público para ali colocar questões da vida privada, do cotidiano (cf. Touraine, 1977; Grazioli e Lodi, 1984). Estas discussões foram complementadas pelas teorias dos novos movimentos sociais, com a ênfase dada à crescente importância dos processos de construção da identidade na sociedade avançada (cf. Melucci, 1980; Cohen, 1985; Laclau e Mouffe, 1989). Esse espaço social emergente definiria, para Melucci (1996:307-312)[18], três características essenciais às mobilizações que o atravessam:

(i) globalidade – busca de recompor na sincronia de uma experiência cotidiana a compartimentação das esferas de valores e práticas da sociedade moderna. Recusa de respeitar rigidamente a fronteira entre o público e o privado, o íntimo e o compartilhado, o cultural e o político, o subjetivo e o objetivo, mesmo que para isso tal globalidade pareça retomar traços dos conflitos pré-industriais, envolvendo comunidades campesinas ou controvérsias religiosas[19]. Segundo Melucci,

“Tendo perdido seus traços absolutos, a globalidade focaliza-se no presente; funciona como fator agregador de curto prazo, é sempre renovável. De forma simbólica, ela indica questões sistêmicas gerais através do particularismo do tempo e lugar de ações sociais concretas. Ela se adequa e coabita, ademais, com aquele sistema de múltiplos pertencimentos  gerado pela complexidade, em que atores passam de uma associação a outra, de uma rede a outra diferente, sem comprometerem-se em definitivo com um grupo específico ou com um tema específico” (1996:308, grifos meus).

(ii) posicionamento dentro-fora do sistema de representação, tornando cada vez mais problemático distinguir entre centralidade e exclusão, já que há inegavelmente um resultado das lutas dos anos 70/80 em termos de maior acesso de grupos marginalizados à cidadania e ao sistema de representação de interesses. Assim, as mobilizações passam a se colocarem objetivos de alcançar algum espaço no mercado político; ao invés da recusa radical dos anos 70, ressalta-se mais um reconhecimento dos limites da ação institucional e sua utilização instrumental, o que torna permanente, mas frequentemente tensa, a interação com o sistema partidário e as instituições governamentais. Assim, os movimentos “trabalham para criar canais de representação mais congruentes com seus atores, sem descartar os oficiais, e assim eles se situam tanto dentro como fora do sistema político” (Idem: 309).

(iii) continuidade/coincidência entre identidade individual e identidade coletiva, se torna mais complexa. De um lado, a percepção da diferença em relação ao de fora, é acrescida do reconhecimento da diferença que atravessa internamente o ator coletivo. “Os atores coletivos devem levar em consideração as múltiplas, mutáveis e sobrepostas relações de pertencimento que articulam a base de um movimento” (Idem:310). De outro lado, o múltiplo pertencimento é assumido como uma vantagem estratégica numa sociedade que continuamente redefine fronteiras e dificulta a sobrevivência de configurações rígidas e monolíticas. A “diversidade” interna é explorada com fins de facilitação das demandas colocadas à esfera pública. As formas de organização passam a refletir, assim, a transitoriedade de sua base social, os objetivos combinam universalismo e localismo, a identidade é definida de modo mais cultural do que estrutural, ou seja, mais em função de posturas, valores e decisões dos atores do que pela sua submissão ao lugar que ocupam no sistema social/econômico (Idem:295-296).

Mais recentemente, a questão do espaço híbrido definido pela fronteira público/privado tende a ser substituída pela ênfase na ampliação do espaço público em termos da oposição estatal/não-estatal. Embora haja um certo paralelismo entre estes dois hibridismos, não se trata de processos idênticos. Tanto se pode ter uma articulação entre ambos como podem seguir caminhos distintos. Os partidários das novas técnicas de gestão social inspiradas em práticas de mercado quase só se ocupam da segunda distinção, enquanto que atores oriundos do campo dos movimentos sociais dos anos 80 tendem a buscar uma articulação entre ambas. E a observação empírica nos adverte para a presença de ambos os processos nos grupos estudados, embora o grau de percepção de um ou outro varie bastante. Vejamos algumas.

Primeiro, uma relativa ao holismo das carências, que ressalta o par público-privado. Da forma como este aparece na fala de alguns entrevistados, observamos um curioso paradoxo, que no entanto está longe de ser desconhecido nos meios populares: de um lado, o ativista social nega muito de sua liberdade pessoal em favor do outro, da "comunidade", mas assume um papel mediador de conflitos inter-pessoais e até de aconselhamento para indivíduos e famílias em crise. De outro lado, o próprio espaço público local é capturado pelas demandas de resolução de conflitos que, no âmbito do cotidiano, frequentemente dizem respeito a situações privadas – desavenças entre marido e mulher, violência de pais sobre filhos, de homens sobre mulheres, problemas financeiros - mas são trazidos ao líder local. Sinal de reconhecimento de sua liderança – para além do caráter representativo, político –, esta prática aponta também para a ausência de canais formalizados para encaminhamento de diferentes demandas. Isto aparece claramente em grupos como o Lar São Lázaro, o Movimento de Moradores de Vila Claudete e o Centro de Organização Comunitária.

Um segundo ponto se refere às parcerias e diz respeito ao hibridismo da relação estatal-/não-estatal superpondo-se em alguns casos à relação público/privado. As parcerias vêm, pela sua intensificação, contribuindo para definir uma trama de relações que mostra de forma eloquente o hibridismo do espaço público - entre o público e o privado, entre o estatal e o não-estatal e nos cruzamentos destas duas polaridades. Um novo espaço social se vai definindo através da prática das parcerias, apesar de não resolver uma série de problemas já antigos de assimetria de poder, de definições informais ou não pactuadas livremente entre os participantes, de ganhos desiguais entre os parceiros relativos às expectativas colocadas no processo.

