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TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 106/2001 Março • 2001 |
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POSITIVISMO VERSUS TEORIA CRÍTICA
EM TORNO DO DEBATE ENTRE
KARL POPPER E THEODOR ADORNO
ACERCA DO MÉTODO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Túlio Velho Barreto* |
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Em
seu Congresso de 1961, a Sociedade de Sociologia Alemã promoveu um debate em
torno do positivismo e da dialética como modelos explicativos nas ciências
sociais. Assim, sob a mediação de Ralf Dahrendorf e outros, Karl Popper,
considerado, às vezes, não sem controvérsias, influenciado pelos membros do
Círculo de Viena – mas, certamente, um pensador bastante lido e discutido por
eles –, expôs suas teses acerca da lógica das ciências sociais. Naquela
ocasião, coube a Theodor Adorno, representante da Escola de Frankfurt e, ao
lado de Max Horkheimer, um dos formuladores da “teoria crítica”, oferecer uma
réplica àquelas teses tendo como ponto de partida a dialética. Em seguida,
surgiu uma série de comentários sobre o tema, além dos que foram feitos durante
o evento e publicados na forma de livro, o que bem demonstra a sua relevância.
Tal fato, aliás, está ressaltado, entre nós, por exemplo, em Marcondes (1998,
p. 265), quando este lembra a importância da “polêmica dos frankfurtianos com
Karl Popper, nos anos 60, em torno da caracterização da racionalidade
científica”, e em Freitag (1986, p. 43-52), que destaca as contribuições que se
seguiram ao debate, em particular as de Herbert Marcuse, de Jürgen Habermas e
do próprio Adorno. É do conteúdo de tal debate que trata este artigo. Assim,
aqui é abordado o pensamento de Popper, contido naquelas teses, e o de Adorno, consubstanciado
na teoria crítica, como disse, e em suas próprias formulações da “dialética do
esclarecimento” (1947) e da “dialética negativa” (1965) – esta última
desenvolvida após o debate. Não se trata de discutir amplamente os dois
autores, dada a vasta obra produzida por cada um deles, mas de trazer à tona
aspectos pontuais expostos durante a polêmica provocada por seus trabalhos e
dos comentadores. Para tanto, além de tratar da exposição de Popper (1978a, p. 13-34) e da réplica de Adorno
(1986, p. 46-61), utilizam-se, aqui, os comentários complementares feitos a posteriori por ambos (Adorno, 1983a, p. 209-257; Popper, 1978b, p. 35-49). Ainda nesse sentido,
faz-se necessário uma referência a Freitag (op.
cit.), que dedica uma seção de seu livro sobre a Escola de Frankfurt a
tratar especificamente daquele debate, bem como ao comentário de Habermas sobre
o mesmo (1983, p. 277-312). [1]
No final deste texto, pode-se verificar a bibliografia complementar utilizada. Por fim, o texto está organizado da seguinte forma: a
primeira e a segunda seções tratam das teses de Popper e da réplica de Adorno,
mas também do contexto em que foram formuladas as idéias originais desses
autores e das escolas que eles representam ou às quais são associados; na
terceira e última, à guisa de conclusão, são expostos e discutidos os
comentários posteriores de ambos acerca do tema. POPPER: DO CÍRCULO DE VIENA À LÓGICA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Antes
de deter-me especificamente nas teses de Popper, creio ser relevante destacar
alguns aspectos relacionados àquele autor, em especial ao diálogo que ele
manteve com os membros do Círculo de Viena. Dentre outras razões, tal
procedimento parece razoável – talvez prudente – na medida em que alguns
consideram que Popper foi influenciado pelas (ou influenciou as) idéias daquele
grupo. Começo, portanto, referindo-me en
passant ao Círculo de Viena e ao “positivismo lógico”, pois já tratei
deles, mais detalhadamente, em outro artigo (Barreto, 1999). Popper e o
positivismo lógico do Círculo de Viena O Círculo de Viena ganhou notoriedade a partir da
divulgação do Manifesto A Concepção
Científica do Mundo, de 1929, subscrito por Hans Hahn, Otto Neurath e
Rudolf Carnap, onde “a rigorosa eliminação da metafísica do domínio do
pensamento racional e o estabelecimento da ciência unificada por meio da
redução lógica da ciência aos termos da experiência imediata foram anunciados”
(Sauer, 1996, p. 799-803; cf. também Pasquinelli, 1983, p. 9-22, para uma
análise mais detalhada do manifesto vienense). Com base no empirismo clássico,
que deu origem ao positivismo de tradição francesa, em especial às formulações
de Comte e Durkheim, os membros do Círculo de Viena admitem que o conhecimento
factual resulta da observação e não de proposições a priori. Assim, “julgavam insatisfatória a concepção da matemática e
da lógica como sistemas de proposições muito gerais, estabelecidas
indutivamente a partir de fatos empíricos particulares” (Schlick-Carnap, 1983,
p. X) [2].
Ademais, para eles, era especialmente importante, a idéia de Wittgenstein de
que toda proposição é significativa, fornece alguma informação acerca
do estado atual do mundo, na medida em que afirme a ocorrência de certos fatos
atômicos e exclua a ocorrência de outros. O valor de verdade de uma proposição
deve, pois, poder ser determinado a partir do conhecimento da ocorrência, ou
não-ocorrência, dos fatos atômicos envolvidos. Imaginando-se uma linguagem
capaz de exprimir cada fato atômico, toda proposição significativa poderia ser
reduzida a uma combinação de proposições atômicas mediante funções de verdade,
de modo a ficar o valor de verdade da proposição complexa univocamente
determinado pelos valores de verdade das proposições atômicas componentes (op. cit., p. X). Dessa concepção resultou o princípio da verificabilidade, formulado
no âmbito do Círculo, ou seja: o significado de uma proposição está relacionado
diretamente aos dados empíricos que resultam de sua observação e que, uma vez
existentes, dão veracidade à proposição. Quando isso não ocorre, pode-se concluir
que a proposição é falsa. Assim, toda proposição que, a princípio, pode ser
transformada em enunciados protocolares,
só tem significado se for verificada empiricamente. Da mesma forma, os membros
do Círculo de Viena foram levados a defender a idéia de que é possível submeter
as proposições matemáticas e lógicas ao princípio empiricista. Entretanto, só a
verificação empírica de tais proposições definirá se elas são providas de
significado ou não, se são de fato proposições ou pseudoproposições. Isto é, se
são apenas formais e desprovidas de significado, vazias de conteúdo, e,
portanto, mais uma linguagem do que proposições acerca da realidade.
Finalmente, eles estenderam à filosofia a crítica então formulada à metafísica,
pois só teria valor científico o que pudesse ser verificado empiricamente (cf.
Sauer, op. cit.; Hegenberg, 1976.; cf. “Vida e Obra” in Schlick-Carnap, op. cit.). Assim, percebe-se logo a razão da importância que a
lingüística teve para os empiricistas lógicos. Os princípios acima correspondem
sobretudo à fase mais radical do Círculo de Viena, posteriormente abrandada,
quando tomou uma feição mais liberal, em especial com Carnap. Ocorre que tais
princípios levaram a um impasse com relação, por exemplo, às leis naturais que
não podem ser plena e definitivamente verificadas. Para resolvê-lo, Schlick
propôs que as leis naturais fossem tomadas não como proposições, mas como
regras das quais pudessem ser deduzidas proposições, sendo, então, passíveis de
verificação. Mas, essa formulação sofreu resistência de Carnap, que argumentava
que, mesmo tais proposições, não poderiam ser submetidas ao “princípio de
verificação”. Como conseqüência, Carnap deu nova forma ao princípio, concebendo
as idéias ou noções de confirmabilidade
e testabilidade a fim de concluir se
uma proposição teria significado ou não. De tal forma que, em vez de verificar
se determinada proposição tinha comprovação empírica ou não, Carnap passou a
defender a verificação de certo grau de confirmabilidade daquela segundo dados
empiricamente observados. Quanto à testabilidade, Carnap estava preocupado em
saber em que grau uma proposição poderia ser submetida à confirmação ou não. Em
síntese, de seu modelo apreende-se que uma proposição pode ser (i) testável
completamente, (ii) testável apenas parcialmente, (iii) confirmada parcialmente
ou (iv) confirmada por completo, que corresponderia à verificabilidade da
proposição (Carnap, 1983, p. 171-219; cf. também Sauer, op. cit.; Hegenberg, op. cit.;
“Vida e Obra” in Schlick-Carnap, op. cit. p. X). Mas a própria identificação de Popper com o Círculo e tais
idéias, bem como a natureza dessa relação, é polêmica. Freitag (1986, p. 44),
por exemplo, afirma que Popper era originalmente um de seus membros.
