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TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 107/2001 Março • 2001 |
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GLOBALIZAÇÃO E IDENTIDADE:
DESAFIOS DO MULTICULTURALISMO
Joanildo Burity[1] |
1. Proposições iniciais
Falar de multiculturalismo é falar do manejo da
diferença em nossas sociedades. No entanto, isto é ainda pouco para definir as
implicações do termo. Pois, ela remete não apenas a um discurso em defesa da
diversidade de formas de vida existentes nas sociedades contemporâneas, mas a
um conjunto de aspectos fortemente ligados entre si e que carregam a marca de
um contencioso: a) o reconhecimento da não-homogeneidade étnica e cultural
dessas sociedades; b) o reconhecimento da não-integração dos grupos que
carregam e defendem as diferenças étnicas e culturais à matriz dominante do nation-building nessas sociedades – após
o fracasso seja de políticas assimilacionistas, seja de políticas
diferencialistas (baseadas na restrição de acesso ou mesmo na idéia de
“desenvolvimentos separados”); c) a mobilização dos próprios recursos políticos
e ideológicos da tradição dominante nos países ocidentais – o liberalismo – contra
os efeitos desta não-integração; d) a demanda por inclusão e por pluralidade de
esferas de valor e práticas institucionais no sentido da reparação de exclusões
históricas; e) a demanda por reorientação das políticas públicas no sentido de
assegurar a diversidade/pluralidade de grupos e tradições. Além disto, há que considerar que a crescente
sensibilidade para o tema da diferença e sua articulação em termos socioculturais
sob a forma de uma reivindicação de direitos para grupos subordinados se liga a
um descentramento da cultura ocidental que assume duas modalidades paradoxais.
De um lado, através da matriz colonialista e imperialista que difundiu-se mundo
afora entre os séculos 16 e início do século 20, levando com ela modelos de
organização social, desenvolvimento e mudança política que em larga medida se
institucionalizaram no atual sistema de estados nacionais e numa economia
mundial dominada inteiramente pelo capitalismo. Práticas, valores e
instituições historicamente construídas a partir da modernidade européia e
norte-americana se espalharam pelo mundo, tornaram-se ideais de progresso e
emancipação, mas também se impuseram onde a resistência se fez mostrar. Uma
intrincada composição de agentes “metropolitanos” e locais encarregou-se de
dobrar a resistência, forjando uma uniformidade que atendia pelo apelo da Nação
em busca de seu futuro no “mundo moderno”, atribuindo lugares aos que se
posicionavam – contra ou a favor – frente às formas concretas de implementação
destes projetos de modernização. Este descentramento do Ocidente que leva ao
modelo do estado nacional e à trajetória da modernização representa o grau zero
das disputas multiculturais[2]. De outro lado, a história do século 20 foi
acumulando uma crescente desconfiança ou recusa dos modelos modernizadores –
liberais como socialistas – que sofre, a partir dos anos 60, uma importante
inflexão através de movimentos sociais e intelectuais de contestação política e
cultural, ocorridos em várias partes do mundo, os quais contribuíram para
deslegitimar, questionar e enfrentar a idéia hegemônica de Ocidente. Este
descentramento crítico se expressou na emergência de novas formas de
identificação coletiva – negros, mulheres, povos indígenas, ecologia,
pacifismo, juventude, movimentos religiosos – e novas formas de pensamento, que
puseram em questão o etnocentrismo e o caráter excludente da ordem liberal
vigente. Nos países latino-americanos, a emergência destas formas sociais e
intelectuais do descentramento incluía ainda a resistência contra a associação da
modernização capitalista com regimes autoritários e tecnocráticos baseados em
alianças civis-militares. Este descentramento que leva à afirmação da
pluralidade de esferas públicas, dos direitos dos grupos historicamente
excluídos social ou culturalmente, representa o primeiro momento de emergência
de bandeiras multiculturais[3]. Mais recentemente, entretanto, uma nova onda de
expansão ocidental tem se dado, a qual é capturada pela idéia de globalização.
Embora o caráter deste processo seja altamente disputado, ele parece
intensificar o duplo descentramento ao mesmo tempo em que reforça o paradoxo
entre suas duas modalidades. Pois, ao mesmo tempo que a globalização representa
uma certa forma de interconexão e interpenetração entre regiões, estados
nacionais e comunidades locais que está marcada pela hegemonia do capital e do
mercado, ela também se faz acompanhar por uma potencialização da demanda por
singularidade e espaço para a diferença e o localismo. O discurso
multiculturalista, neste sentido, tanto beneficia-se de como impulsiona a
globalização, embora em direções nem sempre favoráveis às falas dominantes
sobre a mesma. Sob qualquer destas formas, o multiculturalismo
está envolvido num contencioso, numa disputa que vai além do manejo de uma
diversidade que simplesmente se dá, como mera constatação empírica. Para além
ou na base das demandas lançadas ao estado, ao mercado e a outros atores
sociais, há movimentos de retorno ao
passado, de reconstrução ou de invenção de identidades coletivas, bem
como há cobranças por redefinição de padrões societários. E esses movimentos
disputam entre si ou articulam-se de formas surpreendentes, mas também
instáveis e parciais. A vinculação das demandas multiculturais com a
problemática dos direitos, através de um discurso sobre a legitimidade das
diferenças e a necessidade de reparação tem aparecido, simultaneamente, como
uma tentativa de “pacificar” o caráter mais “truculento” da emergência desses
novos atores sociais que postulam uma identidade de base cultural, e como aprofundamento
da disputa, uma vez que claramente há reivindicações de poder envolvidas. Nosso objetivo neste trabalho, entretanto, não é
discutir pormenorizadamente o conceito de multiculturalismo ou os casos
concretos de aplicação de modelos nele inspirados[4].
