NOTA/NOTE
RECITEC, Recife, v.5, n.1, p.56-78, 2001
FAPEAGRO: SEU PAPEL NA REDE DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA DO AGRONEGÓCIO
Paulo Varela Sendin
Alberto Sérgio do Rego Barros
Doralice de Fátima Cargano
Abstract
Lack of clearness about Government role and the crisis among Agricultural Research Public Institutions – ARPIs, bring some difficulties to the identification and fulfillment of the Agribusiness´ technological demands. In that scenario of instability and complexity among ARPI/Government/Firms, Third Sector organizations may enhance innovation networks. This paper, as a case study, analyses the organization and operation of FAPEAGRO – Agribusiness Research and Development Support Foundation, which helps to develop partnerships between ARPIs and the private sector. The paper was based upon the analysis of FAPEAGRO documents and a survey among professionals working at both sides of partnerships managed by the Foundation. Results show that this kind of mechanism is relevant to overcome obstacles in partnerships between ARPIs and Agribusiness firms. The authors identified some methodological problems and suggest enhancing future papers by pursuing comparative analyses involving other similar organizations.
Key words: third sector, agribusiness, technological innovation.
Resumo
Indefinições no papel do Estado e a crise nas Instituições Públicas de Pesquisa Agropecuária- IPPAs, dificultam a identificação e atendimento de demandas tecnológicas do Agronegócio e o Terceiro Setor, nesse cenário de complexidade/instabilidade da interação IPPA/Governo/Empresa, pode dinamizar o funcionamento de redes de inovação. O trabalho, via Estudo de Caso, enfoca a organização e implantação da FAPEAGRO - Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio, articuladora de parcerias entre IPPAs e o setor privado e teve como base a análise documental da Fundação e a aplicação de questionários junto a profissionais que atuam em empresas e IPPAs. Os resultados mostram a relevância do mecanismo na superação dos entraves enfrentados nas parcerias entre as IPPAs e empresas do Agronegócio. Problemas metodológicos, observados pelos autores sugerem o aperfeiçoamento do trabalho e de seu escopo, enfocando análises comparativas com outras entidades similares atuantes no Agronegócio.
Palavras-chave: terceiro setor, agronegócio, inovação tecnológica.
1 Introdução
A expansão do Agronegócio no mundo em geral e no Brasil em particular, vem se dando dentro de um ambiente, em que o nível de competitividade dos mercados, impõe aos agentes econômicos uma preocupação permanente com a qualidade e preço de seus produtos. Para fazer face a esses requisitos do mercado, a inovação tecnológica se reveste de uma importância cada vez maior, elevando o investimento em novos produtos e processos a um patamar nunca antes atingido.
Por outro lado, o custo de obtenção de informações tecnológicas, dada a complexidade dos conhecimentos necessários para a execução dos projetos, torna proibitiva a atuação isolada das empresas, impondo às mesmas o estabelecimento de parcerias.
Essas parcerias, ao serem estabelecidas especificamente para a obtenção de conhecimentos ou inovações tecnológicas, podem ser extremamente proveitosas quando as empresas que atuam no Agronegócio, conseguem se valer da capacidade instalada (em termos de estrutura física e de recursos humanos qualificados) nas Instituições Públicas de Pesquisa Agropecuária – IPPA’s. O estabelecimento dessas parcerias, no entanto, padece de um problema básico, que é a característica governamental dessas instituições. Assim, o fato de serem públicas torna o relacionamento do setor privado com essas entidades um processo complexo, difícil, burocrático e, às vezes, até mesmo inviável.
Considerando esse contexto, apresenta-se a necessidade do desenvolvimento de instrumentos facilitadores do processo, de forma a agilizá-lo e torná-lo compatível com o nível de exigências do setor privado. Um desses instrumentos, cada vez mais presente, não só no âmbito do Agronegócio, mas também em outros setores da economia, tem sido o estabelecimento de entidades não governamentais, que se dedicam a gerenciar a articulação entre a demanda das empresas e a capacidade de oferta de serviços tecnológicos, por parte das instituições públicas.
Este trabalho procura analisar a implantação e operação de uma instituição desse tipo, que optou pela forma jurídica de Fundação Privada, inserindo-se assim no chamado Terceiro Setor.
2 O contexto do agronegócio
Os conceitos básicos sobre Agronegócio ou Agribusiness, propostos por Davis e Goldberg em 1957, passaram a ser melhor estudados no Brasil apenas na década de 90 (Pinazza e Alimandro, 1999, pp.123). Os dados estatísticos mais recentes, embora muito limitados em termos de precisão, indicam uma rápida evolução desse setor da economia brasileira, que atingiu em 1997 uma participação no PIB da ordem de 30% a 35%, representando cerca de US$320 bilhões (Pinazza e Alimandro, 1999, pp.23), sendo que as projeções sugerem um
grande incremento nos próximos anos, especialmente em sua parcela a jusante do setor agrícola.
A competitividade do setor, no entanto, está intrinsecamente vinculada à sua capacidade de inovação, não só no que se refere à ponta final do consumo, mas também aos diversos elos das cadeias produtivas que compõem o Agronegócio. Essa busca de novas tecnologias, de forma a atender aos requisitos de preço e qualidade dos mercados consumidores em nível mundial, coloca às empresas do setor o problema de definir qual a melhor estratégia ou estratégias de atuação frente ao ambiente em que atuam, em constante mutação.
No Brasil, um dos elementos desse contexto, que se alterou recentemente, foi o jurídico, com a criação de legislação sobre patentes, proteção de direitos do melhorador vegetal e biossegurança, que se somou às normas já existentes sobre direitos do consumidor. Essas regras de convivência no mercado se, por um lado, implicam em novos condicionantes da interação entre os atores do Agronegócio, por outro abre perspectivas antes inexistentes para o investimento privado em novas tecnologias, ao melhor garantir a possibilidade de auferir retornos das inovações produzidas (Sendin, 1989 pp. 140-142).
O incentivo ao investimento tecnológico por parte das empresas, tanto do ponto de vista de inserção competitiva no mercado, como no que se refere à apropriabilidade dos retornos derivados das inovações, vem se traduzindo no lançamento de novos produtos nos vários elos das cadeias produtivas, principalmente nos segmentos à montante (insumos) e a jusante (consumo) do setor agrícola propriamente dito. Esse panorama se reforça ainda mais, no Brasil e no mundo, pelo processo de concentração (fusões e aquisições) que vem ocorrendo nesses dois segmentos, colaborando para a ampliação da capacidade de investimento das empresas nessa atividade reconhecidamente como de alto custo.