Duas situações servem de catalisador para a formação de parcerias, desde a perspectiva dos atores não-estatais. Em primeiro lugar, o holismo das carências coloca sempre o movimento ou organização popular diante de um hiato entre seus recursos (limitados) e o volume das demandas, exigindo a busca de apoios e financiamentos para o atendimento das reivindicações. Em segundo lugar, a mudança no clima ideológico (notadamente em relação à oposição direita/esquerda) vem levando a um maior pragmatismo das organizações comprometidas com mudanças substantivas, na viabilização de suas demandas; e a uma mudança de atitude face ao estado, não mais visto como "o gato que pega o rato", como disse um dos informantes. Esta mudança decorre certamente da ampliação dos espaços de cidadania e da implementação de políticas públicas com maior participação dos setores sociais interessados, que passaram a vigorar após a democratização do estado, a partir dos anos 80, reforçando o que dissemos no item (ii) acima. Nos dois casos, a consequência é uma maior preocupação em buscar parceiros e diminuir os custos da ação coletiva.

As parcerias, ao mesmo tempo que aparecem como uma exigência irrecusável para a quase totalidade dos grupos, não são experimentadas acriticamente. Ainda há resistências localizadas à aproximação do estado e do mercado - um dos grupos, em Chão de Estrelas, recusa-se a se "registrar" junto aos órgãos públicos, em função da preservação de sua autonomia. Há também lições tiradas de parcerias anteriores, que recomendam atenção para as assimetrias de poder e diferenças de visão como elementos dificultadores.

O reconhecimento da necessidade de parcerias é geral, como podemos ver nos seguintes depoimentos: "é muito difícil fazer qualquer coisa sozinho"; "sem parceria, como diz o ditado popular, ... com uma andorinha só não faz verão"; "tem que haver uma articulação, porque se nós somos uma entidade, se a gente ficar assim centralizados só aqui, entre nós, e não participar lá para fora, nem a gente se divulga e nem a gente consegue trazer nada pra comunidade. Tem que haver a participação e a articulação". As parcerias são vistas como uma forma de tornar mais eficiente a provisão de serviços à população, de concretizar os objetivos do grupo e de evitar a superposição de atividades idênticas. Vários informantes questionaram que a mentalidade predominante tem sido a de compreender a parceria exclusivamente em termos financeiros, o que tem levado a uma disputa entre os líderes comunitários onde quer que haja recursos disponíveis sob esta modalidade, havendo desinteresse patente quando se trata de parcerias em que o elemento financeiro não é tão importante ou está ausente.

Mas as reservas são várias. Apontam-se as desigualdades de poder entre os parceiros, as parcerias sem contrapartida efetiva, as brigas por espaço e visibilidade no interior da própria parceria, ou, como já referimos, o entendimento puramente financeiro da formação de parcerias. Um dos participantes, afirmou que é fundamental fazer parcerias, "embora haja parceiros que constam só no papel, mas não atuam, dificultando o trabalho - desestimulando o grupo, que fica tendo que esbarrar a cabeça na parede, mas até ela quebrar e a gente conseguir passar". Outro participante ressaltou que "não deve haver orgulho, auto-engrandecimento, porque é um trabalho participativo. Assim, cada um dentro de sua área, da sua possibilidade, da sua boa vontade, contribui positivamente para o engrandecimento de todos", sendo preciso "respeitar os direitos dos outros". Ao que a representante de uma organização rival retruca que é bom fazer parceria, se houver "respeito entre os grupos" e um não queira concentrar sobre si todo o reconhecimento da população, em detrimento dos demais parceiros.

Outra advertência, partida de uma ONG do Cabo, se refere à necessidade de distinguir tipos de parcerias e de se negociarem previamente, "se possível botando no papel", as atribuições e as recompensas de cada parceiro. Segundo esta posição, há um núcleo mínimo de valores e objetivos que corresponde à identidade de cada grupo e não pode ser negociado, mas há uma série de outros pontos que são passíveis de negociação.

3.3 Redescrição da experiência cotidiana da cidadania: a articulação direitos/serviços

Um dos nossos problemas de pesquisa referia-se a superposição da representação de cidadão pela de consumidor de bens e serviços (materiais e simbólicos), numa sociedade que se pretende regular por uma lógica estrita de mercado e por uma concepção individualista de necessidades e da interação social. De acordo com Canclini, "[n]um tempo em que as campanhas eleitorais se mudam dos comícios para a televisão, das polêmicas doutrinárias para o confronto de imagens e da persuasão ideológica para as pesquisas de marketing, é coerente nos sentirmos convocados como consumidores ainda quando se nos interpela como cidadãos" (Canclini, 1995:13-14). O que já introduz um elemento inicial de tensão nas relações entre cidadania e consumo como formas de pertencimento.

Ora, se a escolha e a apropriação de bens se dá a partir de um contexto valorativo de base não somente individual, mas coletiva ou pública, que define ainda lugares e formas de apreciação aos sujeitos imersos neste processo, "ser cidadão não tem a ver apenas com os direitos reconhecidos pelos aparelhos estatais para os que nasceram em um território, mas também com as práticas sociais e culturais que dão sentido de pertencimento, e fazem com que se sintam diferentes os que possuem uma mesma língua, formas semelhantes de organização e de satisfação das necessidades" (Idem:22; cf. tb. Telles, 1994).

