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Recife, quarta-feira,23-02-05

                      

DIARIO DE PERNAMBUCO

OPINIÃO

A História continua

Fernando Lyra
Presidente da Fundaj *

As transformações políticas que o Mundo sofreu no final do século passado criaram em alguns setores a falsa impressão de que as contradições sociais estavam superadas e a sociedade marchava para uma padronização, pautada pelas idéias neoliberais. Certo historiador chegou a trombetear, aos quatro cantos, o fim da história. Os poucos anos transcorridos do terceiro milênio foram suficientes para alertar os intelectuais, os políticos, os formadores de opinião de que o conflito continua na essência do processo social e de que o universo é um todo em transformação.

  Para muitos, foi preciso um tsunami como sinal que a natureza prossegue em conflito consigo mesma. Para nós, um momento singelo e emotivo, como este que vivemos, expressa com o mesmo vigor os conflitos e contradições da nossa sociedade.

  Este ano é uma encruzilhada que acolhe caminhos de diversas procedências. Para aqui convergem, com a mesma intensidade, o urbano e o rural.

  Nada mais cosmopolita do que um jornal. O jornal é a expressão do sentimento urbano. Em se tratando do DIARIO DE PERNAMBUCO, é um símbolo único. Não apenas por ser o mais antigo jornal da América Latina. Também por constituir o fio de amarração cronológica da região e do País. Por guardar a memória da nossa evolução urbana nos últimos dois séculos.

  Enfocando o drama do campo, através da figura mitológica de Francisco Julião, filtrada pela honestidade intelectual e competência investigativa do repórter, o DIARIO DE PERNAMBUCO dá uma contribuição inestimável à nossa História. Porque, cidade e campo, por antagônicos que pareçam, fazem parte do mesmo drama.

  O Brasil, secularmente, vem empurrando com a barriga, a questão da reforma agrária. E a questão social, como um todo.

  O drama do campo é o mesmo das cidades, com outra face. Os excluídos das periferias continuam sofrendo tanto como os excluídos do campo. Campo em pé de guerra. Cidade em conflito aberto. Esse é o preço que pagamos por deixarmos aberta a ferida da reforma agrária e por fecharmos os olhos às mazelas sociais.

  Seique ferida é uma palavra grosseira para um ambiente como este. Mas não podemos fechar os ouvidos para não acabarmos devorados por ela. Temos que encarar as questões agrárias e os problemas urbanos como Joaquim Nabuco encarou a questão escravocata. Encarar para resolver. Como tentou Francisco Julião, derrotado mas nunca vencido pela tormenta de 64.

  O lançamento do livro-reportagem de Vandeck Santiago - "Francisco Julião, as ligas e o golpe militar de 64" - é a melhor homenagem que a Assembléia Legislativa e a Fundação Joaquim Nabuco poderiam prestar a dois eventos aparentemente tão diversos, como os 180 anos do DIARIO DE PERNAMBUCO e os 90 anos do grande líder que foi Francisco Julião.

  Quero prestar a reverência da Fundação Joaquim Nabuco e a minha pessoal à direção do DIARIO aqui representada por Joezil Barros, que continua conduzindo o fio da história e prossegue a obra de Assis Chateubriand. E aos familiares de Francisco Julião, cuja memória permanecerá iluminando a luta pelas transformações que o Paísprecisa e a sociedade exige.

  A frase é banal, porém adequada: a luta continua. A História continua. Até amanhã, DIARIO DE PERNAMBUCO. Até sempre, Francisco Julião.

* Discurso proferido na Assembléia Legislativa durante sessão solene em homenagem ao cinqüentenário das Ligas Camponesas, que marcou o lançamento do livro Francisco Julião, as ligas e o golpe militar de 64, baseado em caderno especial escrito por Vandeck Santiago e publicado pelo DIARIO.

 

Corre-corre
A deputada Teresa Leitão mal se despediu, como palestrante, da IV Conferência Nacional de Educação, em Brasília, hoje, já tem outro compromisso à noite, só que no Recife: participa do debate Mulher e Democracia, promovido pela Fundaj. Haja fôlego.

 

DIVERSÃO CINEMA

Não houve exibição no jornal.

 

FOLHA DE PERNAMBUCO

NÃO HÁ NOTAS,ARTIGOS E MATÉRIAS PUBLICADAS.

 

LAZER EM CARTAZ

Não houve exibição no jornal.

 

LAZER MUSEUS

Museu do Homem do Nordeste

Avenida 17 de agosto, 2180, Casa Forte, Recife
Terça a sexta - das 9h às 17h
Sábado e domingo - das 13h às 17h.

Em período de reforma, sempre apresentando uma exposição temporária.
Informações: 3441-5500.

JORNAL DO COMMERCIO

CADERNO C

ANAIS PERNAMBUCANOS
Um paradoxo pernambucano

O historiador Pereira da Costa deu a vida pela pesquisa e, sem ajuda de uma equipe, deixou uma obra prodigiosa que agora é relançada

JOSÉ TELES

“Pereira da Costa é uma desses paradoxos de Pernambuco. Foi um homem de poucas posses, que deu a vida pela pesquisa, a ponto de pedir desculpas aos familiares por não ter dedicado mais tempo a eles. Sem uma equipe, sozinho, deixou uma obra prodigiosa. O paradoxo é que o Folk-Lore Pernambucano, por exemplo, foi publicado pela primeira vez no Rio, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1908, mas só teve uma edição autônoma em 1974. Enquanto os Anais Pernambucanos só começaram a ser publicados no governo Agamenon Magalhães, muitos anos depois da morte do autor”. O comentário é de Mário Hélio, crítico literário e diretor da Editora Massangana.