Em uma primeira análise, o processo de concentração, que no Brasil se cristaliza em uma ampliação da internacionalização desses segmentos, com a redução do espaço para as empresas nacionais no mercado, deveria reduzir o investimento em tecnologia no país, já que haveria uma natural tendência de que as empresas concentrassem essas atividades em suas matrizes no exterior. No entanto, as características peculiares do Agronegócio, especialmente para o setor de insumos, exigem que pelo menos parte do processo de inovação tecnológica seja realizado localmente, dada as especificidades ambientais inerentes à inserção de novos produtos e processos nos sistemas de produção agrícolas.
Assim, no que se refere a insumos, como agroquímicos e cultivares, o lançamento dos produtos no mercado nacional tem que ser precedido de avaliações e testes que garantam sua adaptação às condições locais, embora grande parte do processo de geração e desenvolvimento da tecnologia possa ter sido realizado nos laboratórios ou campos experimentais da matriz externa. No caso específico de tecnologias de ponta, como o
desenvolvimento de cultivares transgênicos, geralmente a seleção dos genes a serem utilizados e a metodologia de transferência dos mesmos é feita diretamente pela matriz, enquanto que a escolha das cultivares a serem modificadas e os testes agronômicos quanto à efetiva expressão do gene em condições de campo é uma preocupação local. Sem entrar na discussão (embora considerando-a pertinente) sobre o nível científico-tecnológico diferenciado exigido por essa divisão de tarefas, fica claro que o processo como um todo induz à necessidade de execução, no país, de um grande volume de atividades de pesquisa e experimentação. Essas atividades, pelas suas características, demandam estruturas de laboratório e campo, e a correspondente mão-de-obra especializada, nem sempre disponível em termos de qualidade e quantidade, no âmbito das subsidiárias locais das empresas transnacionais que atuam no Brasil. Essa inexistência de infra-estrutura física e humana distribuída por todo o território nacional, e o elevado custo de sua implantação, levam as empresas a optar por uma estratégia de terceirização ou parceirização da fase final do processo de inovação tecnológica nessas áreas, abrindo espaço para atuação de parceiros nacionais. E, no setor de pesquisa agronômica, historicamente dominado pelo setor público, os possíveis parceiros se concentram nas IPPA’s, que detêm a maior parte da infra-estrutura física e humana com o nível de qualidade imprescindível para atuar nesse processo, de forma a garantir que as inovações desenvolvidas tenham as características exigidas por um mercado cada vez mais competitivo.
3 Interação empresa/pesquisa/governo: papel do terceiro setor
A forte ampliação da demanda por parcerias, entre as empresas privadas que atuam no Agronegócio e as entidades públicas de pesquisa inseridas nesse setor, encontra vários problemas conceituais, estruturais e conjunturais que dificultam o processo. Em primeiro lugar, há que se considerar as dificuldades desse processo interativo, envolvendo Empresa, Governo e entidades geradoras de conhecimento científico e tecnológico. A abordagem de Plonsky (1995, pp. 66-68) sobre o tema, utilizando conceitos de Sábato, desenvolvidos na década de 60, mostra que o processo de interação é difícil já pelas acentuadas diferenças de percepção da realidade entre esses três atores. Embora a abordagem se concentre na Universidade como representante ideal do setor de geração de conhecimento, a ampliação da mesma para as IPPA’s parece pertinente, pois tais organizações não só possuem características similares às da Academia (como geradoras de conhecimento e por sua postura de valorização da Ciência), como também apresentam traços peculiares do Governo, por serem entidades públicas ou estatais, com várias das conotações positivas e negativas vinculadas a esse fato.
Outras formas de se visualizar essa interação Empresa/Governo/Universidade têm sido propostas, destacando-se dentre elas o chamado modelo da "Triple Helix". Esse modelo faz uso de uma metáfora baseada na biologia molecular (a "double helix" do DNA) e pode, eventualmente, ser considerado como derivado das propostas de Sábato (Santos & Fracasso, 2000, pp. 8-10). Uma análise mais detalhada de todo artigo que originalmente
apresenta as idéias de seus formuladores (Leydersdorf & Etzkowitz, 1996), no entanto, mostra que os mesmos buscaram explicitar mais enfaticamente a complexidade das interações inerentes às tríplices relações em foco, caracterizando também a permanente instabilidade do processo, que seria basicamente evolutivo. Até mesmo pela sua maior atualidade (o novo modelo foi formulado 30 anos depois do de Sábato), Leyersdorf & Etzkowitz conseguiram captar melhor o ambiente em que hoje atuam os três elementos desse processo, bem como a instabilidade do contexto, situação esta que leva à descaracterização das fronteiras entre Governo/Universidade/Empresa, com esses atores muitas vezes assumindo papéis uns dos outros. Essa instabilidade e mudança permanente, tornando o modelo "Triple Helix" por demais entrópico, promove, por parte dos agentes envolvidos, a busca de estruturas que melhor organizem as interações. Abre-se, portanto, um campo para o surgimento de estruturas, dentro ou fora do contexto restrito dos três atores principais do modelo, que gerenciem as articulações institucionais procurando-se, dessa forma, uma redução dos custos de transação ao serem estabelecidas as parcerias visando a obtenção de inovações tecnológicas.
No caso específico da pesquisa pública brasileira, dentro do escopo deste trabalho, é importante analisar as limitações legais e burocráticas inerentes ao Setor Público, que dificultam ou mesmo impedem o estabelecimento de parcerias entre as IPPA’s e as empresas privadas que possam minimizar o nível de instabilidade sugerido no modelo "Triple Helix". A legislação brasileira, dentro da tradição ibérica de tratar a coisa pública no mais rigoroso formalismo burocrático (Brasil, 1995, pp.49), dificulta o processo de negociação com as Empresas, exigindo níveis de "igualdade de oportunidade" e "transparência" do processo que as empresas privadas não estão dispostas a aceitar em muitas das parcerias que envolvem condições de sigilo, imprescindíveis em um mercado altamente competitivo, já que o segredo, em alguns casos, é, realmente, a alma do negócio.
Se o processo de negociação é dificultado pela legislação e amarras burocráticas inerentes ao Setor Público, a efetiva implementação dos projetos contratados não padece de impedimentos menores. As exigências das Empresas em termos de qualidade e velocidade implicam em uma agilidade operacional quase sempre incompatível com o cumprimento da legislação maior que rege o Setor Público e, pior ainda, com a estrita observância dos decretos e normas de menor nível hierárquico que são baixados pelos governos estaduais e suas Secretarias (Sendin & Nicolau, 1993, pp.84). Assim, não é possível, ao administrador público responsável por uma IPPA, garantir à Empresa contratante de um Projeto ou serviço tecnológico, que realmente poderá cumprir o que foi avençado, em termos de prazo e qualidade, pois o mesmo não detém, como gerente de um órgão público, o nível de autoridade necessário para a tomada das decisões que permitam o cumprimento do Contrato.