Esta questão não foi explorada de forma abrangente na pesquisa, o que significaria investigar padrões de gosto e consumo, inserção em iniciativas de defesa do consumidor, etc. Nos interessava particularmente a fronteira entre a representação do cidadão como portador de direitos vis-à-vis o estado e a idéia de um acesso e fruição de bens públicos de forma passiva ou desconectada de um posicionamento face à natureza das políticas implementadas. Desta forma, procuramos verificar o problema desde duas perspectivas: a) através da inclusão de uma questão no primeiro painel, sobre a atitude das pessoas beneficiárias de bens e serviços públicos; b) pela observação externa, no cotidiano dos grupos, da interface entre concepção de cidadania e a ênfase na provisão de serviços para atendimento de necessidades imediatas ("trocando" pela eficácia no atendimento aquelas posturas ideológicas de duas décadas atrás - embora a provisão de serviços sempre tenha sido uma preocupação e uma prática tanto de movimentos populares locais quanto de ONGs) [20].

Percebe-se assim duas orientações básicas. Primeiro, a oferta de serviços e a preocupação de gerar experiências produtivas para geração de emprego e renda por fora das práticas convencionais de mercado, articuladas à satisfação de outras necessidades materiais ou imateriais, como a poupança para (auto)construção da moradia (Movimento de Vila Claudete), a socialização de idosos, mulheres e a formação de adolescentes (Lar São Lázaro, Grupo Esperança, Centro das Mulheres do Cabo, Igreja Batista do Cabo), a complementação da renda familiar (Igreja Batista, SERTA, Centro de Organização Comunitária), a melhoria das condições de saúde e alimentação da população (Igreja Batista; Centro de Organização Comunitária). Aqui o tema do consumo aparece sem vinculação direta com alguma questão de orientação de política pública (como fica explicitada na formulação do problema acima). Trata-se da geração de novas práticas de consumo relacionadas simbolicamente à cidadania sob a forma de conquistas à margem da presença ou não da ação estatal. Ou seja, as experiências vão sendo gestadas a partir de um diagnóstico de que não é possível mais esperar pela provisão estatal nem pela regulação do mercado para a satisfação das necessidades e carências, e que isto pode ser feito dentro de uma outra lógica, colaborativa, participativa, solidária, mesmo quando parte das ações se dá nos espaços do estado ou do mercado: as parcerias são, aqui, um interessante indicador.

Uma segunda orientação refere-se à despolitização da provisão social que tem lugar com a redefinição do perfil das políticas públicas, rumo a uma maior parceria entre estado e mercado, ou à introdução de uma lógica empresarial na política estatal – sob a forma do gerencialismo, da busca de eficiência (relação custo-benefício; oferta-demanda; satisfação do cliente/consumidor) e de resultados (compatibilidade entre objetivos e impacto final, monitoramento e avaliação de processos), introdução de exigências de contrapartida dos beneficiários, inclusive quanto à cobertura de parte do custo do bem, em alguns casos. Como consequência, o cidadão passa a relacionar-se com o estado como “contribuinte” ou como “consumidor”. Ao pagar seus impostos, tem o direito de reivindicar bens e serviços públicos de qualidade e em oferta compatível com a demanda. Ao fruir tais bens e serviços, deve ficar satisfeito com a provisão e poder reclamar seus direitos quando sentir-se insatisfeito, através dos canais competentes.

Uma questão relacionada a esta da superposição da representação de cidadão pela de consumidor, mas colocando-se num plano normativo dentre os nossos problemas de pesquisa é a de como compatibilizar a concepção liberal do sujeito como portador de direitos universalmente válidos a serem assegurados/protegidos das intrusões dos outros e do Estado com a concepção civico-republicana que acentua a participação na esfera pública como valor e condição da democracia[21].

Na análise destes dois problemas, podemos concluir o seguinte. No âmbito da ação coletiva local percebemos uma articulação entre cidadania liberal, cidadania participativa e um entendimento mais recente de uma cidadania de serviços. A primeira, como se sabe, está referenciada no acesso a e gozo de direitos de base individual, assegurados pelo Estado, como proteção ao cidadão. A segunda, na responsabilidade do indivíduo pelos destinos da comunidade política e na avaliação da robustez e legitimidade do sistema político ou da organização segundo a medida em que estimula e assegura a participação de todos os implicados. A terceira, fruto das novas orientações ideológicas dos anos 90 – crise da política de esquerda e avanço de valores competitivos e de mercado, dentre outras –, tende a circunscrever a demanda por cidadania ao acesso a serviços, que por sua vez são formatados, geridos e consumidos como bens de mercado. Tudo isto desemboca na experimentação (ambígua em seus contornos ideológicos e práticos) cada vez mais intensa com a constituição de uma esfera pública híbrida, estatal e não-estatal, em que atuam atores-rede, na qual a figura do cidadão é apenas mais um dos espaços de pertencimento dos indivíduos e em que novos valores, de competitividade, eficiência e “profissionalismo” na oferta dos bens públicos tornam-se moeda corrente.

Cidadania como consumo e como estratégia política (cf. Dagnino, 1994; Krischke, 1995) são aspectos complementares. A insatisfação com a leitura jurídico-política dos direitos tem levado à pluralização infinita de demandas de cidadania (econômica, social, cultural, racial, de gênero, ecológica, etc.). Na ausência de um Estado aglutinador dessas demandas num único "projeto", o mercado tem procurado fazê-lo pela inclusão daquelas na ordem do consumo. Para Canclini, tratar-se-ia, ao invés, de propor uma articulação das diferentes modalidades de cidadania numa concepção estratégica do Estado e do mercado (1995:24), que buscasse neutralizar os efeitos excludentes da visão dominante da globalização, dando novamente um sentido de interação sociocultural às relações de mercado, contra seu confinamento a uma concepção puramente mercantil, de troca de mercadorias (Idem:66).

