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TRABALHOS PARA DISCUSSÃO n. 104/2001 Março • 2001 |
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CELSO FURTADO E O MITO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
Clóvis Cavalcanti* |
Introdução
Entre
os economistas de língua portuguesa, até hoje, penso que Celso Furtado seja,
sem dúvida, o que mais tem se detido, e em profundidade, nas noções relativas
ao desenvolvimento econômico, incluindo uma elaborada reflexão sobre o
subdesenvolvimento – a exemplo do que faz em Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (1961), livro que se amplia em
volume posterior, Teoria e Política do
Desenvolvimento Econômico (1967). Como calouro de ciências econômicas no
Recife, em plena efervescência do ano de 1960, quando Furtado iniciava sua
trajetória de superintendente da Sudene, fui naturalmente levado a dispensar
atenção especial ao que fazia esse ícone da profissão, seja em seu papel de
dirigente de uma agência de planejamento do desenvolvimento regional, seja em
sua qualidade de mestre da economia, com obras publicadas já então do porte de A Economia Brasileira (1954) e, mais
ainda, do clássico Formação Econômica do
Brasil (1959). Comecei minha vida de economista, pois, lendo Celso Furtado
– e também ouvindo-o, pois comparecia sempre às reuniões do Conselho
Deliberativo da Sudene, a que assistia com enorme interesse e curiosidade
intelectual. Nesses encontros, Furtado pontificava, dando verdadeiras aulas e
travando interessantes diálogos não só com governadores como Cid Sampaio (de
Pernambuco), Aluísio Alves (do Rio Grande do Norte), Juracy Magalhães (da
Bahia), mas ainda com outro exponente do pensamento social brasileiro, Gilberto
Freyre, que representava o Ministério da Educação e Cultura no colegiado da
Sudene. Mais tarde, no ano acadêmico de 1964-1965, quando eu fazia o mestrado
em economia na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, tive o privilégio de
conviver de perto com Furtado, que, como exilado – situação, na verdade, que o
constrangia –, se desempenhava na posição de professor visitante do Centro de
Crescimento Econômico daquela egrégia instituição acadêmica. No
restante deste artigo pretendo oferecer minha visão de uma contribuição de
Celso Furtado que considero das mais importantes à reflexão substantiva sobre os
problemas de uma sociedade que se empenha para sair do atraso econômico e da
pobreza. Trata-se da idéia que ele expõe corajosamente em seu livro O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974),
inequivocamente expressa no título da obra – que passarei doravante, para
economizar espaço, a chamar de Mito –,
do caráter de fábula da proposta convencional de promoção do desenvolvimento.
Começo, na seção seguinte, mostrando de que maneira Furtado percebe o
subdesenvolvimento, continuando, nas três seções subseqüentes, com sua idéia do
mito propriamente, com o problema dos impactos econômicos no meio físico e uma
avaliação final do livro, na qual se ressaltam as dimensões culturais do
desenvolvimento. O Subdesenvolvimento
O
que impressiona em Celso Furtado é sua forma original de perscrutar as noções
relacionadas com o processo de desenvolvimento, procurando entender, com base
em método histórico-estruturalista, a gênese da formação do subdesenvolvimento.
Nesse sentido, é importante reconhecer o fato de que Furtado oferece uma
contribuição intelectual singular à análise do fenômeno do progresso,
detendo-se não só nos seus aspectos econômicos, mas também nos sociais,
culturais e políticos. Sua visão é, com efeito, mais interdisciplinar do que a
prática entre economistas, como reconhece seu colega de profissão Werner Baer
(1974) – quem também registra uma simpatia pessoal (Baer, 1969) com respeito à
avaliação de Furtado acerca da inadequação das ferramentas da teoria econômica
para a abordagem dos problemas do desenvolvimento[1].
Furtado, pode-se dizer, é aquilo que Gilberto Freyre chamaria de um
“mais-que-economista”, e disso dá mostras em seu estudo ao longo de quase
cinqüenta anos acerca da problemática do desenvolvimento, no que é devedor,
como ele próprio reconhece (Mito:
13), do aprendizado que teve com Raúl Prebish, com quem trabalhou na Cepal, no
Chile, e “cujas idéias sobre as relações Centro-Periferia constituem o ponto de
partida de muitas hipóteses ... esboçadas” no livro que estou aqui comentando.
