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Os mitos no futebol

         O conceito de mito (tal como o entendemos na atualidade) está presente em todas as áreas do comportamento humano e nem poderia ser diferente, desde que são os mitos que fundam os gestos capazes de delinear a linguagem e a nossa expressão corporal. Em conseqüência do próprio desenvolvimento da psicanálise ela teve que pedir emprestado à antropologia algumas de suas noções básicas para tentar compreender a formação dos nossos hábitos e complexos.

O que descrevo abaixo são observações colhidas durante algumas partidas de futebol. Sem me deter nos detalhes, pretendi, naturalmente, estabelecer uma relação entre o futebol e a psicanálise. Parece que é verdadeiro o que dizem sobre aquilo que faz o monge. Baseei-me, na composição deste relato, em três observações casuais:      

         1) Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, ficou registrada na memória de muita gente a cena de um jogador da seleção brasileira (Bebeto) que, em seguida ao gol que marcou para o seu team numa das partidas foi para a linha lateral de demarcação do campo e juntamente com outros companheiros simulou que estava acalentando um bebê nos braços, como se estivesse fazendo-o dormir. O gesto era bastante claro e indicativo de que ele tivera um filho e desejava, daquele modo, não só prestar uma homenagem à criança, como e sobretudo reafirmar quem era o pai da criança.

         O ato desse jogador introduziu uma nova forma de saudação no campo dos esportes e, ao que parece, comoveu os espectadores. Foi uma cena inesquecível e, ao longo destes anos, vimo-la ser repetida em outras oportunidades, sacramentando, com um novo ritual, um velho costume, um ainda mais velho desejo – o de anunciar o nascimento de um filho associando-o a um momento decisivo durante o jogo; como diriam os mitólogos – O Momento do Sagrado. No futebol todos os movimentos, esforços e intenções convergem para a consecução do gol e o jogador que o faz se transforma, momentaneamente, em algo mais ou menos parecido com um ser sobrenatural. Ter um filho (fazer um filho) é também algo que se aproxima do sobrenatural, é como fazer um gol no jogo da vida.

         Uma prática semelhante ocorria na Grécia Antiga quando o pai de um recém nascido após o oitavo dia do nascimento da criança levava-a para a Ágora (praça pública), erguia-a com os braços acima da cabeça e mostrava a todos que o filho era seu.

         Curiosas e às vezes até mesmo estranhas essas práticas para assinalar a paternidade em lugares, raças, grupos étnicos e tempos diferentes. Mas o que nos interessa no momento é, principalmente, a sua relação com o futebol.

         2) No jogo de domingo passado (dia 1 de julho de 2007), pela Copa América, o Brasil jogava contra o Chile quando Robinho fez o seu segundo gol. Saiu então correndo ao redor do campo, abraçado pelos companheiros,  chupando o polegar da mão direita, tal como costuma fazer um bebê, desde o seu primeiro dia de vida (às vezes já na vida intra-uterina). Ora, esse ato evoca tanto a criança que já nasceu como aquela que está por nascer. No caso desse jogador o comentarista informou que a sua companheira estava grávida.

         O gesto, a homenagem, a reverência e a referência têm aparentemente o objetivo de comunicar o nascimento do bebê, de saudar a sua chegada. O que se passa num plano mais profundo é, no entanto, um pouco diferente: o homem estaria reivindicando a sua paternidade... Mas essa reivindicação subliminar aponta para a existência de dois fatores – de um lado, a necessidade de delimitar a condição do pai na sua relação com o filho perante a sociedade e do outro, uma certa disputa com a mulher que, em geral, antes, durante e depois da gravidez assume a propriedade da cria como uma dose de possessividade maior, procedendo assim, de forma mais ou menos sutil, a exclusão do marido. Sentindo-se ameaçada pela inveja do cônjuge ela reage, aumentando esse sentimento de posse.

O que ocorre é que por ocasião do nascimento de um filho os homens se sentem postergados como se estivessem sendo abandonados. A situação parece simples mas não é. A gravidez é também, para os indivíduos do sexo masculino, uma condição emocional muito difícil, principalmente em se tratando do primeiro filho. Em desespero de causa é necessário encontrar, urgentemente, meios eficazes para reafirmar a paternidade e deixar bem claro que o pai também participou da produção da criança.

Em algumas culturas essa questão da representação da paternidade assume feições até bastante graves. Mas em todas elas o poder criativo dos homens é intensamente exigido. Muitos não hesitam em simular (com gestos e pantominas) situações femininas que expressam e simbolizam, no corpo e na mente, o desejo de ter em evidência uma paternidade tão bem assinalada quanto a maternidade das mulheres.

Outras vezes o sujeito imita ou se identifica com a criança, atraindo para si as atenções da mãe num jogo de competição com o bebê, aberto ou não. Um exemplo desse procedimento consiste no que se passa entre alguns dos nossos índios – o pai se deita na rede (ou na esteira) assim que a mulher dá à luz, recebendo as visitas e os amigos que vêm lhe cumprimentar. Enquanto isso, a mulher se levanta imediatamente após o parto e vai cuidar dos afazeres domésticos.

         3) A propósito dessa imitação do homem como expressão de sua inveja com relação à mulher gostaria de acrescentar uma terceira observação: na Copa do Mundo de Futebol Sub Vinte, que está se realizando atualmente no Canadá, no jogo entre o Brasil e a Coréia do Sul um atacante brasileiro ao fazer um gol (sempre o momento do gol), saiu correndo para a meta coreana, apossou-se da bola e a pôs por baixo da camisa, concretizando desse modo, fisicamente, a conformação de uma gravidez de nove meses. Seguido pelos companheiros, foi em direção ao centro do campo.

         A cena me lembrou a descrição dos rituais da couvade entre os índios Carajá do Brasil Central. A informação me foi transmitida por Arutana, o meu amigo: quando a mulher fica grávida e a criança vai nascer o homem escarifica a pele com dentes afiados de  um peixe que é muito comum na bacia amazônica – o dourado-cachorra. Deixa o sangue escorrer bem. É bom deixar o sangue escorrer para ficar no corpo só o sangue bom. Em seguida vai para o rio e se lava, retirando o sangue coagulado sobre a superfície da pele; com as mãos em concha bebe bastante água: Bebe, bebe, bebe, até a barriga ficar assim (meu amigo descreve uma curva com a mão direita indicando a formação de uma protuberância na barriga). Aí ele pega um galho seco e irrita a garganta até vomitar, repetindo tudo uma, duas, três, muitas vezes. Até que os vômito se tornem sanguinolentos.

         Ser pai na cultura Carajá não deve ser fácil. Talvez em outras culturas também. É preciso, em qualquer caso, um grande esforço para deixar bem assinalada a presença de uma paternidade.

Não faz muitos dias, assisti, em noticiário da televisão, novamente a cena do Bebeto ninando seu filho imaginário, recém nascido, durante a Copa de 1994 – nos Estados Unidos. Depois veio a outra parte da notícia – o garoto tinha sido convocado para a seleção brasileira sub-dezessete. Parece que a couvade às vezes dá certo.     

David Azoubel Neto

Julho - 2007 

   

Ante et post scriptum –

 

         Eu dedico este artigo ao meu neto, Tomás, hoje com dezoito anos, mas que um dia (se não me falha a memória com cinco anos) contou-me uma estória fantástica sobre o que lhe teria, possivelmente, acontecido quando ele estava na barriga de sua mãe.  Entre outras coisas relatou-me, na singeleza desinibida de sua imaginação, que tinha aprendido a jogar futebol e que aqueles “pontapés” sobre os quais tanto falavam eram parte dos seus treinos.




 
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