3ª edição

ELEIÇÕES 2002: CONTINUIDADE E MUDANÇA

Sérgio Augusto Silveira é jornalista, ex-correspondente da revista Veja no Amazonas, ex-repórter político do Diário de Pernambuco, ex-editor de política do Jornal do Commercio e Folha de Pernambuco.

 

 

 

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::. A ABOLIÇÃO DO MEDO NAS ELEIÇÕES DE 2002 .::
Sérgio Augusto Silveira

O livro intitulado A Segunda Abolição, da autoria do ex-governador de Brasília Cristovam Buarque e publicado em 2000, acabou lançando antecipadamente as bases para um entendimento do que aconteceu nas urnas nas eleições gerais de 2002. Assim como aconteceu no final do século XIX, quando o Brasil era um dos últimos países ainda com a economia fundada no trabalho servil e por isso tinha uma péssima imagem no mundo, agora, um século depois, os segmentos que detêm historicamente os poderes político e econômico no País começam a descobrir que a pobreza em larga escala lhes traz prejuízo por estreitar as possibilidades do consumo em larga escala. Descobriram que um outro caminho é possível. Essa percepção, ao que parece, começou a surgir há cerca de 10 anos, ao longo do caminho que trouxe o empobrecimento das classes médias.

No nosso entendimento, aí é que se desenha um eixo importante para que possamos saber como aconteceu a vitória do candidato do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República. Assistimos, durante os atos de campanha e, depois, nas urnas, uma, digamos, classemedianização do voto de esquerda. Aliás, uma esquerdização, como protesto, do voto que sempre se revelou temeroso diante das oportunidades de mudanças. Algo chegou ao fim, assim como as teses escravocratas há mais de um século. É por isso que muito me chamou a atenção o resultado da pesquisa do Ibope divulgada no final de novembro passado, apontando que 67% dos 2000 entrevistados em 100 cidades acreditavam no sucesso do próximo governo da República com Lula presidente. Esse alto índice reafirma, depois das urnas, o desejo da sociedade brasileira pelo arejamento das políticas, muito além do controle da inflação, e com a presença de novos atores.

Foi esse clima o responsável por uma cena nunca vista na sociedade brasileira depois da eleição de Getúlio Vargas em 1950, ou seja, a perplexidade dos donos do poder, a ponto de racharem pelo meio e se estilhaçarem no apoio a candidatos os mais diferentes. Mas, aí fica uma pergunta no ar: por que o mesmo não aconteceu nas eleições de governadores nos estados? Tomando o exemplo do que aconteceu em São Paulo, pode-se dizer que, mesmo ali no berço político do PT e mesmo levando o candidato José Genoíno para o segundo turno, o eleitorado revelou a tendência nacional, com algumas exceções, de não colar outros nomes ao do candidato Lula, o qual apareceu no cenário eleitoral como um símbolo à parte, uma estrela suficiente por si mesma. O voto em outras instâncias revelou o crescimento vegetativo do PT, nas casas legislativas, que vem acontecendo ao longo das eleições estaduais e municipais.

Este símbolo representado por Lula dá à decisão das urnas em 2002 um aspecto um tanto salvacionista, não chegando a um sebastianismo, é claro. E esse é o lado atrasado do voto, mas que foi capaz de fazer com que, na fase final da campanha, não vingasse a mensagem dos tucanos incutindo o medo. Portanto, nas eleições gerais de 2002, aconteceu a abolição do medo nas urnas. Creio que pode-se ver este acontecimento - que não foi só fruto da falta de carisma por parte do candidato tucano José Serra - também como um importante efeito pós Guerra Fria. Esta encerrou-se em 1990, ou seja, há 12 anos, desfazendo no período toda a lógica que, em boa parte, vingou nas eleições presidenciais de 1989 e até na de 1994. Podemos dizer que o preconceito dos setores médios, e até de setores das chamadas "classes produtoras", contra a tonalidade política do vermelho, seus líderes e idéias acabou-se, virando meia dúzia de casos muito isolados. Estes setores descobriram que o PT governa normalmente as cidades e estados onde conquistou o poder, e que sob esta sigla não tem só socialistas e comunistas, mas também sociais-democratas, políticos de centro.

Esta percepção está ajudando a consolidar um outro efeito: está fazendo o PT se maximizar, como qualquer partido na nossa democracia de cada dia. Durante a campanha, foi comum a afirmação de que o PT estava com atitudes sensatas, assim como seus candidatos. Essa "sensatez" é, na prática, a abolição do preconceito político, mesmo estando visível o apoio do PCdoB, PSB, PCB e MST ao candidato petista no segundo turno. Não há mais aqueles fantasmas incutidos na sociedade brasileira pela política externa dos Estados Unidos durante 70 anos.

Os restolhos deste comportamento se revelaram até ridículos, como no caso de Pernambuco, onde o governador Jarbas Vasconcelos ensaiou um discurso ao estilo dos anos 80. Falou em "ilusão vermelha" e acabou vendo o eleitorado elegê-lo folgadamente diante da pouca empolgação em torno do petista Humberto Costa, mas não vendo o eleitorado se colocar contra Lula. Vimos Jarbas consolidar seu grupo no poder, ele como o eixo substituto do combalido PFL e seus caciques. Mas vemos essa consolidação ( já ia dizendo baianização) chegar para ficar na contra - mão das mudanças no poder da República. A trabalhada imagem de tocador de obras ajudou muito a eleger Jarbas para um segundo mandato no Palácio do Campo das Princesas, o que ele já via como garantido, a ponto de dar as costas para uma aventura nacional.

Neste cenário, as expectativas estão em torno das relações Pernambuco/Planalto, uma vez que o governador definiu-se como oposicionista, mas sem a sua costumeira veemência.

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