Ele foi o coordenador do oportuno relançamento de parte da obra de F. A. Pereira da Costa. Sob a égide da Companhia Editora de Pernambuco voltarão às livrarias, em março: Folk-Lore Pernambucano Subsídios para a História da Poesia Popular em Pernambuco, os Anais Pernambucanos (dez volumes), o Dicionário Biográfico de Pernambucanos Célebres e o Vocabulário Pernambucano, todos fora de catálogo (e vendidos a preço de ouro nos sebos). O Folk-Lore sai em papel (750 páginas, incluindo índice remissivo), os demais em CD-ROM, uma espécie de bônus, encartado na contracapa do livro.

Pereira da Costa foi o mais importante historiador pernambucano, não apenas pela sua caudalosa produção, como também pela variedade de assuntos que abordou. O folclorista Câmara Cascudo (cuja obra também vem sendo oportunamente reeditada), considerava o Folk-Lore Pernambucano o melhor trabalho que havia lido no gênero. Os Anais Pernambucanos são, sem sombra de dúvida, a mais importante obra do gênero já escrita no Brasil. Ocupa-se da história de Pernambuco e, por extensão, do País, do descobrimento até a metade do século 19. Curioso e minucioso, o autor envereda também pela geografia, pela história da vida privada (há um capítulo, por exemplo, sobre o piano em Pernambuco). As biografias embora importantes são de leitura menos atraente ao leigo, enquanto o Vocabulário Pernambucano é outra obra seminal.

QUEM FOI – Nascido em 16 de dezembro de 1851, no Recife, Pereira da Costa, era de família humilde. Aos 16 anos já trabalhava como caixeiro de uma livraria, onde se apegou à leitura, a ponto de ser constantemente recriminado pelo proprietário. Aos 20 anos entrou para o serviço público, no qual ocupou diversos cargos, aposentando-se como secretário da Câmara dos Deputados. Perto de completar 40 anos, formou-se em direito, já havia então sido eleito deputado estadual (manteve-se como parlamentar durante 22 anos).

O emprego permitiu-lhe que se dedicasse à pesquisa de forma quase obsessiva, mesmo que não tivesse tanto êxito editorial. Os Anais Pernambucanos, por exemplo, ele tentou até o final vê-los publicados. Uma edição da obra foi aprovada na Câmara dos Deputados em 1919, e só confirmada em 1922: “Chegaram a enviar os originais para uma gráfica que o governo mantinha na casa de detenção. Mas a impressão ficou tão ruim, que Pereira da Costa preferiu não publicar”, conta Mário Hélio. Mal comparando, Pereira da Costa teve destino parecido ao do poeta paraibano Augusto dos Anjos, só foi reconhecido postumamente. Um urubu também parecia ter pousado em sua sorte.

Com mais de 70 anos, Pereira da Costa recebeu o único prêmio material por sua extensa obra, conforme assinala Mário Hélio no prefácio do Folk-Lore Pernambucano: 15 contos de réis, concedidos pelo governo do Estado. Um prêmio que apressou sua morte. Com o dinheiro, ele comprou um sobrado em Afogados. Na manhã de 18 de novembro de 1923, o escritor desequilibrou-se ao descer as escadas de casa, caiu e desmaiou. Hospitalizado, ele morreu três dias depois.

CIDADES

DIREITOS HUMANOS
Boff abre hoje seminário no Recife

Com uma palestra do teólogo Leonardo Boff, será aberto na noite de hoje, em Boa Viagem, no Recife, o Seminário Internacional Os desafios contemporâneos para os direitos humanos, coordenado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Boff falará sobre ética, a partir das 19h.

Ex-religioso e um dos principais seguidores da Teologia da Libertação no Brasil, Leonardo Boff dedica-se hoje à ONG Animus Anima, criada para preservar e divulgar seu trabalho social. O teólogo tem mais de 60 livros publicados.

Antes da palestra de Boff, haverá uma cerimônia, às 18h, com a presença de autoridades locais. Depois, às 20h, o Balé Popular do Recife fará uma apresentação para o público. O seminário internacional será realizado durante três dias no Recife Monte Hotel, com a participação de ativistas e profissionais da área de direitos humanos. O evento é uma ação do Projeto Unicidadania, articulação entre dez entidades da sociedade civil, universidades e entidades governamentais. Tem o apoio da Cooperação Italiana e coordenação conjunta do Movimento Leigo da América Latina/Progettomondo, ONG italiana.

Além da ética, tema a ser debatido por Leonardo Boff na noite de hoje, o seminário vai abordar educação, parceria entre o Estado e a sociedade civil. Amanhã, a programação terá início, às 8h30, com uma mesa redonda sobre o impacto da fome a da pobreza nos direitos humanos. O arcebispo de João Pessoa, Dom Marcelo Carvalheira e o ministro Patrus Ananias, de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, estão previstos. À tarde, a violência, o crime organizado e a criminalidade transnacional estarão em debate.

A sexta-feira será dedicada à educação e à comunicação. A última mesa, a ser coordenada por Laurindo Ferreira, diretor-adjunto de Redação do JC, vai reunir os jornalistas Alberto Dines e Fernando Buarque.

 

ROTEIRO CINEMA

Os Anos Dourados Do Cinema

De Yoji Yamada.Com Kiyoshi Atsumi e Kichi Nakai.Declaração de amor do veterano diretor japonês ao início do cinema no Japão.Cinema da Fundação – 19h.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 
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