A onda privatizante dos anos 90 tem gerado efeitos mais perversos socialmente do que os benefícios econômicos alardeados. Neste sentido, o aspecto normativo desta interpretação está em sugerir que, para que o consumo venha a ser algo mais do que transação econômica, e adquira um valor cognitivo (apontando para a formar de se organizar e viver em sociedade), é preciso reenquadrar o mercado na sociedade, fazendo salientarem-se os espaços públicos e o interesse por eles (Canclini, 1995:68).

Um cidadão-consumidor - essa me parece vir sendo a orientação político-cultural predominante na conjuntura atual. Redefinir o cidadão fundamentalmente como consumidor: isto já é uma mudança no conceito clássico de cidadania. Qual o conceito clássico de cidadania? Que o cidadão é portador de direitos, direitos naturais que o Estado tem que assegurar porque fazem parte da própria definição de uma certa natureza humana liberal. Direitos fundamentais do cidadão, depois da formulação clássica da revolução francesa, confirmada na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Uma idéia de cidadania segundo a qual um indivíduo, por ser humano, independente de sua condição de classe, religião, cor, renda, etc., é portador alguns direitos fundamentais que todo Estado tem de garantir. Esta é, incidentalmente, uma concepção passiva da cidadania, porque o cidadão fica sob a sombra do Estado. E o Estado assegura, defende, provê (na formulação social-democrata do pós-guerra) essa cidadania.

O que faz a cidadania “neoliberal”? Primeiro, ela está preocupada em desobrigar o Estado dessa responsabilidade. E, a partir de uma crítica que combina elementos reconhecidos por diferentes correntes de análise quanto aos contornos de uma certa crise do estado contemporâneo com uma agenda específica da ideologia neoliberal, chega-se a esta definição de que a cidadania é consumo de bens e serviços públicos. O Estado deve funcionar como um provedor desses bens e serviços, ou como um ente que, se antes devia prover um conjunto daqueles como parte de uma definição de cidadania e justiça, deve agora, crescentemente, deixar de fazê-lo, estimulando as parcerias, a “auto-iniciativa” e a desestatização das políticas públicas. O cidadão passa a se relacionar com o Estado e com os outros provedores de serviços e bens públicos mais ou menos como se relaciona com o dono de uma firma ou de uma loja de quem vai comprar um produto e de quem cobra especificações, garantias de qualidade e melhor relação entre custos e benefícios, também a ele recorrendo quando o produto não atende às expectativas.

Embora haja boas razões para se questionar essa redefinição do conceito de cidadão como consumidor, ela já é parte integrante das novas relações entre estado e sociedade. Ela penetrou, não somente no sentido de reforçar a visão passiva do cidadão, mas também no sentido de estimular uma certa ação cidadã que, como dissemos acima, se comporta como alguém que cobra qualidade do serviço porque está pagando por ele através dos impostos, ou porque, como consumidor, tem o direito de dizer se o serviço é bom ou ruim, e exige critérios mínimos de eficiência, qualidade e durabilidade dos efeitos do referido serviço.

Se tal compreensão se amplifica indiscriminadamente – e há poderosas forças buscando precisamente tal ampliação – perde-se do conceito clássico de cidadania uma coisa muito importante, que se liga à defesa da participação e da responsabilidade cívica do cidadão com relação à esfera política. De acordo com esta vertente republicanista, não somente alguém só é plenamente cidadão quando assume responsabilidades públicas, ou na esfera política, digamos assim, mas também que este indivíduo tem uma obrigação moral e política de assumir tais compromissos com a sociedade, com dois desdobramentos distintos e complementares: solidariedade, de um lado, e participação nos espaços públicos, de outro. Embora esta linha tenha também suas ambiguidades e um legado histórico que não a isenta de “ligações perigosas” com o autoritarismo (de que o jacobinismo e o socialismo real dão o exemplo mais dramático), é certo que a ampliação de cidadania que tentou-se analisar no contexto desta pesquisa inclui necessariamente as diferentes modulações entre as figuras do cidadão liberal clássico, do cidadão participativo e do cidadão consumidor.

Neste sentido, podemos dizer que o que talvez esteja se desenvolvendo nessa interação do chamado terceiro setor com o estado é uma composição da noção de cidadania de direitos com essa noção de cidadania de serviços, porque as pessoas já assumem como um dado que o Estado não tem condições de (ou não deve mesmo) prover todo um conjunto de bens públicos associados, na esteira do consenso social-democrata e liberal do guerra pós-guerra, a um compromisso da sociedade com seus membros (comunidade nacional, corpo político e grupos sociais marginalizados e explorados)[22]. O que se argumentava em relação ao estado social-democrata, de que sua crise atestaria uma incapacidade de prover toda uma explosão de demandas sociais, por várias razões, quer políticas, quer de escassez de recursos materiais, passou também a ser dito de sociedades onde nunca houve um estado de bem-estar, como no caso do Brasil. A partir de um diagnóstico que já analisamos em outra parte (cf. Burity, 1999b – ver Burity, 2000), crescentemente assumiu-se semelhante atitude face às demandas sociais e à crise do estado no contexto brasileiro. O que implicou na emergência de uma prática que já se percebe em grupos ou organizações sociais que produzem bens públicos, disponibilizando-os à comunidade, passando ou não pelo Estado, através de formatos que vão do financiamento de pequenos projetos locais com recursos da cooperação internacional, a parcerias com e sem agências governamentais, até os programas governamentais de estilo convencional.

