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AS ELEIÇÕES DE 2002 E SEUS SIGNIFICADOS
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Túlio Velho Barreto
Toda eleição suscita inúmeros balanços e análises, em especial quando é tão ampla como a de 2002. Aqui, procurarei expor, ainda que brevemente, quais os significados da vitória de Lula e da eleição em Pernambuco.
A Vitória de Lula e do PT
Sem dúvida alguma, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representa um fato sem precedente na história do Brasil, sobretudo se observarmos sua trajetória pessoal e política. Senão vejamos. Ainda criança, Lula deixou o Nordeste como retirante, cresceu na metrópole fazendo biscates, chegou à maioridade como operário metalúrgico e líder sindical e fundou, ainda durante a ditadura militar, um partido de classe, que lidera desde então. Agora, aos 57 anos, esse mesmo Lula se elegeu presidente da República, em um País que sempre foi governado pela elite, após obter uma das maiores votações absolutas já alcançada por um político em todo o mundo. E por nunca ter tido seu nome associado a outro partido, penso que essa vitória foi também uma vitória do PT, embora a votação pessoal de Lula tenha sido superior ao números de eleitores do partido. Inicialmente, são esses dois aspectos que abordarei.
Com efeito, a vitória de Lula pode ser entendida a partir da análise dos resultados das pesquisas de intenção de votos, feitas e divulgadas ainda antes do segundo turno. Nelas se verifica que o eleitor estava disposto a votar em Lula independente da região em que morava, de sua faixa etária, renda familiar, nível de instrução e sexo. Se comparados aos resultados de pesquisas realizadas às vésperas das eleições anteriores para presidente (1989, 94 e 98), que mostravam a preferência por Lula concentrada nas camadas sociais mais favorecidas da sociedade, esses dados nos mostram que, em 2002, Lula conquistou também os votos dos mais pobres, dos que possuem menor nível de escolaridade e renda familiar. Isto é, Lula passou a ser igualmente o candidato preferido por aqueles que, até então e curiosamente, o rejeitavam, talvez porque viam nele sobretudo o reflexo de uma imagem que sempre foi alvo do preconceito das elites: a sua própria. Agora, no entanto, a vontade de mudar superou todos os preconceitos contra o que Lula representa socialmente e o PT, politicamente.
Mas, como disse, o resultado geral das eleições significou também uma vitória do PT, apesar do pequeno número de governadores eleitos pelo partido, apenas três. Isto é, considerando os votos de todos os eleitores, pela primeira vez, desde que se estabeleceu a liberdade partidária no início dos anos 80, um partido que não teve origem no MDB ou na Arena (legendas criadas pelos militar no pós-64) foi o mais votado do País. O mesmo ocorre se forem consideradas apenas as disputas proporcionais, onde é possível medir melhor a identificação partidária do eleitor. Com isso, o PT passou a ter o maior número de deputados federais (91) e de estaduais (148). Isso não significa, é claro, que tenha alcançado maiorias nos legislativos federal e estaduais, mas que o PT, enfim, superou os sucedâneos do MDB (PMDB e PSDB) e da Arena/PDS (PFL). Vale a pena ressaltar que, em geral, esses partidos elegeram governadores ou o presidente da República para só depois crescer, ou melhor, "inchar", exclusivamente porque chegaram ao poder. É verdade que o PT cresceu ao se afastar de seus princípios socialistas, ao ampliar suas alianças à direita e após Lula moderar seu discurso, cumprindo, do ponto de vista histórico, uma trajetória semelhante à da social-democracia européia - embora, até aqui, tenha mantido seu perfil de partido de esquerda, identificado com os trabalhadores e os socialmente excluídos. Agora, só o tempo dirá se o PT (ou seu governo) avançará na direção do Estado de bem-estar social, realizando, enfim, a tão esperada e necessária inclusão social, ou se ficará restrito a políticas sociais compensatórias de alcance apenas emergencial. Mas, aí, já se trata do governo e não do significado da vitória eleitoral.