Se isso é válido para o Setor Público em geral, torna-se mais problemático ainda no contexto da pesquisa agropecuária, em particular, pelos seus riscos específicos vinculados a
fatores biológicos e ambientais de difícil controle. E essa questão não se restringe a uma possível comodidade do administrador desse tipo de instituição. Trabalho de Salles, Bonacelli & Mello (1998, pp.1692-1694), mostra, em suas conclusões, que há uma forte correlação entre o posicionamento dentro do conjunto das IPPA’s brasileiras e seu grau de autonomia e flexibilidade. Falta, portanto, ao Gerente Público, essencialmente, a agilidade e a flexibilidade jurídico-administrativa imprescindíveis à tomada de decisões, face à complexa e mutável legislação a que é submetido e pela qual pode ser responsabilizado civil, penal e patrimonialmente, mesmo que suas ações não tenham caracterizado danos ao patrimônio público.
Essa situação das IPPA’s como integrantes de um Setor Público extremamente burocrático e, atual-mente, veementemente questionado, leva-as à necessidade de estabelecerem novas formas de parcerias com o chamado "setor produtivo", relacionamentos esses que não se restringem à perspectiva econômico-financeira, mas sim incorporam o reconhecimento que essas entidades fazem parte de um sistema em que co-existe uma multiplicidade de agentes que interagem. E essa visão, de permanente interatividade, mesmo conservando suas características individuais quanto ao seu foco de competências, é que define a inserção da entidade de pesquisa pública no cenário em que atua (Salles et al., 2000). Ainda buscando os conceitos dessa mesma fonte (Salles et al., 2000. pp. 5, 8-9)), é interessante verificar que, nesse processo de complementariedade de competências, que o conjunto de parcerias permite, a instituição reforça sua capacidade de competir no mercado de produtos e serviços tecnológicos e, por consequência, suas probabilidades de sobrevivência e desenvolvimento. Embora não abordado especificamente por esses autores, seria lícito ampliar esse conceito de parceria em relação à atividade-fim das IPPA’s (pesquisa agropecuária) também para as iniciativas visando superar suas fraquezas organizacionais, ao estabelecer interações com entidades que se dispõem a superar os entraves burocráticos inerentes ao Setor Público.
A percepção de que é possível o estabelecimento de parcerias que ajudem a superar fraquezas organizacionais, ao lado da complexidade das relações entre Governo, Academia e Empresas, faz com que apareçam hoje no Brasil algumas condições conjunturais que trabalham, principalmente, no sentido de superar esses problemas e induzir a ampliação das interações das Empresas com as IPPA’s. Tendo como pano de fundo o já mencionado dinamismo do Agronegócio, dois outros fatos estão ocorrendo: a tomada de consciência sobre a necessidade de revisão do papel do Estado e, dentro desse enfoque, o reconhecimento do importante impacto que o Terceiro Setor, pode ter no provimento de serviços sociais para a Sociedade, principalmente quando o Setor Público tradicional não apresenta condições de agilidade, eficiência e eficácia e a iniciativa privada não vê oportunidades de lucros.
Desde o início da década de 90, até mesmo pelas pressões internacionais inerentes ao processo de internacionalização da economia brasileira, o Brasil passou a discutir com
maior veemência o papel do Estado, principalmente em relação à sua maior ou menor presença na economia. Essa discussão, desenvolvida sob um foco de redução das atividades estatais, tem levado não só à privatização de empresas governamentais que atuam no setor produtivo, mas também à redução dos investimentos públicos em diversas outras áreas, sob a alegação de que o Estado não teria mais a capacidade de obter recursos da Sociedade em montantes que lhe permitiriam continuar a manter os mesmos níveis de atuação. Especificamente no setor de Ciência e Tecnologia, considerado no âmbito da reforma do Estado como de atuação conjunta com a iniciativa privada, a política adotada tem sido a de redução dos investimentos públicos e indução de maior participação das empresas, especialmente nas fases finais do processo de inovação tecnológica ou quando há maior probabilidade de obtenção de produtos ou processos que garantam apropriabilidade de retornos for alta.
A partir dessa definição política, explícita ou implícita, de redução de investimentos públicos em C&T, as entidades governamentais de pesquisa tecnológica, como as IPPA’s, passam a ser pressionadas na direção de uma maior aproximação com o setor privado, buscando a diversificação de suas fontes de recursos não orçamentários. Em seu conjunto, essa ampliação da interação com a área empresarial apresenta aspectos muito positivos, não só em relação à sua motivação mais imediata que seria a captação de recursos, mas também à maior facilidade de inserção, nos sistemas produtivos ou no mercado, das inovações geradas (Sendin et al., 1996, pp. 705-706, 708-709).
Existem, no entanto, questionamentos sobre os efeitos de longo prazo sobre o conjunto da programação de pesquisa das instituições públicas que se submetem a esse processo, pois há um inegável redirecionamento das atividades em direção à prestação de serviços tecnológicos, alguns até mesmo de rotina e, ainda mais, uma alteração do foco das pesquisas em direção a resultados de curto prazo e que satisfaçam apenas ao cliente que solicitou a execução do projeto (Santos, 1994, pp. 570), perdendo-se, muitas vezes, o caráter público do conhecimento gerado.
Abstraindo-se esse aspecto, extremamente relevante, das possíveis conseqüências de um redirecionamento radical dos esforços das IPPA’s na direção do atendimento ao setor privado, resta ainda o problema (que, de certa forma, pode agravar as já citadas conseqüências) de que suas estruturas jurídicas, organizacionais e mesmo o tipo de competência disponível em seus quadros, não favorece o desenvolvimento de parcerias equânimes com o setor privado.