Antes, gostaríamos de nos concentrar sobre dois aspectos fortemente
relacionados à problemática multicultural: a
associação entre identidade e localismo (sob a égide da cultura, da
tradição, da etnicidade, do nacionalismo, da religião) e a contradição entre afirmação da identidade e o avanço da
globalização, seja esta pensada sob a forma de um processo direcionado a
partir de um “centro” ou como um conjunto de fluxos produtores de conjunções e
disjunções (cf. Featherstone, 1995; Appadurai, 1991). Juntos, estes aspectos
marcam o embate entre “localização da cultura” (para usar livremente a
expressão de Homi Bhabha) e a desterritorialização introduzida pelos fluxos
globais. Assim, a emergência de demandas identitárias na cena contemporânea ora
representam uma recusa dos grandes modelos mas também das tendências
globalizantes; ora uma defesa da “autenticidade” das experiências particulares
e enraizadas num determinado tempo e espaço comunitário contra as forças
desterritorializantes, “abstratas”, do mercado ou da cultura de massas; ora uma
dificuldade de vivenciar os efeitos do deslocamento que a globalização introduz
nos contextos locais, identificando esta último com um complô das grandes
potências capitalistas, a dominação da cultura de consumo ou a violação da
soberania nacional[5]. É possível, neste contexto, articular identidade
e globalização? É preciso opor identidade a globalização? O contexto global
representa possibilidades ou ameaças à experiência local? Como compreender o
tipo de problema que a lógica global introduz no espaço-tempo da identidade?
Como enfocar a globalização de forma a entender o lugar que aí ocupa a
experiência da identidade? Partiremos aqui da afirmação de que a
globalização, naquilo em que se presta a uma análise cruzada com o tema da
identidade, representa a vigência de um princípio de ruptura do liame dual
micro/macro, estável/dinâmico, concreto/abstrato, particular/geral, princípio
este que funciona como um “terceiro” e desencadeia uma lógica que não exige o fim das referências locais, mas
as reinscreve num terreno em que estas não mais podem se definir pelo
isolamento nem tampouco pela territorialidade. Sendo assim, a globalização
tanto forma como deforma, tanto exige como resiste à identidade enquanto signo
do local, do singular, do autêntico, do emancipatório. Este elemento, a meu
ver, coloca problemas à lógica particularista das disputas multiculturais, como
também reforça a lógica multicultural. O argumento a seguir pretende ser uma
tentativa de explicitar esta problematização. 2. O terceiro e a lógica da
globalização
A globalização introduz um terceiro na relação entre o local e o nacional, o local e o
regional, o regional e o nacional que interrompe o fluxo linear de relações e
comunicação onde estas polaridades se desenvolviam até vinte anos atrás,
reguladas pela unidade do estado-nação e pela repartição territorial das trocas
econômicas, políticas e culturais (exemplarmente capturada na expressão
“relações internacionais”)[6].
Este terceiro introduz uma lógica
desterritorializante e desinstitucionalizante em relação ao contexto
anterior, repleta de paradoxos e
expressa em aspectos como: quebra da pretensão de universalidade dos discursos
políticos e culturais; quebra da soberania do estado nacional em questões-chave
de política doméstica; introdução de valores e parâmetros de gestão pública em
voga no âmbito da “sociedade civil global” (gênero; meio ambiente;
multiculturalismo; direitos humanos; a primazia da ação local, efetivada por
uma pluralidade de atores em parceria; etc.); ruptura de modos de vida
associados às raízes ou atributos essenciais de comunidades locais, categorias
sociais ou identidades culturais. 2.1 Caracterizando o terceiro
da globalização
O terceiro da globalização não é um
mega-sujeito. Nem o sujeito imperialista – por mais que tenhamos a impressão de
que os Estados Unidos se transformam crescentemente no gendarme do
sistema-mundo; nem o sujeito multilateral representado pelas Nações Unidas ou
por organismos internacionais – embora estes sejam perceptivelmente agentes da
globalização (exemplo do Banco Mundial ou da Organização Mundial do Comércio);
nem o sujeito classe – poucos ousam alinhar a globalização com um esquema da
burguesia ou uma concertação das elites empresariais dos diversos países com
vistas a impor um determinado modelo de dominação econômica. Na verdade, o
terceiro da globalização não é um sujeito
em nenhum sentido antropomórfico ou sociologizante. O terceiro da globalização
se “materializa” em múltiplos agentes, uns mais benignos, outros mais
perversos, que têm em comum não a adesão a uma única cultura ou estratégia de
globalização, mas o reconhecimento de que atuam num terreno movediço e em
indefinida expansão. Este terreno já não se regula pelas coordenadas
cartesianas de tempo e espaço, ou sociológicas de instituição e movimento,
antes nele se joga com elas e as possibilidades e assimetrias que elas abrem.