Entretanto, chama a atenção para o fato de que ele, diferentemente dos
positivistas lógicos, não era partidário da identidade entre as ciências
sociais e naturais em função da especificidade do objeto de umas e outras. Daí,
para Freitag, deriva a sofisticação do positivismo defendido por Popper. Mas,
há quem o veja como “o principal herdeiro do positivismo lógico, embora de uma
perspectiva bastante crítica. [Pois,] procurando escapar dos impasses gerados
pela adoção do princípio de verificação e pela exigência do estabelecimento
conclusivo da verdade das proposições fundamentais, Popper formulou [...] uma
inversão desse princípio, através de seu princípio
da falsificabilidade” (Marcondes, 1998, p. 263). Outros autores vão mais
além e defendem que Popper pretendeu superar os positivistas ou empiricistas
lógicos do Círculo de Viena. [A filosofia de
Popper] derivava dos esforços que ele fazia para distinguir a pseudociência – o
marxismo [daí sua crítica ao materialismo histórico ou historicismo de Marx], a
astrologia ou a psicologia freudiana – da ciência verdadeira, como a teoria da
relatividade de Einstein. A última, decidiu Popper, era testável; fazia
previsões sobre o mundo que podiam ser empiricamente checadas. Era o que os
positivistas tinham afirmado. Mas Popper negava a afirmação positivista de que
os cientistas podem provar uma teoria por indução [como queria, por exemplo,
Carnap com sua lógica indutiva] ou por testes empíricos ou observações
sucessivas [como outros defendem]. Nunca se sabe se as observações foram
suficientes; a observação seguinte pode contradizer tudo o que a precedeu. As
observações nunca são capazes de provar uma teoria; só podem provar a sua
inverdade ou refutá-la. Popper costumava se vangloriar de ter ‘matado’ o
positivismo lógico com essa argumentação (Horgan, 1998, p. 50). Embora, segundo Horgan, Popper se vangloriasse de ter
superado o positivismo lógico com seu princípio da falsificabilidade ou
refutabilidade, o fato é que ele chegou a ter uma relação intelectual bem
próxima com os membros do Círculo de Viena, e suas primeiras obras foram ali
bastante discutidas. Entretanto, isso não o impediu, é verdade, de expressar
suas críticas ao positivismo lógico. Giddens (1978, p. 344-349), por exemplo,
identifica semelhanças e diferenças entre o positivismo lógico e o “positivismo”
popperiano. (Uma explicação: no caso de Popper, uso aqui o termo positivismo
entre aspas, sobretudo porque ele não se considerava positivista e seu
“princípio da refutação”, como detalharei mais adiante, é prova empírica não da
verificação da hipótese, ao estilo dos empiricistas lógicos, mas de sua
aceitação, ainda que parcial ou momentânea, até que novos testes sejam
operados.) Por um lado, Giddens (op. cit., p. 345) resume assim os aspectos que ele identifica em Popper e que
o distinguiriam dos pensadores do Círculo: [1] sua [de Popper] rejeição total da indução e sua rejeição
concomitante da certeza ‘sensória’, [...] manifesta como fenomenalismo ou
fisicalismo; [2] sua substituição da verificação pela refutação, com a
correspondente ênfase na ousadia e engenhosidade na formulação de hipóteses
científicas; [3] sua defesa da tradição que, em conjunto com a operação do
espírito crítico, é fundamental para a ciência; e [4] sua substituição da
ambição da lógica positivista de colocar um fim na metafísica, revelando-a como
um absurdo, com o objetivo de assegurar critérios de demarcação entre ciência
e pseudociência. Da mesma forma, Baudouin (1992,
p. 30-1) aponta que, além de contestar o “indutivismo” dos positivistas
lógicos, adotando o modelo hipotético-dedutivo, Popper insurgiu-se contra “a
eliminação da metafísica do processo de conhecimento, reafirmando o papel que
esta pode desempenhar na formulação das conjecturas ou na construção das
teorias”. Assim, para Baudouin, no livro Lógica
da Descoberta Científica, de 1935, Popper nada mais fez do que replicar as
teses centrais dos membros do Círculo de Viena. Mas, a controvérsia procede na
medida em que é possível relacionar semelhanças entre eles. Senão, vejamos.
Popper tem a mesma posição dos positivistas lógicos quanto ao fato de o
conhecimento científico ser “o mais seguro e fidedigno” que se pode pretender,
embora esta não seja uma prerrogativa exclusiva do positivismo. Da mesma forma,
ele sempre procurou demarcar claramente os limites entre ciência e
pseudociência, e, ao formular o princípio da refutação, era cioso de que as
teorias e constatações científicas podiam ser submetidas à prova empírica,
condição necessária para serem refutadas ou não (Giddens, op. cit.). Da mesma forma, apesar de divergir em pontos
essenciais, Popper e os positivistas lógicos tinham como interesse comum “a
preocupação de caracterizar a ciência empírica por oposição a outras
construções teóricas, a importância concedida à lógica na construção da
metodologia e o valor atribuído à experiência como instância de teste para
hipótese ou teorias” (Carvalho, 1994, p. 65). Dessa convergência resultou “um
debate fecundo entre eles”, pois as críticas de Popper não se apoiavam em
“pressupostos incomensuráveis aos do Círculo: era possível o diálogo”
(Carvalho, op. cit., idem). Diálogos,
esses, marcados por afinidades, o que não ocorreu, como se verá, nos “diálogos”
de Popper com os membros da Escola de Frankfurt. Popper e suas
teses sobre “A Lógica das Ciências Sociais” Sob o título acima, Popper elaborou, a pedido da
organização do Congresso de Sociólogos Alemães, um paper onde expôs e defendeu suas principais idéias relacionadas
sobretudo à epistemologia das ciências sociais na forma de teses enumeradas,
visando facilitar a discussão. Esta subseção trata de tais teses. Aqui, o
objetivo é, antes de mais nada, dar uma idéia de seu conteúdo geral e destacar
aqueles pontos mais relevantes para o debate que se seguiu entre Popper e
Adorno. Popper propõe, logo no início de
sua exposição, partir de duas teses, onde ele opõe o conhecimento e o
não-conhecimento (a ignorância). Com efeito, afirma ele, “conhecemos muito”
(primeira tese), mas “nossa ignorância é sóbria e ilimitada” (segunda),
inclusive “no campo das próprias ciências naturais”. No entanto, apenas
aparentemente há contradição entre essas duas teses, pois é do desencontro
entre tais situações que surge a tensão que impulsiona o conhecimento. Cabe
então à lógica do conhecimento discutir tal tensão (terceira e quarta teses)
Assim, pode-se dizer que “[...] o
conhecimento não começa de percepções ou observações ou de coleção de fatos ou
números, porém, começa, mais propriamente, de problemas. Poder-se-ia dizer: não
há nenhum conhecimento sem problemas; mas, também, não há nenhum problema sem
conhecimento. Mas isto significa que o conhecimento começa da tensão entre
conhecimento e ignorância” (p. 14). Na tese seguinte, Popper desenvolve a relação entre a
importância do problema a ser investigado e a forma (o método) como isso deve
ser feito. Assim, para ele, “é o caráter e a qualidade do problema e também, é
claro, a audácia e a originalidade da solução sugerida, que determinam o valor
ou a ausência do valor de uma empresa científica” (p. 15). Dito isso, e antes de apresentar sua sexta e
“principal tese”, Popper redimensiona o papel da observação para a produção e
aquisição do conhecimento científico (quinta tese). Afirma ele: [Em todas as
