Fundação Joaquim Nabuco

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Entrevista: João Câmara Filho, artista

Por Juliana Costa

Imagem: Autorretrato do artistaImagem: Autorretrato do artista

João Câmara Filho é paraibano, do ano de 1944. Cursou artes plásticas na Escola de Belas Artes da UFPE e desde seus 16 anos não parou de pintar. Premiado nacional e internacionalmente, é admirado por críticos como Ferreira Gullar e Frederico Morais e já participou de dezenas de salões de arte, bienais e exposições individuais pelo país e no
exterior. Sua série temática mais conhecida, Cenas da Vida Brasileira, trata da vida política no Brasil nas décadas de 30 a 50.

No dia 28/03, vem à Fundação Joaquim Nabuco para o 398º Seminário de Tropicologia, no qual irá apresentar suas impressões sobre outro artista-amigo, Francisco Brennand. Às 9h, na sala Gilberto Freyre, da Fundaj – Casa Forte, pretende levantar considerações sobre a herança cultural do artista na sua palestra “Francisco Brennand – Locus Solus”.

Para nos possibilitar entender mais das motivações e pensamentos do paraibano (agora instalado em Olinda, Pernambuco), ele concedeu-nos uma entrevista, que se segue:

O senhor se considera um “multi-artista”. O que isso quer dizer?

Não sei se disse alguma vez ser multi-artista. Provavelmente quer se dizer com isso que alguém pinta, grava, faz arte em diversos meios. Eu pinto e gravo, faço alguma arte digital, escrevo...

Quem são suas principais inspirações?

É o fator humano que se particulariza em alguns modelos de escolha.

O que o senhor diria ser a principal característica dos seus trabalhos? O que lhe diferencia dos demais?

Sou, essencialmente, um pintor de figuras, coisas e animais. Isto me aproxima, mais do que diferencia, de outros artistas.

O que o senhor tenta passar com sua arte?

O desejo de estar no mundo, vivo como ele.

Algumas de suas obras têm cunho político. É uma preferência sua?

Pintar figuras exibe a condição política do que é representado. Mas, nunca fui eleito nem me candidatei à política.

O que lhe é mais satisfatório em todo o processo de desenvolvimento das suas obras?

O trabalho do pintor é em grande parte tarefa física. Fico feliz quando o trabalho de construção mental acompanha com fôlego esses passos.

O senhor pretende realizar mais trabalhos no futuro?

Estou na ativa, penso.

O que levou ao interesse de estudar e falar sobre Brennand? Você foi discípulo dele?

Quando comecei a pintar , Francisco Brennand era "o artista mais velho". O tempo nivelou nossas idades: agora somos velhos pintores e ainda amigos.

Alguma obra de que você se arrepende ou exposição que você gostaria de ter feito diferente?

A biografia critica de um artista deveria descrever o que ele deixou de fazer. Ao invés, valoriza-se o que ele produziu. Vou esperar uma anti-biografia para avaliar os arrependimentos.

Especificamente sobre a palestra que o senhor irá ministrar na Fundaj, qual é a história por trás do título “Locus Solus”? O que significa? O que quer passar?

Locus Solus, lugar solitário, é uma novela fantasiosa do escritor Raymond Roussel em que ele descreve inventos prodigiosos e singulares. A oficina de Brennand é um desses locus solus subequatoriais em que a imaginação se exila. Nessa palestra, tenta-se uma aproximação dos espaços solitários de Martial Canterel, personagem de Raymond Roussel, e a fábrica singular de Francisco Brennand, ambos espaços originais e exilados do comum. O tema do exílio interno também perpassa essas considerações, levando em conta a herança cultural do artista, de clássico cânone europeu que transitará aos loci subequatoriais do regionalismo.

Entrevista: Luan Nascimento, grafiteiro e educador do muHNE

Por Juliana Costa

Artista por trás das paredes da nova sala de convivência da Fundação Joaquim Nabuco, que retratam, em grafite, o fundo do mar, Luan Nascimento é grafiteiro, graduado em história e monitor do Museu do Homem do Nordeste. Luan, entre uma correria e outra, da sua oficina a nova exposição do muHNE, concorda em sentar por alguns minutos para conceder essa entrevista. Explicando sobre a reforma pela qual a oficina está passando — oficina esta que também será palco de um de seus futuros projetos de grafite —, pega dois bancos e posiciona-os perto da mesa, colocando a lata de tinta que vinha carregando sobre ela, e, ainda segurando um pincel, recosta no banco para falar um pouco mais sobre sua arte. Não larga o pincel durante toda a conversa.

A seguir, a entrevista completa. Mais imagens do grafite de Luan na sala de convivência podem ser conferidas aqui.

De quem foi a ideia de grafitar a nova sala de convivência?

É o seguinte, o pessoal estava pensando e conversando que queriam uma sala de convivência, só que eles não sabiam mais ou menos como ia ser, se ia ter jogo, se não ia... Eles começaram a pensar no projeto e estavam pensando em pintar em três passos diferentes, três cores diferentes, que iam ser os ambientes. O do canto, onde tem uma prancha, vai ser a parte que tem a televisão. No meio, ia ser uma parte de leitura. No outro canto, uma parte de jogos. A princípio se pensou assim. Depois foram mudando, mudando, mudando, mas queriam alguém para pintar, aí falaram comigo e com Luiz [estagiário do Museu do Homem do Nordeste] sobre a proposta, a gente aceitou a ideia e dissemos “ah, vamos favor um projeto de alguma coisa que pudesse ser da sala de convivência, né?”. A gente pensou e maturou a ideia de ser um fundo do mar e começou a pegar elementos que se encaixassem naquela sala como uma sala realmente de descanso, uma sala de convivência para o pessoal no almoço. Então, a gente foi pegando elementos que pensávamos, estudou uma paleta de cores e construiu o desenho dessa forma, pensando em quais representações iríamos colocar: uma tartaruga, uns peixes... Foi mais uma ideia de ambientação, não foi muito um grafite com proposta de pensar questões políticas... Que é o que eu prefiro, né, mas enfim [risos]. A gente fez o projeto e já começou no sábado mesmo, foi muito rápido.

Desde quando você faz grafite?

Então, grafite faz uns quatro anos, desenho desde “pirralha” e, atualmente, tô estudando ilustração e vou começar a estudar mais pintura. Eu já faço, só que eu tô estudando mais agora, porque eu me formei, aí... 

E o que lhe levou ao grafite, foi isso de desenhar desde pequeno?

A ideia é a seguinte: desde “pirralha” eu viajo em apresentação imagética com cor, com personagem, que cria histórias. Então, apesar de fazer grafite, eu gosto muito de ilustração, animação, tudo que tem a ver com a ideia gráfica da construção do desenho, do cenário, de pensar realmente um trabalho. Eu viajo, eu acho massa. Tanto é que eu tenho alguns projetos de animação e algumas outras coisas que eu tô a fim de realizar em 2017, porque, justamente, eu acho que não só o grafite, não só a ilustração ou não só a história, não só as ciências sociais, completam a pessoa, a pessoa está sempre procurando outras ideias para estudar a partir do que você gosta e do que você está a fim. Eu gosto de grafite porque eu me divirto, primeiramente. Aliás, eu gosto do meu trabalho porque eu me divirto. No Museu [do Homem do Nordeste] eu me divirto. A primeira coisa que eu penso é nisso, se divertir trabalhando, fazer uma coisa que é massa, que eu realmente curto. Então, a ideia vem disso aí, de realmente curtir o que você faz. Agora, claro, tem alguns trabalhos que você pensa de forma mais política, outros nem tanto. Grafite e ilustração são meio que um hobby que eu levo a sério na perspectiva do futuro. Aliás, minha vida eu levo como um hobby [risos].