Nele, a disputa pelo conteúdo da
globalização é o grande elemento impulsionador. O terceiro é um princípio de antagonismo e diferenciação, algo que denuncia ou
contesta – se justa ou injustamente somente se pode decidir analisando-se
situações concretas - os limites da pretensão de singularidade, de
desenvolvimento autônomo, de autoridade moral inquestionável, de estabilidade
das ordens social ou comunitária vigentes. E isto se faz em nome da existência
de aspectos não considerados, de grupos excluídos ou valores supervenientes, de
processos ou tendências macro-societais ou macro-econômicas, os quais, desde a
perspectiva dos litigantes, teriam prioridade sobre a autonomia local de
organização e práticas. Assim, a globalização funciona pela introdução
da diferença exorbitante ou ignorada ali onde reina o contentamento ou a
pretensão de autonomia contra interferências externas. Neste sentido, a lógica
da globalização pode opor tanto o micro ao micro, como o micro ao macro, o
macro ao mega, e vice-versa. Global não é o que é necessariamente maior, mais
distante, nem mais forte. Global é o que (se) diferencia entre um campo que se
regula por referências de soberania, autodeterminação, distintividade, e um
campo que pretende se abrir – ou ser a abertura – para a renovação, inovação ou
justiça que vêm descortinar novos horizontes. Se a diferença que emerge entre em
meio à ordem vigente – local, nacional ou internacional – e aponta para o que
ela exclui ou reclama das promessas que ela deixa irrealizadas, é politica ou
moralmente virtuosa, se desemboca em alternativas viáveis à ordem questionada,
são questões práticas, que só podem ser determinadas em contexto. Mas é em nome
dessas diferenças não acolhidas, não respeitadas, não percebidas pela sociedade
ou o estado que o terceiro da globalização interrompe a reprodução de um dado status quo. Por outro lado, o terceiro da globalização é um
princípio de oposição, um gerador de antagonismo. A introdução da diferença
representa um desafio à estabilidade dos arranjos e fronteiras existentes, questiona
a autarquia da comunidade, da instituição, do governo, do Estado. Não se trata
de uma dicotomização do espaço social, político, econômico ou cultural.
Naturalmente, o antagonismo produz uma fronteira entre dois campos. Mas esta já
não é uma fronteira que atravesse o social de um extremo a outro. Nem é uma
fronteira entre identidades já dadas, pré-constituídas, que vêm a se chocarem.
É uma fronteira constituída em torno da emergência de uma questão em disputa[7],
aí localizando lado a lado, “dentro” como “fora”, atores, temas e cenas que em
outras disputas definem campos distintos. O antagonismo também não é uma
situação de guerra, não precisa haver animosidades pessoais envolvidas, embora
possa sempre (Schmitt sabia disto) levar ao confronto físico ou à guerra pura e
simplesmente – e as dezenas de conflitos armados no mundo de hoje não nos
permite esquecer isto. Mas o antagonismo que caracteriza o terceiro da
globalização não pode ser extirpado, nem mesmo pelos tratados de paz. Ele pode
sempre ressurgir, em outros lugares ou sob outras formas. A resolução dos
conflitos não zera a atuação do antagonismo, apenas a deslocam para outros
objetos[8]. Aqui já temos uma boa indicação do vínculo entre
globalização e identidade: a afirmação,
defesa ou contestação de identidades são um componente integral da lógica da
globalização contemporânea. Por quê? Porque as identidades são, por vezes,
o pomo da discórdia que expressa o terceiro da globalização – a globalização
neste caso seria o berço da afirmação identitária, o contexto no qual a chamada
fragmentação do sujeito desencadeia inúmeras tentativas de recomposição. Porque
as identidades emergem na esteira dos efeitos desterritorializantes e
desinstitucionalizantes da globalização, beneficiando-se do enfraquecimento das
antigas unidades políticas e culturais da modernidade novecentista. Porque,
enfim, as identidades reagem, numa tentativa de ressincronização
espaço-temporal, aos efeitos desestruturantes da globalização, buscando em
raízes do passado ou na idealização do presente uma forma de neutralizar o
sentimento de ansiedade ou pânico ante a incerteza, a instabilidade e a
permanente redefinição das regras e cenários que se instalam em nome da
globalização[9]. 2.2 Explorando a lógica da
globalização
Dissemos acima que o que põe em comum os agentes
da globalização é a disputa pelo seu conteúdo. É preciso dizer que não se trata
de uma disputa pelo poder mundial, uma espécie de síndrome de desenho animado,
onde gênios do mal mobilizam recursos para dominar o mundo. A inserção desses
agentes têm níveis e impactos bastante diferenciados e a disparidade dos
recursos é brutal. Mas não há mais a possibilidade de coordenar estes processos
de disputa hegemônica sob uma única lógica ou direção, por mais abrangente que
seja. Assim, a disputa pelo conteúdo da
globalização se trava em torno de objetivos concretos, embora alguns de
grande alcance, cuja resolução assegurará a uns a sensação de ganho e garantia
de uma (maior) “cota” da cena global, enquanto mobilizará a outros em
diferentes formas de resistência: a que aceita jogar o jogo (acreditando nas
regras), a que recusa-se a jogar o jogo (partindo para o confronto a partir do
lugar que ocupa, em torno das questões mais urgentes e inegociáveis que advoga)
ou a que explora os interstícios ainda deixados a descoberto pelas disputas em
curso. Pense-se nas grandes organizações ambientalistas e suas formas não-convencionais
de protesto, ou nas manifestações críticas do sistema financeiro global (em Seattle,