ciências] o ponto de partida é sempre um problema [teórico ou prático] e a
observação torna-se algo como um ponto de partida somente se revelar um
problema. [Mas] o ponto de partida de nosso trabalho científico é não tanto a
pura e simples observação, porém, mais adequadamente, uma observação que
desempenha um papel particular, isto é, uma observação que cria um problema [de
pesquisa] (idem). Ao se referir à sexta tese como a
principal, Popper, é evidente, tinha uma razão maior. Nela, como veremos a
seguir, ele praticamente resume a lógica que defende não só para a investigação
no campo das ciências sociais mas também para as ciências naturais. Trata-se,
sem dúvida, de uma clara síntese de seu princípio da refutabilidade, por um
lado, e do que o próprio Popper denominava de “racionalismo crítico”, por
outro. Por esta razão, abaixo a reproduzo na íntegra. a) O método das
ciências sociais, como aquele das ciências naturais, consiste em experimentar
possíveis soluções para certos problemas; os problemas com os quais iniciam-se
nossas investigações e aqueles que surgem durante a investigação. As soluções
são propostas e criticadas. Se uma solução proposta não está aberta a uma
crítica pertinente, então é excluída como não científica, embora, talvez,
apenas temporariamente. b) Se a solução
tentada está aberta a críticas pertinentes, então tentamos refutá-la; pois toda
a crítica consiste em tentativas de refutação. c) Se uma
solução tentada é refutada, através do nosso criticismo, fazemos outra
tentativa. d) Se ela
resiste à crítica, aceitamo-la temporariamente; e a aceitamos, acima de tudo,
como digna de ser discutida e criticada mais além. e) Portanto, o
método da ciência consiste em tentativas experimentais para resolver nossos
problemas por conjecturas que são controladas por severas críticas. É um
desenvolvimento crítico consistente do método de ‘ensaio e erro’. f) A assim chamada objetividade da ciência
repousa na objetividade do método crítico. Isto significa, acima de tudo, que
nenhuma teoria está isenta do ataque da crítica; e mais ainda, que o
instrumento principal da crítica lógica – a contradição lógica – é objetivo (p.
15-16). Como conseqüência da tese
anterior, mas sobretudo a partir das demais que se seguem, apreende-se, dentre
outras coisas, que o critério para definir o caráter científico de uma teoria
está na possibilidade de validá-la, refutá-la e testá-la. Deve-se aceitar,
ainda, que todo conhecimento é provisório no sentido em que é uma verdade
momentaneamente aceita até que seja operado novo teste, nova tentativa de
refutação. Em tal processo, é necessário, entretanto, rejeitar o dogmatismo –
consubstanciado, para Popper, principalmente no marxismo e na psicanálise – e o
indutivismo. Contra o indutivismo,
particularmente, Popper dedica várias de suas teses para atacá-lo enquanto faz
a defesa da adoção do método hipotético-dedutivo. Antes, porém, ele aborda,
também em diversas teses, a questão da objetividade e da neutralidade
valorativa do conhecimento científico. Em ambos os casos, tais temas estão
submetidos à crítica lógica. Quanto à objetividade científica, Popper, além do
que afirma em sua sexta tese – particularmente no último tópico –, nega que ela
dependa da objetividade do cientista, quer ele se dedique às ciências naturais
ou às sociais. Ademais, o que pode ser descrito como objetividade científica é baseado
unicamente sobre uma tradição crítica que, a despeito da resistência,
freqüentemente torna possível criticar um dogma dominante. [Assim,] a
objetividade da ciência não é uma matéria dos cientistas individuais, porém,
mais propriamente, o resultado social de sua crítica recíproca, da divisão
hostil-amistosa de trabalho entre cientistas, ou sua cooperação e também sua
competição (p. 23). Quanto à questão da valoração,
segundo Popper, existem os valores e desvalores puramente científicos e os
extra-científicos. Cabe, portanto, ao cientista crítico demarcar claramente
quais os valores e desvalores situados em um e em outro campo, impedindo,
sobremodo, que aspectos extra-científicos se confundam com as questões de
verdade. Voltando agora à crítica que
Popper faz do indutivismo, é relevante ressaltar que, para ele, “a função mais
importante da pura lógica dedutiva é a de um sistema de crítica” incompatível
com o indutivismo. Mas o que Popper quer dizer ao usar a expressão “lógica dedutiva”? Em suas palavras: A lógica dedutiva é a teoria da validade das deduções lógicas ou
da relação de conseqüência lógica. Uma condição necessária e decisiva para a
validade de uma conseqüência lógica é a seguinte: se as premissas de uma
dedução válida são verdadeiras, então
a conclusão deve também ser verdadeira.
[Portanto] a lógica dedutiva é a teoria da transmissão de verdade, das
premissas à conclusão (p. 26; grifos no original). Daí, concluir Popper: A lógica dedutiva torna-se a teoria da crítica racional, pois todo
criticismo racional toma a forma de uma tentativa de demonstrar que conclusões
inaceitáveis podem se derivar da afirmação que estivemos tentando criticar. Se
tivermos sucesso em deduzir, logicamente, conclusões inaceitáveis de uma
afirmação, então, a afirmação pode ser colocada como digna de ser recusada (p.
27). Já em suas teses finais, Popper,
por um lado, mantém o foco sobre o “conceito de verdade”, que ele considera
indispensável à sua abordagem crítica, e acerca da idéia de explicação causal,
que lhe é tão cara, já que “a solução tentada de um problema, isto é, a
explicação, consiste sempre numa teoria, em um sistema dedutivo que nos permite
explicar o ‘explicandum’ [aquilo que se quer explicar] relacionando-o a outros
fatos (as assim chamadas condições iniciais)”. Com tais conceitos lógicos,
busca-se, sobretudo, a “aproximação da verdade” e o “poder explicativo de uma
teoria”. Por outro lado, Popper acrescenta à lógica formal um método, que ele
considera necessário às ciências sociais, denominado de “lógica da situação” ou
“situacional”. Tal método “consiste em analisar suficientemente a situação
social dos homens ativos para explicar a ação com ajuda da situação, sem outra ajuda maior da psicologia”. Para
ele, trata-se de “um método puramente
objetivo nas ciências sociais, que bem pode ser chamado de método de
compreensão objetiva, ou de lógica
situacional” (p. 31-32; grifos no original). É o próprio Popper que explica: A compreensão objetiva consiste em considerar que a ação foi
objetivamente apropriada à situação. Em outras palavras, a situação é analisada
o bastante para que os elementos que parecem, inicialmente, ser psicológicos
(como desejos, motivos, lembranças e associações), sejam transformados em
elementos da situação. Um homem com determinados desejos, portanto, torna-se um
homem cuja situação pode ser caracterizada pelo fato de que persegue certos alvos objetivos; e um homem com
determinadas lembranças ou associações torna-se um homem cuja situação pode ser
caracterizada pelo fato de que é equipado, objetivamente, com outras teorias ou
com certas informações ( ibidem;
grifos no original). Conseqüentemente, ele conclui que o método da lógica
situacional é individualista mas não psicológico, e que as explicações que o
método propicia são “reconstruções racionais e teóricas” onde o mundo físico,
que nos cerca e no qual agimos, é considerado.