Você diria que seu grafite é mais político ou é mais você se expressando?

Atualmente, como eu tô trabalhando muito e estudando muito, eu tenho vários projetos que eu tô pré-produzindo em casa. Inclusive uma série que eu tô querendo expor próximo ano que discute a ideia da ação do tempo sobre as coisas, principalmente sobre imobiliário, carro... É uma série de pinturas que eu tô fazendo e eu quero que saia até a metade do ano. Muita pesquisa e tal, eu tô estudando isso. Eu tô acabando de fazer um curso de ilustração, vou começar pintura, mas eu já entendi um pouco, tô querendo entender melhor. Mas, principalmente, uma coisa que eu mais me identifico é uma coisa voltada ao trabalho mais pesado, digamos assim. 

E em quem você se inspira?

Ah, tem milhares de pessoas. Daqui do Brasil tem muita gente, eu curto muito Paulo Ito, de São Paulo; Rio de Janeiro tem uma rapaziada massa; a galera do MOF [Meeting of Favela], que é o maior evento de grafite comunitário do mundo; [Thiago] Tarm é um que também é massa lá do Rio... Sei lá, se for descer tem muita gente, também. Paraíba, Chico [Shiko], ilustração. Ceará, a galera do Acidum. Fora do Brasil também tem muita gente, tem uma galera da Europa mesmo que está em outra noção de grafite já. Tem um da Itália, NemO’s... Tem muita gente, sei lá! [risos]

Você assina com seu próprio nome ou você criou uma assinatura?

Na verdade, eu assino um LN só, não coloco meu nome todo, só as iniciais.

Onde você grafita normalmente? Rua, empresa, residência...

Eu já fiz muito grafite em escola, eu comecei mesmo, principalmente, em projetos em escolas. Eu e meu amigo íamos em escolas e fazíamos vários projetos, principalmente da prefeitura de Olinda, Paulista... A gente sempre fez vários trabalhos com menininhos. A escola chegava com o material e a gente sempre fazia vários projetos lá. Recife, algumas vezes... Eu pinto mais pro lado de Olinda, Paulista. Atualmente eu tô nesse processo, trabalhando muito, então não dá mais. 

Mas você pinta em Olinda, Paulista, nas ruas também ou só nas escolas?

Nas ruas. Já pintei muito em escola, mas hoje em dia eu não tenho tempo de parar e realmente fazer um projeto. Atualmente, eu já tenho outros projetos, eu quero começar a dar aula de ilustração também, relacionada ao que eu trabalho, que é acervo de museu. É outra ideia.

Como você descreve seu estilo e a evolução do seu trabalho? O que é que você tenta passar com sua arte?

Vai depender muito do ambiente, da situação, da forma de ver as coisas. A gente não está isolado no mundo, então acaba sendo tocado e retocado muitas vezes, em vários momentos. E isso influencia diretamente, muitas vezes você vê um trabalho e tem muita linguagem para o artista repassar. Vejo várias pessoas também que não são do grafite, mas têm várias dessas ideias, de o trabalho tocar. Muitas vezes você começa a entender melhor quando você está realmente discutindo, dialogando sobre várias outras questões. Por exemplo, a gente trabalha com exposição de arte contemporânea, tem muita informação dentro de uma exposição que a gente só vai conhecer realmente quando conhece a história. Os trabalhos muitas vezes têm muita história para contar, que é muito importante para você o entender. Pode não fazer parte do seu contexto, por isso você pode não entender. Vai depender muito desses contextos que a gente está. 

O que diferencia seu trabalho dos outros?

[risos] Você se entender no mundo é complicado... Atualmente, eu tô estudando muito uma estética que eu gosto mais. Não é a noção de grafite voltada para letra, bomb, mas sim voltada para a ideia de criar contextos, criar personagens, situações e narrativas através do teu trabalho. Atualmente, eu tô meio nessa transição, passando para isso. Por isso que eu tô pensando em trabalhar mais com painel: eu fiz um em Itapuama, há uns dois meses atrás. Passei dois dias internado na praia pintando em uma avenida abandonada. Esse trabalho foi mais uma coisa de brincadeira, de descontração. Fui eu e mais dois amigos, a gente criou três personagens praieiros, aqueles três macacos [aqui se refere aos Três Macacos Sábios, que cobrem, individualmente, a boca, os olhos e os ouvidos], só que todos eles estavam de camisa florida e com aqueles óculos 3D de praia. Eu tô muito nessa transição, pensando muito nessa ideia de criar contextos e de pensar em trabalhos de murais. Viajo em murais, acho massa. Inclusive é o que eu acompanho, hoje, no mundo e de referência também, todo dia eu vejo. Prefiro passar três dias pintando assim, conversar sobre o trabalho. Minha viagem é essa. 

Você acha que a vida como grafiteiro atrapalha a vida profissional e pessoal ou você consegue interligar tudo?

Eu trabalho com educação desde antes de começar na faculdade, em 2011: já dava aula, já fazia algumas coisas. A vida de educador veio primeiro do que a própria vida de começar a grafitar. Eu comecei a grafitar e pouco tempo depois eu entrei na faculdade. Eu acho que acompanhou essa transição da universidade, da experiência que se passa, assim como a mudança de pensamento que eu acho que meu curso me trouxe. Algumas temporadas eu realmente passei muito tempo sem pintar, mas estava produzindo ilustração, vendo roteiro de animação... Tem alguns trabalhos que eu vou fazendo junto com a galera também. E eu acho que eu sou muito assim: às vezes eu agarro o mundo com as pernas, mas eu sei que muitos trabalhos valem a pena ter contribuição.  Eu não consigo também ficar só parado, pensando no meu trabalho. Eu vou associando o que eu faço aos meus hobbies, ao que eu gosto de fazer, então eu acho que está tudo certo, tudo em um bolo só, no final das contas.

Muita gente diz que o grafite está sendo mais bem visto ultimamente, que antes tinha muito preconceito. Você concorda com essa opinião? 

Com certeza, o mundo é outro. A gente está numa sociedade totalmente de informação. É o seguinte: existem grupos que definem o que é certo ou errado na sociedade, e o grafite veio de um movimento totalmente periférico, junto com o piche, e, naquele contexto, não era aceito. Só que a diferença do grafite para uma obra dentro de um museu é que você chega e faz. A efemeridade e o desapego à obra são coisas que nunca antes se chegou na arte. O desapego, principalmente com a ideia do grafite, é totalmente diferente do que se entende sobre obra de arte, preservação. Tanto faz estar aqui hoje como chegar alguém e pintar amanhã. Existe um respeito também: em lugar onde tem piche, tem grafite, o pessoal não pinta por cima. Existe esse respeito e essa ideia de "não, é o trabalho do cara". Normalmente as pessoas respeitam. Inclusive é engraçado, né? Eu tinha feito um trabalho perto da minha casa e quando eu passei tinham três caras pintando. Quando eles me viram disseram “eita, foi o cara que pediu” e eu disse “nada, esse aí já cumpriu o ciclo dele”. A ideia é essa. O trabalho tem seu ciclo, eu acho. É claro que as pessoas levam para outro patamar: Bansky é um cara que a galera está tirando pedaço de muro dele e levando para dentro do museu, levando para galeria, vendendo por um milhão... O cara fez um trabalho ali, o outro recortou a parede e levou. É “facinho”. A galera está em outras ideias. Só que o grafite tem essa ideia do “chegou, fez, quem passou viu, quem não passou não viu, vai ver depois”. Mesmo você não gostando, você sai da sua casa e dá de frente a um grafite, a um piche. 