Furtado (1961:14) classifica-se como “economista de país subdesenvolvido”,
acentuando que é dessa perspectiva que fala. Talvez por isso seu discurso não
contenha nenhum triunfalismo e deságüe naquilo que é a nêmesis do economista
bem comportado, ou seja, a constatação de que o desenvolvimento não passa de
simples fábula. Esta é a percepção central – expressa inequivocamente no seu
título – do livro em exame, muito embora Furtado ainda defenda ali a noção, de
caráter otimista (Mito: 73), com a
qual estou de acordo, de que os rumos do que o homem está fazendo constituem
algo dentro da “capacidade de controle” da espécie humana e, portanto, em
condições de redirecionamento para futuros saudáveis. A
despeito de sua roupagem pouco ortodoxa, a análise de Furtado encontra respaldo
na economia clássica, que ele emprega e de que procede a disciplina
metodológica (“sem a qual logo se descamba para o dogmatismo”[2])
de seu raciocínio; ela repousa ainda, claramente, na visão marxista da
história, que Furtado utiliza em vários de seus raciocínios, e na macroeconomia
de Keynes (ver Gaudêncio e Formiga, 1995: 137). Furtado vale-se, de igual modo,
como já se registrou, dos ensinamentos de Prebish e do enfoque do grupo de que,
com este último, participou na Comissão Econômica para a América Latina
(Cepal), a chamada “escola estruturalista”, um dos movimentos mais criativos do
pensamento econômico periférico, com seu enfoque estrutural dos problemas
econômicos. Para chegar até esse patamar de sua reflexão, Furtado procurou
aproximar – originalidade sua – a análise econômica do método histórico, numa
tentativa de compreensão de problemas similares enfrentados por economias
atrasadas em contextos históricos e nacionais diversos, mas com especificações
próprias de cada estrutura. Essa perspectiva constituía, além da novidade que
encerra, uma forma de procurar saídas para os desafios do desenvolvimento nos
países periféricos, desafio esse que Furtado sintetiza na necessidade de
“explicar, numa perspectiva macroeconômica, as causas e o mecanismo do aumento
persistente da produtividade do fator trabalho e suas repercussões na
organização da produção e na forma como se distribui e utiliza o produto
social” (Furtado, 1961: 19). O núcleo da tese de Furtado, nesse marco, é o da nítida dimensão histórica do fenômeno do
desenvolvimento econômico, junto com a necessidade de uma teoria sobre tal
fenômeno justificada pelo conhecimento da
realidade – e não por uma formulação abstrata geral – e pela capacidade de
se atuar sobre essa realidade. Dentro de tal perspectiva situa-se sua afirmação
de que “[o] subdesenvolvimento é ... um processo histórico autônomo, e não uma
etapa pela qual tenham, necessariamente, passado as economias que já alcançaram
grau superior de desenvolvimento” (Furtado, 1961: 180). Isso eqüivale a dizer
que o subdesenvolvimento não é uma fase inevitável do processo de formação das
economias capitalistas (Furtado, 1961: 191), constituindo, antes, na realidade,
uma “deformação” (Mito: 21). Cabe
então perguntar – e discuti-lo é um propósito de Furtado – que opções se
apresentam aos países que a sofreram, “em face das presentes tendências do
sistema capitalista”. Um
elemento importante do arcabouço que Furtado elabora no livro Mito são os desdobramentos culturais da
tentativa convencional ou da receita típica para a superação do
subdesenvolvimento. Tal tentativa ou receita daria origem a um “mimetismo
cultural” (Mito: 45) das minorias
beneficiárias do “capitalismo periférico”, as quais procurariam “reproduzir as
formas de consumo dos países cêntricos” (ib.),
requerendo, para tanto, permanente concentração de renda. Nas origens
históricas do subdesenvolvimento – como processo concomitante, na periferia, ao
crescimento econômico dos países do centro – se encontraria, assim, uma
“dependência cultural que está na base do processo de reprodução das estruturas
sociais correspondentes” (Mito: 80).
O ponto de partida do subdesenvolvimento seriam “os aumentos de produtividade
do trabalho engendrados pela simples realocação de recursos visando a obter
vantagens comparativas estáticas no comércio internacional ..., sem
modificações maiores nas técnicas de produção” (Mito: 78). A geração de um excedente permitiria sua utilização para
a adoção de cópias de padrões de consumo dos países ricos nos países pobres, o
que seria permitido apenas a uma elite, exatamente a classe que se apropria do
mesmo excedente. Resultado de uma conexão, surgida em certas condições
históricas, entre um processo interno concentrador e um processo externo de
dependência, o subdesenvolvimento constituiria uma projeção da miniaturização,
nos países periféricos, de sistemas industriais de países do centro, com alto
grau de acumulação, acompanhada da diversificação das pautas de consumo de sua
minoria privilegiada. Este traço, com a dimensão cultural da cópia de modelos
de consumo, produziria uma situação de convivência de formas heterogêneas de
vida, com, de um lado, grupos sociais afluentes (onde a cópia dos novos modelos
de consumo se efetiva) e, de outro, grupos sociais submetidos a níveis mínimos
de subsistência, excluídos do consumo moderno. O
Desenvolvimento como Mito
Em
toda sua obra – e não apenas no livro Mito
–, Furtado repassa constantemente conceitos como o de dependência,
concentração de renda, mimetismo cultural, relações assimétrias
centro-periferia, mercado interno e outros mais, além de trabalhar uma visão
estruturalista do subdesenvolvimento, do desenvolvimento e fenômenos
correlatos. Entretanto, é no volume de O
Mito do Desenvolvimento Econômico que ele levanta duas questões que são
mais específicas dessa obra. A primeira delas diz respeito aos impactos do
processo econômico no meio físico, na natureza – um tema completamente alheio
ao núcleo do pensamento tradicional na economia[3].
A segunda se refere à constatação do caráter de mito moderno do desenvolvimento econômico. Trata-se, ambas, de
avaliações inusitadas, sobretudo se se têm em conta seus respectivos contextos
históricos. Quando o livro foi publicado, com efeito, em 1974, era muito
incipiente a discussão dentro da ciência econômica acerca das dimensões
ecológicas do processo econômico. Praticamente, inexistia o campo que hoje já
tomou maior consistência, da economia ambiental[4],
e muito menos o da economia ecológica[5].
A propósito, em 1975, ministrei na graduação de ciências econômicas da
Universidade Federal de Pernambuco a disciplina de economia ambiental
(optativa, para alunos do último ano), uma das primeiras vezes, se não a
primeira, em que tal curso foi oferecido no currículo de formação de
economistas no Brasil. Pois bem, nessa ocasião, fiz um levantamento da
bibliografia existente a respeito, e nada encontrei de sistemático sobre o
assunto. Já tendo lido o livro Mito,
que adquiri em agosto de 1974, contava com pequeno respaldo em Celso Furtado,
mas não o suficiente para dar um curso na graduação de economia sobre problemas
do meio ambiente. A importância que Furtado atribuía ao assunto, não obstante,
considerando as relações viscerais que existem entre economia e ecologia,
assinalava uma originalidade que não pode ser esquecida. Mais surpreendente,
porém, era a tese do mesmo livro – e aqui considero a segunda questão que lhe é
específica – definindo o desenvolvimento como um mito, haja vista que o Brasil, na ocasião, experimentava os anos do
chamado “milagre”, com taxas de crescimento do produto interno bruto real, por
ano, que haviam sido de 10,4% em 1970, 11,3% em 1971, 12,1% em 1972 e 14,0% em
1973, atingindo em 1974, ano de
publicação da obra, 9,0%[6].