1999; ou em Davros, 2000). Certamente há alguns vetores gerais
condicionando as disputas no cenário global, como já mencionei antes e retomo
agora, ressaltando que não são os únicos: Ü
a quebra da pretensão de universalidade dos
discursos políticos e culturais, tem deslocado as grandes narrativas da
modernização, seja pela sua negação como modelo; seja pela tentativa de
desenvolvimentos autônomos em contradição com grandes interesses políticos e
econômicos internacionais; seja pela multiplicação dos caminhos tomados em nome
destas narrativas, que explode a sua coerência interna, sua capacidade de dar
unidade a tão diversas trajetórias; seja pela multiplicação dos atores da
modernização. Ü
A quebra da soberania do estado nacional em
questões-chave de política doméstica, representa tanto uma perda de autonomia,
como o efeito da maior interconexão das sociedades contemporâneas – via
mercados financeiros, os media, os
organismos multilaterais e multinacionais, a incipiente sociedade civil global
– limitando, mas não evitando, realinhamentos bruscos ou resistências aos
“consensos” globais. Ü
A introdução de valores e parâmetros de gestão
pública em voga no âmbito da “sociedade civil global”, de forma relativamente
independente da aceitação ou reconhecimento das situações que os justificam.
Entre tais valores e parâmetros se poderia mencionar: gênero; meio ambiente;
multiculturalismo; direitos humanos; a primazia da ação local, efetivada por
uma pluralidade de atores em parceria; exigências de eficiência e aferição do
impacto das ações públicas; alargamento do espaço para o envolvimento da
sociedade na gestão pública, compartilhando responsabilidades e atribuições ao
lado do estado; etc. Estes novos critérios definidores da boa governança vêm
interpor uma agenda para as políticas que não se prende à sensibilidade
acumulada nos contextos nacionais e locais em relação aos valores e parâmetros
mencionados. Não importa se gostemos ou não das políticas de promoção da
igualdade de condições entre os sexos, se aceitamos ou não as políticas de
discriminação positiva, de diálogo intercultural; se praticamos ou não de boa
vontade os direitos humanos, etc. O que importa é que a credibilidade da
organização, do governo ou do país é hoje aferida por sua sensibilização e
operacionalização de políticas como estas. O que importa é que os recursos
necessários hoje se vinculam a “condições aceitáveis” que passam pela
implementação das diretrizes acima. Não obstante esses vetores gerais, sua
materialização raramente se faz em nome ou através de mega-atores. Em nome de
ou contra a globalização, pequenos e grandes atores, isolada ou
articuladamente, mobilizam, reivindicam e resistem a essas correntes. A ação
intra e inter-organizacional; a ação coletiva; a ação governamental; a ação de
redes territorializadas, temáticas e de influência (cf. Doimo, 1995), se contraem
ou se expandem na dinâmica da intervenção do terceiro da globalização, em torno
de interesses, demandas, valores e objetivos pontuais ou gerais. 3. A identidade como resposta,
efeito e resistência à globalização
3.1 O terceiro e a identidade
Tudo parece indicar, à primeira vista, que o
terceiro desterritorializante da globalização se oporia à experiência da
identidade. Acostumados a pensar a identidade como enraizamento numa realidade
socio-cultural particular e, no plano individual, como auto-conhecimento,
auto-conceito e presença a si, tendemos a contrastar mais do que associar os
dois termos. À vista do terceiro que mencionei anteriormente, é preciso
desfazermos esta idéia. A globalização pode permitir a emergência de novas formas de identificação coletiva,
as quais, por não mais se definirem em função de um pertencimento territorial,
ou de uma tradição imemorial, mas em função de questões de relevância global,
se subtraem às exigências de lealdade tradicional ou de atuação localizada. Num sentido mais forte, a globalização requer mesmo a articulação da identidade,
tanto na dimensão instrumental das
relações de mercado, como na dimensão “expressiva”
das relações intra e intergrupais, embora nem sempre estejamos diante de
experiências identitárias com as características descritas no parágrafo
anterior. Na sua versão
instrumental, identidade se define no
contexto da cultura de consumo, que globaliza a idéia de livre escolha e livre
experimentação com bens e estilos de vida, produz e estimula a diferenciação,
se alimenta da especialização, da produção de um diferencial cultural que se
transforma num signo de vitalidade da cultura local (trunfo a ser explorado
pela indústria do turismo), e da legitimidade de uma ordem social fundada na
lógica do mercado. Identidade seria aqui a forma exteriorizada ou reivindicada
de uma nova subjetividade. Outras modalidades de identificação se definem nesta
perspectiva, como nas diversas “redescobertas” – em muitos casos coincidentes
com verdadeiras invenções de tradições – de identidades culturais para diversos
fins: impulsionar a indústria do turismo e do lazer; legitimar ações
governamentais em disputas por recursos condicionados à adoção de práticas multiculturais;
ajudar a criar uma nova imagem para empresas que lhes garantam acesso a
determinadas fatias do mercado de consumo. No caso da identidade como “expressão”, a
globalização a requer na medida em que o deslocamento que o terceiro da
globalização introduz no cenário local desencadeia mudanças, mas não pode ser indefinidamente
continuado. O desenraizamento produz desorientação, ansiedade, sofrimento e
destruição de formas de vida ou instituições que não podem ser suportados