O grafite também passa por outro momento, economicamente: as pessoas entenderam que podem ganhar dinheiro com ele. A economia tem tudo a ver com aceitabilidade ou não, as pessoas que dizem que aquilo ali é bacana ou não vão dizer que é bom porque estão ganhando dinheiro também. Hoje a gente tem bienal de grafite, do mundo todo. Tem uma cidade na Alemanha que as empresas de tinta se juntaram para promover um evento que vai rolar em 2018, e eles tão fazendo [grafite] em vários lugares da cidade, já tem mais de 24 prédios. Quando chegar em 2018, o pessoal ganha um ciclo turístico só de grafite, construído em outra noção já. Então, economicamente, leva a almejar outras coisas, por isso que a aceitabilidade também vem da ideia econômica, porque, realmente, as pessoas começaram a colocar [o grafite] em lugares que as belas artes estão também. 

Você tem alguma dica para quem está começando agora?

Tenho, com certeza: veja referências. Para qualquer pessoa, a primeira coisa que eu digo é: o mínimo que você tem de obrigação é conhecer todo mundo da sua área, porque aí você começa a se entender. Você conhecer realmente suas referências, pessoas que não são diretamente ligadas à sua área, mas que auxiliam no seu trabalho, eu acho que é uma obrigação. Fora isso é você se jogar. 

Artista por trás das paredes da nova sala de convivência da Fundação Joaquim Nabuco, que retratam, em grafite, o fundo do mar, Luan Nascimento é grafiteiro, graduado em história e monitor do Museu do Homem do Nordeste. Luan, entre uma correria e outra, da sua oficina a nova exposição do muHNE, concorda em sentar por alguns minutos para conceder essa entrevista. Explicando sobre a reforma pela qual a oficina está passando — oficina esta que também será palco de um de seus futuros projetos de grafite —, pega dois bancos e posiciona-os perto da mesa, colocando a lata de tinta que vinha carregando sobre ela, e, ainda segurando um pincel, recosta no banco para falar um pouco mais sobre sua arte. Não larga o pincel durante toda a conversa.

A seguir, a entrevista completa.

 

De quem foi a ideia de grafitar a nova sala de convivência?

É o seguinte, o pessoal estava pensando e conversando que queriam uma sala de convivência, só que eles não sabiam mais ou menos como ia ser, se ia ter jogo, se não ia... Eles começaram a pensar no projeto e estavam pensando em pintar em três passos diferentes, três cores diferentes, que iam ser os ambientes. O do canto, onde tem uma prancha, vai ser a parte que tem a televisão. No meio, ia ser uma parte de leitura. No outro canto, uma parte de jogos. A princípio se pensou assim. Depois foram mudando, mudando, mudando, mas queriam alguém para pintar, aí falaram comigo e com Luiz [estagiário do Museu do Homem do Nordeste] sobre a proposta, a gente aceitou a ideia e dissemos “ah, vamos favor um projeto de alguma coisa que pudesse ser da sala de convivência, né?”. A gente pensou e maturou a ideia de ser um fundo do mar e começou a pegar elementos que se encaixassem naquela sala como uma sala realmente de descanso, uma sala de convivência para o pessoal no almoço. Então, a gente foi pegando elementos que pensávamos, estudou uma paleta de cores e construiu o desenho dessa forma, pensando em quais representações iríamos colocar: uma tartaruga, uns peixes... Foi mais uma ideia de ambientação, não foi muito um grafite com proposta de pensar questões políticas... Que é o que eu prefiro, né, mas enfim [risos]. A gente fez o projeto e já começou no sábado mesmo, foi muito rápido.

Desde quando você faz grafite?

Então, grafite faz uns quatro anos, desenho desde “pirralha” e, atualmente, tô estudando ilustração e vou começar a estudar mais pintura. Eu já faço, só que eu tô estudando mais agora, porque eu me formei, aí...

E o que lhe levou ao grafite, foi isso de desenhar desde pequeno?

A ideia é a seguinte: desde “pirralha” eu viajo em apresentação imagética com cor, com personagem, que cria histórias. Então, apesar de fazer grafite, eu gosto muito de ilustração, animação, tudo que tem a ver com a ideia gráfica da construção do desenho, do cenário, de pensar realmente um trabalho. Eu viajo, eu acho massa. Tanto é que eu tenho alguns projetos de animação e algumas outras coisas que eu tô a fim de realizar em 2017, porque, justamente, eu acho que não só o grafite, não só a ilustração ou não só a história, não só as ciências sociais, completam a pessoa, a pessoa está sempre procurando outras ideias para estudar a partir do que você gosta e do que você está a fim. Eu gosto de grafite porque eu me divirto, primeiramente. Aliás, eu gosto do meu trabalho porque eu me divirto. No Museu [do Homem do Nordeste] eu me divirto. A primeira coisa que eu penso é nisso, se divertir trabalhando, fazer uma coisa que é massa, que eu realmente curto. Então, a ideia vem disso aí, de realmente curtir o que você faz. Agora, claro, tem alguns trabalhos que você pensa de forma mais política, outros nem tanto. Grafite e ilustração são meio que um hobby que eu levo a sério na perspectiva do futuro. Aliás, minha vida eu levo como um hobby [risos].

Você diria que seu grafite é mais político ou é mais você se expressando?

Atualmente, como eu tô trabalhando muito e estudando muito, eu tenho vários projetos que eu tô pré-produzindo em casa. Inclusive uma série que eu tô querendo expor próximo ano que discute a ideia da ação do tempo sobre as coisas, principalmente sobre imobiliário, carro... É uma série de pinturas que eu tô fazendo e eu quero que saia até a metade do ano. Muita pesquisa e tal, eu tô estudando isso. Eu tô acabando de fazer um curso de ilustração, vou começar pintura, mas eu já entendi um pouco, tô querendo entender melhor. Mas, principalmente, uma coisa que eu mais me identifico é uma coisa voltada ao trabalho mais pesado, digamos assim.

E em quem você se inspira?

Ah, tem milhares de pessoas. Daqui do Brasil tem muita gente, eu curto muito Paulo Ito, de São Paulo; Rio de Janeiro tem uma rapaziada massa; a galera do MOF [Meeting of Favela], que é o maior evento de grafite comunitário do mundo; [Thiago] Tarm é um que também é massa lá do Rio... Sei lá, se for descer tem muita gente, também. Paraíba, Chico [Shiko], ilustração. Ceará, a galera do Acidum. Fora do Brasil também tem muita gente, tem uma galera da Europa mesmo que está em outra noção de grafite já. Tem um da Itália, NemO’s... Tem muita gente, sei lá! [risos]

Você assina com seu próprio nome ou você criou uma assinatura?

Na verdade, eu assino um LN só, não coloco meu nome todo, só as iniciais.

Onde você grafita normalmente? Rua, empresa, residência...

Eu já fiz muito grafite em escola, eu comecei mesmo, principalmente, em projetos em escolas. Eu e meu amigo íamos em escolas e fazíamos vários projetos, principalmente da prefeitura de Olinda, Paulista... A gente sempre fez vários trabalhos com menininhos. A escola chegava com o material e a gente sempre fazia vários projetos lá. Recife, algumas vezes... Eu pinto mais pro lado de Olinda, Paulista. Atualmente eu tô nesse processo, trabalhando muito, então não dá mais.

