Fundação Joaquim Nabuco

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Misturando foto e vídeo, alunos da Caravana da Sociologia lançam olhar sociológico sobre desigualdades sociais

26.06.2018

“Notei que quando alguém quebra um vidro, dá liberdade para quebrar a quadra, que dá liberdade para pichar os muros também. Uma coisa leva a outra,” percebeu o estudante da Escola Major Lélio, Álvaro Alves, de 18 anos. Com suas próprias observações, chegou ao mesmo conceito da conhecida “Teoria das Janelas Quebradas”, pensada por Philip Zimbardo para justificar o vandalismo.

Aplicando à realidade estrutural da escola onde estuda, Álvaro usou fotos e vídeos que ele mesmo produziu para analisar o discurso dentro do tema “Desigualdade Social”, proposto pelo projeto Caravana da Sociologia. A ideia era que os alunos da Escola Estadual Major Lélio fossem bolsistas do Programa de Iniciação Científica e despertassem um olhar sociológico para a produção audiovisual através do pensamento crítico e análise de imagens, filmes e leitura de haicais.

Revivendo a câmera da escola, que poucas vezes havia sido usada, Carlos Daniel Silva, 16, se interessou em gravar o dia-a-dia das merendeiras da Major Lélio. No processo, descobriu um amor pelos equipamentos de foto e vídeo e, juntando com uma sensibilidade para poesias, produziu um média-metragem dentro do produto final. “Agora eu penso até em comprar uma câmera para mim. Foi bom por que eu andava pela escola, mas não enxergava os problemas. Depois da Caravana e das gravações, comecei a percebê-los melhor.”

O ponto inicial do projeto, proposto pelo pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Alan Monteiro, foi um questionário para alunos de escolas públicas e particulares de Aldeia, em Camaragibe, para medir as disparidades sociais. Os estudantes responderam os questionários e gravaram os vídeos de suas vivências na escola e em casa. Alan explica que o propósito era fazê-los ver como a vida deles se insere nos temas que os livros de sociologia trazem como forma de exercitar a imaginação sociológica.



A Caravana da Sociologia foi pautada em “inventar com a diferença”, como descreve uma das monitoras das oficinas do projeto, Thayná Almeida. “A gente pensou uma metodologia que não limitasse eles na questão criativa e fizesse com que conseguissem produzir o material para divulgação no audiovisual.“ explica. Durante os 8 encontros, tendo sido o último deles na segunda-feira, 25 de junho, um forte ponto percebido foram os perigos estruturais da escola e como mantê-la em ordem sob responsabilidade dos próprios alunos. Além disso, temas como educação, racismo, privilégios e oportunidades fizeram parte das observações.

A aluna Maria Vitória Rodrigues, 16 anos, mostrou em seu vídeo duas meninas que são muito amigas, uma branca e uma negra. “Elas tem uma amizade forte, independente de cor”, observou. O exercício de filmar e fotografar aspectos da realidade, além de ensinar a mexer com o material, mostra como as desigualdades estão presentes no dia a dia de cada um.

Segundo uma das organizadoras do projeto na escola, Josilene Honório, a Caravana da Sociologia se encaixa no conteúdo programático das aulas como um complemento. “Os meninos precisam desenvolver algumas habilidades que às vezes o conteúdo não consegue, por falta de tempo e instrumentos. A Caravana chegou para preencher essa lacuna”

O produto final vai ser uma compilação com todos os vídeos feitos pelos estudantes seguindo uma narrativa lógica. Além da contribuição no âmbito sociológico, a monitora Thayná Almeida explica o quanto o audiovisual ainda é inacessível, principalmente em escolas mais rurais. Para ela, a partir das oficinas a discussão sobre a importância dessa formação aberta e dá o mínimo de referência para estudantes que, assim como Carlos, querem construir uma carreira voltada para a produção de vídeos.

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