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EDIÇÃO ESPECIAL · 1º de MAIO
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Rejane Medeiros é psicóloga, mestre em sociologia e pesquisadora da Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco. Membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia.
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::. O QUE HÁ PARA FESTEJAR?.::
Rejane Medeiros
A população brasileira celebra o 1º de maio como mais um feriado nacional: dia dedicado ao não-trabalho. Nada parece lembrar os reais motivos que levaram à instituição desta data como o DIA DO TRABALHADOR. Foram embates travados cotidianamente, dentro das unidades produtivas, e levados às ruas e praças, revelando uma capacidade organizativa em várias partes do mundo. As primeiras manifestações da classe operária pela redução da jornada de trabalho aconteceram em Manchester, Inglaterra, em 1819. O Governo atuou rapidamente, procurando sufocar os protestos, enviando tropas que dispararam tiros de canhão contra a multidão. A resistência dos explorados continuou, apesar das baixas, conseguindo, pouco a pouco, conquistas parciais que amenizavam a situação das crianças-operárias dentro das fábricas. Para os adultos, em 1847, foi aprovada uma lei que limitava, em dez horas, a jornada diária. Na França também aconteciam choques resultantes dos conflitos de interesses: os operários lutando contra a exploração sem limites e o patronato, junto com Governo, resistindo para não ceder às pressões. As reuniões para organizar o movimento por onze horas de trabalho foram consideradas uma incitação à desordem, já em 1830. No ano seguinte, no dia 1º de maio, na cidade de Bordeaux, os serradores destruíram as novas serras mecânicas, dando início a um secular processo de conflitos, decorrentes do descarte do braço humano no processo produtivo. Dezoito anos mais tarde, foram fuzilados três mil manifestantes e deportados quatro mil, como forma de tentar barrar o avanço da organização da mão-de-obra. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o mesmo tipo de mobilização expressava o descontentamento dos empregados nas indústrias americanas. Um dos momentos mais marcantes aconteceu em Chicago, em 1886, quando a cidade amanheceu paralisada. Era 1º de maio. Dois dias depois, como tentativa da elite dominante em barrar a marcha operária - por mais tempo para o descanso e para o estudo - a repressão policial foi convocada. A imprensa, o Governo e o patronato concentraram as suas críticas sobre os principais líderes, condenados à morte. Em 11 de novembro aconteceu a execução dos mártires: Albert Parsons, George Engel, Adolph Fischer, Louis Lingg e August Spies. Os protestos contra aquela injustiça continuaram. A sentença foi anulada, seis anos depois, permitindo a libertação dos presos, porém, tarde demais para os mortos. Não seriam os primeiros nem os últimos a perderem a própria vida em prol da causa operária. Mas, neste caso, o sangue dos cinco marcou para sempre a história dos trabalhadores, consolidando o dia 1º de maio como um dia de luta por melhores condições de vida, permanecendo até hoje como um marco para o operariado consciente da exploração diária dentro das unidades produtivas. Essa data foi referendada por delegados de vinte países, em Paris, em 1889, durante um Congresso Socialista. No Brasil, a situação não era diferente: reconhecendo a exploração a que eram submetidos os operários organizavam-se, protestavam e reivindicavam a diminuição das horas trabalhadas. Os patrões, respaldados pelo Governo, reprimiam ou distorciam o real significado do movimento proposto. Assim, no início do século passado, tanto a história registra casos de perseguições como de cooptações durante o 1º de maio. Em alguns momentos, os trabalhadores foram obrigados a comemorar a sua data em recinto fechado, clandestinamente; em outros, iludidos pela proposta patronal que patrocinava a festa, confraternizavam-se aceitando pequenos presentes, anulando o verdadeiro sentido daquele momento. O jornal da Confederação Operária Brasileira - COB, em 1909, discutia a dubiedade de postura diante do 1º de maio. Em um artigo intitulado "Festa ou Protesto?", a proposta é de que seja um dia de revolta contra a escravidão no trabalho, pois "festejar o trabalho na atual sociedade, seria o mesmo que festejar a nossa escravidão, a miséria que nos avassala, equivaleria a dizer que estamos contentes com esta corrente tirânica que nos oprime e satisfeitos com o jugo aniquilador que nos faz curvar sob o seu peso". Procurando desarticular a proposta inicial, da classe operária, de um dia de luta, o Presidente da República, Artur Bernardes, em 1924, instituiu o feriado nacional dedicado "à glorificação do trabalho ordeiro e útil". A polêmica suscitada pela COB, no início do século passado, continua atual. Em recente artigo, divulgado na internet, Waldemar Rossi, membro da coordenação da Pastoral Operária, em São Paulo, registra a sua opinião sobre a grande festa organizada pela Força Sindical: "procuram fazer com que o Dia do Trabalhador se transforme em mais um dia de alienação". Segundo dados divulgados pela imprensa, os gastos para o megaevento ficarão em torno de quatro milhões de reais, pagos pelos patrocinadores (Caixa Econômica Federal, Brahma, Embraer, Tam, Nestlé e outros). O sorteio de cinco apartamentos, dez automóveis novos e outros brindes, além da apresentação de vinte e três conjuntos de artistas, conhecidos nacionalmente, com certeza atrairão um grande público à cidade de São Paulo. A Central Única dos Trabalhadores - CUT, por sua vez, coloca, como objetivo principal dos eventos, organizados por ela, a discussão política. "Defendendo os direitos dos trabalhadores", os cutistas pretendem comemorar o 1º de maio por todo o país, aproveitando para discutir sobre o projeto de flexibilização da Consolidação das Leis Trabalhistas - CLT, apresentado pelo governo. Os custos ficarão a cargo dos sindicatos, sem patrocínio de empresas privadas. A precarização do trabalho no século XXI intensifica o debate e amplia o significado do dia, pois, com uma massa crescente de desempregados, como falar em festa? E para comemorar o quê? A legislação brasileira, que assegura direitos ao trabalhador, conquistados a duras penas, é, cada vez mais, ignorada pelos patrões. O trabalho informal continua a existir por todo o país. O Estatuto da Criança e o Adolescente, que proíbe o trabalho infantil, é desrespeitado, cotidianamente, para que muitas crianças garantam o alimento para a sua família. Diante deste quadro, o que há para festejar? Continua atual a proposta de um dia dedicado à luta dos que constróem a riqueza das nações. A perda de postos de trabalho e de poder aquisitivo deve ser uma preocupação para os que fazem o movimento sindical. A dificuldade em mobilizar a base não deve ser motivo para transformar em circo uma data marcada com o sangue dos mártires do movimento operário. Urge a necessidade de encontrar respostas para a apatia e para a crise, antes que os direitos, já conquistados, sejam confiscados da legalidade.
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Promoção Instituto de Pesquisas Sociais - INPSO, da FJN Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da UFPE Núcleo de Estudos Estratégicos - NEST, da UFPE
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