Mas você pinta em Olinda, Paulista, nas ruas também ou só nas escolas?

Nas ruas. Já pintei muito em escola, mas hoje em dia eu não tenho tempo de parar e realmente fazer um projeto. Atualmente, eu já tenho outros projetos, eu quero começar a dar aula de ilustração também, relacionada ao que eu trabalho, que é acervo de museu. É outra ideia.

Como você descreve seu estilo e a evolução do seu trabalho? O que é que você tenta passar com sua arte?

Vai depender muito do ambiente, da situação, da forma de ver as coisas. A gente não está isolado no mundo, então acaba sendo tocado e retocado muitas vezes, em vários momentos. E isso influencia diretamente, muitas vezes você vê um trabalho e tem muita linguagem para o artista repassar. Vejo várias pessoas também que não são do grafite, mas têm várias dessas ideias, de o trabalho tocar. Muitas vezes você começa a entender melhor quando você está realmente discutindo, dialogando sobre várias outras questões. Por exemplo, a gente trabalha com exposição de arte contemporânea, tem muita informação dentro de uma exposição que a gente só vai conhecer realmente quando conhece a história. Os trabalhos muitas vezes têm muita história para contar, que é muito importante para você o entender. Pode não fazer parte do seu contexto, por isso você pode não entender. Vai depender muito desses contextos que a gente está.

O que diferencia seu trabalho dos outros?

[risos] Você se entender no mundo é complicado... Atualmente, eu tô estudando muito uma estética que eu gosto mais. Não é a noção de grafite voltada para letra, bomb, mas sim voltada para a ideia de criar contextos, criar personagens, situações e narrativas através do teu trabalho. Atualmente, eu tô meio nessa transição, passando para isso. Por isso que eu tô pensando em trabalhar mais com painel: eu fiz um em Itapuama, há uns dois meses atrás. Passei dois dias internado na praia pintando em uma avenida abandonada. Esse trabalho foi mais uma coisa de brincadeira, de descontração. Fui eu e mais dois amigos, a gente criou três personagens praieiros, aqueles três macacos [aqui se refere aos Três Macacos Sábios, que cobrem, individualmente, a boca, os olhos e os ouvidos], só que todos eles estavam de camisa florida e com aqueles óculos 3D de praia. Eu tô muito nessa transição, pensando muito nessa ideia de criar contextos e de pensar em trabalhos de murais. Viajo em murais, acho massa. Inclusive é o que eu acompanho, hoje, no mundo e de referência também, todo dia eu vejo. Prefiro passar três dias pintando assim, conversar sobre o trabalho. Minha viagem é essa.

Você acha que a vida como grafiteiro atrapalha a vida profissional e pessoal ou você consegue interligar tudo?

Eu trabalho com educação desde antes de começar na faculdade, em 2011: já dava aula, já fazia algumas coisas. A vida de educador veio primeiro do que a própria vida de começar a grafitar. Eu comecei a grafitar e pouco tempo depois eu entrei na faculdade. Eu acho que acompanhou essa transição da universidade, da experiência que se passa, assim como a mudança de pensamento que eu acho que meu curso me trouxe. Algumas temporadas eu realmente passei muito tempo sem pintar, mas estava produzindo ilustração, vendo roteiro de animação... Tem alguns trabalhos que eu vou fazendo junto com a galera também. E eu acho que eu sou muito assim: às vezes eu agarro o mundo com as pernas, mas eu sei que muitos trabalhos valem a pena ter contribuição.  Eu não consigo também ficar só parado, pensando no meu trabalho. Eu vou associando o que eu faço aos meus hobbies, ao que eu gosto de fazer, então eu acho que está tudo certo, tudo em um bolo só, no final das contas.

Muita gente diz que o grafite está sendo mais bem visto ultimamente, que antes tinha muito preconceito. Você concorda com essa opinião?

Com certeza, o mundo é outro. A gente está numa sociedade totalmente de informação. É o seguinte: existem grupos que definem o que é certo ou errado na sociedade, e o grafite veio de um movimento totalmente periférico, junto com o piche, e, naquele contexto, não era aceito. Só que a diferença do grafite para uma obra dentro de um museu é que você chega e faz. A efemeridade e o desapego à obra são coisas que nunca antes se chegou na arte. O desapego, principalmente com a ideia do grafite, é totalmente diferente do que se entende sobre obra de arte, preservação. Tanto faz estar aqui hoje como chegar alguém e pintar amanhã. Existe um respeito também: em lugar onde tem piche, tem grafite, o pessoal não pinta por cima. Existe esse respeito e essa ideia de "não, é o trabalho do cara". Normalmente as pessoas respeitam. Inclusive é engraçado, né? Eu tinha feito um trabalho perto da minha casa e quando eu passei tinham três caras pintando. Quando eles me viram disseram “eita, foi o cara que pediu” e eu disse “nada, esse aí já cumpriu o ciclo dele”. A ideia é essa. O trabalho tem seu ciclo, eu acho. É claro que as pessoas levam para outro patamar: Bansky é um cara que a galera está tirando pedaço de muro dele e levando para dentro do museu, levando para galeria, vendendo por um milhão... O cara fez um trabalho ali, o outro recortou a parede e levou. É “facinho”. A galera está em outras ideias. Só que o grafite tem essa ideia do “chegou, fez, quem passou viu, quem não passou não viu, vai ver depois”. Mesmo você não gostando, você sai da sua casa e dá de frente a um grafite, a um piche.

O grafite também passa por outro momento, economicamente: as pessoas entenderam que podem ganhar dinheiro com ele. A economia tem tudo a ver com aceitabilidade ou não, as pessoas que dizem que aquilo ali é bacana ou não vão dizer que é bom porque estão ganhando dinheiro também. Hoje a gente tem bienal de grafite, do mundo todo. Tem uma cidade na Alemanha que as empresas de tinta se juntaram para promover um evento que vai rolar em 2018, e eles tão fazendo [grafite] em vários lugares da cidade, já tem mais de 24 prédios. Quando chegar em 2018, o pessoal ganha um ciclo turístico só de grafite, construído em outra noção já. Então, economicamente, leva a almejar outras coisas, por isso que a aceitabilidade também vem da ideia econômica, porque, realmente, as pessoas começaram a colocar [o grafite] em lugares que as belas artes estão também.

Você tem alguma dica para quem está começando agora?

Tenho, com certeza: veja referências. Para qualquer pessoa, a primeira coisa que eu digo é: o mínimo que você tem de obrigação é conhecer todo mundo da sua área, porque aí você começa a se entender. Você conhecer realmente suas referências, pessoas que não são diretamente ligadas à sua área, mas que auxiliam no seu trabalho, eu acho que é uma obrigação. Fora isso é você se jogar. 

Entrevista: Thiago Martins de Melo, da exposição "Bárbara Balaclava"

Por Marcela Lins                 

As alegorias perversas e viscerais de Thiago Martins de Melo, artista maranhense radicado em São Paulo, aportaram na Fundação Joaquim Nabuco nos últimos meses de setembro e outubro. A obra “bárbara balaclava”, uma potente animação que apresenta uma espécie de compêndio da história do Brasil, anuncia a trajetória de uma personagem (seria uma heroína?) - uma narrativa que não obedece a qualquer tipo de rigor estético ou cronológico e que aponta uma opressão vindoura de tempos passados, mas que se repete e se faz presente no aqui e no hoje.

