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Pedro Eugênio é deputado federal - PT/PE e preside a Frente Parlamentar pelo Desenvolvimento do Norte e Nordeste da Câmara dos Deputados
Artigo Publicado no Jornal do Commercio no dia 05 de setembro de 2001
publicado no Observanordeste em |
:.:: O FIM DO NORDESTE? ::.:
Pedro Eugênio
A extinção da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) encerra muitas lições que devemos incorporar hoje para melhor agirmos. A primeira diz respeito ao processo de destruição do Nordeste. Uma região, para ser digna deste nome, tem que ter, antes de tudo, uma identidade de pensamento. Seus moradores devem ter o sentimento de "cidadania regional". Para isto, é necessário construir-se a "solidariedade dos que estão no mesmo barco". Aquele sentimento de que, para progredirmos como gente, temos que, juntos, fazermos este espaço avançar, social, política e economicamente. E de uma forma que integre a todos que, nesta embarcação chamada Nordeste, fazem a travessia da vida. Este sentimento, que existiu no passado, pelo menos em alguma extensão, tem se diluído cada vez mais. As antigas lutas sociais, anticolonialistas, abolicionistas, republicanas, antilatifundiárias, democratizantes, foram dando ao Nordeste o sentido de terra irredenta, libertária. Mas, as oligarquias dos sertões e das matas sempre dominaram o dia-a-dia. Por outro lado, a urbanização nos colocou mais uma vez na vanguarda quando, em ampla frente, construímos avançada política de desenvolvimento regional, de que foi símbolo e instrumento a Sudene. A industrialização dos anos 70 nos tornou contemporâneos da modernização conservadora que alavancou o desenvolvimento nacional. E o mito do desenvolvimento pelo desenvolvimento ou "fazer o bolo crescer para depois cortar as fatias", caiu por terra quando o crescimento regional ainda nos manteve largamente apartados dos índices sociais e econômicos do centro dinâmico do país. Economia nacional mais integrada, o Nordeste entrou nas décadas perdidas sem um projeto próprio. Não se formou uma elite - nem do lado do capital nem do trabalho - capaz de formular tal projeto. Nem a intelectualidade das universidades e centros de pesquisa e dos movimentos culturais logrou fazê-lo. E como, a partir de seu próprio umbigo? O Nordeste integrou-se ao centro e ao mundo de forma fragmentária. Salvo algumas exceções, nossa riquíssima cultura permanece ilhada em seu próprio espaço de manifestação, sem objeto político a exaltar e enriquecer. Por isso deram um tiro fatal na Sudene, vendendo a mentira de que estava sendo substituída por uma agência de desenvolvimento "mais enxuta e ágil", quando verificamos que ela sequer está definida em suas funções e estrutura. Tanto que dois absurdos aconteceram, na cara dos governadores, prefeitos, parlamentares, empresários e povo em geral, como um deboche final a dizer: vocês estão mortos! O primeiro diz respeito aos recursos que empresas idôneas receberiam da Sudene para concluir seus projetos. As medidas provisórias do governo federal acabaram com os mecanismos de transferências, e mais de duas centenas, pelo menos, de empreendimentos, estão ameaçados; alguns já fecharam as portas. É quebra de contrato, calote. O segundo diz respeito às transferências dos funcionários da Sudene para outros órgãos federais. Antes mesmo de um novo organograma, antes que as medidas provisórias - que estamos contestando na Câmara Federal - sejam votadas; em pleno processo de negociação que lideranças políticas da região tentam estabelecer com o Executivo Federal, o Governo Federal transfere centenas de servidores para outros órgãos federais. Entre eles, doentes em tratamento, pessoal em condições de aposentar-se, gente que solicitou até ser transferida para um órgão, e sem ser ouvida, foi para outro, deixando o órgão quase sem contabilistas e economistas. E, por fim, no velho estilo autoritário, tratou-se de transferir os líderes do movimento que pedia a volta da Sudene, mas não como antes, e sim, sua volta com moralização e restauração em um novo modelo que as forças vivas da região e do país pudessem democraticamente parir; tudo como forma suprema de incompetência ou de vontade política de humilhar. Humilhar aos servidores? Não apenas. Se foi para humilhar, foi a todos nós, nordestinos. Para cuspir na cara dos governadores; para dizer aos parlamentares: vocês não têm força política! Para dizer aos nordestinos: o Nordeste acabou. E terá acabado, sim, se nossos interesses específicos, dos municípios, dos estados, dos pequenos e grandes negócios, da produção familiar e da capitalista, dos trabalhadores e intelectuais, não couberem mais em um projeto regional unificador. Mesmo assim, a transição para um projeto nacional teria que se dar em um contexto de respeito e dignidade. Não está havendo respeito, temo, por que também não há um projeto nacional. Neste sentido, o fim do Nordeste anuncia o fim do Brasil.
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Promoção Instituto de Pesquisas Sociais - INPSO, da FJN Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da UFPE Núcleo de Estudos Estratégicos - NEST, da UFPE
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