Dentro desse panorama, em face de crescimento econômico tão espetacular, era
preciso presciência, visão consistente da realidade e, com mais razão, coragem
para afirmar com todas as letras que tudo aquilo não passava de miragem. A
noção atual de desenvolvimento sustentável representa uma vindicação do
pensamento de Furtado: não é qualquer taxa de crescimento da economia que pode
ser perseguida; há que pensar-se antes naquilo que é (ecologicamente)
sustentável, ou seja, possível, durável, realizável. Mas isto é o que se
percebe hoje, depois da Rio-92 e do chamado Relatório Brundtland (WCED, 1987).
Em pleno milagre e para aqueles que nele criam – vale dizer, quase todo mundo
que tinha interesse no assunto –, a posição de Furtado não passava de grande
heresia. O
pensamento de Furtado, tal como, em sua essência, se estruturou nos anos
sessenta – e se projeta na década seguinte –, na verdade, tende a ser
sucessivamente confirmado pelos fatos do mundo atual. Basta ver o que ele dizia
com relação à concentração de renda, que seria um requisito do capitalismo
periférico e seu mimetismo cultural (pelas minorias afluentes) para que as
formas de consumo dos países do centro possam ser reproduzidas em seu perfil
característico no âmbito dos países da periferia. Para Furtado, a observação do
quadro dos anos sessenta e setenta levava à conclusão de que “o processo de
acumulação tende a ampliar o fosso entre um centro, em crescente
homogeneização, e uma constelação de economias periféricas [nas quais se
denota] um distanciamento das formas de vida de uma minoria privilegiada com
respeito à massa da população” (Mito:
68-69). Não é outra coisa o que o informe do Banco Mundial (1999) de 1999/2000
constata, de forma nítida, no tocante à renda por pessoa entre os países ricos
e os pobres (e também no âmbito interno, em geral, de quase todos os países),
referendando dados do Pnud (1998) no seu Relatório
do Desenvolvimento Humano. Aliás, até mesmo em campos como o da conexão
pela Internet, o fosso de que fala Furtado tem tendido a crescer, haja vista o
número de The Economist (19 de
agosto-25 de setembro de 2000), cuja matéria de capa tem como título “What the
Internet Cannot Do” (“O que a Internet não pode fazer”). A
expectativa de Furtado em 1974, no Mito,
era de que não haveria como se generalizarem os padrões de consumo dos ricos em
escala planetária, em virtude da exclusão que o processo de desenvolvimento,
tal como se tem verificado, tende a promover, agravada pelo maior ritmo de
expansão demográfica dos excluídos. Essa expansão, a despeito de um aumento
relativo do número de privilegiados nos países periféricos, levaria a que se
aprofunde o fosso entre tal grupo, cujas rendas têm crescido substancialmente
em toda parte, e os grupos subalternos, cuja pobreza não dá sinais sensíveis de
redução (especialmente na América Latina, o Brasil aí incluído). Essa é uma
visão de hoje, vislumbrada por Furtado há mais de trinta anos, que, no Mito (p. 74), demandava que “a nova
orientação do desenvolvimento teria que ser num sentido muito mais igualitário,
... reduzindo o desperdício provocado pela extrema diversificação dos atuais
padrões de consumo privado dos grupos privilegiados”. A alusão ao desperdício
relacionado ao consumo dos afluentes é um elemento novo na reflexão de Furtado,
vinculando-se a sua percepção, suscitada pelo relatório do Clube de Roma, de
1972, “Limites ao Crescimento”[7],
de que tal estilo de vida tem um custo de tal forma elevado, “em termos de
depredação do mundo físico, ... que toda tentativa de generalizá-lo levaria
inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização” (Mito: 75). Além disso, a forma excludente de um consumo que é cópia
do padrão dos países afortunados, tornado possível por aumentos de
produtividade revertidos para uma minoria, explicaria o agravamento das
desigualdades sociais como função do próprio avanço na acumulação (Mito: 82). A isso se somaria, pela busca
de implantação, nos países pobres, de um sistema industrial similar ao dos
países do centro, “uma profunda descontinuidade causada pela coexistência de
dois níveis tecnológicos” (Mito: 88),
problema que não estava presente na fase anterior à substituição de
importações, porque a diversificação do consumo da minoria modernizada, então,
podia ser financiada com o excedente gerado pelas vantagens comparativas do
comércio exterior (ib.). Dessa
maneira, opina Furtado, pelo aumento da taxa de exploração, ou seja, pelo
agravamento da concentração de renda, taxas mais altas de crescimento do
produto, “longe de reduzir o subdesenvolvimento, tendem a agravá-lo” (Mito: 94). Ter-se-ia, dessa maneira, uma
situação em que, a custos ecológicos crescentes, se adicionariam elevados
custos sociais, conduzindo à conclusão de que, como aqueles e estes custos são
omitidos do cálculo do PIB e da renda nacional, os dados atualmente utilizados
para expor o comportamento da economia brasileira seriam totalmente
inadequados, embora sirvam de instrumento para “as estruturas de dominação que
sustentam a estratégia globalizadora” (Furtado, 1998: 81). É