Veja abaixo a conversa do artista com a equipe do muHNE.

Suas pinturas, mesmo que estáticas, são muito narrativas. Posteriormente você começou a inserir TVs em seus trabalhos. Por que a opção de fazer uma obra estritamente em animação?

Meu trabalho é muito narrativo, sempre foi. Até os títulos eram muito grandes porque tinham uma narrativa muito clara. E eu comecei a ter interesse pelas imagens em movimento, como uma nova camada de narração. Como se fosse mais uma expansão dessa narrativa saindo desse contexto físico bidimensional pra outra situação. Então quando eu comecei a fazer isso, comecei a injetar TVs nas telas. Comecei a fazer várias animações, como dois monitores de TV em uma pintura grande... E aquilo começou a crescer tanto que várias das cenas desse filme foram usadas em pinturas. Começou um pouco assim, como experimento. Bárbara Balaclava começou como experimento e depois se tornou algo muito concreto.

E minha ideia foi sempre fazer uma coisa meio tosca, uma técnica urgente. Muitas imagens, desenhos, pinturas. Você vê que a técnica muda o tempo inteiro. Vai de tinta a óleo a caneta, porque é uma urgência mesmo. É algo feito por puro desejo. Não foi uma técnica tradicional. Não existe uma grande proposta estética. Ele é meio provocador, não deixa teu olho se acostumar. O que tem de sofisticado é o som. Montar o som foi o mais difícil. Ele tem o papel de dar força à imagem, de dar profundidade. Torna o filme mais “palpável”.

É seu primeiro trabalho estritamente em vídeo?

É a primeira vez que isso se dá. Começou como algo que estava se construindo de uma necessidade minha de querer contar algumas histórias que já estavam ali. O que aconteceu é que aquilo se transformou numa metanarrativa.  Um mesmo personagem que seria ‘selvagem’, que estaria a margem desse universo neoliberal. Comunidades não vivem nessa economia, que não estão a par desse sistema econômico e que são consideradas ‘bárbaras’. Na verdade é uma maneira de se ver um mundo que não aceita esse tipo de civilidade exterior.

Quando a obra foi concluída? Como você enxerga seu trabalho nesta conjuntura em que vivemos?

Em fevereiro deste ano [2016]. É algo que acontece o tempo todo, desapropriação de terra, genocídio indígena...  Me inspirei, por exemplo, no caso da aldeia Cajueiro, Maranhão.

Para este trabalho?

Também. Fiz um trabalho com o povo Gamela [povos indígenas do Maranhão] e foi mais ou menos isso... Fiquei uns dias com eles e era isso: o pessoal passava de caminhonete dando tiro para o lado dos indígenas. Então esse tipo de situação que a gente tá passando agora mesmo, no filme, é muito comum. E tá cada vez pior, porque o congresso nacional agora está aparelhado para combater qualquer iniciativa mais à esquerda. Estão a serviço de um projeto conservador, liberal. É um momento muito perigoso.

E é um momento de tanta falta de leitura de mundo. As pessoas não interpretam mais nada. É mais fácil ser intransigente que tentar entender o outro. E isso interfere em tudo: na maneira com a gente tá escrevendo um texto, na maneira como a gente tá produzindo, nas relações humanas...

Eu sempre gostei dessa coisa da narrativa. Então eu acho até que o momento agora é propicio. Com essa desconstrução do país... um Brasil que voltou a negar a si mesmo, que almeja ser o que nunca foi. Levi Strauss dizia que o Brasil saiu da barbárie para a decadência sem passar pela civilização. Esses decadentes são bárbaros. Eles continuam com o mesmo método: de escravismo, de genocídio indígena, de xenofobia, de ódio ao trabalhados. Ódio ao que nós somos.

E quando eu digo ‘bárbara’ no título do trabalho não é pejorativo. Na verdade é assumir como o mundo ocidental pensa qualquer crítica, qualquer comunidade, qualquer meio de vida “fora”. Hoje, se você não tem um cartão de crédito, você é descartável.  Mas é aquela coisa que dizia o subcomandante Marcos, depois Galeano, “outros mundos são possíveis”, né?

O Zapatismo soa como uma referência...

Eu estou doido para ir lá. Ano passado teve o compARTE... Eu estava lá em Oaxaca quando estourou a coisa lá dos maestros, dos professores... O negócio tá bruto.

A coisa tá muito bruta. Essa onda do conservadorismo tá forte no mundo todo. Então esse filme acabou sendo feito por uma urgência mesmo. Sabe esse clichê que se diz que uma obra se faz só? Que a pintura é que toma o seu próprio caminho... É mais ou menos o que aconteceu.

Há muita violência e, ao mesmo tempo, muita sexualidade. Você vê alguma relação da tua obra com o trabalho de Georges Bataille?

Engraçado, você é a segunda pessoa a falar isso. É que Georges Bataille, em A História do Olho, tem uma coisa de se perder em um universo fantástico, cruel, perverso e muito simbólico. Essas imagens tem um poder tão forte que elas rompem com limite daquilo que a gente tá falando e acabam entrando no imaginário de muita gente. É mais ou menos como eu vejo esse filme. Muitas imagens que têm nesse filme tocam muita gente. Fazem as pessoas acessarem outras coisas.

E essa maneira de ver, da sexualidade como expressão mesmo... São imagens que são simbólicas, alegorias que se repetem. Maneiras de ler de modo inconsciente fórmulas ou entendimento que são acessados não por uma linguagem verbal, mas por uma linguagem visual.

E o uso do tarô?

O tarô foi Viviane, minha ex-esposa. Eu sempre fui fascinado pelo tarô. Muitas pinturas minhas têm elementos do tarô, como o rei de espadas, o mago... Eu acho que o tarô é um desses sistemas que o mundo tem de se ler uma trajetória. Ele prevê toda uma jornada espiritual, uma jornada humana existencial que tá aí, que é possível de ser acessada. E Viviane jogou um tarô desse filme...

E o tarô acaba funcionando como uma espécie de chave de leitura do filme. Uma pessoa pode pegar esse tarô e interpretar esse personagem por meio desse jogo. Começa com o mundo, vem a Anansi, a aranha que é dona da história do mundo contando a história da Amazônia. Então tem essa relação. Se você se perde na história, tem a carta de tarô pra te guiar.

Fundaj participa de projeto que propõe a construção da memória do Recife

Por Juliana Costa

Um evento cultural com participação de alunos de escolas públicas municipais do Recife, exposição de livros, concerto de banda e uma extensa pesquisa escolar que visava o (re)conhecimento da própria cidade. Foi o que aconteceu na Fundação Joaquim Nabuco – Casa Forte nesta quarta-feira, 19 de outubro. Numa parceria entre o Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores, da Prefeitura da Cidade do Recife, e a Biblioteca Central Blanche Knopf, da Fundaj, a instituição, criada por Gilberto Freyre e que tem como patrono o abolicionista Joaquim Nabuco, recebeu, em seu espaço, o projeto Interagindo com a história do seu bairro

Com uma proposta que pretendia fazer os estudantes “interagirem com o bairro, vivenciarem o bairro deles e ter um olhar diferenciado”, segundo a coordenadora da Biblioteca Blanche Knopf, Nadja Tenório, o evento contou com um Café Cultural que, além do lanche, incluía livros artesanais, teatro de mamulengos, banda e muito frevo — tudo composto, tocado e dançado pelos alunos, que se distribuíam entre o 1º e o 9º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas do Recife.  