indefinidamente. Assim, a resistência da identidade – já não mais a mesma,
porém uma que se modifica ao responder e “se afirmar” diante do desafio “de
fora”, da lógica global – é uma contrapartida da globalização. Em nome da
identidade enceta-se uma luta para restaurar um mundo nostalgicamente
idealizado de simplicidade de vida, durabilidade dos arranjos sociais e proximidade
e confiabilidade das relações entre as pessoas. Em nome da identidade se busca
encontrar na origem comum ou num destino manifesto a orientação que contradiga
as tendências desestabilizadoras e a incerteza do presente. O terceiro da globalização não implica em que a
identidade seja sempre experimentada ou reivindicada em bases globais,
não-nacionais ou transnacionais. Antes, o que queremos ressaltar é que mesmo
quando a identidade se expressa através do mais rigoroso fundamentalismo e
isolacionismo, contra tudo o que seja maior do que ou exterior a ela,
especialmente contra tudo o que lhe parece ser um complô das grandes potências
ou grandes tendências econômicas, políticas e culturais do sistema mundial, ela
não deixa de ser afetada pela globalização. Neste caso, o entrincheiramento da
identidade como singularidade, localismo ou autenticidade pode ser uma reação a forças globalizantes, mas é
também uma resposta a elas, um “sim”
à agenda da globalização. Será reação ao tomar o global como a ameaça que vem
de fora contra a integridade de um modo de vida local ou uma cultura nacional.
Será uma resposta se sua emergência for atribuída ao afrouxamento dos laços
ideológicos, políticos ou econômicos que impediam a expressão de tal identidade
no âmbito nacional. Sem dúvida, a resposta pode ser ambígua, uma vez que nem
sempre ela sai em defesa da globalização. Mas, o fato de beneficiar-se do
“clima” global e de reivindicar seu espaço legítimo na “nova ordem mundial” –
que coordena o global e o local, não esqueçamos – situa tais identidades no
regime ou lógica da globalização. 3.2 A lógica da globalização e
a lógica da identidade
Ao falar sobre a lógica da globalização,
mencionei que a disputa pelo conteúdo da mesma se faz a partir de objetivos
concretos, e não de uma intangível agenda global, e argumentei que há vetores
gerais que produzem efeitos locais e que mobilizam atores grandes e pequenos.
Trata-se de explorar agora como isto se relaciona com o tema da identidade. Em primeiro lugar, eu ressaltaria que a lógica
do terceiro representa um novo regime da relação entre o geral e o particular,
o universal e o singular, na qual um curioso movimento se dá. A crítica aos
universalismos modernos (expressos em objetos culturais ou modelos
institucionais) não significa uma recusa do universalismo, mas uma localização do universalismo (cf.
Robertson, 1991; Laclau, 1996). Ou seja, tanto identidades locais podem, em
nome de certos direitos amplamente reconhecidos, reivindicar uma autonomia
parcial ou mesmo secessão; identificar outros grupos sociais cuja presença
representaria uma ameaça a ser neutralizada; ou ainda reclamar sua inclusão no
“pacto de sociedade” mais amplo em que se inserem. Assim, ora temos
micro-universalismos em conflito entre si e com o Estado, ora temos a
reivindicação local do universalismo como demanda por inclusão. O questionamento da soberania do estado
nacional, nesta direção, implica na utilização das tendências globais
(respaldadas em agências multilaterais ou em organizações civis de peso na
formação da opinião pública mundial) para forçar mudanças na orientação das
políticas nacionais em favor de atores coletivos que se beneficiam diretamente
do clima de maior sensibilidade e assertividade existente em outros contextos
nacionais – mulheres, negros, minorias étnicas (migrantes ou de segunda e
terceira gerações, bem como indígenas), minorias religiosas, ambientalismo,
etc. –, contrariando elites locais ou políticas. Mas pode-se também reivindicar
contrapartidas à perda da autonomia do estado sobre certas questões de política
doméstica, através de processos de negociação e coordenação supra-nacionais dos
quais a face mais visível são os blocos de países organizados em função de
interesses econômicos e políticos, segundo um imperativo de sobrevivência e
reforço da competitividade (por exemplo, o Mercosul). Por fim, a introdução de valores e práticas em
contradição com a cultura política nacional ou local vem legitimar e reforçar a
asserção, visibilidade pública e peso político de novos movimentos e
alternativas organizacionais vinculados às mudanças culturais do pós-1968 e
políticas dos anos 1980, abrindo espaços para o reconhecimento de diferenças e
dificultando sua diluição nos amálgamas da identidade nacional, das ideologias
políticas ou das práticas de cooptação paternalista. Porém, tais valores podem
introduzir vieses desconhecidos no contexto local, redescrevendo problemas aí
vivenciados em termos de padrões culturais e políticos dominantes em outras
sociedades ou regiões. Desta forma, as demandas e conflitos locais se
configuram em contraste com a experiência compartilhada, o que pode se
expressar no sentimento de que as questões e soluções apresentadas implicam
antes na imposição de poderes externos, ou na produção de atores coletivos
híbridos, “glocais”, ao mesmo tempo enraizados num contexto local e
definindo-se em termos transculturais. O que resulta deste processo é a experiência da
identidade como construção, ainda quando somos confrontados com movimentos e
grupos que pretendem estar em direta continuidade com um passado ameaçado de
destruição ou injust(ificad)amente violentado. Não há identidades pristinas,