aqui que se consubstancia a idéia do desenvolvimento como um mito, um fantasia,
como algo inalcançável no arcabouço de um sistema que destrói recursos
naturais, agrava disparidades de renda e tende ainda a produzir uma
homogeneização cultural danosa. Para caracterizar essa visão, Furtado lembra o
papel que os mitos têm exercido, influenciando “a mente dos homens que se
empenham em compreender a realidade social” (Mito: 15), caso de Rousseau e o “bon sauvage”, de Marx e o desaparecimento do Estado, de Malthus e o
“princípio populacional”, de Walras e o equilíbrio geral – todos esses
enunciados tendo apoio em algum postulado enraizado num sistema de valores que
raramente é explicitado. O pesquisador Gilbert Rist (1990: 11), a propósito de
mitos, esclarece: “o mito é compartilhado por todos, não é
nunca desafiado, e é um plano de ação pronto, disponível em quaisquer
circunstâncias; por implicação, o mito é também histórico, resultado de uma
criação coletiva a que a sociedade, não conscientemente, dá forma. Finalmente,
o mito como tal não se relativiza: trata-se de um estereótipo não falado, que
determina comportamentos a todo momento, expressando-se a si próprio através de
costumes e hábitos que contribuem para reforçá-lo, podendo ser descoberto
apenas por um observador externo. O mito é um mapa para a ação que dispensa
reflexões. É suficiente que ele seja uma crença compartilhada. Nós agimos como
agimos porque não conseguimos imaginar-nos atuando de outra forma. A primeira
causa não tem causa.” Em
termos do desenvolvimento, segundo Furtado, o papel diretor do mito poderia ser
percebido no fato de que a literatura sobre o tema, até começos da década de
setenta, em pelo menos noventa por cento dos casos, “se funda na idéia, que se
dá por evidente, segundo a qual o desenvolvimento
econômico, tal qual vem sendo praticado pelos países que lideraram a
revolução industrial, pode ser universalizado” (Mito: 16). Esse seria o “mito do progresso da revolução burguesa”,
responsável pela formação da sociedade industrial moderna e possuidor da força
contida na concepção de Rist ou ainda no que Schumpeter (1954) chamava de
“visão pré-analítica”. Furtado (Mito:
15), com efeito, invoca Schumpeter para salientar que a visão pré-analítica é
indispensável para que o trabalho de análise possa ter sentido. A esse
respeito, convém reparar no que o próprio mestre austríaco tem a sublinhar. Em
suas palavras, Schumpeter (1954: 41) afirma: “Obviamente, a fim de podermos colocar para
nós próprios qualquer que seja o problema, devemos primeiro visualizar um
conjunto distinto de fenômenos coerentes como objeto válido de nosso esforço
analítico. Em outras palavras, o esforço analítico, por necessidade, se faz
preceder de um ato cognitivo pré-analítico que fornece a matéria-prima de nosso
esforço analítico.” No
caso do desenvolvimento, poder-se-ia dizer que a visão pré-analítica que o embasa
é a crença de que o desenvolvimento, que as nações que saíram na frente na
Revolução Industrial têm experimentado, pode ser transposto para toda e
qualquer outra nação, tornando-se assim um valor desejável em si próprio. Os
economistas, via de regra, pensam como tal e levam a que outras categorias
sociais assimilem sua visão, sem que haja qualquer suspeita de que se possa
estar crendo em uma falácia. Embora
Furtado não o esclareça, ao falar de desenvolvimento no seu livro Mito, infere-se que, em grande medida,
ele esteja ali querendo se referir mais a crescimento econômico – a idéia de
desenvolvimento, por contraste, implicando um modelo de evolução, de progresso
em outras dimensões que não exclusivamente as do tamanho da economia. Na sua
acepção, o desenvolvimento que ele considera “simplesmente irrealizável” (Mito: 75) consistiria na “idéia de que
os povos pobres podem algum dia
desfrutar das formas de vida dos atuais povos
ricos” (ib.). Tal possibilidade
estaria fora do alcance, simultaneamente, de todos os povos da Terra, não
passando assim, a idéia do desenvolvimento econômico, de “um simples mito” (ib.). Esse mito teria sido exposto em
sua improbabilidade, segundo Furtado, pelo Relatório do Clube de Roma (Meadows et al., 1972), que fala de limites ao crescimento e cujas conclusões básicas
Furtado aceita em termos do que elas encerram como referência. Na verdade, os
limites ao crescimento não teriam que ser os que esse relatório indica. Como
hoje se percebe, eles existem na medida em que a atividade econômica não se
passa em um sistema isolado (no sentido termodinâmico), como querem os
economistas (Daly, 1991: xiii), e sim em um sistema aberto, que recebe matéria
e energia de alta qualidade do meio ambiente, devolvendo-a na ponta de saída do
cano como matéria e energia degradadas. Assim, o sistema econômico exerce dupla
pressão sobre o meio ambiente, sugando seus recursos – alguns deles
inequivocamente esgotáveis (caso do petróleo) – e jogando na natureza a todo
instante a sujeira que, em derradeira instância e do ponto de vista
termodinâmico, resulta de tudo o que o homem (e qualquer outro ser vivo) faz.
