Tânia Bacelar de Araújo é economista, Profa. do Departamento de Economia da UFPE

 

·=· SERIDÓ : UMA REGIÃO VIÁVEL ·=·
Tânia Bacelar de Araújo

Localizada em pleno Semi - Árido, em área de solos de baixíssima fertilidade (salvo os escassos aluviões) , a região do Seridó está submetida a regime de escassez e desigual distribuição de chuvas . Apesar dessa restrição do quadro natural, vivem no Seridó do Rio Grande do Norte quase 300 mil pessoas, 11% da população estadual . A urbanização, processo que se acelerou nos anos recentes, colocou nas cidades 68% dos seridoenses , embora na Serras Centrais, de clima mais ameno, mais da metade da população (52%) viva na zona rural.

A pecuária foi sua primeira grande atividade econômica. Ela fez do Seridó uma das retaguardas do povoamento das Capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, no momento inicial da ocupação econômica e demográfica do Nordeste . O algodão veio bem mais tarde, e se consorciou com as lavouras alimentares, nas terras mais férteis. A mineração, que se expandiu nos anos 30/40 do século atual , constituiu outra importante fonte de expansão econômica da região. A exploração da Tantalita, do Berilo, da Scheelita e da Cassiterita gerou riquezas e empregos, importou e criou tecnologias, tornou a região conhecida e ampliou sua participação na vida política norte riograndense. Foi esse o tripé básico da estruturação do espaço econômico do Seridó.

Nos anos 80, a crise da economia algodoeira, que afetou também a rentabilidade da pecuária, coincidiu com a da economia mineradora. Ruíram, a um só tempo, os pilares da economia regional. A partir daí, as atividades tradicionais, as que produziram riqueza e poder na região, apresentam pouco dinamismo .

Quem ouvisse esse diagnóstico, esperaria encontrar uma região desalentada, imersa em sua própria crise. Perplexa e sem rumo. Mas não é assim.

A sociedade seridoense enfrentou a crise e hoje pode dizer que vive numa região cuja economia encontra-se em franco processo de reestruturação. Uma das principais, senão a principal bacia leiteira do Estado, consolida-se no Seridó, aproveitando a oportunidade aberta pelo apoio concedido pelo "Programa do Leite", e a caprino-ovinocultura regional encontra-se em nítido processo de ampliação e modernização. Por sua vez, a cajucultura de base orgânica - valorizada hoje o mercado mundial - se expande, ao lado da produção de outras frutas, ao mesmo tempo em que se promove a recuperação dos cajuerais mais antigos.

Também se fortalece a agroindústria ( sobretudo com derivados de produtos de origem animal) - em bases artesanais e modernas -, ao mesmo tempo em que expande-se a indústria em geral e se mantém o ritmo do comércio e dos serviços. A iniciativa local vem promovendo o desenvolvimento de pequenas e médias unidades manufatureiras , como padarias, indústrias de processamento de mandioca, couro, café, tintas, leite, entre outras .

Destaque especial merecem a indústria cerâmica e a de confecções. No segmento cerâmico, cerca de 80 estabelecimentos dedicam-se à produção de telhas e tijolos , com uma produção anual de cerca de 555 mil milheiros desses dois produtos, segundo pesquisa recente feita pelo SEBRAE-RN. Trata-se de negócio típico de pequenas empresas, posto que 57% dos estabelecimentos têm menos de 30 empregados. Estima-se que o segmento emprega, junto com as olarias , cerca de 4500 pessoas , ou 5% da PEA regional. Essa atividade apresenta bom padrão de competitividade , tanto que cerca de 70% da produção gerada no Seridó se destinam a atender demanda de outros estados do Nordeste.

No segmento de confecções, a bonelaria merece referência especial. Distribuídas em vários municípios, mais de 50 bonelarias se consolidaram e conquistaram mercados dentro e fora do estado, com aumento na produção, particularmente nos períodos pré eleitorais. Empresas de grande porte e de marcas famosas sub-contratam as pequenas unidades de produção da região para a fabricação de bonés .

Outra atividade importante é , sem dúvida, o artesanato, constituído principalmente de bordados, rendas, além do artesanato em fibras vegetais , cerâmicas decorativas e produtos alimentares. Dentre eles, os mais conhecidos - os bordados de Caicó - fabricados, na maior parte, em Timbaúba dos Batistas, tornaram-se famosos dentro e fora do estado, sendo encontrados em lojas de todo o país.

O comércio caminha a braços dados com a indústria. Está relacionado à distribuição de alimentos, de remédios, de autopeças, de veículos, de materiais de construção e de atividades ligadas ao dia-a-dia urbano. O comércio de insumos agrícolas também apresenta peso considerável. Essas atividades são fortemente afetadas pelas festas das padroeiras das principais cidades da região. Além do turismo ligado às festas religiosas,vem se dinamizando o ecoturismo, baseado no potencial - ainda pouco explorado - oferecido pelos açudes (de maior porte) existentes na região.

A informática já marca visível presença nos negócios do Seridó. Há empresas ligadas ao setor agropecuário que utilizam computadores e softwares, destinados à melhora da gestão e ao aumento do rendimento de suas atividades. E essa presença é ainda mais acentuada na indústria, no comércio e nos serviços. Profissionais autônomos também fazem uso das novas tecnologias , como os que se acham ligados aos centros universitários existentes na região ou aos negócios, em cidades como Caicó e Currais Novos.

Além disso, o Seridó tem um potencial atualmente muito valorizado : a fama da qualidade de seus produtos. Tanto que a produção de outras regiões usa a "marca Seridó" para se viabilizar junto aos consumidores.

Se a natureza não dotou a região de abundância em água e terra fértil, a sociedade que aí se desenvolveu é constituída de pessoas que sempre valorizaram a educação, que têm iniciativa, que são solidárias entre si, que sabem se organizar para conquistar o que julgam importante, que não se deixam abater pelas adversidades. Um povo com uma cultura muito especial, que sabe construir seus próprios caminhos, que sabe o que quer . Com tanto potencial e tantas possibilidades , essa é, sem dúvida, uma região viável.

Promoção
     Instituto de Pesquisas Sociais - INPSO, da FJN
     Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da UFPE
     Núcleo de Estudos Estratégicos - NEST, da UFPE

Apoio
     Prefeitura da Cidade do Recife
     UNESCO