A solução dessa relativa incompatibilidade entre os dois possíveis parceiros tem sido buscada tanto no bojo das propostas de reforma do Estado, com na criação das chamadas "organizações sociais", dentro dos conceitos de "publicização do Estado" (Brasil, 1995, pp.73-75), como através de intermediação das parcerias com a presença de um outro ator pertencente ao Terceiro Setor. Esse setor, cuja amplitude vem crescendo, em nível nacional
e internacional, engloba as formas organizadas e estruturadas de atuação da Sociedade que não se enquadram no âmbito do Estado e, por não visarem lucro e trabalharem explicitamente em atividades de interesse coletivo, também não constituem parte do setor privado empresarial. Costa Júnior (2000. pp. 1-3, 11-13), em análise sobre conceitos, evolução e papel do Terceiro Setor, relata seu crescimento e origens, destacando a dificuldade em definí-lo e quantificá-lo. Ao abordar especificamente o caso brasileiro, o autor enfatiza essas dificuldades e sugere que a evolução recente do setor se deve principalmente à busca de mecanismos que superem as desigualdades derivadas da economia de mercado e à incapacidade de atuação do Estado, não só em termos da incapacidade fiscal, mas, mais ainda, pela sua rigidez gerencial. Conclui por sugerir que a sociedade civil tem capacidade para organizar-se de maneira eficiente, provendo serviços em que o Estado não demonstra competência e nos quais a empresa privada não vê oportunidade de retorno financeiro.
O contexto jurídico em que atuam essas entidades aproxima-se, em muito, daquele em que operam as empresas privadas, o que facilita o exercício do papel de mediadora entre as instituições públicas e as empresas. Além disso, a grande flexibilidade de organização que podem ter (associações, clubes de serviço, fundações, etc.), desde que sigam algumas regras básicas legais, permite que essas entidades atuem nos mais diversos campos, desde o amparo a menores abandonados até a iniciativas culturais, proteção ao meio ambiente e, o que interessa ao contexto das IPPA’s, apoio a atividades de C&T. Neste caso, o modelo jurídico usualmente adotado tem sido o de Fundação de Direito Privado, cujas características básicas estão definidas em legislação própria e que, em alguns casos, inclui entidades que operam há vários anos e que foram instituídas muito antes das atuais discussões sobre a reforma do Estado.
Essas entidades são, em sua maioria, vinculadas a Universidades públicas, sendo que muitas delas, por decorrência desse relacionamento, às vezes explícito em seus Estatutos, não poderiam ser consideradas Fundações privadas, pois apresentam peculiaridades que não permitem seu enquadramento na legislação específica.
4 FAPEAGRO: contexto regional e opção pelo modelo jurídico
A necessidade de criação de um mecanismo que facilitasse a interação entre o Instituto Agronômico do Paraná - IAPAR e seus possíveis parceiros, vinha sendo discutida na instituição muito antes do recente debate sobre o papel do Estado e a oportunidade da reforma do mesmo. De fato, essa é uma discussão que se iniciou em um contexto muito mais vinculado à percepção da perda de autonomia do Instituto, processo que se aprofunda na década de 80 e que culmina com a transformação do IAPAR de Fundação em Autarquia (Paraná, 1991), do que a uma maior demanda do setor privado (Silva et al., 1994. pp. 83). No sentido de se criar uma Fundação vinculada ao IAPAR foi instituído, em 1989, um Grupo de Trabalho interno para estudar o assunto, o qual, após organizar um conjunto de
informações e discutir o assunto em algumas reuniões, foi desfeito sem concluir nenhuma proposta concreta.
Mais recentemente, por volta de 1995, o assunto passou a ser discutido não só formalmente dentro da estrutura gerencial, mas também por grupos de funcionários que visualizam a criação de uma Fundação como mecanismo específico de atuação junto à iniciativa privada, agora num ambiente externo cujas características começam a tomar as formas mencionadas nos itens anteriores deste trabalho.
No que se refere às condições de atuação do IAPAR, em termos do Paraná, a redução da atuação do Setor Público se reflete claramente na diminuição de seu quadro de pessoal, que passa de cerca de 1600 funcionários em 1990 para perto de 1.000 em 1999. Acompanhando essa evolução negativa, os recursos financeiros disponibilizados no orçamento do tesouro estadual para o IAPAR também se reduzem, concentrando-se na cobertura da folha de pagamento e no cumprimento de obrigações contratuais relacionadas com dívidas, restando muito pouco para os gastos operacionais e investimentos. Um reflexo claro dessa situação de desinvestimento é o reconhecimento institucional da necessidade de mudanças na personalidade jurídica da IAPAR explicitada em manifestações públicas de sua Direção (Schwartz, 1996, pp. 8-A e Rocha, 1997).
5 Origem, resultados e dificuldades em três anos de atividades
O clima existente no IAPAR, conforme descrito no ítem anterior, propício à busca de uma solução externa para os problemas institucionais, encontrou, na realização de um evento técnico-científico, as condições para a cristalização das idéias, ainda dispersas, sobre o assunto. Assim, a Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio - FAPEAGRO, teve parte de sua origem vinculada aos integrantes da comissão organizadora do XXI Congresso Nacional de Milho e Sorgo, evento realizado em Londrina, Paraná, no período de 7 a 12 de julho de 1996 e que contou com a participação de mais de 900 pessoas ligadas ao Agronegócio, como pesquisadores, professores, produtores, técnicos e empresários (Congresso Nacional de Milho e Sorgo, 1996, pp. 360).
Durante o Congresso, em discussões paralelas à programação, profissionais de instituições de ensino e de pesquisa oficiais e também os vinculados às empresas privadas, comentavam sobre o freqüente distanciamento entre esses setores, muitas vezes com origem na escassez de recursos financeiros e na impossibilidade de um eficiente gerenciamento de projetos cooperativos, devido às restrições burocráticas dos órgãos governamentais. Nesse contexto, uma entidade ou organização que viesse compatibilizar as demandas do setor produtivo com a capacidade técnico-científica das instituições oficiais, seria altamente desejável, permitindo ações conjuntas e promovendo um maior desenvolvimento do Agronegócio.
Após o Congresso, pesquisadores e técnicos ampliaram essas discussões para vários setores
ligados às cadeias produtivas agropecuárias e as opiniões convergiram para a criação de uma entidade que viesse somar esforços ao desenvolvimento do setor. Particularmente para Londrina e norte do Paraná, essa iniciativa foi considerada muito oportuna pois, além do grande número de empresas instaladas, estão presentes na região instituições de pesquisa e universidades desenvolvendo pesquisas e atividades em diversas áreas no setor agropecuário.
A definição da personalidade jurídica e a discussão sobre a forma de atuação dessa entidade, originou uma série de consultas e visitas a instituições de pesquisa e universidades, principalmente as que trabalham em conjunto com fundações de apoio e institutos afins: IAC, ESALQ, FEALQ, Fundação IAC (atual FUNDAG), ITEDES, Fundação MS, FUNDAPAM, FADEC, FUNPAR, FUNDAMIG, bem como a análise de estatutos e regimentos internos de várias dessas organizações. Os bons resultados que essas entidades vinham proporcionando, através de trabalhos cooperativos, levou o grupo de pesquisadores e técnicos a uma consulta formal ao Ministério Público do Estado do Paraná, em Londrina, com vistas à obtenção de informações sobre a constituição de fundações e suas formas de atuação, procedimento esse que permitiu um melhor entendimento das normas contidas na Resolução no 563 de 1992 (Paraná, 1992, pp.1-9).