Os limites ao crescimento, pois, podem estar na saída, como é o caso, sem
dúvida, do gás carbônico da emissão da queima de combustíveis fósseis ou do clorofluorcarbono
(CFC) que destrói a camada de ozônio e lança horizontes sombrios sobre o
progresso da modernidade. Impactos do Desenvolvimento no Meio Físico Furtado
não parece declaradamente adotar em seu discurso do Mito as coordenadas termodinâmicas de balizamento da economia, mas
suas preocupações voltadas para o mundo físico contêm o essencial da percepção
mais recente – dos economistas ecológicos, ao menos – quanto ao impacto do
desenvolvimento ou do processo econômico sobre o ecossistema. A idéia do mito
do desenvolvimento econômico tem a ver, de fato, com a observação por Furtado
de que o modelo da economia em expansão destrói e degrada em larga escala o
meio ambiente[8], além de
criar a ilusão de que, crescendo a economia, tem-se desenvolvimento. Furtado,
nesse contexto, trata ainda do empobrecimento cultural que a destruição pelo
desenvolvimento de culturas “arcaicas” e a homogeneização cultural provocam. E
chama o PIB de “vaca sagrada dos economistas” (Mito: 115), por conter definições e arranjos mais ou menos
arbitrários, entre os quais a exclusão no cálculo do produto dos impactos ou
custos ambientais. Pertinentes a tal respeito são suas perguntas (Mito: 116): “Por que ignorar na medição
do PIB, o custo para a coletividade da destruição dos recursos naturais
não-renováveis, e o dos solos e florestas (dificilmente renováveis)? Por que
ignorar a poluição das águas e a destruição total dos peixes nos rios em que as
usinas despejam seus resíduos?” A consideração dos impactos envolvidos nas
perguntas de Furtado, que não eram respondidas em 1974, já faz parte hoje da
agenda do setor da ONU encarregado de formular a metodologia do sistema de
contas nacionais usado em todo lugar. Existe, com efeito, nesse sistema, o que
se chama de contas satélites, as quais incluem cálculos ambientais que conduzem
à noção da chamada “contabilidade verde”[9],
contabilidade essa que não é ainda amplamente empregada[10].
Um nome destacado nesse campo, o egípcio Salah El Serafy (ver El Serafy, 1997:
204), lembra que, ao usarem os economistas – e os que a seus serviços recorrem
– um modelo que considera, por exemplo, a venda de ativos (como minérios
extraídos para uso na produção) como valor adicionado ou parcela do produto
interno bruto, “então o país, na realidade, está mais pobre do que as contas o
mostram”. O mesmo pode se dizer do efeito, não contemplado nos cálculos do PIB,
decorrente dos peixes mortos pelo despejo em rios do vinhoto das usinas.
Furtado (Mito: 116), pois, com uma
antecipação de muito tempo, estava coberto de razões ao afirmar que “a
contabilidade nacional pode transformar-se num labirinto de espelhos, no qual
um hábil ilusionista pode obter os efeitos mais deslumbrantes” É
interessante assinalar que Furtado, no Mito
(nota 4, pp. 19-20), cita para reforço de seu argumento o nome mais destacado
do esforço de elaboração de um modelo biofísico ou termodinâmico da economia, o
romeno-americano Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994), matemático de origem,
de quem muito pouco sabem os economistas em geral, lamentavelmente, apesar da
importância teórica extraordinária que nele se condensa. E Furtado o faz
exatamente ao comentar que os economistas delimitam um campo de trabalho que se
restringe à “observação de processos parciais, pretendendo ignorar que esses
processos provocam crescentes modificações no mundo físico” (Mito: 19). O resultado é que, na nossa
civilização, tão submetida como é à força da economia, a criação de valor
econômico – quando recursos brutos são transformados em bens e serviços – não
contempla os processos, alguns irreversíveis, de destruição ambiental. Por ter
o Clube de Roma posto a nu, na opinião de Furtado, os impactos no meio físico
que um sistema de decisões cujos objetivos últimos são satisfazer interesses
privados provoca, é que suscitou tanta irritação com seu relatório sobre os
limites ao crescimento. No entanto, a tentativa de fazer com que o paradigma de
desenvolvimento dos países ricos se imponha de forma generalizada só pode
culminar, por motivo de uma percepção ecológica do fenômeno, em colapso do
ecossistema global. Georgescu-Roegen, com todo rigor, o demonstra em seu
clássico de 1971, The Entropy Law and the
Economic Process (Cambridge, Mass.: Harvard University Press), que, se
Furtado não leu detidamente – provavelmente, não –, conhecia nos traços mais
relevantes para a identificação do desenvolvimento econômico como mito, o que,
no fundo, era o que Georgescu-Roegen sugeria. A conclusão é dura, mas
essencialmente correta, na medida em que, como é usual no discurso por detrás
de expressões do naipe de “retomada do desenvolvimento”, se confunde este
último com crescimento (que é o mesmo que expansão) da economia. Na
visão termodinâmica, faz sentido (ver Daly, 1991, por exemplo) o entendimento
de Furtado de que se tenta “explicar
e fazer compreender [aos povos da
periferia] a necessidade de destruir
o meio físico, para justificar formas de dependência que reforçam o caráter
predatório do sistema produtivo” (Mito:
75). Ou seja, em uma só percepção que encaixa a destruição ambiental, a
ampliação da dependência e o crescimento predatório, encontra-se uma combinação
que faz pensar no significado de um processo (insustentável) que é modernamente
o objetivo de todo país, de todo governo, de quase todo grupo social. Os
processos produtivos, naturalmente, por razões estudadas pela física (segunda
lei da termodinâmica), dissipam energia e degradam matéria, uma parte da qual
pode ser efetivamente reciclada, mas não toda ela (ninguém vai reciclar as
