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Délio Mendesrprofessor Dr. do Departamento de Sociologia da Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP
Este texto foi originalmente
publicado na Revista Política Democrática, Brasília,
Ano 1, n.2, p.191-197, 2001.
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·:·MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO - A
DE TODOS
·:·
Délio Mendes
Para o mundo intelectual brasileiro entrou em encantamento um dos seus principais pensadores. E se encantou em plena produção, no seu momento mais fértil. Produzia uma crítica à globalização considerando que a mesma tem sido levada a efeito do ponto de vista do capital financeiro. Propunha uma outra globalização. Intelectual estudioso do espaço e do tempo, compreendeu, em seu tempo, o espaço como produção do homem na relação com a totalidade da natureza e a intermediação da técnica. Técnica que corresponde a um tempo determinado pela produção dos homens. Homem do seu tempo, Milton Santos se fez presente em todos os grandes embates intelectuais da última metade do século passado. O seu tempo e o seu espaço foram o tempo e o espaço da globalização. Que ele queria que fosse outra. Ou melhor, a outra, a globalização de todos os excluídos, resgatados em uma sinfonia de humanização. Milton se fez maestro da paz e da felicidade. Felicidade de todos. Buscou uma globalização que unisse todas as mulheres e todos os homens, sob égide do encontro.
Conheci Milton, no Recife, em 1978, quando
estava às voltas com Pobreza urbana. Inovava ao compreender o
mundo formal e informal, como duas faces de um circuito comandado desde a
acumulação ampliada do
capital.[1] Inovava e
agitava. Milton era, sobretudo, um agitador. Agitador de idéias, no
melhor sentido de um intelectual da sua estatura. Avesso aos partidarismos,
falava da isenção do intelectual para exercitar a crítica.
Por isso, sempre esteve radicalmente ao lado do seu povo. Em Pobreza
urbana se faz crítico de um debate sobre a desigualdade que se
presta, mais e muito mais, à louvação mesquinha de
intelectuais vazios entre si, do que a colocação correta e
crítica dos grandes problemas da exclusão.
“Indubitavelmente, o tom de certos trabalhos, nos quais o jogo conhecido
das referências recíprocas entre autores "freqüentemente
substitui uma análise dos fatos, tem contribuído para a
perpetuação do debate, que, embora pretenda atacar o problema em
profundidade, perde-se numa guerrilha semântica
confusa.”[2] Esta
crítica direta acompanha uma análise da produção
intelectual da pobreza que, segundo Milton, pouco tinha contribuído para
a resolução dos problemas da pobreza. Para este jogo de vaidades
não se contava com a sua participação.
A história do homem, compreendida
como a história da superação, faz do autor de Pobreza
urbana, um profeta da evolução. “A história do
homem sobre a terra é a história de uma ruptura progressiva entre
o homem e o entorno. Esse processo se acelera quando, praticamente ao mesmo
tempo, o homem se descobre como indivíduo e inicia a
mecanização do Planeta, armando-se de novos instrumentos para
poder dominá-lo. A natureza artificializada marca uma grande
mudança na história da natureza humana. Hoje, com a
tecnociência, alcançamos o estágio supremo dessa
evolução.”[3]
A visão da técnica, do espaço e do tempo, assume, nesta
compreensão, um caráter inovador, na medida em que passa a
apreender a dimensão da história, da história de
temporalidades técnicas que permite produzir uma sociedade determinada,
empregando, de acordo com a técnica predominante, uma certa quantidade de
trabalho humano. Milton abre o conceito de território, mostrando-o como o
lugar do drama social “Bom, há nessa desordem a oportunidade
intelectual de nos deixar ver como o território revela o drama da
nação, porque ele é, eu creio, muito mais visível
através do território do que por intermédio de qualquer
outra instância da sociedade. A minha impressão é que o
território, revela as contradições muito mais
fortemente.”[4]
Da relação técnica, espaço e tempo, revela-se a
história, ou melhor, uma outra história, no palco iluminado
expresso no território. Esta outra história aponta para as
desigualdades. Faz emergir a exclusão da maioria da
população concentrada em um território degradado, onde
pobres de todas as naturezas lutam contra todos os
carecimentos.
