As pesquisas que o articulista vem realizando na Fundaj, intentam contribuir para esclarecer o injustificável esquecimento com que se tem tratado a memória de José da Natividade Saldanha, poeta, advogado, músico, escritor, político. Saldanha nasceu em 1796, filho do padre João José Saldanha Marinho e de Lourença da Cruz, uma mulata. Na escola, precocemente, o menino Saldanha se destacaria pelos conhecimentos de línguas, poesia, música e matemática. Em março de 1817, ele presenciou o estopim e o desenrolar da Revolução. Quando as tropas reais se aproximaram da cidade, a sua família se retirou para Olinda, onde Saldanha e os seus amigos testemunharam a retirada da coluna dos soldados republicanos, para o Engenho Paulista, tendo à frente, Domingos Jorge Martins Pessoa e, em trajes seculares e com um grosso bacamarte às costas, depauperado, o padre João Ribeiro Pessoa da Mello Montenegro, que havia tentado se matar, introduzindo veneno numa das veias da coxa.
Em Olinda, Saldanha e familiares observaram o bombardeamento do Recife. Por um tempo, evitaram o retorno. Para se distraírem, apreciavam as magníficas paisagens: as matas intactas, o belíssimo mar, as praias, a catedral da Sé, as ruínas do Convento do Carmo, o Colégio dos Jesuítas, como apareciam em 1817.
Pacificado o Recife, Natividade prosseguiu os seus estudos secundários no Seminário de Olinda. Formando-se, seguiu para Coimbra, onde obteve excelente desempenho no curso de Direito. Retornou ao Recife em 1823, para advogar. Insurgiu-se e empreendeu, com desassombro, uma campanha contra o governo de D. Pedro I e a sua Constituição outorgada. Simpatizante dos revolucionários de 1824, Natividade seria eleito para o cargo de Secretário do governo de Manoel de Carvalho Paes de Andrade. Durante a as lutas da Confederação do Equador, Natividade encontrava tempo para redigir os relatórios, pensando que “alguém possa depois escrever com exactidão a nossa respectiva história”. (MELLO. 1895)
Diante da terrível reação de Dom Pedro I, em 1824, os revolucionários foram derrotados. Natividade escapou. A sua casa foi invadida. Tenta uma fuga, com a ajuda do francês Luis Lieuthier (sic), (MELLO. 1895), que pretendia embarcá-lo para a França. Perdeu o navio. Escondeu-se em Olinda. O cônsul dos EUA, James Hamilton Bennet, que apoiara a Revolução, conseguiu enviá-lo para a Filadélfia, onde Saldanha seria maltratado numa hospedaria, por ser mulato, sendo obrigado a fazer as refeições no quarto. Transferiu-se para Nova Iorque.
Dos EUA, sem explicações, rumou para a França. O seu amigo Francisco do Rego Barros o acolheu em Paris. Logo, Saldanha obteve um passaporte português. Na França, sem tréguas, é perseguido pelo Governo Imperial brasileiro. A polícia francesa, porém, o expulsou do país. Os amigos se cotizam para ajudá-lo. Segue para a Inglaterra. Na viagem, sofre um naufrágio no Canal da Mancha. Em Londres, adoece e quase morre. Em 1825, desembarca na Venezuela. Testemunha o horrível terremoto de Caracas, que deixou um saldo de 30.000 mortes. Passa a residir num convento, experimentando terríveis privações. Vende as próprias roupas para não passar fome. Na Venezuela, ele se encontra com o general Abreu e Lima, que o recomenda ao general Escalona. Consegue ser recebido por Simon Bolívar, que o acolhe. Obtém, após longa peleja, autorização para exercer a advocacia no país. Não demora a abandonar Caracas. Atravessa a selva colombiana e os Andes. Estabelece residência em Bogotá, onde ensina Humanidades. Cresce em conceito junto à elite local.
No exílio, ao saber que fora condenado ao enforcamento, no Recife, Natividade respondeu com aspereza e coragem à desfaçatez do Dr. Manoel Pedro de Moraes-Maeyr, que o havia tratado de “mulato”: (...) esse tal Saldanha, era o mesmo que adquirira prêmios, quando ele Mayer tinha aprovação por empenho, e quando ao tal mulato recusava o lugar de auditor de guerra em Pernambuco, ele o alcançava por bajulação(...). Igualmente, enviou uma curiosa procuração para um ex-amigo, Thomaz Xavier Garcia de Almeida, então exercendo funções no tribunal que o condenou em 1825, nomeando-o jocosamente nestes termos: (...) para em meu lugar, como se eu próprio fora, possa morrer enforcado e sofrer quaisquer outros castigos... pois para tudo lhe concedo os amplos poderes que o direito me permite. (COSTA. 1882).
* Natividade Saldanha jamais retornou ao Brasil. O historiador colombiano Gustavo Abaleda afirma que Saldanha morreu em Cali, em 1831, fuzilado por ordem do general Obando. (GAMA. 1923). Pereira da Costa diz que ele teria morrido afogado numa vala em Bogotá, ou ainda, que desapareceu, após uma tumultuada sessão de um júri em que atuou.
:: Humberto França é escritor e chefe de Projetos Especiais do Museu do Homem do Nordeste, ligado à Diretoria de Documentação da Fundaj. Artigo publicado no Diario de Pernambuco em 03 de Agosto de 2007.