Por fim, devo ressaltar que outras questões foram abordadas por
Popper em suas teses, mas, no meu entendimento, são as que tratei aqui aquelas
que mais chamaram a atenção de Adorno e foram discutidas por ele. Dessa forma,
passo, a seguir, a expor alguns aspectos da “teoria crítica”, para, na
seqüência, referir-me à réplica que Adorno fez às teses de Popper a partir da
dialética apregoada pela Escola de Frankfurt.
A TEORIA CRÍTICA DA ESCOLA DE FRANKFURT E A RÉPLICA DE ADORNO A POPPER Inicialmente, farei algumas considerações acerca da Escola de
Frankfurt, seus principais representantes e idéias. Criada em 1923-24, a Escola
de Frankfurt só adotou, de fato, tal denominação a partir dos anos 50, quando –
com exceção de Walter Benjamin, que havia se suicidado em 1940, na fronteira
entre a França e a Espanha, de onde pretendia fugir de perseguição nazista –
Horkheime, Adorno, Marcuse e Habermas (este integrando-se ao grupo naqueles
anos) reencontram-se na Alemanha, após a derrota de Hitler e seu regime
totalitário. Ao lado de Erich Fromm e Franz Neumann, formaram, então, o núcleo
principal da Escola. Eram pensadores com origens intelectuais e influências
teóricas variadas, que, sob o impacto dos acontecimentos da época (fim da
monarquia na Alemanha e constituição da República de Weimar; primeira Guerra
Mundial; Revolução Soviética; intensas lutas operárias, sobretudo na própria
Alemanha; ascensão do nazismo etc.), aliados à rejeição teórica e prática que
eles dispensavam à determinada versão do marxismo (irradiada a partir da então
URSS), procuravam desenvolver uma teoria crítica do conhecimento e da sociedade
inspirados na obra de Marx e em suas raízes hegelianas, relacionando o marxismo
com a tradição crítica moderna. O principal aspecto dessa crítica diz respeito
à racionalidade técnica e instrumental que teria dominado a sociedade moderna
com a Revolução Industrial. Essa racionalidade instrumental acaba por ser incorporada pela doutrina marxista ortodoxa e por correntes
filosóficas como o positivismo (Marcondes, op. cit., p.
233-234). Assim, para os frankfurtianos, era preciso rebelar-se
contra essa tendência, à época dominante. Ademais, era “necessário desenvolver
a razão emancipatória, com base na crítica da dominação e em nome da
comunicação e do consenso entre indivíduos racionais e livres” (idem, ibidem). Não parece haver dúvidas,
contudo, que a Escola de Frankfurt e seus principais artífices buscaram em Marx
“uma inspiração [...] para uma análise
da sociedade contemporânea, além de desenvolver o conceito de teoria
crítica e de crítica da ideologia em uma perspectiva filosófica e sociológica”
(ibidem), recusando o papel de meros
comentadores ou intérpretes da obra marxiana. Até 1933, quando a situação ficou
insustentável na Alemanha nazista, sobretudo para intelectuais de esquerda e de
origem judia, como a maior parte deles, a Escola de Frankfurt funcionou em
território alemão, tendo sua sede transferida para Genebra, naquele ano, e
posteriormente para os Estados Unidos (cf. “Vida e Obra” in Benjamin, Habermas, Horkheimer, Adorno, 1983, p. VII-XIX). [3]
Entretanto, sua primeira fase vai até os anos 50, quando Horkheimer e Adorno
retornam do exílio (Freitag, op. cit.,
p. 30). É desse período, a primeira elaboração da teoria crítica, que viria a
se opor “a todo pensamento da identidade, da não-contradição, típico da
filosofia desde Descartes, denominada pelos frankfurtianos Teoria Tradicional. A Teoria Crítica realiza uma incorporação do
pensamento de filósofos ‘tradicionais’, colocando-os em tensão com o mundo
presente” (Matos, 1993, p. 12-13; grifos no original). Nesse período,
Horkheimer – que assumira a direção da Escola oficialmente em 1930 – “imaginava
reorganizar a reflexão filosófica da época, partindo de um patamar abstrato
para um nível mais concreto [...]”, o que significava a elaboração de uma
teoria que incluísse “as contribuições empíricas e históricas da sociologia e
da moderna historiografia” (Freitag, op.
cit., p. 14-15). Essa era uma intenção já esboçada
por dois autores marxistas bastante influentes à época: Georg Lukács e Karl
Korsch. Sob certo ponto de vista – em especial na crítica à ossificação do
marxismo –, eles exerceram papel importante para que intelectuais viessem a
formar um instituto de estudos sobre o movimento operário e socialista na
Alemanha.. De um lado, Lukács criticava o
marxismo oficial que transformara o pensamento de Marx “em um dogmatismo
positivista, que interpretava a história a partir de uma concepção de ciência
naturalista, tornado a história
análoga à natureza bruta, com suas
forças mecânicas” (Matos, op. cit.,
p. 12-17; grifos no original). Para Lukács era necessário recompor a idéia de
dialética de Marx, então deturpada pelo estalinismo. Pois, como ressalta
Matos, a dialética é o pensamento da contradição. Uma afirmação é
ultrapassada por sua negação, e esta, por sua vez, pela negação da negação,
isto é, uma nova afirmação. Esse
movimento é peculiar: cada momento de dialética e da história ao mesmo tempo
ultrapassa o anterior e o conserva [...]. O método dialético de interpretação
da história não é o estabelecimento prévio de um caminho a ser seguido, mas uma
orientação nas possibilidades revolucionárias de que cada época é portadora (p.