Milton se mostra mais crítico no
livro recente Por uma outra globalização - do pensamento
único à consciência
universal[5],
onde nos aponta para um mundo de difícil percepção por
conta da confusão reinante que nos tem levado à perplexidade.
Portanto, toma para análise a realidade relacional do ser humano, e a
esta realidade relacional perversa atribui os males revelados pelo
território. Não aceita explicações mecanicistas pelo
seu caráter insuficiente. Atribuindo ao desenrolar da história,
capitaneada por determinados segmentos da sociedade, os males que tornam
difícil a vida da maioria das mulheres e dos homens. Coloca na base deste
processo confuso a tirania do dinheiro e da informação, transcende
a Marx, e o dinheiro passa a produzir dinheiro, dominando o mundo da
produção de mercadorias. Especulação,
financeirização. A globalização é feita
menor, sob a égide dos bancos e dos banqueiros, criando uma
fábrica de perversidades. “O desemprego crescente torna-se
crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade
de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se
generalizam em todos os
continentes.”[6]
Caminhando no terreno da mais valia global,
Por uma outra globalização apreende o papel dos
intelectuais. Todos trabalhando a ampliação desta mais valia.
Trabalhando para ampliar a produtividade como se este fosse um trabalho
abstrato, e não a produção de urna vantagem para o
capital.[7] É
preciso reconhecer este momento e a sua peculiaridade. A de ser um momento para
o capital. E todas as ações movem-se na direção do
reproduzir para os ricos. Entretanto, se esta é uma
constatação, não é, felizmente, uma fatalidade.
Milton nos aponta para um outro conhecimento. Para a possibilidade de conhecer,
para a liberdade do ser humano. Para modificar o mundo. Para que o conhecimento
se produza no interior da crítica, sem abstrações
alienantes, sem reconhecimentos incompletos que produzem falsas
compreensões e encobrem os verdadeiros dramas sociais. E assim, pode-se
evitar a espera para que cresça o bolo, evitando a
indigência de uma quantidade grande de seres humanos.
É o início de uma outra
cognoscibilidade do planeta. Um planeta que conta com todas as possibilidades de
ser desvendado. Mas, nem sempre o conhecer é possível. A
informação nem sempre se propõe a informar, e sim a
convencer acerca das possibilidades e das vantagens das mercadorias. "O que
é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma
informação manipulada que, em lugar de esclarecer,
confunde.”[8] A
contradição se faz e se refaz na impossibilidade de se produzir,
de imediato, uma informação libertadora. A alienação
é a face que brota aguda da globalização financeira, da
globalização do dinheiro. Encanta-se o mundo. O princípio e
o fim são o discurso e a retórica. Então o que fica para o
ser comum é a farsa do consumo. Não há referência
à transformação do espaço e do tempo. O homem
consumidor caminha no espaço do desconhecimento do mundo relacional e do
falso e alardeado conhecimento do mundo das mercadorias. O fetiche, como e desde
sempre, se realiza no ocultamento do valor de troca e no falso evidenciamento do
valor de uso. É a utilidade que aparece, e que é proclamada em
todo o universo informacional. Fala-se ao peito sangrando das mulheres e homens
que não são consumidores. Para a competitividade, tem-se de chamar
os consumidores, tem-se que oferecer o melhor, o mais barato, produzido desde a
produtividade aumentada pelo trabalho dos intelectuais. Tudo para melhorar a
competitividade.