puramente expressivas. Há, em consequência da lógica da globalização reafirmações de identidades combinadas
às novas ênfases e objetos de disputa; reinvenção
de identidades para objetivos políticos ou mercadológicos (inclusive como forma
de “apresentação” da diversidade local que funciona na indústria do turismo); e
surgimento de novas identidades. Em
cada um dos casos, construção da identidade – para legitimar uma situação, para
resistí-la ou para introduzir nela novas questões e práticas que apontam para
projetos de mudança social (cf. Castells, 1997). E por que construir a identidade? Porque a
questão do sentido torna-se bastante
aguda num contexto onde os referenciais estáveis, naturais, de orientação no
mundo se tornaram frágeis e insuficientes para garantir uma movimentação
coerente e previsível no espaço social. A lógica do terceiro impõe um movimento
de extensão e contração da sociedade civil e do estado no qual, segundo
Castells, “não há mais uma continuidade entre a lógica da formação do poder na
rede global e a lógica da associação e representação em sociedades e culturas
específicas. A busca de sentido tem lugar então na reconstrução de identidades
defensivas ao redor de princípios comunais. A maior parte da ação social vem a
se organizar na oposição entre fluxos não-identificados e identidades isoladas”
(1997:11). Como transformar a resistência local em novos sujeitos de mudança é,
para Castells, o grande desafio de uma teoria da mudança social na era da
informação. Na medida em que o global se alimenta da
diferenciação, ele investe sistematicamente o local, o comunitário, o regional
como ingrediente de sua expansão. O local contra o nacional “atrasado”, o
global contra o local “atrasado”. Mas também o local como possuidor de algo que
a idéia nebulosa de globalidade não tem, uma singularidade ou exótica que podem
ser trunfos em termos de reconhecimento, competitividade e lucro. O resultado
disso é que a identidade, retomando o que disse anteriormente assume três
configurações vis-à-vis o cenário
global: Ü
A identidade é o pomo da discórdia que expressa o terceiro da globalização. Assim, a
emergência de novas identidades, a economia das relações entre as identidades
(explicitamente posta em tela pelo multiculturalismo), as perspectivas abertas
pelo jogo da identidade no cenário global exprimem um aspecto constitutivo da
dinâmica da globalização. Em outras palavras, a dimensão polêmica,
controvertida, agonística da globalização aponta precisamente para a
visibilidade e produtividade política que a questão da identidade assume. Falar
de multiculturalismo é antes de mais nada apontar para este campo de
contestação aberto pela operação do terceiro da globalização em contextos onde
prevaleceram atitudes deslegitimadoras da diferença cultural em função da
exclusão social, da inserção subordinada na ordem econômica e política
internacional e da adesão aos modelos da modernização nos discursos liberais ou
de esquerda. Ü
As identidades também emergem na esteira dos efeitos desterritorializantes e
desinstitucionalizantes da globalização, beneficiando-se do enfraquecimento
das antigas unidades políticas e culturais da modernidade novecentista – neste
caso, não se trata necessariamente de novas identidades, podendo haver o
retorno de antigas formas de identificação comunitária julgadas extintas pelos
discursos da modernização. Pode ser o caso aqui que uma série de deslocamentos
(econômicos, políticos, culturais) tenham o efeito de tornar os indivíduos susceptíveis
à interpelação de uma pluralidade de formas de identificação, fraturando-os como
unidades auto-centradas e causando-lhes mal-estar e sofrimento, ou liberando-os
de uma submissão estreita a uma única comunidade ou instituição social. Tal
interpelação instaura uma competição entre formas de identificação, mas também
enseja experimentos de esteticização da subjetividade os quais, embora
provisórios ou apenas parcialmente bem sucedidos, vão fazendo surgirem
múltiplos “agenciamentos de subjetividade” (Guattari), no contexto de pequenos
e grandes agrupamentos de pessoas. Ü
As identidades, enfim, reagem, num movimento de ressincronização espaço-temporal, aos
efeitos desestruturadores da globalização. Esta reação pode vir sob a forma da
retração, “privatização”, ou da intolerância contra o que parecem ser os
perigos ou inimigos da “abertura” aos fluxos globais para a segurança, a
sobrevivência, a auto-referencialidade dos projetos do grupo. Pela impotência
ou pela assertividade agressiva do “seu” espaço, tenta-se reestabilizar o
estado de fluxo, as exigências de contínuo reajustamento, as incertezas de um
futuro desconhecido. Neste contexto, a religião, o nacionalismo, a organização
em bases territoriais locais são algumas das expressões deste desejo de
interromper os fluxos de mudanças permanentes e aparentemente sem direção que
sobrevêm a sociedades nacionais ou grupos/comunidades sub-nacionais como
efeitos de uma espécie de destino incompreensível e implacável. 4. Desafios ao
multiculturalismo: o lugar da identidade no contexto global
Destacamos na introdução o caráter contencioso
das demandas e práticas multiculturais e procuramos argumentar que um dos
elementos importantes desta contestabilidade reside na dinâmica complexa dos
vínculos entre identidade e globalização. Se as energias iniciais para as
demandas multiculturais podem remontar às lutas pelos direitos civis e aos
desdobramentos dos movimentos estudantis no final da década de 60, então seria
preciso admitir que a emergência da identidade como preocupação, como reação ou
como projeto já estava implicada num movimento de proporções internacionais.
