FUNDAJ NOS JORNAIS
Clipagem ASCOM
Recife, 10 de janeiro de 2007
DIARIO DE PERNAMBUCO
VIVER
Eisenstein, uma reflexão sobre a arte
Curta pernambucano aposta no experimentalismo para falar de amor e homenagear o gênio russo
JÚLIO CAVANI
DA EQUIPE DO DIARIO
Eisenstein é um curta pernambucano quase inteiramente falado em russo, filmado em ambientes fechados, com experimentações na montagem e na textura visual, que subverte os recursos narrativos de metalinguagem e mesmo assim preserva a vontade de contar uma história de amor. Dirigido e criado pelo trio Raul Luna, Tião e Leonardo Lacca, o filme será lançado hoje no Cinema da Fundação com projeção em 35 milímetros.
Os três cineastas fazem parte da Trincheira Filmes, produtora de cinema recifense cujos integrantes já estão conquistando prêmios antes mesmo de completarem 25 anos de idade. Leo Lacca participou de festivais nacionais com seu curta Ventilador (2003), quando se tornou o mais jovem pernambucano a lançar um filme em película. Tião, em 2005, conquistou o concurso de roteiros Firmo Neto, o mais importante do Estado, que lhe garantiu recursos para rodar Muro das lamentações (previsto para ser lançado este ano). Raul se mostrou um realizador promissor ao dirigir videoclipes das bandas Parafusa, Superoutro eMombojó.
Em uma descrição superficial, Eisenstein conta a história de um jovem cineasta do Recife que se apaixona pela filha de Sergei Eisenstein, que foi o grande gênio do cinema soviético e é o maior teórico da montagem. A referência assumida parece pretensiosa, mas o curta brinca com a idéia e a joga em uma seqüência de imagens que têm o experimentalismo técnico a serviço de uma reflexão sobre o fazer artístico.
Uma cena, por exemplo, mostra um grupo de bailarinas segurando uma câmera de filmagem, em uma suave ironia sobre os estressantes bastidores do cinema. Outra transporta para as ladeiras de Olinda a famosa seqüência dramática das escadarias de O encouraçado Pontenkim, só que com o povo fugindo de artistas plásticos montados a cavalo. Outro trecho mais adiante leva ao extremo o uso de recursos de edição, provocando um susto pelo excesso de cortes por segundo e sons distorcidos em alto volume.
Os diretores do curta garantem que estão contando uma história normal, mas para isso seguem uma lógica próxima da desconstrução presente nos filmes de David Lynch (A estrada perdida) e Spike Jonze (Quero ser John Malkovich). O visual às vezes lembra os clipes de Chris Cunngham (Come to daddy, do Aphex Twin), outra referência assumida entre outras mais clássicas, como o próprio Sergei Eisenstein. Tião é também o bom ator principal do filme, que tem fotografia de Marcelo Lordello e Pablo Nóbrega e direção de arte e figurinos de Ana Maria Maia e Alberto Lins. A festa de Einsenstein também acontece hoje à noite, a partir das 22h, no bar Capitão Lima (Rua do Lima, 102, Santo Amaro).
Serviço
Lançamento do curta Eisenstein
Quando: Hoje, às 19h30
Onde: Cinema da Fundação
(Rua Henrique Dias, 609, Derby)
Quanto: Entrada franca
DIVERSÃO
CINEMA
Eisenstein (Brasil,2006). De Leonardo Lacca, Raul Luna e Tião. Garota se apaixona pela filha do cineasta Sergei Eisenstein. Curta-metragem. Cinema da Fundação. 19h30.
EXPOSIÇÕES
ÍNDIOS | A exposição Índios: os primeiros brasileiros passeia pela história do Brasil e tem foco na Região Nordeste. A mostra é dividida entre o mundo colonial, o indígena e o Brasil contemporâneo. Em cartaz no Museu da Cidade do Recife (Forte das Cinco Pontas). Aberta para visitação de terça a sexta-feira, das 9h às 17h; e das 13h às 17h aos sábados e domingos. Até 11 de fevereiro.
