·-· Celso Furtado ·-·

A importância da obra de Celso Furtado está para a economia latino-americana, assim como a obra de John Maynard Keynes está para a economia mundial no século XX. A riqueza dos aportes teóricos, o compromisso histórico com a luta contra as desigualdades entre as economias centrais e periféricas, contra as injustiças sociais, fazem de suas reflexões, leituras indispensáveis para qualquer análise séria do desenvolvimento econômico na periferia do sistema capitalista.

O Observanordeste selecionou alguns trechos onde a clareza de raciocínio, a elegância formal, o compromisso com os problemas de seu tempo, a atualidade e mesmo a antecipação histórica se fazem presentes:

Criatividade e Dependência na Civilização Industrial, p.9 . São Paulo:Círculo do Livro, (1978).
"A inusitada expansão da economia mundial, que caracterizou o terceiro quartel do presente século, pôs em evidência duas ordens de problemas que na evolução anterior da civilização industrial haviam permanecido na sombra. A primeira concerne ao comportamento de conjunto da economia internacional : a fiabilidade dos centros de decisão responsáveis por sua coordenação, à origem e propagação de processos desestabilizadores das economias nacionais, à legitimidade do poder que exercem os agentes que se apropriam do excedente gerado pelas transações internacionais e que comandam a crescente concentração geográfica de renda e da riqueza. A segunda ordem de problemas diz respeito às conseqüências dentro das economias nacionais, da crescente complexidade da trama de relações internacionais, tidas em conta as formas particulares de inserção no sistema de divisão internacional do trabalho".

Criatividade e Dependência na Civilização Industrial, p.83 São Paulo: Círculo do Livro. (1978)
"A carreira armamentista tem permitido aos Estados Unidos financiar, sem sobrecarregar financeiramente as empresas, vultosos gastos em "pesquisa e desenvolvimento" , o que conduziu a um aumento substancial e permanente da participação dessa forma invisível de acumulação na utilização final do excedente. Introduziu-se, assim, uma modificação estrutural na economia norte-americana, graças à qual esta habilitou-se para exercer mais eficazmente a liderança tecnológica da civilização industrial. Sobra acrescentar que esse cambio de estrutura transformou os gastos militares num elemento essencial do sistema econômico".

Pequena Introdução ao Desenvolvimento. Enfoque Interdisciplinar. p.18. São Paulo: Editora Nacional (1980).
"O aumento da eficácia do sistema de produção - comumente apresentada como indicador principal do desenvolvimento - não é condição suficiente para que sejam melhor satisfeitas as necessidades elementares da população. Tem-se mesmo observado a degradação das condições de vida de uma massa populacional como conseqüência da introdução de técnicas mais sofisticadas (...) A subordinação da inventividade técnica aos interesses de reprodução de uma sociedade fortemente inigualitária e de elevado potencial de acumulação constitui a causa de alguns dos aspectos paradoxais da civilização contemporânea. É bem sabido que, mesmo nos países em que mais avançou o processo de acumulação, parte da população não alcança o nível de renda real necessária para satisfazer o que se considera como sendo necessidades elementares".

Brasil: A Construção Interrompida. P. 85. São Paulo: Paz e Terra (1992).
" Em poucas áreas do mundo a relação homem/recursos naturais, inclusive solo e água para a agricultura, é tão favorável como entre nós. O que se pode esperar da ordem internacional é que ela não nos prive de autonomia para governanr- nos, autonomia seriamente comprometida a partir do momento em que as taxas de juros foram brutalmente elevadas em conseqüência do desequilíbrio financeiro do governo dos Estados unidos. As relações com esse país constituem, portanto, a trava básica da ação governamental no Brasil. E não esqueçamos que a dependência se faz mais custosa nas fases de declínio da potência dominante".

O Capitalismo Global. Pp.64:65. São Paulo: Paz e Terra.
" O desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização, deslocar o seu eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação num curto horizonte de tempo para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos. Devemos nos empenhar para que essa seja a tarefa maior dentre as que preocuparão os homens no correr do próximo século: estabelecer novas prioridades para a ação política em função de uma nova concepção do desenvolvimento, posto ao alcance de todos os povos e capaz de preservar o equilíbrio ecológico. O espantalho do subdesenvolvimento deve ser neutralizado. O principal objetivo da ação deixaria de ser a reprodução dos padrões de consumo das minorias abastadas para ser a satisfação das necessidades fundamentais do conjunto da população e a educação concebida como desenvolvimento das potencialidades humanas nos planos ético, estético e da ação solidária. A criatividade humana, hoje orientada de forma obsessiva para a inovação técnica a serviço da acumulação econômica e do poder militar, seria reorientada para a busca do bem-estar coletivo, concebido este como a realização das potencialidades dos indivíduos e das comunidades vivendo solidariamente".

O Longo Amanhecer. Reflexões sobre a Formação do Brasil. P.26. São Paulo: Paz e Terra (1999).
" Em uma época de transição como a atual, o mais importante é preservar a margem de autonomia que nos permita utilizar o peso internacional do Brasil para mobilizar e coligar forças na defesa dos interesses de povos que lutam para preservar sua independência. A economia mundial é um sistema de poder engendrado historicamente, portanto, em transformação. Esse poder pode ser virtual: o caso do Brasil é típico pela diferença que existe entre o poder que permanece virtual e aquele que se realiza plenamente. Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser".

CELSO FURTADO E O SUBDESENVOLVIMENTO
a propósito da 10ª edição de Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico
Clóvis Cavalcanti*

Artigo completo em formato PDF (39kb)

* Economista ecológico, pesquisador social e Superintendente do Instituto de Pesquisas Sociais - INPSO da Fundação Joaquim Nabuco. Conselheiro Editorial do OBSERVANORDESTE.

Resumo

Uma releitura do que Celso Furtado escreveu sobre o subdesenvolvimento (anos 60) mostra claramente sua atualidade. Utilizando o raciocínio estruturalista e o método histórico, Furtado chega a conclusões do tipo: "o subdesenvolvimento é ... um processo histórico autônomo", não constituindo "uma etapa necessária ... de formação das economias capitalistas"; "a única tendência visível é para que os países subdesenvolvidos continuem a sê-lo"; "o desenvolvimento do século XX vem provocando uma concentração crescente da renda mundial", com "uma ampliação progressiva do fosso entre as regiões ricas e os países subdesenvolvidos"; "o subdesenvolvimento é a manifestação de complexas relações de dominação-dependência entre povos, [tendendo] a autoperpetuar-se sob formas cambiantes"; tudo isso requerendo "a tomada de consciência da dimensão política da situação de subdesenvolvimento", com a formação de "centros nacionais de decisão válidos".

Promoção
     Instituto de Pesquisas Sociais - INPSO, da FJN
     Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da UFPE
     Núcleo de Estudos Estratégicos - NEST, da UFPE

Apoio
     Prefeitura da Cidade do Recife
     UNESCO