moléculas de um pneu que se perderam na rodagem de um veículo pelo mundo
afora). Mais crescimento econômico significa necessariamente mais degradação
(como crescimento mais acelerado implica degradar mais ainda). A civilização
consumista planetarizada, por se servir, em última análise, sempre mais e mais
de serviços e recursos da natureza, é inerentemente depredadora e empobrecedora
da biosfera (Mito: 63) Só que isto
não aparece (negativamente, como seria de dever) no cálculo do rendimento da
atividade econômica, o que Furtado denunciava em 1974 e hoje faz parte da
sabedoria convencional daqueles que estudam a perspectiva ecológica da economia
(Cleveland e Ruth, 1997). Esgotar um recurso, como aconteceu com o manganês do
Amapá, um caso próximo (Brito, 1994), no espaço de 40 anos (1955-1995), é
contado positivamente na estimativa do PIB, em que, de nenhuma maneira e em
qualquer momento, aparece como valor negativo, muito embora se tenha reduzido o
capital natural do país através dessa atividade. “O ponto de vista ecológico”,
argumenta Furtado (Mito: 71),
“permitiu aprofundar essa visão crítica, explicando os custos não
contabilizados dos processos produtivos.” Introduzir tais custos na
contabilidade nacional contribuiria para diminuir a taxa de crescimento da
economia – poderia até torná-la negativa (e aqui o desenvolvimento como fábula
se evidencia com nitidez) –, levando a que se passasse a pensar de forma
consistente na necessidade de reduzir o desperdício de recursos, pois isto
significaria diminuir o valor de uma parcela negativa na determinação do PIB. Diminuir
o desperdício, certamente, não é predicado de uma sociedade que se diz “de
consumo”, que valoriza a posse de artefatos como demonstração de sucesso e em
que, por exemplo, a construção de condomínios residenciais fechados ou a
colocação de grades em jardins e edifícios públicos – como forma de proteção
contra a insegurança crescente – termina contribuindo para o aumento do PIB e a
impressão de que, assim, se tem desenvolvimento. Nessa sociedade, a introdução
de novos produtos finais, que passam a encher mais as prateleiras de
supermercados e que, em muitos casos, se destinam à mesma clientela afluente
que é quem pode adquiri-los, e a diminuição da vida útil dos mesmos produtos,
forçando maior consumo adiante, representam maneiras de acelerar o crescimento
que contribuem simultaneamente para maior desperdício de recursos da natureza.
É verdade que o progresso técnico tem elevado a produtividade dos insumos, como
acontece com o petróleo, que, devido a suas crises dos anos setenta, aparece
cada vez menos por unidade do PIB, especialmente nos Estados Unidos e na
Europa. Acontece que, a despeito disso, o uso total de recursos não tem parado
de crescer e o que se quer hoje, em setembro de 2000, por exemplo, no bojo de
um novo surto de aumento no preço do petróleo, é justamente que se aumente sua
produção, a qual, por sua vez, nunca deixou de elevar-se nos últimos trinta
anos. Furtado aborda esse ponto e destaca (Mito:
70) que “se fosse mais bem distribuído no conjunto do sistema capitalista, o
crescimento dependeria menos da introdução de novos produtos finais e mais da
difusão do uso de produtos já conhecidos, o que significaria um mais baixo
coeficiente de desperdício [pois se evitaria] o encurtamento da vida útil de
bens já incorporados ao patrimônio das pessoas e da coletividade”. Mas
não é isso que motiva a acumulação de capital, o crescimento da economia e os
propósitos de realização material do modelo consumista, com a adição nos tempos
atuais de uma perspectiva nova de globalização – a qual, em última análise,
interessa pela formação de mercados planetários que estimulem um consumo cada
vez maior de bens e serviços. Historicamente, o estilo de vida criado pelo
capitalismo industrial, que tem sido sempre o privilégio de uma minoria
mundial, possui um custo ambiental acentuado pelo “desperdício provocado pela
extrema diversificação dos atuais padrões de consumo privado dos grupos
privilegiados” (Mito: 74). Projetar
esse estilo de vida para os conjunto de países pobres do mundo, supondo que o
desperdício e os custos físicos que lhe são associados – mas que os modelos
econômicos não internalizam no cálculo de seus impactos – possam ser absorvidos
sem traumas pela biosfera, não passa de uma proposição desprovida de
consistência fatual. As economias que lideraram o processo de industrialização
desde seus primórdios, logrando sempre o controle de grande parte da base de
recursos não-renováveis da economia global (existente de forma predominante nos
países subdesenvolvidos), puderam realizar o desenvolvimento que lhes trouxe à
situação de que desfrutam hoje. Furtado (Mito:
21) apoia-se também nessa constatação para enunciar seu diagnóstico do caráter
mítico do desenvolvimento, argumentando acerca da enorme dificuldade de
recuperar o atraso por parte daqueles que vieram depois dos líderes do
processo. As
orientações que têm dirigido o processo de desenvolvimento econômico resultam
de decisões tomadas em momentos decisivos por atores que dispunham de domínio
do que estava acontecendo e de instrumentos apropriados para levar adiante seus
propósitos. Considerando-se que a projeção no tempo de decisões que
condicionaram um modo de desenvolvimento como o que se conhece não dão margem a
grandes correções de rumo, sobretudo na periferia, resulta que as
possibilidades de reprodução do modelo em escala ampla tornam-se bastante
improváveis. Como, de fato, reproduzir comportamentos consumistas predatórios
do meio ambiente, através da aceleração do crescimento econômico, com extração
cada vez maior de recursos da natureza e despejo conseqüente de volumes sempre
mais substanciais de dejetos no ecossistema[11]?