Essas consultas trouxeram informações valiosas como, por exemplo, as características básicas de uma entidade fundacional sem fins lucrativos, que não pode explorar atividades comerciais, nem distribuir lucros ou conceder participação nos resultados econômicos a seus dirigentes ou associados. Nesse particular, o exame da literatura sobre o assunto permite verificar a existência de entidades fundacionais em situações conflitantes com esses preceitos, formadas por grupos de associados, cotistas, que têm direito exclusivo ou preferencial aos produtos e/ou serviços gerados. Outro aspecto importante foram as experiências negativas relatadas por algumas fundações vinculadas a órgãos públicos, inclusive, muitas vezes, até mesmo utilizando o próprio nome do órgão, e que, gradativamente, foram perdendo autonomia e até mesmo os objetivos definidos quando de sua instituição, sendo em casos extremos tratadas pelos órgãos públicos fiscalizadores como se fossem entidades estatais.
Com base nas informações obtidas e levando-se em conta os problemas acima mencionados, optou-se pela organização de um debate sobre o tema, possibilitando uma análise e discussão mais aprofundada, com um maior número de representantes do Agronegócio. Nesse sentido, em outubro de 1996, foi realizado em Londrina, no IAPAR, um Seminário Sobre Fundações, com objetivo de abordar os aspectos legais e operacionais dessas entidades, e, ao mesmo tempo, discutir as experiências das fundações que já vinham atuando em atividades relacionadas com a agropecuária. Participaram como palestrantes representantes do Ministério Público do Estado do Paraná, da Fundação IAC e da FUNPAR, fundações estas ligadas a órgãos de pesquisa e ensino respectivamente, além de
um público de aproximadamente 60 pessoas vinculadas a diferentes áreas de atuação no Agronegócio.
Esse Seminário ratificou as vantagens que as fundações proporcionam, principalmente na administração de recursos financeiros e humanos nos processos de inovação tecnológica, crescendo a certeza de que a instituição de uma fundação de direito privado traria contribuições significativas, promovendo uma melhor integração entre a demanda e a oferta de conhecimento tecnológico e gerencial, ampliando os níveis de competitividade do Agronegócio como um todo, desde que a entidade pudesse atuar nos diversos elos das Cadeias Produtivas, como articuladora da geração de inovações tecnológicas, visando a disponibilização de produtos de qualidade ao consumidor final de produtos de origem agropecuária.
Nesse contexto, a FAPEAGRO foi instituída no dia 21 de novembro de 1996, em Londrina, na forma jurídica de fundação de direito privado, sem fins lucrativos. Na Assembléia de instituição foram registrados 108 instituidores, sendo 92 pessoas físicas e 16 jurídicas, que integralizaram o patrimônio inicial de R$ 30.000,00 (trinta mil reais).Na mesma ocasião foi eleito o Conselho Curador (com sete representantes de diferentes setores ligados ao Agronegócio), designada a Diretoria Executiva e elaborado o Estatuto, posteriormente (junho de 1999 modificado (Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio, 1999a, pp.1-20).
Nos primeiros meses de atuação, a FAPEAGRO constituiu uma infra-estrutura mínima para o seu funcionamento: aluguel de sala para escritório, veículo, pessoal (através de trabalho voluntário, apoio dos órgãos envolvidos e contratação de estagiários) e, concomitantemente, iniciaram-se os trabalhos de divulgação, cadastramento de profissionais e empresas, formalização de convênios e apoio aos primeiros projetos. Ao término do primeiro semestre de 1997, a Fundação já registrava três convênios técnico-científicos firmados (IAPAR, EMBRAPA/Soja e Universidade Estadual de Maringá), participação em três projetos de pesquisa, apoio e desenvolvimento e em quatro eventos de difusão de tecnologia, além de seis outros projetos em negociação (Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio, 1997a, pp.1-13).
Por outro lado, algumas dificuldades iniciais foram sentidas, principalmente pelo desconhecimento das formas de atuação da Fundação e por indefinições, por parte das instituições públicas, sobre como equacionar, em curto prazo de tempo, demandas emergenciais, utilizando-se de trabalhos em regime de parceria. Visando minimizar o problema da falta de informação no ambiente quanto às suas possibilidades de atuação, a FAPEAGRO direcionou boa parte de suas atividades para a área de divulgação, através de visitas a instituições de pesquisa e ensino, empresas privadas, secretarias municipais de agricultura etc, além de elaboração de folders e integração à INTERNET com endereço próprio. Essas ações ampliaram as atividades e, um ano após a sua instituição, a Fundação já concluía dois projetos, tendo outros cinco em andamento e dois em negociação, além de
apoiar e organizar eventos tecnológicos direcionados para o Agronegócio (Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio, 1997b, pp. 1-12).
O reconhecimento, por parte de agências de fomento e entidades financiadoras, de que existe uma maior eficiência em projetos elaborados e executados de forma cooperativa, também gerou, por parte desses órgãos, quer sejam públicos ou privados, ações visando o incentivo às parcerias na área de Ciência e Tecnologia. Como exemplo dessa nova postura, podem ser citadas iniciativas como o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico/Componente de desenvolvimento Tecnológico – PADCT/CDT, do Ministério da Ciência e Tecnologia e o Projeto de Apoio ao Desenvolvimento de Tecnologia Agropecuária para o Brasil – PRODETAB, gerenciado pela EMBRAPA. Essas iniciativas, em linhas gerais, incentivam e priorizam estudos e ações realizadas em regime de parceria entre órgãos públicos e privados e, até mesmo, induzindo a que fundações de direito privado sejam proponentes e gestoras dos projetos, caso específico do PRODETAB. Esses programas estão sendo importantes para a FAPEAGRO que, graças à credibilidade no meio técnico-científico e empresarial, e aos bons resultados obtidos através de sua carteira de projetos, foi escolhida por algumas instituições de ensino e pesquisa como proponente de projetos na área das ciências agrárias.
Outro aspecto que contribuiu para a rápida evolução da FAPEAGRO no setor do Agronegócio foi que, por contar com uma infra-estrutura administrativa reduzida e manter convênios com instituições de pesquisa com pessoal altamente qualificado, a entidade tinha e tem condições de agir de forma ágil e flexível. Essas características, aliadas à sua autonomia administrativa, permitem a elaboração e execução de projetos cooperativos específicos para cada situação que se apresente, atendendo dessa forma às demandas do setor privado e possibilitando a geração e transferência de tecnologias de interesse dos contratantes, com maior velocidade e a menores custos.