Essa “gestão pública não-estatal”, cobrindo falhas ou procurando contornar o espaço do estado, é uma das instâncias mais diretas, mais fortes dessa nova figura do cidadão como produtor e consumidor, mas não se trata, neste caso, é bom que se diga, de um cidadão necessariamente individualizado, atomizado. Trata-se, notadamente na primeira orientação comentada acima, de um cidadão inserido, articulado, organizacionalmente, via redes, ou via organizações da sociedade civil. Então, é uma espécie de cidadão coletivo, esse que vira produtor de bens públicos. É um cidadão coletivo que embora se afirme em nome de interesses específicos de grupos, de classes, etc., através das organizações ou articulações que o “encarnam”, justifica-se publicamente segundo a globalidade da ação já analisada na seção 3.2.

Em relação aos painéis, há uma concordância de que a maior parte das pessoas usufruem de bens e serviços públicos já na qualidade de consumidoras, embora isto apareça para vários dos participantes como um indicador de passividade e subordinação. Diferentes explicações são oferecidas. Para uns, as pessoas são consumidoras, passivas, deixam-se manipular. Para outros, as pessoas não são bem tratadas, como cidadãs, de acordo com o estereótipo do que seria um cidadão respeitável (bem vestido e portando documentos), mas já se acostumaram com isso (exemplos: área de saúde; supermercado; banco). Uma outra imagem é a de que em nossa sociedade o que é público é associado com algo sem valor, gratuito; mas isso não é correto, porque as pessoas já pagam os impostos, se não sobre a renda, pelo menos sobre as mercadorias que adquirem, e por isso poderiam exigir um bom tratamento. Uma quarta interpretação não vê problema em consumir bens solicitados aos órgãos públicos, quando a solicitação é dirigida à comunidade, e não em proveito pessoal. Nesta ótica, sabendo-se pedir, consegue-se, e se os bens públicos são para os cidadãos, demandá-los dos órgãos de assistência social, por exemplo, é um direito.

Algumas narrativas são, por vezes, oferecidas em lugar da argumentação, para ilustrar situações em que a figura híbrida de um cidadão-consumidor-participativo emergiu a partir de uma atitude individual. Isto ficou ilustrado num dos painéis realizados no Cabo, em que três participantes contam exemplos, casos vividos, como recurso para responder à questão formulada. Um deles contou um caso vivido por ele e seu filho num hospital público do Recife (o Hospital Getúlio Vargas). A criança precisava ser internada para submeter-se a uma cirurgia devido a uma fratura, mas a enfermeira disse que não era possível, porque não havia lençóis para a cama. Diante da ameaça do pai de ir ao chefe de enfermagem e de trazer a mídia, tudo foi providenciado. Dias depois, voltando para tirar os pontos, novo incidente. Depois de mais de duas horas de espera pelo médico, o pai ouviu da enfermeira que esse último não viria - e logo em seguida ouviu um comentário dela para outra, que o médico estava no hospital mas não iria lá - e o pai novamente exigiu ver o médico. A "lição" tirada foi a de que as pessoas se comportam como consumidoras, porque não conhecem seus direitos: “Se não gritar, não é atendido”. Outro participante, o pastor da igreja batista, começa contando uma estória sobre alguém que entrando numa igreja faminto e, vendo que tudo ali girava em torno de palavras, começou a gritar que estava com fome, até ser atendido. Ao que ele emendou: “Uns gritam de um jeito, outros gritam de outro, mas é importante sair dessa postura de consumir, passivo. Se eu não tenho, eu vou lá e compro. Se eu tenho um plano de saúde, eu tenho o direito de ser bem atendido, e às vezes não é. E nem reivindicam”. Um terceiro participante contou um caso de discriminação entre pessoas comuns e líderes de uma comunidade popular ou entre representantes dessa comunidade e autoridades políticas, ocorrido numa festa promovida por uma entidade popular, onde os líderes ficaram separados dos demais presentes, numa sala reservada, e recebiam o melhor tratamento. A conclusão foi de que só haverá cidadania quando houver igualdade de condições e de acesso.

Esta também foi a oportunidade para que a antiga discussão sobre assistencialismo ou mudança tivesse lugar. E num dos painéis, em Chão de Estrelas, houve questionamentos entre os grupos sobre a natureza da provisão oferecida por eles e sua relação com a formação de cidadãos. Doar alimentos, distribuir uma sopa comunitária são assistencialismo? Discutir outras questões, fazer reuniões nestas oportunidades altera o caráter assistencialista? Conscientiza as pessoas? Questões polêmicas e não resolvidas. Mas há um reconhecimento de diversas lideranças, também no Cabo, de que a atitude de consumidor passivo e desinteressado em discussões ou participação predomina. Como afirma uma líder em Chão de Estrelas, é preciso

“fazer com que as pessoas entendam que elas têm que ir à luta. A gente dá a vara pra eles pescar, mas o peixe quem tem que trazer é eles. (...) Porque essa questão, assim, de "me dá!" é muito. É assim: só chega pra pedir, mas a participação numa reunião é difícil. A gente quer fazer uma assembléia, a gente quer fazer uma prestação de contas para a comunidade, bota na rádio comunitária, eh, manda as agentes de saúde avisar nas portas. Quando é de noite, na reunião, se você encontrar 50 pessoas, você vai encontrar muito. Numa comunidade de 2.071 moradias!...“

Como isto concorda uma das lideranças cujo grupo foi questionado: “É [a atitude d]a maioria da população [mesmo]. A gente vê que as pessoas só querem receber ... e não faz muito esforço”. Toda a ênfase, neste painel, foi colocada sobre a co-responsabilidade dos beneficiários pelo serviço prestado, defendendo-se que se cobre deles contrapartidas em termos de (i) participação nas organizações da comunidade, (ii) pagamento/financiamento de parte do valor do serviço; (iii) uma atitude valorizadora da coisa pública (preservar o que é público, ao invés de depredar – menção às escolas públicas); (iv) parceria no oferecimento do serviço, envolvendo tanto a população como o governo. Assim, o tom geral das falas já exprime uma absorção da linguagem da provisão de serviços e da eficiência na gestão dos recursos disponíveis.