14-15; grifo no original). Matos complementa chamando a atenção para que, segundo
Lukács, sem tal conteúdo original, a dialética “estava se perdendo em favor da fetichização”, responsável pela
“petrificação positivista, mescla de marxismo e positivismo. [Assim,] a
dialética de sua época não passava de um método positivista, capaz de controlar
os acontecimentos históricos postulando a homologia entre natureza e sociedade”
(idem, p. 15). Já Korsch,
alinhando-se a Rosa Luxemburgo, travava inúmeros embates em defesa de maior
democracia e autonomia das organizações operárias frente aos partidos. Dessa
forma, contestava a simples aplicação do modelo de revolução bolchevique no
Ocidente, considerando-o uma experiência histórica e não uma fórmula (ibidem, p. 15-17). Enfim, tanto Lukács quanto Korsch
chamavam a atenção para questões fundamentais do marxismo, adotadas
posteriormente pelos frankfurtianos em sua teoria crítica. Feita esta breve introdução, passo a tratar especificamente de Teoria Tradicional e Teoria Crítica, de
Horkheimer, de 1937, tida quase como um manifesto daquela Escola, e de Dialética do Esclarecimento, de
Horkheimer e Adorno, publicado 10 anos depois. As duas obras expõem as bases da
teoria crítica, enquanto o debate entre Popper e Adorno corresponde, para
Freitag, por exemplo, à fase seguinte da teoria crítica (op. cit., p. 30). Para ela, em Teoria
Tradicional e Teoria Crítica, Horkheimer já estava preocupado em tematizar
“o profundo conflito existente entre dialética e positivismo” (idem, p. 37). Teoria Crítica e a
“nova” lógica das ciências sociais Esta subseção não tem o objetivo de resenhar essas duas
obras, nem sequer trazer à tona os diversos temas abordados em uma e outra, mas
ressaltar sobretudo as questões, ali tratadas, que se referem ao debate acerca
da lógica das ciências sociais. Ou seja, por um lado, caracterizar melhor a
teoria crítica e, por outro lado, possibilitar o contraponto com as teses, já
expostas, de Popper acerca do tema, o que vai ser feito mais adiante. Em primeiro lugar, cabe indagar em que sentido Horkheimer se opõe
à teoria tradicional. No sentido usual da pesquisa, teoria equivale a uma sinopse de
proposições de um campo especializado, ligadas de tal modo entre si que se
poderiam deduzir de algumas dessas teorias todas as demais. Quanto menor for o
número dos princípios mais elevados, em relação às conclusões, tanto mais
perfeita será a teoria. Sua validade real reside na consonância das proposições
deduzidas com os fatos ocorridos. Se, ao contrário, se evidenciam contradições
entre a experiência e a teoria, uma ou outra terá que ser revista. Ou a
observação falha, ou há algo discrepante nos princípios teóricos. Portanto, no
que concerne aos fatos, a teoria permanece sempre hipotética. [...] Esta é, em
linhas gerais, a representação atualmente difundida da essência da teoria (1983a, p. 117-118). Tal representação, para
Horkheimer, remonta ao início da filosofia moderna, inaugurada com Descartes, e
corresponde à teoria tradicional, segundo seu modelo. Seria, portanto,
necessário superá-la, papel que caberia, enfim, à teoria crítica. Esta, como já
se disse, estaria filiada a três correntes filosóficas alemãs, ou seja: a
kantiana, a hegeliana e a marxiana. Na primeira, estariam estabelecidos “os limites
do exercício da razão no conhecimento da natureza: a razão só pode legislar no
âmbito do espaço e do tempo; apenas os fenômenos são objetos da ciência; os
juízos na ciência pertencem a uma instância lógica – o entendimento, que
trabalha com a identidade dos objetos e com conceitos abstratos”. Na segunda,
há uma crítica a tal forma de pensamento, isto é, “ao princípio da identidade e
ao exercício formalizador do entendimento kantiano, considerando que as coisas
e os seres históricos e sociais não possuem uma identidade permanente, mas se
constituem por sua negação interna. [...] Ao afirmativo e positivo kantianos,
Hegel responde com a dialética, o
pensamento do negativo, da contradição que não separa sujeito e objeto,
natureza e cultura”. E, por fim, na terceira, a dialética é mantida, porém Marx
“a submete a uma transformação radical: no lugar do espírito está a Matéria, as
condições reais de produção do homo
economicus (Matos, op. cit., p.
20-22; grifos no original). E, continua Matos, apesar da adoção de tais bases,
em especial a marxiana, os frankfurtianos não levaram “ao pé da letra” a tese
de Marx de que “os filósofos já interpretaram o mundo; trata-se, agora, de
transformá-lo”, mas buscaram separar a reflexão e a formulação teóricas do
ativismo bem como dos riscos de ideologização da teoria crítica.
Particularmente, não estou bem certo se eles cumpriram suas promessas. Contudo,
sei que este é tema para outro debate. Aqui, no que nos interessa, é
necessário ainda demarcar os limites ou as diferenças entre as teorias
tradicional e crítica. Assim, é importante reproduzir dois trechos de Filosofia e Teoria Crítica, um pequeno
ensaio de Horkheimer, também de 1937, onde ele mais claramente apresenta uma
síntese delas. Em suas palavras: A teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a que se
encontra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza a experiência
da vida dentro da sociedade atual. Os sistemas das disciplinas contêm os
conhecimentos de tal forma que, sob circunstâncias dadas, são aplicáveis ao
maior número possível de ocasiões. A gênese social dos problemas, as situações
reais, nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos em sua aplicação,
são por ela mesma consideradas exteriores. [...] A teoria crítica da sociedade, ao contrário, tem como objeto os
homens como produtores de todas as suas formas históricas de vida. As situações
efetivas, nas quais a ciência se baseia, não é para ela uma coisa dada, cujo
único problema estaria na mera constatação e previsão segundo as leis da probabilidade.
O que é dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do homem sobre
ela. Os objetos e a espécie de percepção, a formulação de questões e o sentido
da resposta dão provas da atividade humana e do grau de seu poder (1983b, p. 155). Como se vê, nos anos 30, os
frankfurtianos – particularmente Horkheimer, mas não só ele – lançavam as bases
da teoria crítica, contrapondo tal idéia à de teoria tradicional. Na década
seguinte, eles se preocuparam em firmá-las. Para tanto, enfrentam a discussão
“em torno da razão e de sua funcionalidade no mundo moderno” (Freitag, op. cit., p. 37). Dessa época são as
obras Eclipse da Razão ou Crítica à Razão Instrumental – título
que faz alusão à obra mais conhecida de Kant – , que correspondem a uma coletânea de ensaios de Horkheimer, e a Dialética do Esclarecimento (ou Iluminismo, como aparece em algumas
traduções brasileiras), de Hokheimer e Adorno. Em Conceito de Iluminismo, de 1947, também escrito em parceria,
Horkheimer e Adorno procuram mostrar que o “desencantamento do mundo”,
prometido pelo Iluminismo, não ocorrera e, em vez da razão impulsionar a
autonomia do homem e propiciar a sua
mais ampla liberdade, este encontra-se mais reprimido e dominado. Desde sempre o Iluminismo, no sentido mais abrangente de um pensar
que faz progressos, perseguiu o objetivo de livrar os homens do medo e de fazer
deles senhores. Mas, completamente iluminada, a terra resplandece sob o signo
do infortúnio triunfal. O programa do Iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço.
Sua pretensão, a de dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio do
saber. [...] Mas, [...] o Iluminismo a serviço do presente [da ciência e
da técnica tal e qual ela se apresenta neste século] transforma-se no total
engano das massas (1983, p. 89 e 116).
Sem querer fazer apenas jogo de
palavras, pode-se ver que está manifestado, em tais palavras, um certo
“desencantamento” dos dois autores pelas promessas da razão iluminista. Para
Freitag (1986), por exemplo, isso ocorre porque [...] a razão [...] converte-se, na leitura de Horkheimer e
Adorno, em uma razão alienada que se desviou do seu objetivo emancipatório
original, transformando-se em seu contrário: a razão instrumental [substrato
comum da alienante ciência e técnica positivista], o controle totalitário da
natureza e a dominação incondicional dos homens (op. cit., p. 35). Assim sendo, conclui Freitag: A essência da dialética do esclarecimento consiste em mostrar como
a razão abrangente e humanística, posta a serviço da liberdade dos homens, se
atrofiou na razão instrumental (ibidem). Nesse sentido, não é à toa que Bronner (1997) refere-se à Dialética do Esclarecimento como um
marco do pensamento radical: Colocando o indivíduo no centro da análise dialética, empregando a
metáfora e rejeitando os critérios positivistas da verdade, Horkheimer e Adorno
avançaram uma perspectiva antropológica que revelou de que modo a dominação
instrumental da natureza alijara a liberdade do processo histórico ao mesmo
tempo em que ameaçava invadir o domínio do sujeito (op. cit., p. 105). Até aqui, procurei dar uma idéia
das principais obras de Horkheimer e Adorno e dos temas que o segundo retoma,
no debate com Popper, sobre o positivismo e a dialética. Antes de passar à
réplica de Adorno, cabe, ainda, uma ressalva. Acontece que não fiz referência à
Dialética Negativa, importante obra
de Adorno, publicada em 1966, posterior, portanto, ao debate em tela. Ocorre,
por um lado, que as idéias ali contidas foram expostas em obras anteriores (cf.