Isso pôde ser feito em escala significativa até certo momento, quando a Terra
podia ser considerada vazia. Hoje as mesmas condições não se repetem, bastando
lembrar, a propósito, que a população mundial era de 1,5 bilhão de pessoas em
1900, quando o PIB global devia valer 800-900 bilhões de dólares (a preços de
2000), enquanto em 2000 a população já ultrapassa os seis bilhões de almas –
uma quadruplicação – e o PIB terrestre é de uns 32 trilhões de dólares. Como
diz Celso Furtado (Mito: 20),
enquanto “avança a acumulação de capital, maior é a interdependência entre o
futuro e o passado”, com a conseqüência de que “correções de rumo tornam-se
mais lentas ou exigem maior esforço”, o que se pode perceber imaginando quanto
custaria desmontar, por exemplo, uma grande usina hidrelétrica, tipo Itaipu. Do
mesmo modo, para reduzir o efeito dos CFCs sobre a camada de ozônio da
estratosfera daqui a cinqüenta anos, é preciso que as correções de curso sejam
empreendidas hoje. O problema se agrava quando se nota que, na civilização
industrial, “o futuro está em grande parte condicionado por decisões que já
foram tomadas no passado e/ou estão sendo tomadas no presente em função de um
curto horizonte temporal” (ib.), o
horizonte da maximização dos lucros de uma firma. Daí, a urgência para o
estabelecimento “de novas prioridades para a ação política em função de uma
nova concepção do desenvolvimento, posto ao alcance de todos os povos e capaz
de preservar o equilíbrio ecológico”, que é o que Furtado (1998: 64) propõe. Em Conclusão: O Mito – Uma Avaliação No
Mito (p. 12) – é isso o que se lê no
prefácio da obra –, Celso Furtado desejava fazer um esforço de captação da evolução do capitalismo depois da II Guerra
Mundial, no momento em que, na sua ótica, se manifestavam plenamente, no
plano econômico, “a afirmação definitiva das grandes empresas no quadro de
oligopólios internacionais, o crescimento explosivo do mercado financeiro
internacional [e] a rápida industrialização de segmentos da periferia do
sistema capitalista no quadro de novo sistema de divisão internacional do
trabalho”. O tema é desenvolvido em quatro ensaios, escritos independentemente,
mas nem por isso parecendo reflexões fragmentadas. Tais ensaios, que são
capítulos do livro, cobrem, primeiro, as tendências estruturais do sistema
capitalista; em segundo lugar, desenvolvimento e dependência; em terceiro, o
modelo brasileiro de subdesenvolvimento; e em quarto, objetividade e
ilusionismo em economia. Nessa abordagem, pontos dignos de realce, a meu ver,
são os tópicos do mito do desenvolvimento; do consumo e suas significações nos
planos cultural, da concentração de renda e do ecossistema; da dependência em
termos da cultura e do setor tecnológico-produtivo; das desigualdades; da
dimensão ambiental do processo de desenvolvimento; e da natureza dos problemas
do desenvolvimento-subdesenvolvimento. Furtado, preocupado com a preservação da
identidade cultural em face das transformações econômicas, se detém em questões
como o mimetismo cultural, a reprodução de padrões de consumo e os privilégios
das minorias com seus estilos de vida de modernização mimética. Tratando dos
impactos da economia no meio físico, ele se volta para a questão dos limites ao
crescimento, para o caráter predatório do modelo de consumo do capitalismo
(que, na verdade, o socialismo real tentou, sem sucesso, copiar), para o
desperdício de recursos, para os custos não contabilizados da destruição
ambiental, para os processos dissipativos embutidos na visão economicista do
desenvolvimento. Pode-se
dizer que, nesse exame, Furtado é um crítico, mas não propriamente contundente,
da realidade econômica do capitalismo pós-II Guerra Mundial, já que procura
expor as tendências de avanço do sistema numa perspectiva de contribuição para
correções de curso que atendam às peculiaridades estruturais dos países
periféricos. Cabe aqui destacar, por exemplo, sua preocupação quanto ao fato de
que, em seu parecer (Mito: 16), não
se tem dado a devida importância às conseqüências, no plano cultural, de um
crescimento geométrico da economia, de que resultava, em 1974, a fuga da
juventude para a contracultura. Por outro lado, “a hipótese de generalização
... das formas de consumo que prevalecem ... nos países cêntricos não tem
cabimento dentro das possibilidades evolutivas aparentes desse sistema” (Mito: 75), responsável por levar ao
aparecimento “da dependência cultural que está na base do processo de
reprodução das estruturas sociais correspondentes” (Mito: 80). O perfil de sociedade, com aparências modernas e
culturalmente dominada, que vai sair desse arcabouço, irá conter um estrato de
elites locais que seguem os padrões de consumo avançados, os padrões de consumo
do centro, com perda de contato com as fontes culturais dos respectivos países.
Essa dependência, por sua vez, não pode ser contida (Mito: 84), “se o país em questão se mantém em posição de satélite
cultural dos países cêntricos do sistema capitalista”. Talvez se possa situar
nesse raciocínio o porquê de a França, por exemplo, resistir tanto, atualmente,
à industria do cinema de Hollywood e à McDonald’s[12],
dois símbolos do paradigma homogeneizante da cultura globalizada – uma
resistência, que, a propósito, se observa em quase toda a Europa. A autonomia
cultural – ou a inexistência de “colonização ideológica” de uma classe pela
classe dominante – representa, para Furtado, uma das condições objetivas para a
existência de uma classe (Mito: 84)
e, sem dúvida, pré-requisito do desenvolvimento autêntico, não falacioso ou
mítico. O
elemento da dependência, na verdade, desempenha papel central no argumento de
Furtado, podendo-se retirar do raciocínio desenvolvido no Mito (especialmente no capítulo II) um verdadeiro teorema que se
enunciaria na proposição de que “os países dependentes serão sempre
subdesenvolvidos”[13].