As Eleições em Pernambuco
Com relação a Pernambuco, pode-se dizer que a chamada "esquerda ampla" (na falta de outra expressão melhor, uso esta para designar as legendas de oposição a Jarbas Vasconcelos e a FHC), teve um crescimento real, em especial o PT. Assim, apesar da evidente derrota eleitoral no Estado, é possível dizer que houve uma vitória política da oposição. O percentual alcançado pela Frente de Esquerda (PT e aliados) é significativo quando se considera que o PT, por exemplo, ampliou sua representação política, elegendo cinco deputados estaduais e três federais, que ficaram entre os dez mais votados, enquanto a chapa da aliança PMDB/ PFL/ PSDB/PPB, encabeçada pelo governador Jarbas Vasconcelos, perdeu dez vagas na Assembléia Legislativa e três na Câmara Federal. Embora o percentual de 35 % pareça pouco expressivo, a oposição registrou um crescimento em relação às eleições anteriores, inclusive no interior do Estado. Esse número é ainda mais significativo considerando que a disputa foi contra uma liderança reconhecida e histórica, como Jarbas Vasconcelos, que buscava sua reeleição.
Outro fato relevante dessa eleição foi que, com ela, se pôs um fim na chamada "era Arraes". Até recentemente, o próprio PT reconhecia o ex-governador Miguel Arraes (PSB) como a principal liderança da "esquerda ampla" ou das "forças populares" em Pernambuco. Este ano, Arraes teve uma votação expressiva para deputado federal, apesar da derrota que sofreu para Jarbas Vasconcelos em 1998, quando teve mais de 1 milhão de votos de desvantagem. No entanto, agora, sua votação parece ter sido estritamente pessoal, não caracterizando um crescimento do PSB, que, de um modo geral, teve desempenho pífio. Assim, apesar da relevância eleitoral que Arraes continua tendo, nos últimos quatro anos ele (e o PSB) deixou de ser a principal referência nesse campo, o que resultou na ascensão do PT e de algumas de suas principais lideranças (João Paulo, Humberto Costa, Paulo Rubem Santiago, Fernando Ferro, Paulo Santana, Dilson Peixoto, Maurício Rands). Assim, um partido político passou a cumprir o papel antes reservado a uma pessoa, quase um mito, o que é bastante positivo.
Como conseqüência, a "mitologia política" no Estado foi colocada em xeque, embora não sem resistências. Por exemplo, a reeleição de Jarbas Vasconcelos pode contribuir para que essa tradição continue na medida em que ele procura posar de "grande administrador" sem que sua gestão justifique tal legenda. Para tanto, contribui a falta de uma oposição mais sistematicamente crítica ao desempenho do governador, inclusive por parte das lideranças petistas. Ao se transformar em governo, a "esquerda" ou as forças identificadas com os movimentos populares não podem esquecer que o ato de administrar não deixa de ter seu componente ideológico, quer dizer, um administrador é competente segundo determinados indicadores e valores. É preciso, então, observar "para quem" se administra: se para a maioria da população, os grotões de pobreza, para os excluídos, ou se para as elites.
Pensando nisso, nos próximos quatro anos, a oposição deve aproveitar o avanço que teve (e a expressiva vitória de Lula) para ser ainda mais crítica. E isso só será possível se essa crítica for politizada, se a questão ideológica for trazida à tona. Muito se fala que a questão ideológica não tem mais importância. No entanto, se se discute, como indiquei acima, "para quem" o Estado está sendo administrado e se essa administração está voltada sobretudo para combater a miséria, o desemprego e a violência, e outras relevantes questões sociais, a discussão será essencialmente política. Pois as opções do administrador resulta de sua história política, que não pode ser arquivada quando se chega ao governo. Portanto, a oposição, particularmente a esquerda, tem que privilegiar a discussão política sobre como colocar a administração pública municipal, estadual e federal a serviço da maioria da população, e não apenas de uma minoria privilegiada, e abandonar o discurso da competência administrativa sob pena de contribuir para despolitizar o debate e as críticas ao atual (e reeleito) governador de Pernambuco.