4. Participação e o impacto da ação local

O valor da participação, nos dados da pesquisa, mede-se por seus efeitos ou seu impacto. Perguntamos pela contribuição da mesma para o alcance das demandas. Percebe-se que há uma articulação entre a dimensão expressiva dos grupos e suas preocupações instrumentais – hoje reforçadas por sua inserção deliberada no circuito da cidadania de serviços – que levanta o problema da medição do êxito de suas ações, da qual o tema da participação é um componente fundamental.

Segundo Melucci,

“o sucesso ou o fracasso só podem ser medidos no terreno da interação política, porque se se considera o campo dos conflitos como tratei de defini-lo, os movimentos são cada vez mais sem êxito. Sua ação em nível de sistema opera sobre a redefinição de lógicas não mensuráveis (...). Daí o êxito principal, o único de que se pode falar (de qualquer modo reduzindo-se e traindo sempre o significado profundo da ação), é a redefinição da political opportunity structure: terreno privilegiado de observação para os cientistas políticos, mas que a análise sociológica não deve mais confundir com a totalidade do campo social” (1984:428).

Ao avaliarem o peso da participação na viabilização das reivindicações ou objetivos dos setores populares, os entrevistados apontam quatro indicadores:

(i) as mudanças que a ação participativa produziu no seu público-alvo, os beneficiários, que têm as suas condições de vida melhoradas;

(ii) as mudanças ao nível de política pública, com a introdução ou surgimento de novas ações ou agentes. Por exemplo, o envolvimento de ativistas de Chão de Estrelas, hoje no Centro de Organização Comunitária, na luta pela criação do programa de agentes de saúde. A vigência deste é vista como uma conquista de dezessete anos de lutas dos movimentos populares. Luta que não apenas conseguiu o reconhecimento político - a incorporação da proposta na política de saúde a nível nacional e local -, mas hoje permite discutir-se o reconhecimento profissional, a regulamentação da profissão de agentes de saúde;

(iii) as mudanças em termos de crescimento pessoal - ganho de experiência, qualificação, senso de dignidade e valor próprios, auto-realização. A esse respeito veja-se o comentário da líder do único grupo entre os estudados que assume explicitamente sua opção por não manter qualquer vínculo com o estado, nem com parceiros externos à comunidade: “Participar é ele saber que ele é um agente transformador e não um espectador, que está esperando que venha um político, venha alguém que transforme isso aí. Não, ele vai trabalhar para isso. Podem essas coisas acontecerem, mas ele é que vai fazer ... Que a gente consiga, por nossos próprios meios, pequenos, poucos, mas a gente consiga transformar alguma coisa ... e não fique esperando que os outros façam pra gente”;

(iv) o suporte de uns grupos a outros, participando de ou apoiando suas atividades é outro fruto/indicador do impacto da participação.

Os indicadores referidos não ocultam um mal-estar dos ativistas diante das vicissitudes da participação e das cisões entre as lideranças das comunidades locais. Muitos beneficiários ou moradores das áreas estudadas teriam uma leitura parcial da participação, restrita a comparecer a uma reunião, mas não falar, não discutir, não propor nada. Outros limitam-se a delegar a função de representá-los e fazer por eles aos líderes, em todos os níveis, assumindo uma postura de passividade. No máximo, as pessoas se juntam, escolhem um líder e esperam ou cobram que ele encaminhe e realize, sem que elas participem. Por outro lado, há uma tendência da liderança a pretender ter todas as respostas, estimulando, assim, que as pessoas transfiram sua iniciativa para o líder. Se este é bom, capaz, então deixa-se que ele faça, decida. Na fala de um painelista do Cabo:

“essa idéia de provocar o povo à participação é uma das coisas mais penosas, porque o povo tá acostumado com senador biônico, governador biônico (...). [Há também] muita gente que quer que se faça por elas, mas não querem se juntar para fazer. ‘Vamos fazer pra mim’, querem tudo pronto. Esperando que a igreja faça alguma coisa por eles, o SERTA faça alguma coisa, o Lar São Lázaro..., mas eles não estão dispostos a se juntar para fazer por eles e por um grupo”.

Outro painelista destacou a necessidade de buscar metodologias que induzam e assegurem a participação, pois, “se a necessidade e o interesse não partir do povo, mas do líder, não anda”. Mas esta visão é questionada por uma interlocutora, que acha que não se deve ser “purista”: “há coisas que não podem ser pedidas ou esperadas da população. Há espaços onde ela não vai entender o que se passa ali”. É ainda necessário evitar que o interesse de um pequeno grupo se imponha sobre os demais. E, em terceiro lugar, é preciso notar que quando as pessoas têm consciência do que querem e para onde ir, isto dá um peso muito grande à reivindicação. Assim, evitando-se induzir a uma participação da qual as pessoas não tenham consciência, pode-se efetivamente fazê-las ir exercendo a sua cidadania.

Em relação à fragmentação do campo das lideranças, uma líder em Chão de Estrelas observou que cada grupo na comunidade atua em sua própria faixa, resguardando-se dos demais. Mesmo quando alguns atuam de forma articulada, não há integração, mas uma convergência instrumental. Há muita desconfiança mútua e às vezes se recusa participação em algo promovido por uma pessoa ou entidade para não lhe conceder gratuitamente visibilidade ou vantagens pessoais.