Essa estratégia e a opção por linhas de atuação de interesse do setor produtivo fizeram com que a Fundação, em 1998 e 1999, ampliasse o número de convênios, destacando os celebrados com a Associação de Desenvolvimento Tecnológico de Londrina – ADETEC e a Universidade do Norte do Paraná – UNOPAR. Ainda nesse período, o número de projetos em sua carteira aumentou significativamente, envolvendo, ao final de 1999, aproximadamente 60 parceiros, a maioria do setor produtivo (Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio, 1998a, pp.1-8; 1998b, pp. 1-9; 1999b, pp. 1-11 e 1999c, pp. 1-8).
Essas parcerias estão direcionadas para vários setores do Agronegócio, contemplando estudos de avaliação de cultivares de espécies de interesse econômico e social para as diferentes regiões do Paraná; avaliações agronômicas de produtos químicos em diferentes espécies e sistemas de cultivos, para fins de registro nos órgãos competentes; avaliação e melhoria das práticas de armazenamento de grãos no Brasil; controle integrado de pragas,
doenças e plantas daninhas em diferentes espécies; avaliação sócio-econômica de programas governamentais na área rural; estudos voltados para a preservação ambiental, tais como recuperação de solos degradados e avaliação de resíduos químicos no solo; e atividades específicas de difusão de tecnologia para o setor agropecuário.
6 Avaliação da FAPEAGRO por seus clientes
A avaliação interna da FAPEAGRO, feita por sua Diretoria e Conselho Curador, abordada no item anterior, espelha um razoável desempenho, demonstrado pelo número de projetos desenvolvidos e pelo volume de capital acumulado em três anos de atividade. Esse tipo de avaliação, entretanto, além de sofrer a influência e o viés dos envolvidos diretamente na gestão da Fundação, não permite aquilatar o nível de satisfação dos clientes, essencial para a continuidade de sua atuação. No sentido de obter um outro tipo de avaliação, centrada no público usuário dos serviços prestados, optou-se pelo levantamento da opinião dos pesquisadores que executam os projetos contratados pela FAPEAGRO, bem como de técnicos vinculados às empresas que solicitam a execução desses mesmos projetos.
A metodologia utilizada (Sendin, 1998, pp. 1728) foi a de aplicação de questionário junto a esses dois tipos de público, solicitando-se aos respondentes que avaliassem o nível de concordância com cinco afirmações sobre o desempenho da Fundação. Com base no pressuposto de que os dois tipos de público (pesquisadores e representantes das empresas) visualizam o trabalho da Fundação de forma distinta, foram elaborados questionários diferentes para cada um dos dois conjuntos, com o objetivo de permitir uma análise individualizada dos dois grupos. Ambos os questionários propunham quatro afirmações positivas e uma negativa sobre o desempenho da FAPEAGRO, solicitando-se aos respondentes que expressassem sua "Concordância Total" ou "Discordância Total" com a afirmação feita, havendo ainda três possibilidades intermediárias de opção (Anexo 1).
A partir dos cadastros disponíveis na própria Fundação, foram enviados, por meio eletrônico, 28 questionários a pesquisadores e 41 a técnicos vinculados às Empresas, ocorrendo, neste caso, alguma duplicação de questionário para a mesma Empresa, quando havia mais de um elemento de contato com a FAPEAGRO. Após um trabalho de "follow up" por parte dos autores, obteve-se um total de 18 respostas para o grupo de Pesquisadores e de 13 para o de técnicos de Empresas.
O conjunto das respostas foi analisado atribuindo-se cinco pontos para as afirmações totalmente positivas em relação ao trabalho da FAPEAGRO e um ponto para as completamente negativas. Dessa forma, se todos os respondentes optassem pelo conceito mais favorável à Fundação, ter-se-ia uma média cinco para cada uma das cinco afirmações do questionário, sendo, portanto, essa pontuação (cinco) o valor máximo possível. Comparando-se a média das "notas" efetivamente atribuídas pelos respondentes com essa pontuação "ideal", obteve-se, em termos percentuais, uma "nota" média para cada uma das
cinco questões, em cada tipo de questionário. Além dessa "nota" individual para cada afirmação, calculou-se também uma "nota" média englobando as cinco questões, que representaria uma avaliação global dos dois grupos pesquisados. Essa metodologia simples tem, entretanto, um certo nível de viés, pois na hipótese de respostas totalmente negativas, obter-se-ia uma pontuação igual a um, que, se percentualmente comparada com o máximo possível de cinco, resultaria em 20%, ou seja, as "notas" teriam uma variação de 20 a 100 e não de 0 a 100. Com o objetivo de evidenciar eventuais inconsistências nas "notas" atribuídas, observou-se também o número de pontuações acima de três (opção por uma afirmação "neutra" ou favorável) derivado da amostra de respondentes. Esses dados são apresentados nas Tabelas 1 e 2, analisadas a seguir.
No grupo de pesquisadores as respostas obtidas (Tabela 1) indicam uma avaliação bastante positiva do trabalho da Fundação, no que diz respeito à ampliação de oportunidades de parcerias e à agilidade na execução dos projetos, evidenciando aspectos geralmente criticados na atuação das IPPA’s. Também foi bastante positiva a percepção dos pesquisadores quanto à opinião das empresas a respeito das parcerias envolvendo a FAPEAGRO, mas a maior "nota" atribuída por este grupo refere-se à quinta afirmação, que traduz uma avaliação geral e uma possível recomendação para outros interessados. Neste caso, a percentagem ou "nota" média foi de 93,4%, sendo que 100% dos respondentes atribuíram "notas" acima de três. Esse quadro bastante positivo, no entanto, não se confirma plenamente no que diz respeito à terceira afirmação do questionário, onde se discute a possibilidade de que a intermediação da FAPEAGRO entre a IPPA e o contratante privado, possa provocar uma "sensível redução dos recursos disponíveis para o instituto público". Neste caso, a média das "notas" atribuídas pelos respondentes cai dos níveis de acima de 89,4% dos outros itens do questionário para apenas 66,6%, embora 88,8% tenham optado pelas afirmações entre neutra ou favoráveis.
Tabela 1 - Avaliação dos Pesquisadores
|
Tópicos de Avaliação |
Nº de Respostas |
Pontuação Média |
Percentagem em relação à Pontuação Máxima |
Percentagem de notas igual ou superior à média |
|
1. Ampliação de oportunidades |
18 |
4,56 |
91,2 |
94,4 |
2. Agilidade na execução dos Projetos |
18 |
4,50 |
90,0 |
94,4 |
|
3. Custo |
18 |
3,33 |
66,6 |
88,9 |
4. Percepção quanto à opinião das empresas parceiras |
17 |
4,47 |
89,4 |
100,0 |
|
5. Avaliação geral |
18 |
4,67 |
93,4 |
100,0 |
|
Consolidação das Avaliações |
89 |
4,31 |
86,2 |
95,5 |
Fonte: Questionário aplicado pelos autores.