O projeto gira em torno da produção de conhecimento acerca dos bairros do Recife e sua história, propondo a construção de um registro memorial entre os alunos e a cidade. Os livros produzidos (todos feitos com chita, conchas e materiais recicláveis e escritos pelos próprios alunos, com ilustrações e fotos dos estudantes) contêm informações históricas sobre as comunidades que rodeiam as unidades escolares — curiosidades como a origem do nome dos bairros, a história de sua urbanização e sua população primitiva. As informações foram adquiridas da observação participativa das turmas para com os locais e de entrevistas com moradores, bem como de livros e pesquisas já existentes. Como os livros, o teatro de mamulengos também contava a história de uma parte da cidade — nesse caso, do bairro de Torrões. Os mamulengos foram, igualmente, produzidos pelos próprios estudantes com materiais recicláveis, como caixas de leite, e apresentados por eles. “A gente aprendeu várias coisas novas que a gente não sabia sobre o bairro”, comenta um dos alunos que ficaram encarregados da apresentação, Eduardo, do 6º ano da Escola Municipal Arraial Novo Do Bom Jesus.  

A abertura do evento, às 9h30, ficou por conta da historiadora Rita de Cássia e do presidente da Fundaj, Luiz Otávio Cavalcanti. Luiz Otávio deu as boas vindas: “Não é todo dia que a gente começa a trabalhar ouvindo vassourinhas. Não é todo dia que a gente começa a trabalhar na convivência agradável dos estudantes de nossa cidade. Não é todo dia que a gente começa a trabalhar vivendo tão intensamente a educação do nosso estado. Então, por essas razões, sejam muito bem vindos à casa de Joaquim Nabuco”, disse o presidente. A abertura também contou com a participação de alunos dos colégios participantes, como Vandreelson, 9º ano na Escola Municipal Nadir Colaço, que ressaltou a importância do projeto no entendimento do contraste entre o Recife do passado e do presente. O aluno também destacou a descoberta de novos lugares dentro do seu próprio bairro.  

O evento seguiu com a apresentação mais extensiva sobre cada um dos trabalhos, expostos pelas professoras responsáveis, e uma introdução ao projeto Pesquisa Escolar Online, feita por Cláudia Verardi, bibliotecária da Fundaj, que, numa parceira com o trabalho das escolas, produziu panfletos para o projeto Conheça sua Cidade, desenvolvido pela Fundação e disponível online no site da Fundaj. A Editora Massangana também marcou presença, reafirmando o compromisso de pensar a produção de um livro sobre o projeto Interagindo com a história do seu bairro.

Finalizando, um dos livros artesanais, composto por alunos da Escola Municipal do Coque, lê-se, em forma de cordel:

Esse livro é o resultado de um projeto especial
Que uniu Fundaj e escola de forma fenomenal
Para falarmos de história, algo que é fundamental
[...]
À equipe da Fundaj, nosso agradecimento
E ao Manuel Bandeira, que, com tanto engajamento,
Apoiou nosso trabalho,
Eis nosso reconhecimento”.

Kleber Mendonça Filho entrega carta de exoneração à presidência da Fundaj

 Após 18 anos de serviço, Kleber Mendonça Filho deixa a coordenação de cinema da Fundação Joaquim Nabuco para se dedicar à sua carreira de cineasta. A carta de exoneração foi entregue ao presidente da Fundaj. "Respeito a decisão do cineasta Kleber Mendonça Filho, de entregar o cargo por considerar este um ato pessoal. O mesmo respeito com que trato a decisão de Kleber Mendonça, de permanecer no cargo durante os cinco meses da atual gestão. Agradeço ao cineasta pelo trabalho realizado na instituição e na promoção do Cinema da Fundação e desejo sucesso nessa nova etapa profissional", diz o presidente Luiz Otávio Cavalcanti. 

Confira, abaixo, a carta do cineasta na íntegra:

 

 

 

 

10ª PRIMAVERA DOS MUSEUS INTENSIFICA PROGRAMAÇÃO DO MUHNE E ENGENHO

Oficinas gratuitas, sarau literário, exibição de filmes, feira de trocas, ciclo de palestras e um novo roteiro de mediação foram algumas das ações promovidas pelo Museu do Homem do Nordeste - tanto no seu edifício sede, em Casa Forte, quanto no Engenho Massangana - para a 10ª Primavera dos Museus, entre 18 e 25 de setembro.

O evento, que teve como tema “Museus, Memórias e Economia da Cultura” intensificou a programação do Muhne que, nos últimos dias, recebeu aproximadamente vinte instituições para visita mediada.

Na ocasião, a equipe de educadores do Museu aproveitou para dar início a um novo roteiro de mediação, o AquarELAS, focado na narrativa das mulheres representadas no espaço museal, como as ceramistas Lídia Vieira e Severina Batista,  a pintora Djanira, e Dona Santa, a rainha do Maracatu Nação Elefante.

Para Nayara Passos, educadora do Muhne, a experiência da mediação com enfoque de gênero funcionou bem. “Recebi um grupo de 9º ano e foi bem proveitoso. Eles dialogaram bastante e foi muito interessante poder falar da invisibilidade das mulheres dentro do próprio museu”.

A educadora ainda destacou que, no Domingo dos Pequenos, o Muhne recebeu um grupo do Alto José do Pinho, bairro do Maracatu Estrela Brilhante do Recife. “A mediação com eles foi muito boa porque quando falamos de Dona Santa [rainha do Maracatu Nação Elefante], o grupo lembrou de Dona Marivalda, rainha do Estrela Brilhante, que foi coroada por Dona Santa”, comentou Nayara. Além da mediação, o Domingo dos Pequenos contou com a projeção do curta “Dona Cristina Perdeu a Memória” e com as oficinas de pintura e argila no jardim.

Ao longo da semana, também foram realizadas atividades como a oficina de estandarte, com crianças da escola Alice Vilar de Aquino; as feiras de trocas e o Museu Educador, que teve como tema “A Participação das Mulheres nos Processos de Economia da Cultura em Diversas Realidades Sociais”, que teve participação das pesquisadoras Amanda Gonçalves (UFRPE) e Izaura Fischer (Fundação Joaquim Nabuco).

Para Amanda Gonçalves, que pesquisa a trajetória política das mulheres envolvidas com a pesca artesanal, “A proposta do evento era construir um diálogo em torno da história da mulher. E como eu fiz este recorte histórico e usei um acervo que estava completamente abandonado [a publicação O Leme, do Conselho Pastoral dos Pescadores], o evento proporcionou contrapontos bem interessantes. Falei um pouco sobre o que me motivou e algumas questões de gênero, raça e da pesca [...]. Já Izaura se ateve mais em uma fala sobre o conceito de economia da cultura, então houve ótimos contrapontos nos diálogos”, concluiu.

No Engenho Massangana, a programação também seguiu intensa. Ocorreram atividades como o Engenho Poético, sarau literário realizado na área externa do engenho; o CineReciclagem, sessão de curtas sobre meio ambiente; e a Oficina de Papel Machê.

“O sarau foi ótimo. Vieram crianças que participaram de um concurso, que leram e declamaram poesias”, comentou Edna Silva, coordenadora de Programas Educativo-Culturais do Muhne. Também participaram representantes da Academia Cabense de Letras e do Centro de Artesanato do Cabo de Santo Agostinho.