Durante os anos 80 e 90, as demandas multiculturais tornaram-se decididamente
globais em sua extensão e disseminação. Esta disseminação, entretanto, nem ofusca, nem
diminui o potencial polêmico do multiculturalismo. Assim como o terreno da
globalização é disputado, também o é o das identidades coletivas passíveis de
constar na lista dos atores “legítimos” do multiculturalismo. Mais do que uma
emergência pura e simples, tomando a forma de diferenças cuja positividade
seria indisputável, as identidades reivindicadoras de práticas multiculturais
estão simultaneamente em processo de construção e em disputa pelo
reconhecimento dos agravos e cenários onde sua postulação cobra ares de
objetividade incontestável. O fato, porém, de que não podemos simplesmente
escolher quais manifestações identitárias – por nos parecerem mais aceitáveis
ou progressistas – poderiam fazer parte da “lista”, o fato de que há identidades reativas, intolerantes e fechadas em
si mesmas, nos adverte para alguns desafios que, postos a estas identidades,
estendem-se também às chamadas “novas identidades” e, a fortiori, ao multiculturalismo. Concluiríamos, então, ressaltando, de forma
puramente evocativa, alguns desafios que o contexto da globalização coloca à
experiência da identidade – pessoal e coletiva – e às políticas multiculturais
que se põem em sua defesa. Em primeiro lugar, o desafio da abertura.
Tradicionalmente, a idéia de identidade foi associada a um “seu-próprio” que
não se dividia com outros, que se pretendia proteger dos outros e que
determinava uma uniformidade interna entre os “portadores” de tais atributos.
Além disso, a identidade se revestia de uma atemporalidade que escondia tanto a
história de seu desenvolvimento como a existência de outras possibilidades de
sua expressão que foram preteridas ou derrotadas ao longo desta história. O cenário
da globalização, ao alterar os processos tradicionais de produção e reprodução
da identidade, confronta-a com sua própria historicidade – e, portanto, com a
possibilidade de ser diferente de si mesma, heterogênea consigo mesma – e com a
relação ao outro – e, portanto, com a necessidade de reconhecer dentro de si a presença
(ausente) de outros sujeitos e de negociar com eles suas demandas e valores. Em segundo lugar, o desafio da reflexividade. A
“ameaça” de invasão, destruição ou subordinação que a inserção nos fluxos
globais representa para as identidades localistas, ou a resposta ao desafio da
abertura, têm cobrado que a identidade trabalhe sobre si mesma. Recomponha-se,
investigue-se, critique a si mesma e elabore estratégias para sua atuação e
suas relações com outras. A avaliação permanente das suas condições de
existência e de suas chances de melhora relativa no espaço social, político,
econômico e cultural impõe um permanente retorno sobre si mesma que, embora não
signifique a possibilidade de compensar a perda da estabilidade, a aura
atemporal e a falsa homogeneidade que geralmente as experiências identitárias
cultivam, torna-se um elemento habilitador nas relações com outras identidades. Em terceiro lugar, o desafio da política. Embora
muito se fale sobre a decadência ou a retração da política no contexto
contemporâneo, a leitura que oferecemos aqui só pode insistir sobre a centralidade da política na análise da
identidade. Não se trata especificamente da política tradicional – centrada na
agregação de interesses através dos partidos e seu processamento através dos
mecanismos de políticas governamentais. Trata-se da dimensão política da identidade. A perda da referência a-histórica
e os deslocamentos colocados pelo contato com o terceiro da globalização exigem
das identidades um esforço de construção. Reivindicar uma origem indiferenciada
e imemorial, ou uma visão naturalizada (determinada pelo nascimento, a condição
biológica ou o solo pátrio), não é suficiente ou mesmo possível para assegurar
sua continuidade/reprodução. Identidades são construções tanto no sentido
histórico, como no sentido da ação estratégica; elas são o resultado de uma
série de operações e investimentos coletivos. Mais, o fato de que a identidade
não se define de modo autárquico, sem referência com um antagonismo face a um
“inimigo”, e sem a “costura” de equivalências entre suas demandas e valores e
as de outras, a negociação (que
implica em conflito, argumentação, mobilização e compromissos) é outra
característica do desafio político à identidade. O peso do global, as
assimetrias entre atores nacionais e locais, o grau de organização interna de
cada grupo colocam o desafio da negociação. Finalmente, o desafio do pluralismo. Os cenários
da globalização não remetem a um sistema centrado e governado a partir de um
único conjunto de critérios, não comportam macro- ou micro-atores imbuídos de
pretensões imperiais ou autonomistas, nem assumem o custo da homogeneização das
diferenças. O desafio então, que tem estado entre os maiores dilemas e