Nobre, 1998). Por outro lado, mais à frente farei referência – ainda que breve
– a um ensaio daquele autor, Introdução à
Controvérsia sobre Positivismo na Sociologia Alemã, de 1972, na qual o
autor retoma os temas ali contidos. Sigo, portanto, com a teoria crítica,
abordando o texto de Adorno. A réplica de
Adorno a Popper Inicialmente, é importante ressaltar que Adorno não seguiu
a mesma estrutura do texto de Popper para apresentar a teoria crítica e o
método dialético, segundo os frankfurtianos, conforme havia sido solicitado
pela organização do evento. Isso, parece-me, lança uma espécie de névoa sobre o
próprio debate, tanto quanto, possivelmente, dificulta uma síntese mais
detalhada e precisa daquela réplica. Com efeito, Adorno foi bastante seletivo e,
como bem aponta Freitag (op. cit., p.
46-47), concentrou-se em alguns conceitos para criticar ou contestar às teses
originais. Por essa razão, e visando facilitar esta exposição, procurei ler o
texto original de Adorno levando em consideração algumas das observações
oferecidas por Freitag, mas, principalmente, cotejar o que foi dito pelo autor
frankfurtiano com as teses de Popper. Adorno (1986, p. 46-61), logo no
início de sua exposição, procura demarcar a diferença entre sua compreensão e a
de Popper acerca do termo lógica,
contido no título do trabalho debatido. Para ele, aquele termo tem “uma
conotação mais ampla [que para Popper]; evoca mais os procedimentos concretos
da sociologia do que regras genéricas de pensamento, a disciplina dedutiva”. A
partir daí, referindo-se às principais teses de Popper, ele começa a
desenvolver seus argumentos em defesa da teoria crítica e da dialética,
contrapondo-as ao racionalismo crítico e à lógica formal de seu antecessor. Adorno parte, então, das duas
primeiras teses de Popper, que tratam, como expus, do conhecimento abundante e
do ilimitável não-conhecimento, com as quais Adorno concorda, embora as
considere insuficientes. Para ele, a superação do “não-conhecimento
passageiro”, a que se refere Popper, ou sua incorporação à esfera do
conhecimento não ocorre, “no progresso da ciência e da metodologia, [...] por
aquilo que, com um termo fatal e impróprio, denomina-se síntese. O objeto
contrapõe-se à unidade simplista e sistemática das frases interligadas”
(Adorno, op. cit., p. 47). Assim, ele
critica a rejeição da contradição, um das características da dialética, no
método da explicação sociológica, inclusive porque a sociedade, seu objeto, é
contraditório, apesar de determinável. Dessa forma, para ele, [...] o ideal de conhecimento de uma explicação unívoca,
simplificada ao máximo, matematicamente elegante, fracassa quando o próprio
objeto, a sociedade, não é unívoca nem simples, nem tampouco se sujeita de modo
neutro ao arbítrio da formação categorial, pois difere daquilo que o sistema de
categorias da lógica discursiva antecipadamente espera (idem). Por isso, os procedimentos da sociologia devem curva-se
ante o caráter contraditório da sociedade, caso contrário, “o empreendimento
das ciências sociais corre permanentemente o risco de, por amor à clareza e à
exatidão, passar ao largo daquilo que quer conhecer” (ibidem). Relativamente à “primazia de
problemas como tensão entre o saber e o não-saber”, Adorno, embora, a
princípio, também concorde com Popper, manifesta a necessidade de ir mais
longe. Para ele, por não ser unívoca, mas contraditória, “a sociedade é um
problema enfático”, que nos leva a uma “insuficiência de julgamento”
insuperável apesar da constante incorporação de conhecimento sobre ela. Da
mesma forma, a contradição não deixa de existir porque conhecemos mais ou
porque formulamos o problema de maneira mais clara ou, ainda, porque uma
solução proposta foi verificada ou refutada. Na verdade, a diferença reside no
fato de que, para Popper, “o problema é algo de caráter meramente
epistemológico”, enquanto para Adorno, “é também algo prático”. Por isso,
Adorno considera que separar os problemas reais dos imanentes seria fetichizar
a ciência (p. 48-49). Adorno faz igualmente algumas
ponderações acerca das teses de Popper onde ele estabelece a prioridade do
problema sobre as percepções e a observação. Trata-se de discutir acerca do
significado ou interesse que têm os problemas identificados pelo cientista e
para os quais devem-se buscar soluções. Para Popper, observa Adorno, a qualidade do desempenho científico-social está na exata
proporção da significação ou do interesse que tenham os seus problemas. Desse
modo, por trás disso tudo está, indubitavelmente, a consciência daquela
irrelevância, à qual inúmeras investigações sociológicas são condenadas por
obedecerem ao primado do método e não ao primado do objeto (p. 50). É certo, lembra Adorno, que Popper não se recusa a dar peso
ao objeto. Entretanto, novamente há que se “ponderar que sobre a relevância dos
assuntos nem sempre se pode emitir um julgamento a priori”. Da mesma forma, “a exigência de relevância do problema
não poderá ser dogmatizada;”, isto é, Adorno considera que a escolha do tema de pesquisa legitima-se amplamente pelo que o
sociólogo consegue depreender do objeto por ele escolhido, sem que isso sirva, de
resto, de pretexto para todos os inúmeros projetos simplesmente desenvolvidos
para a carreira acadêmica, nos quais a irrelevância do objeto combina
perfeitamente com a obtusidade das técnicas de pesquisa” (idem). Ainda neste tópico, ele aborda as características que
Popper considera que devem ser observadas para que se defina se os problemas de
pesquisa são relevantes ou significativos e se as investigações entabuladas
resultam em trabalho científico. Quanto à honestidade, Adorno ressalta que na
vida real, normalmente, se identifica tal qualidade no trabalho daquele que
pensa o que todos pensam, mas dificilmente daquele que dá primazia ao objeto.
Da mesma forma, ele trata da linearidade e da simplicidade, objetivos a serem
perseguidos pelos investigadores sociais. Adorno os considera questionáveis na
medida em que a própria sociedade é tão complexa e contraditória. Além do mais,
para ele, é necessário desvencilhar-se das barreiras criadas pelo senso comum.
Assim, diferentemente de Popper, Adorno entende que o arrojo e a peculiaridade
das soluções propostas, características já apontadas pelo primeiro, são mais
importantes. Em seguida, Adorno defende que
não só as soluções devem ser criticadas, mas, igualmente, os problemas, pois,
“enquanto categoria, também não deve ser hipostasiado”, isto é, substantivado.
Na prática, chama a atenção Adorno, “não raro têm-se soluções; ocorre-nos algo
e posteriormente formula-se o problema. Mas isso não é mera coincidência”.
Pois, continua, “as teorias do conhecimento [...] foram concebidas, mesmo pelos
empiricistas, de cima para baixo. Com freqüência não conseguiram fazer justiça
ao conhecimento adquirido efetivamente. Segundo um projeto de ciência que lhe é
externo, ele foi ajustado como contínuo indutivo e dedutivo” (p. 51). Ele
procura mostrar, então, como a teoria do conhecimento deve enfrentar tal
questão: “entre as novas tarefas da teoria do conhecimento [...] está a
reflexão a respeito de como se processa o conhecimento, ao invés de se
descrever de antemão o desempenho de conhecimento segundo um modelo lógico ou
científico, o qual, na realidade, não corresponde ao conhecimento produtivo” (idem).