O teorema se acompanha do genuíno corolário de que “a transição do
subdesenvolvimento para o desenvolvimento é dificilmente concebível, no quadro
da dependência” (Mito: 87), valendo
notar que o avanço do processo de industrialização na periferia faz crescer o
controle por grupos estrangeiros do aparato produtivo aí localizado. “Em
conseqüência, a dependência, antes imitação de padrões externos de consumo
mediante a importação de bens, agora se enraíza no sistema produtivo” (Mito: 89). A visão do desenvolvimento
que prevalece nessas circunstâncias é a de um “processo mimético de padrões
culturais importados” (Mito: 90), de
uma modernização que significa a adoção de modelos de consumo sem uma verdadeira
transformação de fôlego nas estruturas da economia e da sociedade que a
adotaram. Ao sugerir a inevitabilidade da persistência do subdesenvolvimento no
contexto da dependência, Furtado não assume ares de profeta. Em realidade, seu
livro Mito nada tem de profético. Ele
pretende constatar, diagnosticar, apresentar uma versão do progresso do
capitalismo no centro e na periferia na ótica de uma visão mais heterodoxa que
a usual. Em nenhum momento, Furtado indica o que vai acontecer, muito embora na
obra se perceba a identificação de tendências globalizadoras e de adoção de
paradigmas de desenvolvimento com base na submissão cultural, além da
advertência de que não pode haver expansão econômica sem se considerarem seus
impactos no meio ambiente da natureza. Ao registrar essa composição de fatores
que denuncia a fragilidade da concepção de desenvolvimento que tem sido a marca
da busca de realização econômica dos tempos modernos, é que Furtado se sente
levado a declarar, sem qualquer alarde, sem qualquer sensacionalismo – haja
vista inclusive a modesta repercussão que esse livro fundamental acusa até hoje
– de que o desenvolvimento econômico dos países periféricos, tal como se
propõe, não passa de um mito, de uma fábula, de uma ilusão. Olhado na
perspectiva de mais de um quarto de século de publicação, vê-se que o livro não
possui conteúdo oco. Ele continua chamando a atenção, validamente, para uma
realidade que precisa ser enfrentada, a da necessidade uma “nova orientação do
desenvolvimento ... num sentido muito mais igualitário” (Mito: 74), com redução do desperdício e respeito à identidade
cultural de todos os povos. Referências
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Oxford University Press. [*] Economista-ecologista, pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco. Endereço: FJN – Inpso, R. Dois Irmãos, 92 – 52071-440 Recife, PE. E-mail: clovati@fundaj.gov.br. [1] Segundo Baer (1969: 278), uma tarefa para o economista é “tentar entender as forças que mudam os parâmetros do comportamento socioeconômico”. [2] Furtado (1961: 13). [3] Ver, a propósito, Ravaioli (1995). [4] Trata-se da visão econômica do meio ambiente. Aqui entra o esforço de atribuir valor econômico aos serviços ambientais e ao capital da natureza, de internalizar fenômenos que os economistas consideram fora do âmbito propriamente dos fatores responsáveis pela atividade econômica (as chamadas externalidades), de considerar os assim denotados bens públicos (que são bens cujo consumo por uns não impede ou afeta o consumo por outros – caso de uma paisagem ou da segurança nacional, por exemplo), as falhas de mercado, etc. [5] Que é a visão do processo econômico na ótica da natureza ou do ecossistema. [6] Baer (1996: 394). [7] Meadows, Donella et al. 1972. The Limits to Growth. New York: Universe Books. [8]
O caso de Nauru, país-ilha do Pacífico, que, em um século, de uma sociedade
estável, transformou-se em um ambiente completamente degradado, com uma cratera
que ocupa 80 por cento de seu espaço, provocada pela extração de todo o fosfato
que ali existia, oferece exemplo extremo, em um microcosmo do resto do mundo,
do poder ecologicamente destruidor da economia. Ver, a propósito, sobre Nauru, Carl N. McDaniel
e John M. Gowdy, Paradise for Sale: A
Parable of Nature. Berkeley: University of California Press, 1999. [9] Ver, por exemplo, o cap. 14 de
Wouter van Dieren, Taking Nature into
Account: A Report to the Club of Rome, New York: Springer-Verlag, 1995. [10] O Brasil, a propósito, está muito atrasado a tal respeito. Não existe no país uma estimativa da contabilidade verde, como se faz na Costa Rica ou na Holanda. Cf. Marcel Claude, Cuentas Pendientes: Estado de la Evolución de las Cuentas del Medio Ambiente en América Latina. Quito: Fundación Futuro Latinoamericano, 1997 e Ronaldo Serôa da Motta (coord.), Contabilidade Ambiental: Teoria, Metodologia e Estudos de Casos no Brasil. Brasília: Ipea, 1995. [11] Note-se que o despejo de dejetos de que se fala aqui não é simplesmente, por exemplo, o lançamento de resíduos de um processo industrial no meio ambiente. O que acontece, na verdade, quando se produz qualquer bem é que, inveitavelmente, se lançam dejetos industriais, se lança energia térmica degradada e se tem, no fim, o bem produzido como simples lixo (a sucata de um pneu ou de um carro, por exemplo; ou a comida que entrou pela boca). [12] No Canadá, em 1999, o presidente Jacques Chirac, da França, declarou: “Eu odeio o McDonald”. Quase na mesma ocasião, o líder rural José Bové depredava, no território francês, uma lanchonete em construção dessa cadeia. [13] “Toda economia subdesenvolvida é necessariamente dependente, pois o subdesenvolvimento é uma criação da situação de dependência” (Mito: 87). |