Observações finais

O espaço da participação local se ampliou sensivelmente nas últimas décadas - tendo-se reforçado em contextos onde já havia uma tradição de lutas populares. Não se trata de um processo linear e ascendente. Há muitas oscilações, que dizem respeito à conjuntura política nacional e internacional, às variações na relação entre poder local e comunidades/atores sociais (seja por mudanças de prefeito e/ou governador, seja pela trajetória das relações entre estado e sociedade nos últimos anos atingir de forma diferenciada as regiões e localidades brasileiras). A direção para a qual aponta este processo - se é que se trata de um único - tampouco é clara e unilateral, notadamente nos últimos cinco anos. Uma crise dos movimentos populares e das organizações da sociedade civil "especializadas" em participação e mobilização e uma notável redefinição nos padrões de interação entre estado, mercado e sociedade civil, têm desencadeado respostas e gerado práticas novas - ou a adaptação de práticas já conhecidas, como a filantropia -  que tanto apontam para uma subordinação da sociedade e do estado aos ditames de uma certa representação do mercado, como também apontam para uma maior inserção da sociedade numa série de espaços antes restritos às lógicas estatal ou do mercado.

O que procuramos chamar a atenção neste texto foi para a reconfiguração do ator coletivo que vem prevalecendo no contexto dessas mudanças e os desafios que a nova situação tem colocado para as concepções oriundas das lutas pela redemocratização relativas à participação social, à responsabilização do estado (especialmente no que se refere ao passivo social do processo brasileiro de desenvolvimento) e à relação entre governo, organizações não-estatais e práticas de mercado. Há um espaço híbrido da cidadania e da participação que emerge neste processo, com destino ainda incerto. Há atores crescentemente plurais, tanto no sentido de que atuam articuladamente com outros (nem sempre companheiros de longas datas, nem por muito tempo), como no sentido de que cada ator se reconhece cada vez mais heterogêneo internamente, poroso às influências externas. Isto certamente fragiliza a ação coletiva em relação a alguns de seus aspectos - a torna mais volátil, mais oscilante, exige maior versatilidade dos atores, põe uma enorme carga sobre as ações referentes à identificação de parcerias (políticas e financeiras) e à adequação dos objetivos às oportunidades, como também dificulta a identificação de adversários e obstáculos "de longo prazo". Por outro lado, intensifica a dinâmica das lutas sociais, descortina novas formas de ação, novas demandas e temáticas para os atores locais e reforça a interação entre atores sociais e estado de forma a aumentar as expectativas mútuas de responsabilização e eficiência gerencial e política no enfrentamento dos problemas sociais.

A experiência da cidadania experimenta hoje uma extensão que ao mesmo tempo representa um sucesso do vocabulário a ela associado como código da participação e das demandas por eficiência na gestão estatal e por justiça social, e uma superficialização do seu sentido, dada a multiplicidade de situações e significados em que é encontrada. Há uma tendência a redescrever a cidadania como serviço e consumo que introduz tensões com o veio mais participacionista do vocabulário mais clássico. As tentativas de descrever a segunda em termos compatíveis com a primeira às vezes parecem sucumbir, subordinando antes a segunda à lógica da primeira. Associando-se isto à questão do múltiplo pertencimento, se cidadania parece ser uma reivindicação e uma forma de identificação compatível com a pluralidade (de pensar, de agir, de fazer), por outro lado, a cidadania de serviços contribui para multiplicar e - em certos casos - realmente fragmentar a ação coletiva, gerando repetições, superposições e competição ali onde a urgência dos problemas, a fragilidade dos agentes ou o tamanho dos adversários recomendariam uma estratégia de articulação e "racionalização" muito mais intensas e negociadas do que até aqui tem sido possível fazer.

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* Pesquisador e Coordenador da Área Temática Cultura e Identidade, Fundação Joaquim Nabuco.

[1] Santos (1998) ressalta que não se trata do estado tout court, mas de uma deterninada forma de estado, alvo do questionamento pró-mercado.

[2] Há mesmo quem fale num estado-rede e numa sociedade-rede (cf. Castells, 1996; 1998).

[3] Dentro e fora do espaço acadêmico, este é um tema recorrente. Cf. Instituto de Política, 199x; XXXX. Há uma rede virtual de organizações do terceiro setor (ONGs), onde esta discussão está permanentemente posta na ordem do dia (cf. Rits).

[4] Somos particularmente tributários das contribuições feitas por Ernesto Laclau (1990; 1996a) e Chantal Mouffe (1992; 1996), e em sua obra conjunta seminal (1989), no campo da teoria e da filosofia política, bem como por Alberto Melucci (1989; 1996) e Manuel Castells (1983; 1996), no campo da sociologia. V. tb. McClure, 1992; Schoslberg, 1998.

[5] No projeto que deu origem a esta pesquisa, esperávamos encontrar casos de participação em que a afirmação intransigente de demandas identitárias – através de formas “puristas” ou “fundamentalistas” de construção dessas últimas – coexistisse em tensão com a sua inserção numa das redes de ação coletiva. Isto colocaria maiores pressões em termos de negociação das demandas do grupo com outros atores. Mas não identificamos nada nesta direção entre os grupos estudados.

[6] Para evitar equívocos, entendemos tal despolitização como resultado de um desinvestimento nas questões políticas strictu senso, que marca toda a década de 1990, mas também como decorrente de um questionamento da centralidade do estado como referencial para o conceito de cidadania.

[7] Foram estudadas a comunidade de Chão de Estrelas, no bairro de Campina do Barreto, zona norte do Recife, fronteiriça com o município de Olinda, e grupos da cidade do Cabo de Santo Agostinho, localizados no centro da cidade e em três bairros populares próximos. Veja-se a próxima seção para uma breve descrição dos grupos.

