Fundação Joaquim Nabuco

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Fundaj promove debate sobre a representatividade LGBT no cinema nacional

Em pleno século XXI, apesar de vários avanços, ainda se fala muito da importância da representatividade das minorias pelas mídias. A comunidade LGBT, foi mostrada e representada de diversas formas através dos anos, porém ainda necessitada de maior visibilidade, continua a promover movimentos que urgem por saciar essa carência. Movimentos que estão inclusive dentro da produção cinematográfica nacional, clamando por mais representatividade e visibilidade.

A Fundação Joaquim Nabuco, por meio do Instituto Boa Vista (IBV), promoveu na última segunda-feira (10), o debate “A cena LGBT no cinema nacional” integrante do projeto Roda Livre. Contou com a presença dos palestrantes: Carol Almeida, jornalista especializada em mídia ativista; Alberto da Silva, professor da Paris Sorbonne Université e autor de vários artigos sobre o cinema brasileiro; Chico Lacerda, professor e chefe do departamento de comunicação social da UFPE; Fábio Leal, cineasta e curador do Janela Internacional de cinema do Recife; e Aurora Jamelo, multi artista, designer e curadora de festivais de cinema. O debate foi mediado por Acioli Neto, cientista social e coordenador do IBV.

A temática foi abordada de diversos pontos de vista, desde um espectro mais amplo e histórico até a um recorte mais especifico como vivências e análises de filmes importantes como o remake “Madame Satã” de Karim AÏnouz. “É redundante falar da importância da representatividade da comunidade lgbt no cinema. Mais importante ainda é que nos últimos anos essa presença aconteceu com mais frequência, essa representação tem aparecido de uma maneira onde tenha reflexões sobre as questões de gênero e sobre a questão queer também. Filmes como ‘Tatuagem’, ‘Corpo Elétrico’ e outros, eu escolhi falar sobre o filme ‘Madame Satã’ hoje por ser um filme importante para pensar as questões de gênero e as questões queer no cinema brasileiro”, esclarece o palestrante Alberto da Silva.

A discussão precisa, no entanto, ser observada com bastante cuidado, pois, nem sempre, o interesse do cinema nacional foi pela representatividade dos gêneros, mas sim pela exposição baseada em clichês, chacotas e demais estereótipos que hoje sabemos problematizar. O personagem homossexual no cinema seguia sempre um molde, sendo frequentemente ridicularizado. Os gays eram sempre personagens destinados a fazer o público rir, o palhaço, sempre alienados ou pessoas de pouca instrução, de classe social baixa, subempregado ou marginal, de roupas espalhafatosas, andar afetado e voz de falsete, e que indica comportamento traiçoeiro; já o lesbianismo era altamente sexualizado e puramente representado para excitar o público masculino. As chanchadas das décadas de 30,40 e 50 faziam grande uso de alívio cômico através de estereótipos, já os primeiro filmes que abordaram o tema de forma um pouco mais direta, na década de 60, tinham certa relação com a homofobia enquanto elemento constitutivo da masculinidade nacional. Tal imagem sendo reproduzida por anos nas telas do cinema brasileiro e mundial reforçam a ideia de que esse é o padrão das pessoas dentro da comunidade LGBT, tornando-as unilaterais. Os clichês tornaram-se, graças às agressões generalizadas, parte integrante da psicologia e da vivência homossexuais, é o círculo vicioso da arte que imita a vida e da vida que imita a arte.

Até quando a homossexualidade vinha a ser tratada de forma mais natural e aberta nas produções audiovisuais, sem mistérios e estereótipos, sempre permanecia a sugestão de tragédia e sofrimento, indicando que o destino dessas pessoas reserva sempre a tristeza, o drama e o crime. Ao fim dos anos 80, as produções cinematográficas chegavam a conclusão de que era impossível ser homossexual e feliz ao mesmo tempo. A integração econômica dos homossexuais na sociedade de consumo e o acolhimento dos temas tabus no gueto dos festivais de cinema LGBT começaram a fortalecer o mercado da cultura homossexual e, pouco a pouco, mais filmes com a temática foram ganhando as telas dos cinemas comerciais. A dificuldade em se entrar no mundo do cinema, não se dá apenas através do tema abordado nos filmes em si, mas também na inclusão de pessoas da comunidade LGBT nos ramos significativos da produção audiovisual, como na produção e direção dos filmes e no ramo artístico, sendo, ainda hoje, difícil se encontrar diretores, produtores, atrizes e atores que sejam homossexuais, e principalmente, que sejam transsexuais. A partir disso, é fácil notar que as narrativas e histórias de pessoas LGBT não estão sendo contadas e interpretadas por elas mesmas, mas por representantes das maiorias, o que facilita o processo de deturpação da imagem e torna todo o debate ilegítimo.

Em um tempo que tanto de discute pautas como a criminalização da homofobia e a inclusão do debate de papeis de gênero nas escolas, a indústria cinematográfica representa um grande papel na formação de novas consciências e pensamento crítico. “O cinema não abre cabeças , o cinema propõe debates, abre uma discussão para pensar todas essas questões. Por exemplo o filme praia do futuro, gerou todo um debate na sociedade brasileira, por conta da sequência de sexo do Wagner Moura com o outro ator, esse debate é que é interessante. Outro exemplo, o filme Aquarius, que foi para Cannes e levantou inúmeros debates. Essas fissuras, como diria Foucault, é que são interessantes, é provocar o debate”, explica Alberto. Tanto o próprio cinema, quanto as reuniões e palestras voltadas para debater as questões abordadas por esse mesmo cinema são extremamente relevantes para que mais avanços sejam atingidos pelos movimentos de grupos subjugados como a comunidade LGBT.

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