Mesmo considerando que a consolidação dos vários itens de avaliação apresenta uma "nota" bastante alta (86,2%), a questão do custo precisa ser melhor analisada, tanto do ponto de vista dos resultados obtidos, como da metodologia utilizada, já que essa questão foi a única em que o sentido da "concordância"/"discordância" era invertido em relação às outras afirmações (ver questionário, Anexo 1).
No caso das Empresas, onde obteve-se um retorno de 13 questionários, representando 11 parceiros diferentes, à semelhança do grupo dos Pesquisadores, as respostas foram majoritariamente favoráveis ao trabalho da Fundação. Conforme pode ser observado na Tabela 2, no que diz respeito à qualidade técnica dos trabalhos executados, a "nota" média atribuída foi de 91,6% em relação ao máximo possível. No item sobre a redução da burocracia proporcionada pela FAPEAGRO, essa avaliação chegou a 83,4%, enquanto que para a indagação sobre a importância dos projetos intermediados pela Fundação, a "nota" atribuída pelas empresas foi de 87,6%.
A avaliação geral, representada pela quinta afirmação do questionário, obteve o maior índice de aprovação, com "nota" 92,4%. Novamente, como ocorreu com o grupo de pesquisadores, a questão do custo ("a intermediação da FAPEAGRO...acrescenta custos desnecessários aos contratos") sobressai de forma diferenciada. Neste caso, a "nota" de 60,0% é bastante inferior à média geral (83,0%) e se deve à presença de 25% de conceitos abaixo da média (4, em 12 respostas), confirmando, de certa forma, que a percepção de alguns dos respondentes em relação aos custos de intermediação não é de todo positiva. Também aqui pode haver algum problema metodológico, já que essa questão foi igualmente colocada de forma "invertida" no questionário, o que pode ter levado a que algum respondente tenha confundido o sentido da afirmação. É importante observar, no entanto, que a avaliação consolidada das empresas levou a uma "nota" bastante elevada (83,0%), bastante semelhante à obtida junto aos pesquisadores (6,2%).
Tabela 2 - Avaliação das Empresas
|
Tópicos de Avaliação |
Nº de Respostas |
Pontuação Média |
Percentagem em relação à Pontuação Máxima |
Percentagem de notas igual ou superior à média |
|
1. Custo |
12 |
3,00 |
60,0 |
75,0 |
|
2. Qualidade técnica |
12 |
4,58 |
91,6 |
100,0 |
|
3. Redução de burocracia |
12 |
4,17 |
83,4 |
91,7 |
4. Importância dos trabalhos executados |
13 |
4,38 |
87,6 |
100,0 |
|
5. Avaliação geral |
13 |
4,62 |
92,4 |
100,0 |
|
Consolidação das Avaliações |
62 |
4,15 |
83,0 |
93,5 |
Fonte: Questionário aplicado pelos autores.
Resumindo-se o conjunto das respostas obtidas, é possível inferir que a avaliação geral dos 31 respondentes foi bastante positiva em relação ao trabalho da Fundação, principalmente quando se leva em conta que apenas 4,5% (4 em 89) das escolhas dos pesquisadores foram para afirmações "abaixo da média", enquanto que no caso dos técnicos das empresas esse índice foi 6,3% (3 em 62). Por outro lado, nesse contexto geral, fica claro que, mesmo levando-se em conta os possíveis problemas metodológicos, a questão do custo de intermediação dos projetos entre as Empresas e as IPPA’s merece uma análise específica. É preciso identificar se, de fato, existe um ônus indevido ou simplesmente não tem havido uma correta divulgação dos serviços prestados e dos custos inerentes à absorção, pela Fundação, das tarefas e entraves burocráticos inerentes às parcerias e que por ela são assumidos.
7 Perspectivas futuras
Embora a avaliação positiva por parte de parceiros relevantes, como pesquisadores e técnicos de empresas, usuários dos serviços da FAPEAGRO, seja determinante para qualquer análise das perspectivas futuras da Fundação, a situação externa, refletida no cenário vigente no ambiente em que atua é que definirá, em última análise, o mercado para os serviços prestados pela entidade.
Conforme já mencionado em itens anteriores, espera-se uma ampliação contínua do Agronegócio, tanto no âmbito internacional, como no Brasil, com reflexos positivos na demanda por tecnologia, o que, certamente, constitui um cenário positivo para o tipo de atividade desenvolvido pela Fundação. É interessante notar, no entanto, que a maior parte das previsões sobre o Agronegócio indicam um crescimento mais acelerado do segmento, a jusante da produção agrícola, que muito provavelmente ampliará seu poder de coordenação sobre as cadeias produtivas (Pinazza e Alimandro, 1999. P.137 e 257). Confirmando-se essas expectativas, a FAPEAGRO deveria, a médio ou longo prazos, redirecionar seus esforços no sentido de definir parcerias com esse segmento, que está em expansão, mesmo que não deixe de manter seus tradicionais vínculos com as empresas que atuam no setor de "antes da porteira".
Além dessa perspectiva de evolução do cenário atual, a ampliação do papel dos consumidores sobre os mercados, e em especial sobre o segmento de alimentos, e a crescente força dos movimentos ambientalistas, cujas demandas cada vez mais estão sendo transformadas em exigências legais ou morais, representam com certeza novas oportunidades de atuação para a Fundação.
Por outro lado, especificando melhor a análise do cenário dentro do contexto tecnológico, objetivo central da Fundação e forte componente do Agronegócio, ao lado de fatores como fabricação e comercialização de insumos, todos os aspectos relacionados com a produção
em campo, a assistência técnica, além do processamento, transporte, comercialização, crédito, exportação, industrialização, distribuição e demais processos até atingir o final da cadeia, ou seja, o consumidor final (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 1998, pp.2), seriam áreas de atuação para a FAPEAGRO.
Considerando essa amplitude de atividades e a decorrente complexidade, fatores estes implícitos no momento atual, onde cada vez mais se exige competitividade para a satisfação da crescente demanda por inovações tecnológicas, concluí-se que se amplia o campo de trabalho para as entidades vinculadas ao Terceiro Setor, que podem desempenhar um papel fundamental, viabilizando uma eficiente disponibilização de tecnologias para o setor produtivo.