Para Milton, a competitividade é
ausência de compaixão. Tem a guerra como norma, e privilegia sempre
os mais fortes em detrimento dos mais fracos. Busca fôlego na economia e
despreza os que pensam mais para além. "Para tudo isso, também
contribuiu a perda da influência da filosofia na formulação
das ciências sociais, cuja interdisciplinaridade acaba por buscar
inspiração na
economia.”[9]
Esta é uma das mais importantes reflexões levadas a efeito no
interior de Por uma outra, na medida em que coloca um ponto focal que
não é localizado costumeiramente no campo da ideologia. Cientistas
sociais dos mais diferentes matizes sucumbem aos encantos da facilidade dos
números e do falso realismo de uma formulação
econômica ideologizada, que esquece os seres humanos e os substitui pelas
equações e as tabelas estatísticas que ilusionam os
dirigentes e metem medo a todos os que não querem padecer no inferno
apontado pelos proclamadores da nova única. Se não aceitas as
premissas e as evidências das projeções estatísticas
da nova única, serás responsável pelo caos que há de
vir.
Empobrece a ciência social em geral,
nada para além da numerologia estatística. Investir nos setores
sociais acarreta um custo que o capital não se propõe a pagar, e a
ciência se curva, entra em letargia, deixa o mundo nas mãos dos
economistas que vão levá-lo adiante de mãos com a
lógica da relação produto capital e da competitividade. A
ciência humana se faz pobre para interpretar um mundo confuso e conturbado
e, desde logo, tudo a ciência econômica. Este enfoque modernoso
atinge por caminhos nunca dantes navegados a maioria das falas e dos discursos.
Grandes farsas são inventadas e reinventadas. O privilégio
continua privilegiando o privilegiado. "Os atores mais poderosos se reservam os
melhores pedaços do
território.”[10]
Inclusive do território do pensar para impedir o pensar. Apoderam-se das
mentes e dos corações e, por conseqüência, das vidas no
pleno movimento da vivência. Tudo isto no mundo da competitividade. A
competitividade revela a essência do território, os lugares apontam
para as lutas sociais, trazendo a tona virtudes e fraquezas dos atores da vida
política e da sociedade.
A cidadania se torna menor do que sua
percepção. O cidadão pretende transcender o seu
espaço primitivo. Todavia, o mundo, expresso desigualmente, não
tem como regular os lugares em suas diversidades e, por conseqüência,
a cidadania se faz menor. A desigualdade aponta a impossibilidade da
generalização da cidadania. O espaço é
esquizofrênico na expressão da exclusão social. Uns homens
sentem-se mais cidadãos do que outros. Mas estes homens são apenas
consumidores, pois a cidadania depende de sua generalização.
Não existem cidadãos num mundo apartado. Não se é
cidadão em um espaço onde todos não o são.
São consumidores os que expressam direitos e deveres no âmbito do
mercado e não no âmbito do espaço público, onde a
política é realizada e o poder distribuído. Portanto, este
é um mundo de alguns consumidores e poucos, pouquíssimos
cidadãos. É preciso construir a cidadania.
A transição
(conclusão)
O novo nasce sem que se perceba. Quase na
sombra, o mundo muda de maneira imperceptível, todavia constante. Neste
início de século, temos a consciência de que estamos vivendo
uma nova realidade. As transformações atuais colocam os homens em
permanente estado de perplexidade. A poluição e a
desertificação se alastram, a super população e as
tecno-epidemias etc., tornam o mundo diverso negativamente. A pobreza e a
desigualdade, são produtos desta forma da produção do modo
civilizatório capitalista. Este novo apresenta diferentes faces. Tudo
isto como conseqüência da desestruturação da ordem
industrial. O atual período histórico não é apenas a
continuação do capitalismo ocidental, é mais. Melhor,
é muito mais, é a transição para uma nova
civilização. Esta transição que está em curso
é preocupante para determinadas sociedades, desprotegidas na guerra das
nações pela primazia na história
Milton chama atenção para
esta realidade. "No caso do mundo atual, temos a consciência de viver um
novo período, mas o novo que mais facilmente apreende-se diz respeito
à utilização de formidáveis recursos da
técnica e da ciência pelas novas formas do grande capital, apoiado
por formas institucionais igualmente novas. Não se pode dizer que a
globalização seja, semelhante às ondas anteriores, nem
mesmo uma continuação do que havia antes, exatamente porque as
condições de sua realização mudaram radicalmente.