Assim sendo, como bem nos lembra
Freitag (op. cit., p. 46-47), Adorno
contesta que o método – que, no caso de Popper, significaria as regras da
lógica formal e situacional – tenha papel predominante no processo de aquisição
de conhecimento. E vai mais longe ao observar que não é a adoção de tal método
que garante objetividade e neutralidade à empreitada do cientista em busca da
verdade científica. No mesmo sentido, embora concorde com Popper sobre o papel
da crítica, sua idéia de tal conceito não é, para ele, formal, assim como o é
para o racionalismo crítico, mas material, e mesmo existencial. De fato,
concorda Adorno, o “conhecimento sociológico é crítica” (Adorno, op. cit., p. 51). [Contudo], a sociologia concebida como dialética e crítica não
pode deixar de guiar-se pela perspectiva do todo, ainda quando estuda um objeto
particular, vendo esse todo não como sistema estabelecido, mas como produto
histórico do passado e como aspiração de realização no futuro. A sociologia
crítica não se reduz a uma autocrítica interna da disciplina, ela estende a sua
crítica ao próprio objeto de análise: à sociedade contemporânea e também às
hipóteses, conceitos e teorias desenvolvidas para representá-la, analisá-la. A
crítica passa a ser o elemento que
permeia todo o processo de conhecimento (Freitag, op. cit., p. 47). Por último, cabe ressaltar ainda,
Adorno não concorda com a aproximação – ou mesmo equiparação – que Popper faz
entre crítica e o princípio da refutação. Para ele, “a refutação é fértil
apenas como crítica imanente”, pois, se é verdade que “a crítica de forma alguma
pode ser separada da solução”, elas são, via de regra, primárias, imediatas e
apenas suscitam a crítica, pela qual
são transmitidas à continuidade do processo de conhecimento; sobretudo,
a figura da crítica pode, inversamente, implicar a solução, caso tenha logrado
a boa forma; quase nunca ela surge de fora”. Assim, para Adorno, o próprio
pensamento especulativo faz parte do processo de conhecimento e, portanto, não
significaria não-saber social (Adorno, op.
cit., p. 52-53). À GUISA DE CONCLUSÃO: AS TRÉPLICAS DE POPPER E ADORNO Popper e seu racionalismo crítico suscitaram muitos
debates. E continuam suscitando. Aquele, travado com os frankfurtianos, foi
apenas um deles. Carvalho (1994), por exemplo, analisa a polêmica entre Popper
e Thomas Kuhn. Esse mesmo debate é retomado em Worral, (1995, p. 91-123). Há
que se lembrar também aqueles travados com os empiricistas lógicos de Viena,
que Popper (1978b) tanto faz questão
de ressaltar. Quanto à teoria crítica e à dialética frankfurtiana, em especial
na versão formulada por Horkheimer e Adorno, basta lembrar que, há alguns anos,
o jornal Folha de São Paulo elaborou
uma lista com as 10 obras mais importantes deste século na área das ciências
sociais, a partir de indicação de 10 dos principais intelectuais brasileiros, e
lá incluiu a Dialética do Esclarecimento,
dos dois autores, em segundo lugar, entre dois clássicos de outro alemão, Max
Weber, respectivamente A Ética
protestante e o Espírito do Capitalismo e Economia e Sociedade. Aqui, tendo escolhido abordar o
debate enter Popper e Adorno, pude, assim, retomar uma perspectiva teórica e
metodológica bastante discutida na primeira metade do século XX e abordar uma
outra bem distinta, que tanto marcou o pós-Segunda Guerra Mundial, de tal forma
a possibilitar um contraponto. É o que espero ter feito. Contudo, como já havia
antecipado, o debate entre tais perspectivas apenas começou em 1961, como se
observa nas tréplicas oferecidas por Adorno e Popper e nos comentários de
outros autores. É interessante observar que
Popper e Adorno, nas suas respectivas tréplicas, referem-se a um comentário de
Raph Dahrendorf, que teria ficado surpreso com a relativa concordância entre
aqueles autores, e ambos buscam contestá-lo. Por um lado, Popper justifica-se
afirmando que não tinha razão para atacar a Escola de Frankfurt já que deveria
falar acerca da lógica das ciências sociais. No entanto, isso não o impede de
concluir, na ocasião dessa tréplica, que podia ter utilizado os argumentos
expostos em obras anteriores, em particular contra os hegelianos e os
marxistas, para demarcar suas divergências com a Escola de Frankfurt. Popper
considera, ainda, que Dahrendorf nutria esperanças de que as diferenças
políticas e ideológicas, inclusive em torno das concepções sociológicas,
viessem à tona. Daí, sua frustração (Popper, 1978b, p. 35- 39). Por outro lado, Adorno entende
que ambos procuraram “tornar teoricamente comensuráveis as posições”, mas
também que a discussão ficou no campo da ciência em geral e houve pouca
articulação dessa com a sociologia. Contudo, Adorno considera que o que mais
concorreu para a “aparente” concordância entre os dois pode ser resumido na
“tese da prioridade” da lógica formal sobre qualquer outra, recurso, segundo
Adorno, decerto positivista: “para ser possível, ela [a discussão] precisa
proceder conforme a lógica formal”. Assim, para ele, se um debate, impreterível como o presente, fosse conduzido a
respeito de visões de mundo, partindo de pontos de vista extremamente opostos,
seria infrutífero a priori; mas,
passando à argumentação, sofre a ameaça de serem reconhecidas sem discussão as
regras do jogo de uma das posições, que não perfazem por último o objeto de
discussão (Adorno, 1983, p. 209-210). Ainda acerca da participação dos frankfurtianos no debate,
Adorno reclama que “os positivistas precisam fazer o sacrifício de abandonar a
posição denominada por Habermas de ‘não-estou-entendendo’; não desqualificar
simplesmente como ininteligível tudo o que não é concorde com categorias como
os seus ‘critérios de sentido’ ” (idem,
p. 211). Embora Adorno pareça ter razão, lembro que um comentarista de sua
obra, mais virulento, disse a respeito de um de seus livros que os trechos mais
claros, ali contidos, são as citações que Adorno faz de Hegel, quando este,
como se sabe, é considerado um autor quase impenetrável (cf. Cohn, 1983, p.
7-8). De minha parte, devo confessar que, dos textos aqui utilizados, a
tréplica de Adorno é, sem dúvida, o
mais “pesado”. Mas é nele que Adorno procura reafirmar seus pontos de vista
opondo-se, principalmente, aos argumentos de Hans Albert, debatedor que se
posicionou a favor de Popper, também para contestar o que ele chama de
“positivismo popperiano”, “mais ágil que o positivismo atual”, e defender a
validade do debate acerca da controvérsia sobre o positivismo na sociologia
alemã, então questionada. Para ele, portanto, a despeito do que dizem aqueles
que não vêem progresso ou sentido na continuidade do debate, “um prosseguimento
da controvérsia teria por tarefa tornar [claros] aqueles antagonismos básicos,
de maneira alguma já inteiramente articulados”, pois tais antagonismos não constituem divergências de visão de mundo. Têm seu lugar nas
questões da lógica e da teoria do conhecimento, concernentes à concepção de
contradição e não-contradição, essência e fenômeno, observação e interpretação.
[Assim sendo,] a dialética se comporta de modo intransigente durante a disputa,
porque acredita continuar pensando ali onde seus opositores se detêm, frente à
não questionada autoridade do empreendimento científico (Adorno, 1983a, p. 257). Por sua vez, Popper se queixa
principalmente quanto ao fato de os frankfurtianos qualificá-lo de positivista. E embora ele credite a
Habermas a associação de seu nome ao positivismo (cf. Habermas, 1983), penso
que, desde o início do debate, ainda na réplica de Adorno, era evidente tal
intenção. Não só porque a associação já fora feita antes, como ele mesmo
reconhece, mas também porque, para os frankfurtianos, o debate significava
atacar o racionalismo crítico de Popper como herdeiro das tradições
positivistas e, em particular, dos vienenses, apesar das propaladas diferenças
entre ambos. Mas, segundo, Popper, todo o esforço dos frankfurtianos resultou apenas na associação de seu nome ao
positivismo, mas suas teses não foram (sequer uma) contestadas por eles. E
Popper acrescenta que “a principal conseqüência do livro [publicado com o
conteúdo do debate] ficou sendo a acusação de Adorno e Habermas de que um
‘positivista’ do tipo de Popper está obrigado por sua metodologia a defender o
‘status quo’ político” (Popper, 1978b, p.