FOLHA DE PERNAMBUCO
PROGRAMA
Homenagem a um mestre
Curta “Eisenstein” tem lançamento hoje no Cinema da Fundação
LUIZ JOAQUIM
Sergei Mikhailoviche Eisenstein (1898-1948), o mais importante cineasta da extinta União Soviética, é a principal fonte de inspiração (e que dá título) para o curta-metragem pernambucano “Eisenstein” (2006), dirigido e roteirizado pelo trio recifense Leonardo Lacca, Tião e Raul Luna, da Trincheira Filmes. O filme, em 35mm, tem lançamento aberto ao público marcado para as 19h30 de hoje, no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco.
A narrativa conseguida em “Eisenstein”, o curta, é, como o próprio soviético pregava, menos para ser explicada e mais para ser experimentada pelo espectador. Assim sendo, a linha tênue que conduz o enredo aqui só ganha sentido através das fortes impressões sensoriais que o filme sugere ao espectador. Seja pela montagem (de Marcelo Lordello e Lacca), seja pela plástica (fotografia de Lordello e Pablo Nóbrega) ou pelo poderoso som.
Provavelmente, por essa razão, Lacca ressalta que “Eisenstein” é “conceitualmente muito pesado para um curta-metragem”. De qualquer forma, o trabalho vem causando boa impressão mesmo em quem não é íntimo do cinema. O filme foi gravado em 2005 e transformado em película em 2006 por intermédio do apoio do Funcultura. A história é protagonizada pelo aspirante a cineasta Ivan (Tião, falando russo), que admira profundamente a obra de Eisenstein, e conhece a neta (Bruna Siqueira) do cineasta soviético. Entre um momento e outro da concepção de seu filme, Ivan tem um encontro lúdico com o próprio Sergei (Bruno Siqueira), que imita o pernambucano Daniel Bandeira, celebrado no Recife como um dos melhores e dos mais prolíferos montadores da cidade.
Em outro momento forte, a Ladeira da Misericórdia, em Olinda, transforma-se no cenário alucinante, através da edição, que era o da escadaria de Odessa em “Potemkin”. O sonho do grupo, “pela relação afetiva do projeto”, diz Luna, é exibi-lo no Festival de Moscou. Por enquanto, vão guardando esses nomes: Leonardo Lacca, Tião e Raul Luna.
CINEMA
EM CARTAZ
Eisenstein / De Leonardo Lacca, Raul Luna e Tião/ Com Tião, Bruno Siqueira, Rita Carelli, Marcelo Loedello, Jorge Queiroz. Curta-metragem. Ivan se apaixona por Alessandra, a neta de Eisenstein. Entrada Franca. Cinema da Fundação. 19h30. Classificação não divulgada pelo exibidor.
MUSEUS E EXPOSIÇÕES
Índios ganham destaque em exposição
A exposição Índios: Os Primeiros Brasileiros está em cartaz no Museu das Cinco Pontas. A mostra reúne mapas, documentos, reprodução de pinturas, objetos e imagens do passado e do presente dos indígenas do Nordeste e visa dá uma real dimensão de como foi a evolução dos povos autóctones da região. Além da mostra, uma série de atividades está programadas. Entre elas há simpósios, feras de artesanato, performances de toré, conferências temáticas, entre outras. A exposição vai ate o dia 11/02. De terça a sexta, das 9h às 17h, e sábado e domingo, das 13h às 17h, no Museu das Cinco Pontas (Forte das Cinco Pontas - Largo de São José). Entrada R$ 1. Informações: 32322812.
JORNAL DO COMMERCIO
CADERNO C
Jovens da Trincheira evocam Eisenstein
Curta dirigido por três realizadores rende homenagem ao diretor de Encouraçado Potemkin
KLEBER MENDONÇA FILHO
Tentando se distanciar o suficiente para chegar a um olhar isento de uma produção de cinema pernambucana que tem chamado muita atenção tanto no curta como no longa-metragem, talvez seja possível apontar para uma certa facilidade recifense na articulação de filmes pessoais, incomuns e essencialmente inusitados. O curta-metragem Eisenstein, do trio de diretores Leonardo Lacca, Raul Luna e Tião confirma isso em cada uma das suas imagens num moderno cinema pernambucano que articula temas e imagens anormais, e isso é um elogio.
Eisenstein, de 19 minutos, será lançado na sua versão final em 35mm hoje no Cinema da Fundação, com entrada franca, um mês depois de ter conquistado o primeiro lugar ainda como um vídeo de ficção no último Festival de Vídeo do Recife.