BÁRBARA BALACLAVA: O CONFRONTO COMO CONTRA-HISTÓRIA DO BRASIL

Por Moacir dos Anjos

Ao longo de uma década, Thiago Martins de Melo desenvolveu uma obra em pintura que se afirma, entre atrativa e estranha, como uma das mais singulares de sua geração. Em seus trabalhos, quase sempre feitos em óleo sobre telas de grandes dimensões, não há qualquer lugar para a contida expressão abstrata que marca as obras de muitos pintores brasileiros desde a década de 1950. Tampouco se encontra nela vestígios da representação elogiosa e pacífica de personagens e paisagens nativos, tão cara aos pintores modernistas do país e àqueles que ainda agora animam essa tradição. Suas pinturas, junto às realizadas por poucos outros no Brasil, se assentam em bases distintas, tanto em fatura como em assunto. São feitas de pinceladas rápidas e fortes que acumulam, sobre o suporte usado, tinta bastante para criar, em cores vibrantes, acidentados relevos e planos. Procedimento de construção que o artista julga adequado para lidar com a gravidade e a urgência dos temas que lhe afetam e importam: as violências que os detentores do poder real do país historicamente impõem a quem escape às normas que estabelecem ou desafie os privilégios de classe, cor e gênero de que desfrutam. Em particular, seus trabalhos se debruçam sobre os abusos por séculos cometidos contra as populações de origem indígena e negra no Brasil. São pinturas que articulam e amalgamam forma e conteúdo para narrar histórias dolorosas, fragmentadas e inconclusas. Histórias que não são somente, porém, de aniquilamento do outro subjugado pela força, mas também de resistências.

O fortalecimento da vontade de contar eventos complexos que envolvem muitos personagens e fatos fez com que os trabalhos de Thiago Martins de Melo se tornassem insuficientemente extensos, não importando o quanto crescessem as dimensões de suas pinturas. Passaram por isso a incluir, articuladas ou não às telas, objetos firmados sobre paredes e chão. Esse uso mais alargado do espaço não foi, todavia, suficiente para satisfazer o intento de contrariar histórias dominantes e motivações oficiais, fazendo com que também imagens em movimento fossem gradualmente incorporadas às construções. Tomando as próprias pinturas como arquivo de cenas, o artista passou a articular fotografias de fragmentos delas em curtas animações, abrigando ali o que mesmo telas e objetos de grandes dimensões não poderiam conter. Exibidos em monitores incrustrados em pinturas, esses filmes expandiram no tempo a capacidade narrativa daquelas, tornando-as formas de expressão híbridas e abertas. Bárbara Balaclava dá um passo além na voracidade de fala que a obra de Thiago Martins de Melo exibe, bem como no desejo de expandir os sentidos da produção pictórica mesmo quando esta não está materialmente exposta. Durando pouco mais de dez minutos, o filme edita e anima, de modo acelerado, imagens parciais de quase quatro mil pinturas em pequeno formato e de outras poucas em usual tamanho maior, feitas pelo artista especialmente para serem usadas nesse projeto.

Se Bárbara Balaclava condensa e alarga a ambição narrativa que Thiago Martins de Melo demonstra em sua trajetória, traz inalterada, senão ainda mais firme, a vontade de desafiar discursos que justifiquem ou normalizem práticas de dominação no país. Nesse sentido, o filme pode ser entendido como o esboço de uma contra-história do Brasil, feita mais de sugestões ou pedaços do que de uma fala escorreita e unificada. O que não implica deixar de apontar com clareza, nas torrentes de imagens que se sucedem no trabalho, causas e consequências das desigualdades que fundaram e sustentam o país. O título do filme faz referência imediata às máscaras de tecido que servem para a ocultação das identidades tanto de policiais em ações repressivas quanto, principalmente, daqueles que se insurgem contra formas institucionalizadas de violência social e que precisam se proteger de represálias de quem detém o poder de fato. Máscaras que, em relação aos últimos, servem para resguardar o anonimato daqueles que são considerados párias ou bárbaros por leis e convenções, tal como implicado, não sem ambiguidade, no título do trabalho. Daqueles que se assumem sem rosto somente para lutar, paradoxalmente, por seu direito de ser visto e escutado.

Em edição vertiginosa de imagens – acompanhada de visceral trilha sonora –, Bárbara Balaclava exibe cenas de conflito e confronto nas histórias recente e distante do Brasil. Avança e recua no tempo para deixar clara a longevidade dos processos de dominação violenta que expropria, por séculos a fio, riquezas materiais e simbólicas das populações nativas do país. Movimento temporal que também atesta, em paralelo, os mecanismos de subjugação corporal e psíquica imputados aos milhões de mulheres e homens negros escravizados no passado do Brasil e que, transmutados em aberta ou dissimulada discriminação racial, alcança os seus descendentes atuais. Ao compor esse esgarçado painel social, Thiago Martins de Melo inscreve disputas contemporâneas por terras ou ideias em uma persistente narrativa de exclusões e apagamentos (figurados e físicos) que atravessa a existência do país. Em simultâneo, contudo, mobiliza memórias, crenças, rituais e tudo que resiste à morte e fortalece corpos para contar uma insistente história de insurreição daqueles povos e de todos que com eles tecem alianças e laços. Aproximando tradições e cosmogonias insubordinadas às normas colonizadoras de ontem e de agora, demonstra a continuidade, ao longo dos séculos, de uma potência sublevada que resiste à dor e que desafia a arma. Apresenta guerreiros míticos que são, alternada ou concomitantemente, índios e negros, homens e mulheres, carnais e espirituais, bárbaros e civilizados. Guerreiros que usam outras balaclavas como instrumentos táticos de luta e que combatem um destino que lhes foi imposto como supostamente imutável. É um filme que, na articulação que promove entre pinturas e sons, acende disputas surdas e aponta danos infligidos a uma parcela da população do Brasil. Um filme que, ao fraturar ou subverter o que é dado como estável ou certo, faz a política que é própria da arte.

"Bárbara Balaclava" está em exposição na Galeria Massangana da Fundaj de Casa Forte, de 24 de setembro a 30 de outubro. Mais informações no Site da Fundaj

MASP REINAUGURA EXPOSIÇÃO COM PEÇAS DO MUSEU DO HOMEM DO NORDESTE

Foi no ano de 1969 que o Masp inaugurava sua primeira exposição temporária, "A Mão do Povo Brasileiro". Em torno do tema "cultura material brasileira", cerca de mil objetos, incluindo carrancas, ex-votos, santos, tecidos, mobiliário, ferramentas, instrumentos musicais, adornos, brinquedos, etc., eram expostos como parte do projeto da italiana Lina Bo Bardi de inscrever a cultura popular dentro dos domínios do museu de arte.

Próxima sexta-feira (2), o Masp inaugura uma reencenação da exposição e contará, entre outras parcerias, com peças do Museu do Homem do Nordeste. Ao todo, serão emprestados 57 objetos de nosso acervo, entre peças religiosas, cerâmicas, indumentária de vaqueiro e brinquedos. A exposição é um convite à reflexão e ao debate sobre as contestadas noções de arte popular e cultura popular.

A relação da italiana com o tema vem dos anos 1958 a 1964, período em que Lina morou em Salvador e aprofundou seus conhecimentos e vivências. Para a mostra no Masp, a proposta é explorar a problemática em torno da noção de arte popular e as implicações de uma prática museológica descolonizada, resistente aos discursos hegemônicos, de tradições eurocêntricas. A mostra foi concebida pela arquiteta, pelo diretor do museu, Pietro Maria Bardi, o cineasta Glauber Rocha e o diretor de teatro Martim Gonçalves.

