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AS ELEIÇÕES ESTADUAIS EM PERNAMBUCO
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Michel Zaidan Filho
Uma observação atenta sobre os resultados da maioria dos pleitos estaduais deste ano revela um desequilíbrio desconcertante, quando se compara a disputa sucessória em Pernambuco e Minas Gerais e nos demais Estados da Federação brasileira. O que teria acontecido para que as nossas eleições assumissem essa polarização antiga e atrasada entre um palanque superlotado de siglas e um outro visivelmente isolado e detentor da metade dos votos do primeiro colocado? Será que essa polarização reflete objetivamente o estado atual das nossas forças políticas no Estado, sobretudo depois das eleições municipais de 2000? Evidentemente que não. É indispensável aguçar o olhar analítico sobre as condições especiais desse pleito, para entender o significado dessas eleições. E, se possível, extrair algumas lições para o futuro.
Em primeiro lugar, vejamos o que saiu errado no cálculo das oposições. Estas forças políticas trabalharam com dois pressupostos: a saída do governador para integrar a chapa presidencial do senador José Serra, e a importância que teriam os governos municipais oposicionistas na alavancagem de uma candidatura de esquerda para o governo estadual. O primeiro pressuposto, correto em sua essência, era de que a saída do Sr. Jarbas Vasconcelos levaria à implosão de sua aliança política no Estado, dadas as inúmeras contradições existentes entre seus aliados (notoriamente, entre o apetite desmedido do Sr. Sérgio Guerra e o vice-governador de Pernambuco, Mendonça Filho).
A coalescência política que então se instalaria entre os partidos aliados do governador, pela disputa de sua sucessão, abriria um formidável espaço aumentando muito a competitividade das eleições. E, de fato, enquanto se manteve de pé a possibilidade da saída de Jarbas, os partidos de oposição ensaiaram várias candidaturas ao governo estadual. O recuo ou a desistência do governador, nunca esclarecido, precipitou uma polarização desigual, desestimulando outras candidaturas de peso e criando uma situação constrangedora para o pleito estadual. O outro pressuposto era que a vitória da oposição em vários colégios eleitorais importantes do Estado mudaria completamente o quadro político de Pernambuco. Infelizmente, essa expectativa não se confirmou. Ao invés de potenciar as chances e possibilidades de uma candidatura de centro-esquerda, suficientemente competitiva para enfrentar Jarbas ou outro candidato, as administrações municipais atrapalharam ou diminuíram essas chances, além de levar a uma fragmentação e fragilização do campo oposicionista.
Em segundo lugar, é de se lembrar o peso das eleições presidenciais e seus palanques estaduais e a malfadada lei da verticalização das coligações estaduais. Nunca será demais contabilizar o fator sobredeterminante do nacional sobre o local nesse tipo de eleição casada, que diminui a margem de manobra das candidaturas estaduais e impõe outras alianças, outros palanques. Contudo, mais grave foi o complicador introduzido pela lei da verticalização, concebida para depurar o quadro político-partidário a favor de certa candidatura, e que produziu um despedaçamento dos chamados partidos da "governabilidade" (PFL, PMDB, PSDB). O pequeno golpe perpetrado pelo ministro Nelson Jobim pode não ter ajudado ao seu amigo-candidato, mas contribuiu para esfarelar o já débil sistema partidário brasileiro, tendo reflexos inclusive sobre os demais partidos. Nunca se viu tamanho pragmatismo nas alianças eleitorais, cujo exemplo marcante é o de Pernambuco, com certeza. Quem vê de longe, pensa que se trata de um caso de unanimidade política. Quem conhece de perto, sabe que se trata de um jogo de espertos, arrivistas, adesistas, oportunistas, fisiológicos. Todos enrolados na bandeira de Pernambuco e entoando o hino, em versão pop ou carnavalesca, mas já pensando nos dividendos eleitorais desse patriotismo de fachada.
È de se perguntar quais são as conseqüências dessa involução do quadro político do Estado? A curto prazo: uma pressão política insuportável para a sociedade como um todo. A democracia não convive com esse tipo de dominação política tradicional, coronelística - embora com traços fascistas, manipulatórios. Espera-se um governo de ameaça às liberdades democráticas em Pernambuco. Pelo perfil autoritário do governador, ungido como imperador do norte, vai ser difícil fazer oposição em nosso Estado. A crítica e o livre debate de idéias serão criminalizados pelo governador. A imprensa também vai sofrer. E a cooptação de prefeitos, deputados, empresários, profissionais liberais e produtores culturais não conhecerá limites. Mas, a médio e longo prazo, a situação tende a mudar. Os múltiplos, heterogêneos e contraditórios interesses dessa "aliança" tendem a se conflitar entre si e com o seu fiador. Jarbas não terá mais os recursos da privatização para usar ao seu bel-prazer e administrar os conflitos de sua base fisiológica de alianças. Mais ainda, num contexto do ajuste fiscal rigoroso das contas públicas, que terá reflexo sobre os governos estaduais. Ainda por cima, presumindo-se a vitória de um presidente da oposição. Que fará a tríade dos cavaleiros da União por Pernambuco, dados como são ao clientelismo, para baixo e para cima, quando não contarem com um presidente amigo, disposto a negociar com os oligarcas estaduais e seus representantes no Congresso, que os ajude a liberar verbas, recursos, transferências, empréstimos, obras, etc.? Será a hora, então, de se fazer o ajuste de contas com o arranjo conservador e neo-oligárquico dessas eleições. Aí, o nosso Estado retoma a sua caminhada para uma profunda renovação do quadro político-partidário, quebrando o círculo vicioso - do tempo do inferno - dessa dominação centenária em Pernambuco. E poderemos empenhar a bandeira e entoar o hino do nosso Estado, sem a vergonha de estar mascarando certos compromissos e interesses.
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Publicado originalmente no Jornal do Commercio, Recife, 10.out.2002. Opinião.