[8] Notamos uma grande discrepância entre o grupo de participantes do movimento há mais de oito anos, cerca de 40% dos respondentes, e muito poucos que tinham entre dois e seis anos de participação, o que confirma a desmobilização de muitos, apontada por informantes-chave.

[9] Articulação nacional de evangélicos ligados a partidos de esquerda e participantes de movimentos sociais e culturais, surgida após a experiência dos comitês de apoio à candidatura de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República, em 1989.

[10] Mais precisamente, do CECAPAS (Centro de Acompanhamento aos Projetos Alternativos), de Pesqueira-PE, cujas atividades foram descontinuadas após a perda de suporte financeiro da Misereor (Alemanha), em 1989.

[11] O grupo tem dado assessoria aos municípios participantes do Programa de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e do Programa Bolsa-Escola. Participa ainda dos Círculos de Educação e Cultura do PROMATA – Programa de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável da Zona da Mata.

[12] Funcionando este como um significante vazio, no sentido que lhe empresta Laclau (1996:x-y).

[13] Não temos aqui o espaço para explorar a “comunalidade” existente entre os diferentes atores democratizantes no contexto de luta pela democracia recente. Bastaria dizer que não se tratava nem da materialidade pura e simples das forças armadas, nem de um mesmo número de agravos, queixas e demandas colocados por todos aqueles em direção ao poder militar, mas uma série de matiz wittgenteiniano, onde mais contava a inscrição de demandas díspares no “passivo” da “ditadura”, pouco a pouco responsabilizada pela “crise” (de contornos dificilmente definíveis, pela sua extensão, ramificações entre as esferas da economia, da política, da cultura), do que um consenso substantivo quanto a um projeto alternativo. Isto se viu, se não já durante o governo Sarney, certamente nos que lhe seguiram.

[14] Esta afirmação é relativa a um duplo contexto: resistência ao arbítrio estatal dos tempos ditatoriais e à centralização político-administrativa resultante do modelo de desenvolvimento do país desde os anos 30, de um lado, e programa de desestatização e desregulamentação das políticas e direitos, na linha do discurso neoliberal. No primeiro caso, a grita por descentralização e pela ampliação de espaços de participação dos cidadãos visava a uma democratização do poder, alargando o peso da sociedade civil. No segundo caso, a crítica da ineficiência e do papel empresarial exercido pelo estado visou à ampliação da iniciativa privada e à redução do estado a funções mínimas que remontavam à doxa liberal do século dezoito.

[15] O mais próximo que ele chega de escapar do dilema conceitual que sua concepção de complexidade implica é ao afirmar: "Esta era do conflito industrial acabou, não porque as lutas pela cidadania plena tenham se completado ou porque não haja mais espaços democráticos a conquistar, mas porque as diferentes dimensões dos conflitos coletivos vêm se separando cada vez mais. Nas sociedades complexas contemporâneas, os conflitos que incidem sobre as relações sociais dominantes e as lutas pela extensão da cidadania tendem a se tornar distintos e a envolver bases sociais diversas" (Melucci, 1989:19).

[16] Digo "discretamente", porque trata-se de uma das pessoas que demonstra grande abertura e respeito às diferenças de ênfase entre os grupos e bastante envolvidas nas atividades sociais da igreja.

[17] Sobre esta distinção entre visibilidade e latência, cf. Melucci, 1989:70-79, 205-206; 1996:113-117; Burity, 1999a.

[18] As mesmas características aparecem quase literalmente no texto mais antigo de Grazioli e Lodi, publicado na obra coletiva coordenada por Melucci, em 1984 (cf. Gazioli e Lodi, 1984:292-96). Entretanto, em Melucci, há algumas modificações significativas. Primeiro, a globalidade já se aplica aqui aos movimentos como tais e não, como nos autores citados, restrita à construção da identidade dos participantes. Para eles, afirmar a globalidade significaria "agir como subjetividade integral e não com base nos papéis definidos no processo produtivo e/ou nas normas institucionais” (Idem:293).

[19] Em outras palavras, tais mobilizações combinam o caráter globalizante, dirigido à sociedade como um todo, ou, nos termos de Melucci, ao sistema, com reivindicações locais e particularistas, tal como nos movimentos prévios ao século dezenove na Europa. Em nosso caso, é significativo que a presença de um componente religioso – institucionalizado ou difuso –, que avalia o sistema como um todo, mas atua localmente e a partir de grupos muito precisos, seja um dado claramente estabelecido na pesquisa.

[20] Seguimos aqui, operacionalmente, a definição de consumi que dá Canclini, como "conjunto de processos socioculturais em que se realizam a apropriação e os usos dos produtos" (1995:53). Mas a racionalidade econômica do consumo não é a única vigente nas relações entre produtores e consumidores. Há uma "racionalidade sociopolítica interativa", na medida em que o consumo é lugar de conflitos sobre a distribuição dos bens que a sociedade produz e sobre como usá-los ((dem:54). Enfim, "[o] consumo é um processo em que os desejos se transformam em demandas e em atos socialmente regulados" (Idem:59).

[21] Sobre esta distinção, cf. Mouffe, 1996; Skinner, 1992; Putnam, 1996. V. tb. Alexander, 1995; Somers, 1993; 1995b; Calhoun, 1997; Davidson, 1999; Vianna e Carvalho, 2000.

[22] Estas definições correspondem aos principais vetores de uma visão tradicional da cidadania e da sociedade civil legada pelo modelo da sociedade industrial oitocentista: nação, estado e as “classes perigosas”.