contradições da onda contemporânea da globalização, é o de que o regime de
repartição dos recursos socialmente relevantes para os diferentes grupos que
reivindicam inclusão, justiça ou reconhecimento produza uma tolerância ativa
das diferenças no contexto da “consciência possível” da comunidade nacional, da
cultura regional e local, ou seja, assumindo-se que nunca será possível tolerar
todas as diferenças, nem impedir que o intolerável reapareça. Pluralismo não
pode, neste contexto, significar um congraçamento geral, uma nova forma de
comunidade plena, mas um espaço de emergência de demandas que não somente
expressam injustiças passadas, mas a exclusão sobre a qual se assenta toda
ordem social. 5. Bibliografia
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da Ideologia. Rio de Janeiro, Contraponto [1] Coordenador da Área
Temática Cultura e Identidade, Fundação Joaquim Nabuco, e professor das pós-graduações
em Ciência Política e em Sociologia da UFPE. Uma versão anterior deste trabalho
foi apresentada na Mesa Redonda Multiculturalismo, Relações Inter-étnicas e
Globalização, durante a I Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências
Sociais, promovida pelo CLACSO e Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Brasil, de
22 a 26/11/99. [2] Mais recentemente, esta
modalidade de descentramento que significa a expansão do Ocidente cobra notável
reforço nos últimos anos por meio da frenética movimentação de um capital
financeiro ao mesmo tempo apátrida, amoral e plurifacético (ou sem face, o que
dá no mesmo), intensificando a ansiedade e a busca de anteparos e raízes que
permitam defender-se do “vendaval”. [3] Num trabalho recente,
Featherstone analisa estas duas modalidades em termos de uma postura nostálgica face à globalização, uma
associada à emergência/afirmação dos estados nacionais e seus símbolos e
cerimônias, outra associada ao pós-modernismo e que reflete pressões para que
os estados nacionais reconstituam suas identidades coletivas em moldes
pluralistas e multiculturais que confiram espaço para diferenças regionais e
étnicas (cf. 1995:95-96). Segundo Featherstone, esta nostalgia se liga à
asserção do local vis-à-vis o global e se expressa como uma perda do que seria
o lar, o familiar, um lugar físico com o qual se está identificado, e como uma
perda do senso de totalidade/integridade, certeza moral, relacionamento social
genuíno, espontaneidade e expressividade (Idem:93-94). Sobre a relação entre
globalização e nostalgia, especialmente no que diz respeito à primeira
modalidade, cf. tb. Robertson, 1990). [4] Para uma análise das
políticas multiculturais, segundo os usos que se faça do multiculturalismo –
demográfico-descritivo, programático-político e ideológico-normativo – cf. Inglis, 1996; Koenig, 1999. Uma análise
latino-americana se encontra em Iturralde, 1995. [5] Alain Touraine tem,
recentemente, feito da disjunção entre mercado e cultura o cerne de sua análise
sobre os impasses da modernidade tardia e a base de sua defesa da introdução de
um princípio não-social de resistência ao capital e à comunidade, que ele chama
de “Sujeito” (cf. 1999; v.tb. 1998). [6] A imagem do “terceiro”
tem sido usada por outros autores num sentido que não necessariamente se
coaduna com o que aqui é utilizado. Uma das tematizações explícitas aparece em
Bhabha e Laclau. [7] A emergência desta
questão – por exemplo, racismo, discriminação da mulher, etnocídio das
populações indígenas, liberdade religiosa, degradação ambiental, exclusão
social como efeito direto das políticas neoliberais – não é ponto pacífico. É
preciso estabelecer sua própria objetividade ou urgência, donde o fundamental desentendimento que funda a política
(cf. Rancière, 1996): entre os polos antagonísticos – no nosso caso, as
demandas multiculturais e seus adversários, bem como a oposição entre
identidades locais e as forças globalizantes – há um conflito que diz respeito
à denúncia de um agravo cometido contra um determinado grupo e à demanda por
reparação ou inclusão, mas que traz à cena social algo que não estava lá. Algo
que tanto designa o “quem” como o “quê” em disputa. [8] A questão do
antagonismo aqui introduzida tem sua referência básica no trabalho de Laclau e
Mouffe (cf. Laclau e Mouffe, 1989; Laclau, 1993:21-57; v.tb. Zizek, 1993; 1992:161-64;
1996 :21-35). [9] Uma breve descrição
deste processo é oferecida por Castells, quando comenta que o caráter defensivo
de muitas práticas identitárias se dirige contra a globalização, os processos
de formação de redes e de flexibilização, e a crise da família patriarcal:
“Quando o mundo se torna grande demais para ser controlado, os atores sociais
buscam encolhê-lo de volta ao tamanho e alcance deles. Quando as redes
dissolvem o tempo e o espaço, as pessoas se ancoram em lugares, e recuperam sua
memória histórica. Quando a reprodução patriarcal da personalidade fracassa, as
pessoas afirmam o valor transcendente da família e da comunidade, como vontade
de Deus” (1997:66). |