Entre as peças que seguem para São Paulo, Albino Oliveira, museólogo do Museu do Homem do Nordeste, destaca as calungas de Dona Leopoldina e Dom Luiz, do Maracatu Nação Elefante.

O cortejo da agremiação Maracatu Elefante destacava-se por ser o único a desfilar com três calungas representando figuras da corte: Dona Emília, Dona Leopoldina e Dom Luiz. As calungas são bonecas de cunho ritual que representam o poder e a hierarquia do terreiro de candomblé enquanto sistema sócio-religioso. Além das três calungas, também chamavam atenção as duas carroças alegóricas: a do Elefante e a do Tigre.

MEDIADORES PARTICIPARAM DE FORMAÇÃO CONTINUADA NO MUHNE

Grace Kelly conduz as discussões junto aos mediadores. (Foto: Marcela Lins) Grace Kelly conduz as discussões junto aos mediadores. (Foto: Marcela Lins)  Por Marcela Lins

Como a educação pode acontecer no museu? Como partilhar lugares de fala? Onde a educação acontece? Como ativar transformações? Como promover outras narrativas a partir de um acervo?

Entre 22 e 25 de agosto, algumas destas questões foram elencadas na atividade formativa Mediação Cultural e práticas artísticas contemporâneas, aos educadores da Coordenação de Programas Educativo-Culturais do Museu do Homem do Nordeste.

Inspirada por procedimentos de práticas artísticas contemporâneas como manuais, cartografias, performances, happenings e derivas, os encontros tinham por objetivo integrar o corpo de educadores dos equipamentos culturais do Muhne e instigá-los a pensar como poéticas artísticas podem inspirar práticas educativas. A formação foi ministrada por Gleyce Kelly Heitor, coordenadora pedagógica da Escola do Olhar, programa de educação do Museu de Arte do Rio (MAR).

“O objetivo é que a gente se integre e encontre formas de pensar e trabalhar juntos, mobilizando a busca pelas nossas intersecções, e as intersecções entre práticas artísticas e educativas como um modo não só de fazer arte ou de fazer educação, mas um modo de fazer museus na contemporaneidade”, apontou Kelly em um primeiro momento.

Durante os três dias, os participantes debateram alguns conceitos relativos ao pensar o museu e ao pensar a educação enquanto espaços de criar outras leituras, outras interpretações e outras formas de ser.  “É importante pensarmos o espaço da conversa como um dispositivo de deslocamento”, acrescentou ainda Gleyce Kelly. Ao longo dos encontros, os educadores também puderam dialogar sobre trabalhos de artistas como Jorge Menna Barreto, Walmor Corrêa he os coletivos E/Ou e Poro.

“A formação é uma oportunidade importante porque juntamos todas as unidades do complexo do Muhne [Museu do Homem do Nordeste, Engenho Massangana e galerias] e aqui conversando juntos sobre práticas mediativas”, concluiu Alysson Henrique, educador do Museu.

“É super importante essa formação continuada porque estamos nos renovando sempre. Esse é o terceiro curso de formação que eu faço aqui pela Fundação. E, a cada curso, a gente olha pra novos lugares. Quando eu entrei, eu pensava que mediar era fazer a ponte entre o museu e as pessoas. E a palavra mediar tem disso. De ficar no meio entre um e outro. Só que, na verdade, é muito mais. Mediar, pra mim, é você conhecer pessoas, é conversar com elas sobre áreas de interesse comuns [...]  Aquela relação de uma hora tem que tocar tanto o mediador quanto o visitante. E se você consegue fazer com que esses temas acabem envolvendo, dialogando desde a  expografia, até os temas que vem sendo tratados no museu, e eu acredito que você consegue fazer uma boa mediação”, concluiu Mayana Rodopiano.

A oficina faz parte de uma política de formação continuada do Museu do Homem do Nordeste, em mediação, à sua equipe educativa. 

MEDIADORES PARTICIPARAM DE FORMAÇÃO CONTINUADA NO MUHNE

MUSEU DO HOMEM DO NORDESTE RECEBE GRUPOS DE JOVENS E ADULTOS EM HORÁRIO ESPECIAL

Hygor Callas apresenta o Museu aos jovens e adultos (Foto: Marcela Lins)Hygor Callas apresenta o Museu aos jovens e adultos (Foto: Marcela Lins)Por Marcela Lins

Todas as quartas-feiras, o Museu do Homem do Nordeste funciona até as 21h. Na ocasião, além de receber público espontâneo, o Muhne também dispõe de uma equipe de mediadores que recebe grupos de Educação para Jovens e Adultos (EJA) ou do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem).

Na última quarta-feira (17), o Museu recebeu um grupo de 28 estudantes, entre 18 a 29 anos, do ProJovem Urbano Recife. Hygor Callas e Nathália Sá foram os mediadores que, por meio de perguntas-chave, iniciaram o debate no espaço museal. “Quem é esse homem do nordeste?”, “O que vocês esperam encontrar aqui?”, “Que nordestes são estes?” foram alguns dos apontamentos deste primeiro momento.

A partir de uma perspectiva dialógica, os mediadores, junto com os estudantes exploraram cada uma das salas expositivas. “É importante a gente lembrar que este é um museu antropológico, cujo acervo foi constituído a partir do olhar de estudiosos brasileiros, dentre eles o Gilberto Freyre. Teremos aqui um ponto de vista, mas também queremos ouvir vocês”, enfatizou Hygor em determinado momento do percurso.

Entre porcelanas, pratarias, máquinas fotográficas e objetos cotidianos, os jovens faziam selfies, fotografavam as peças do acervo e debatiam, entre si e com os mediadores. Amanda, de 22 anos, afirmou ter vontade de retornar: “Foi minha primeira vez no Museu. E me vi principalmente na sala dedicada aos maracatus, que gosto muito”, concluiu.

Para Eugênio Souto Maior, professor de português e língua inglesa no ProJovem, é importante a visita aos espaços de educação não formal. “Trabalhamos com um ensino inclusivo e uma grande preocupação nossa é pensar o processo de aprendizado como algo prazeroso, e eles [os estudantes] gostam muito destas visitas”. A turma já foi a outros espaços cidade, como o Paço do Frevo e o Cais do Sertão.

Rafael, de 22 anos, afirmou ter tido uma experiência positiva: “Gostei muito da visita, principalmente a sala dos indígenas, onde tivemos uma visão mais crítica, de questionar o que estava sendo exposto. Adorei ver o praiá”, disse.

“Gosto muito de receber grupos de EJA e ProJovem porque, normalmente, são pessoas que não tiveram a oportunidade de concluir a escola e agora estão numa espécie de ‘segunda chance’. Então, acredito que por isso, vejo uma expectativa e um interesse grande nas visitas e, na maior parte das vezes, são pessoas que nunca tiveram contato com museus”, enfatizou Hygor.

Apesar do bom recebimento do grupo, a sala dedicada à religiosidade de matriz africana ainda é um desafio, segundo o mediador. “Acho importante, mesmo com a relutância de alguns alunos e visitantes, trabalhar a questão do candomblé, justamente por ser um assunto delicado e ainda de pouco conhecimento social, o que gera certo preconceito e afastamento. É enriquecedor lutar pela quebra deste tabu e mostrar que essa religião contribui para atos e crenças cotidianas”, concluiu.

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