É somente agora que a humanidade está podendo contar com essa nova
realidade técnica, providenciada pelo que se está chamando de
técnica informacional. Chegamos a um outro século e o homem, por
meio dos avanços da ciência, produz um sistema de técnicas
da informação. Estas passam a exercer um papel de elo entre as
demais, unindo-as e assegurando a presença planetária desse novo
sistema técnico."[11]
É necessário, para
compreender esse novo, o conhecimento de dois elementos fundamentais na
formação social das nações: a formação
técnica e a formação política. Uma permite a
compreensão dos elementos tecnológicos que formam as
composições necessárias à produção, e
a outra indica que setores serão privilegiados com a
organização possível da produção. “Na
prática social, sistemas técnicos e sistemas políticos se
confundem e é por meio das combinações então
possíveis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a
história e a geografia se fazem e refazem
continuamente.”[12]
Desde esta compreensão, esta nova sociedade pode, inclusive, abrir
uma nova época com a colocação de um novo paradigma social.
Este paradigma pode ser posto como: a superação da
nação ativa pela nação passiva.
Ou melhor, voltando ao velho Marx: a
nação em si é superada pela nação para
si. Para isto, é necessário que o velho/novo mundo
periférico retome um projeto político de independência, fora
dos moldes de projetos como o Mercosul, que nada mais representam do que a
dependência em bloco, na medida em que este tipo de
associação só serve à subserviência coletiva,
levando grupos de países periféricos a deixar de submeterem-se
isoladamente, para cair em bloco nos ardis do capital
financeiro. Finalmente, utilizando a dialética
como referência, Milton mostra a batalha travada entre a
nação passiva e a nação ativa, em uma
transição política que envolve todos os espaços do
viver, desde o espaço da vida cotidiana. A nação ativa,
ligada aos interesses da globalização perversa, nada cria, nada
contribui para a formação do mundo da felicidade, ao
contrário da outra nação dita passiva que, a cada momento,
cria e recria, em condições adversas, o novo jeito de produzir
o espaço social, mostrando que a atual forma de
globalização não é irreversível e a utopia
é pertinente. ” É somente a partir dessa
constatação, fundada na história real do nosso tempo, que
se torna possível retomar, de maneira concreta, a idéia de utopia
e de
projeto.”[13]
Desde esta compreensão, a globalização é um projeto
irreversível da humanidade. Entretanto, não é esta a
globalização desejada, e sim uma outra, a de
todos.
Sobre o livro: SANTOS,
Milton. Por uma outra globalização - do
pensamento único à consciência universal.
São Pauto: Record, 2000.
[1]SANTOS,
Milton (1978) Pobreza urbana, Hucitec/UFPE/CNPU, São Paulo,
Recife. [2]SANTOS,
Milton, Pobreza urbana, op. cit. p.29.
[3]SANTOS,
Milton (1994), Técnica espaço tempo, Hucitec, São
Paulo, p. 17.
[4]SANTOS,
Milton (2000) Entrevista com SEABRA, Odete, CARVALHO, Mônica e LEITE,
José Corrêa, Editora Fundação Perseu Abramo,
São Paulo, p. 21.
[5]SANTOS,
Milton (2000) Por uma outra globalização - do pensamento
único à consciência universal, Record, São
Paulo.
[6]SANTOS,
Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit.
p. 19
[7]SANTOS,
Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 31
[8]SANTOS,
Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p.
39
[9]SANTOS,
Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p.
47
[10]
SANTOS, Milton (2000) Por uma outra
globalização - op. cit. p. 79.
[11]
SANTOS, Milton (2000) Por uma outra
globalização - op. cit. p. 142.
[12]
SANTOS, Milton (2000) Por uma outra
globalização - op. cit. p. 142
[13]
SANTOS, Milton (2000) Por uma outra
globalização - op. cit. p. 160
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