O filme teve também sua estréia nacional no último Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, e segue agora para o Festival de Tiradentes, em Minas Gerais. Chamar a atenção para a anormalidade de aspectos estéticos, temáticos e narrativos já funciona como um bom ponto de partida, num cenário audiovisual que ainda parece, em grande parte, preso a formas e fórmulas, uma ironia se pensarmos nas possibilidades infinitas que essa área especificamente pode oferecer hoje, via criação + tecnologia.
Os três diretores de Eisenstein fazem parte de um coletivo chamado Trincheira, e são crias jovens de um audiovisual moderno, da imagem digital das câmeras pequenas e montagens não lineares em plataformas Mac. 20 ou 15 anos atrás, teriam o VHS para trabalhar ou, quem sabe, o 16mm ou 35mm, formatos nobres que na época pareciam reservados para realizadores mais velhos, técnica e/ou politicamente, ou mais próximos do Rio ou de São Paulo. Ou seja, não teriam o trabalho que é possível hoje.
Com essa imagem digital moderna dominada, a Trincheira mostra um trabalho de interesse, da primeira experiência de três anos atrás – o curioso Ventilador (2004), de Lacca, perfeito primeiro filme, corajoso, ingênuo, apaixonado – ao ainda inédito (e muito bom…) Décimo segundo (corajoso, maduro, apaixonado), também de Lacca, esse coletivo vai construindo aos poucos uma filmografia já garantida que desperta a atenção.
Garantida pois encontra-se em pós-produção Muro das lamentações (ganhador do concurso de roteiros Firmo Neto Ary Severo 2005), dirigido por Tião, que marca a estréia do grupo num filme originalmente rodado em película, e que deverá ser o primeiro curta da filmografia pernambucana apresentado em tela larga scope. Por último, Marcelo Lordello, também da Trincheira, fotógrafo e co-montador de Eisenstein, teve seu roteiro Eles voltam premiado no último concurso Ary Severo (divulgado mês passado), já um novo filme para a safra 2008.
É de Lordello a cara que abre Eisenstein, numa sequência que esclarece o interesse dos realizadores pela idéia de cinema, seja pela imagem em si, pelo próprio fetiche de filmar e dizer alguma coisa, mostrar uma admiração sentida pelos heróis da história cinematográfica. Não apenas Lordello está no filme, mas também Tião, e isso dá a cara jovem que o filme já teria nas suas articulações internas. Durante a projeção, Eisenstein supera qualquer suspeita de que o filme seria uma gréia perpetrada por uma galera jovem.
Podre de romântico pela imagem de cinema, o filme parece propor uma viagem cinéfila pela possibilidade de venerar um mito, no caso Sergei Eisenstein, cineasta soviético para sempre na história do cinema por ter feito Outubro e Encouraçado Potemkin. A aproximação de um jovem realizador (Tião) do mítico Eisenstein (Bruno Siqueira), aparentemente no Recife remontando versão Redux do seu Potemkin, estimula o cinéfilo-cineasta a mergulhar ainda mais na viagem do seu cinema, o que nos parece uma mensagem válida sobre o efeito que toda uma herança de filmes têm nos que querem filmar.
Todo pontuado por algum tipo de presença russa/soviética em cada imagem e som, Eisenstein deixa a impressão de que quem o fez estava num estado de fascínio com algo que eles talvez não entendem muito bem, mas que com certeza foi muito bem sentido. Original, autoral e estranho, é um filme que merece o olhar. Ao mesmo tempo em que celebra o olhar. Pravda.
ROTEIRO
CINEMA
EISENSTEIN – Dir. Leonardo Lacca, Raul Luna e Tião. Ivan se apaixona por Alessandra, a neta de Eisenstein. Cinema da Fundação. 19h30.
EXPOSIÇÕES
Índios - Os primeiros brasileiros
A exposição propõe ao visitante um passeio pela história do Brasil, com enfoque especial ao Nordeste e três espaços diferentes: o mundo colonial (a história que se pode ler nos livros e documentos), o mundo indígena (uma outra narrativa) e o Brasil contemporâneo (com suas lutas e desafios). A partir do dia 8 de dezembro. Terças a sextas, das 9h às 17h; sábados e domingos, das 13h às 17h. Forte das Cinco Pontas, Largo de São José. Telefone: (81) 3224.8564. Entrada franca. Em cartaz até o dia 11 de fevereiro.