A inserção das Fundações em projetos tecnológicos cooperativos tem tido um ritmo crescente, principalmente pelo retorno que tais atividades proporcionam ao setor produtivo, e também pelo próprio estímulo governamental, através de programas específicos, conforme mencionado anteriormente. Outro aspecto relevante é que esse tipo de trabalho em parceria, tem proporcionado, freqüentemente, captação de recursos suplementares para as instituições oficiais de pesquisa e de ensino, proporcionando melhorias na infra-estrutura existente e garantindo, muitas vezes, a sobrevivência das mesmas pela disponibilização de recursos operacionais, não proporcionados pelo poder público.
Por outro lado, mudanças recentes na legislação brasileira (Brasil, 1998, pp. 1-115) sobre proteção de cultivares, estão gerando um aumento significativo em investimentos em pesquisa agrícola, no sentido de desenvolver novas cultivares adaptadas às diferentes condições agroecológicas e que, ao mesmo tempo, atendam as exigências do mercado consumidor. Atualmente os programas de melhoramento estão necessitando um volume crescente de informações sobre o desempenho das cultivares, através de avaliações em um número cada vez maior de locais e regiões. Isso fez com que a FAPEAGRO e outras entidades do Terceiro Setor já estejam coordenando redes de ensaios regionais de avaliação de cultivares de espécies de interesse econômico e social, onde além de materiais de empresas privadas, participam também os provenientes da pesquisa oficial. Os resultados desses trabalhos, além de fornecerem subsídios para as indicações de cultivares em diferentes regiões, têm se constituído em excelente instrumento para a extensão rural, bem como para direcionar a comercialização de sementes. Outro aspecto interessante, é que a presença das fundações na gestão e na execução dessas atividades, além de contribuir, em muitas situações, para reduzir os custos dos trabalhos, tem sido bem aceita, principalmente pela neutralidade que assumem em todo o processo, aumentando a credibilidade dos resultados.
Outra tendência observada é a terceirização de alguns setores de empresas do setor agropecuário, aumentando a contratação de prestação de serviços através de fundações e instituições afins, por meio de projetos específicos e com equipes altamente qualificadas,
graças à maior flexibilidade que essas entidades possuem para contratação de pessoal técnico e gerenciamento dos recursos alocados.
8 Conclusões
As informações obtidas permitem concluir que entidades como a analisada vêm proporcionando maior agilidade nos processos de obtenção de inovações tecnológicas, otimizando recursos humanos e financeiros e, possibilitando, ao setor produtivo do Agronegócio, a ampliação dos benefícios provenientes de trabalhos cooperativos com entidades públicas de pesquisa agropecuária. Nesse contexto, é possível inferir que a evolução no número de fundações e entidades afins decorre da identificação, pelas empresas e IPPA’s, de que o atual cenário em que atuam não oferece soluções eficientes e eficazes para os problemas burocráticos, que ambos os grupos enfrentam quando decidem estabelecer parcerias.
No caso específico da FAPEAGRO, a pesquisa realizada junto aos dois grupos de usuários, evidenciou, de um modo geral, índices elevados de satisfação, ressaltando a importância do Terceiro Setor na gestão de processos tecnológicos e no papel de elo fundamental entre órgãos governamentais e empresas do setor produtivo. Ao lado dessa satisfação, identificou-se também alguma preocupação com o custo da intermediação dos recursos captados pelas IPPA’s através da execução de projetos contratados, o que sugere a necessidade da realização de estudos específicos sobre esse tema.
O estudo, ao avaliar um caso específico (a FAPEAGRO) e identificar alguns problemas metodológicos, sugere a necessidade de aperfeiçoamento do enfoque utilizado e sua aplicação a outras Fundações ou entidades assemelhadas, de forma a se aquilatar adequadamente se os conhecimentos gerados são ou não aplicáveis a outras situações similares.
Finalmente, resta ainda a preocupação dos autores quanto ao seu relacionamento institucional com as duas entidades mais diretamente enfocadas no estudo, já que os três estão vinculados funcionalmente com o IAPAR e dois participam da Diretoria da FAPEAGRO. Dessa forma o recomendável distanciamento em relação ao objeto de pesquisa não foi obedecido neste caso, o que, com certeza, deve ter influenciado as análises produzidas.
Espera-se, no entanto, que este trabalho, levando em conta as informações e os resultados obtidos, contenha parâmetros significativos que possam ser extrapolados para outras organizações semelhantes, podendo ser o precursor de outros estudos similares, com os devidos aperfeiçoamentos metodológicos, servindo ainda como base para pesquisas comparativas com outras fundações e entidades que tenham objetivos similares e estejam atuando no âmbito do Agronegócio.
9 Bibliografia utilizada
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ANEXO 1
QUESTIONÁRIO PESQUISADORES
|
Nº |
QUESTÕES |
NÍVEL DE CONCORDÂNCIA Concordo Totalmente < = > Discordo Totalmente |
||||
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1 |
A FAPEAGRO ampliou as oportunidades de prestação de serviços tecnológicos a empresas. |
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2 |
Os contratos de prestação de serviços tecnológicos através da FAPEAGRO proporcionaram maior agilidade na execução dos projetos. |
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3 |
O custo da intermediação de contratos via FAPEAGRO provoca sensível redução nos recursos disponíveis para as instituições de pesquisa. |
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4 |
As empresas com as quais desenvolvi projetos intermediados pela FAPEAGRO consideraram o trabalho da Fundação positivo. |
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5 |
Meu relacionamento com a FAPEAGRO na execução de projetos e atividades tem sido bom e eu recomendaria a outros colegas pesquisadores que participassem de trabalhos através da Fundação. |
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ANEXO 2
QUESTIONÁRIO EMPRESAS
|
Nº |
QUESTÕES |
NÍVEL DE CONCORDÂNCIA Concordo Totalmente < = > Discordo Totalmente |
||||
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1 |
A intermediação da FAPEAGRO junto aos Institutos de Pesquisa acrescenta custos desnecessários aos contratos. |
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|
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|
2 |
A FAPEAGRO tem garantido o nível de qualidade técnica na prestação de serviços tecnológicos que agencia junto aos Institutos de Pesquisa. |
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3 |
A intermediação da FAPEAGRO junto aos Institutos Públicos de Pesquisa Agropecuária contribui significativamente para a redução dos entraves burocráticos às parcerias com as Empresas. |
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4 |
Os serviços intermediados pela FAPEAGRO têm sido muito importantes para o processo de inovação tecnológica de minha empresa. |
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5 |
Minha empresa está plenamente satisfeita com os serviços prestados pela FAPEAGRO e os recomendaria a outros interessados. |
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