38). Para se livrar de tal “acusação”, Popper, expõe sua idéia em torno dos
papéis da teoria e da epistemologia nas ciências sociais do ponto de vista do
racionalismo crítico, muitas vezes denominada de incrementalismo (político),
que contribuiu para desenhar seu perfil ideológico – o de um liberal. “E é fato
que minha ‘teoria social’ (que preconiza uma reforma gradual e setorial,
controlada por uma comparação crítica entre os resultados esperados e os
obtidos) contrasta fortemente com a minha ‘teoria do método’, que procura ser
uma teoria das revoluções científicas e intelectuais” (op. cit., p. 39). Ou seja: Faz parte da minha epistemologia que, no homem, através da
evolução de uma linguagem descritiva e argumentativa, tudo isto [as mutações
errôneas, segundo a evolução darwiniana] modificou-se radicalmente. [...] Desta
forma, [...] nós chegamos a uma nova possibilidade fundamental: nossas
escolhas, nossas hipóteses experimentais, podem ser eliminadas criticamente
pela discussão racional, sem eliminação a nós mesmos. Este é, de fato, o
propósito da discussão racional crítica. O ‘suporte’ de uma hipótese exerce uma
importante função nestas discussões; ele tem de defender a hipótese contra críticas
erradas, pode talvez tentar modificá-la, se sua forma original não puder ser
sustentada com êxito (ibidem). Popper conclui tais argumentos
defendendo que a adoção do racionalismo crítico é a única forma de tornar a
violência obsoleta, sendo, portanto, o papel dos cientistas o de fazer com que
isso ocorra. Para tanto, é necessário usar “uma linguagem clara e simples” (ibidem), sobretudo porque “os padrões de
verdade e do racionalismo crítico [...] dependem de clareza” (idem, p. 41). Aqui, creio, reside uma
crítica não explícita à maneira, por assim dizer, descritiva do método
dialético da teoria crítica. Em seguida, Popper discute
novamente a questão da objetividade nas ciências para (re)afirmar que a
objetividade não se encontra no cientista, mas “no caráter público e
competitivo da empresa científica e, isso, em certos aspectos sociais dela”, ou
seja, “num ‘criticismo racional mútuo’, numa abordagem crítica, numa tradição
crítica” (p. 40). Tal posição não deixa de ser semelhante à dos frankfurtianos.
No entanto, há, parece-me – e assim desconfia Popper – enormes diferenças
quanto ao significado que Popper e a Escola de Frankfurt atribuem ao termo
crítica, como já pude, aliás, ressaltar na seção anterior. A essa altura, e antes de
concluir, Popper passa a referir-se à contribuição de Habermas ao debate
esclarecendo que “a maior parte do que ele diz parece-me trivial; o resto
parece-me errado” (Popper, 1978b, p.
46). Como Popper identifica, a discussão gira em torno do “princípio da
identidade entre teoria e prática” – cf. Habermas (1983), onde ele usa os
termos experiências, práxis,
história, relacionando-os à ciência e à teoria. Creio que o desejo de Habermas,
naquele texto, é questionar a capacidade do método do racionalismo crítico, em
particular, e o positivismo, em geral, de teorizar acerca da sociedade por não
a compreenderem “como totalidade, integrada no espírito dialético” (Habermas, op. cit., p. 277). Evidentemente, Popper
contesta a tese da primazia da teoria crítica frankfurtiana, em especial a
dialética e suas implicações práticas e revolucionárias, sobre o racionalismo e
o seu incrementalismo ou gradualismo reformador. Tal contestação tem, é claro,
implicações de ordem prática e política, mas também, assim penso, de natureza
epistemológica, pois, o que Popper parece querer dizer, enfim, é que não há
superioridade de uma sobre a outra no sentido de interpretar, compreender e
explicar a sociedade. Enfim, volto a um aspecto já
mencionado em que Popper declara não ser positivista. Para ele, ser chamado de
positivista “é um equívoco antigo, criado e perpetuado por aqueles que conhecem
a minha obra somente de segunda mão [...]”. Tal “equívoco” foi criado, segundo
Popper (1978b), pela tolerância de alguns membros do Círculo de Viena que chegaram
a publicar suas críticas ao positivismo lógico. Como ele mesmo afirma, é
necessário uma última palavra a propósito do termo ‘positivismo’. Eu não
nego, decerto, a possibilidade de estender o termo ‘positivista’ até que ele
abranja todos os que tenham algum interesse pelas ciências naturais, de forma
que venha a ser aplicado até aos adversários do positivismo, como eu próprio.
Sustento apenas que tal procedimento não é nem honesto nem apto a esclarecer o
assunto. [...] Eu sempre lutei contra a estreiteza das teorias ‘cientificistas’
do conhecimento e, especialmente, contra todas as formas de empirismo
sensualista. Eu lutei contra a imitação das ciências naturais pelas ciências
sociais e pelo ponto de vista de que a epistemologia positivista é inadequada até
mesmo em sua análise das ciências naturais as quais, de fato, não são
‘generalizações cuidadosas da observação’, como se crê usualmente, mas são
essencialmente especulativas e ousadas [...] (op. cit., p. 47-48). O debate em torno dos argumentos de Popper e de Adorno já
faz parte da história da filosofia da ciência do século XX. Mas, certamente, as
tradições que eles representam continuam se confrontando, embora não tenham
mais as cores originais, em função da morte prematura de Adorno, em 1969 – apesar
do papel cumprido por Habermas depois disso e até a morte de Popper, em 1994.
Com o passar dos anos, o que parece ter mudado são os artífices do debate, que
têm se esmerado em formular novas versões da lógica formal cartesiana e da
dialética hegeliana ou marxiana, pontos de partida de dois caminhos que, embora
eventualmente se toquem, não se cruzam. BIBLIOGRAFIA Adorno, T. W.
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(1997). “ ‘Revolução Permanente’: Popper e a Mudança de Teorias na Ciência”, in Anthony O’Hear (org). Karl Popper: Filosofia e Problemas. São
Paulo: Editora da UNESP, p. 91- 123. * Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (tulio@fundaj.gov.br). Agradeço a Cynthia Hamlin, pelos comentários e sugestões oferecidos, e a Anatailde Crêspo, pela leitura criteriosa, que contribuíram para minimiz os problemas do texto. Embora pareça desnecessário, ressalto que a responsabilidade pelos deslizes que permaneceram é unicamente de seu autor. [1] Os dois primeiros textos, a conferência de Popper e os comentários de Adorno, foram publicados originalmente em 1962, ano seguinte à realização do debate. Já o segundo de Adorno é de 1969, enquanto o de Popper é de 1970. Finalmente, o texto de Habermas é de 1969. Tais datas correspondem às primeiras edições em alemão. Aqui, como se indica acima, foram utilizadas as edições brasileiras, devidamente identificadas. [2] As citações identificadas por: “Vida e Obra” in Schlick-Carnap, 1983, p. (algaritmo romano), foram extraídas da seção introdutória do volume dedicado àqueles autores na coleção Os Pensadores, de 1983, editado pela Abril Cultural. Contudo, as citações de obras dos referidos autores, reproduzidas na coletânea e aqui utilizadas, são feitas segundo as normais usuais, isto é, identificam-se o autor, a data da publicação e a(s) página(s), o que permite a devida identificação da referência na bibliografia apresentada no final deste artigo. [3] Com relação às citações indicadas por “Vida e Obra”, aplica-se aqui o mesmo critério exposto na nota 2 deste artigo. |