Fundação Joaquim Nabuco

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Selecionado para o Festival de Berlim, "Ex-Pajé" é exibido no Cinema da Fundação/Museu

Por Thaís Schio
11.05.2018

Quando escolheu o Território Indígena Paiter Suruí, na fronteira de Rondônia com Mato Grosso, para ser cenário do seu documentário, o roteirista, produtor e diretor de cinema brasileiro Luiz Bolognesi, premiado por filmes como Bicho de Sete Cabeças (2001), não tinha roteiro pronto. Optou por deixar as coisas aconteceram naturalmente e mergulhou no cotidiano do "ex-pajé" Perpera Saruí, personagem reprimido pela evangelização das aldeias no país. A imersão resultou em uma narrativa poética, expressa no documentário Ex-Pajé, filme selecionado para o 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018, que pré-estreia nesta sexta-feira (11), no Cinema da Fundação/Museu, às 19h30.

Além da exibição do documentário, a pré-estreia contará com a presença de Luiz Bolognesi para debater sobre seu filme. De passagem pela Cinemateca Pernambucana, na Fundação Joaquim Nabuco, o diretor contou detalhes sobre os bastidores da produção de Ex-Pajé.



Confira a entrevista com Luiz Bolognesi:

Qual ponto de vista o filme traz sobre os pajés?
O filme traz o ponto de vista dos pajés. A ideia foi seguir o dia a dia de um pajé que está se vendo obrigado e constrangido a se declarar um ex-pajé. A pegada do filme foi não trabalhar com entrevistas, roteiros prontos, preparados e fechados antes das filmagens. A gente conviveu com Perpera Saruí (ex-pajé) e acompanhamos seu cotidiano, mergulhando nesse universo dele, tanto da angústia e da repressão que sofre pela igreja evangélica, mas também fotografando e registrando a conexão profunda dele com os espíritos da floresta.

Como você entrou na rotina deles?
Eu conheci Perpera um anos antes das filmagens. Eu estava fazendo uma pesquisa e fui na aldeia deles, querendo encontrar um pajé quando me disseram: “não temos um pajé, temos um ex-pajé”. Então me apresentaram a ele, vestido com um terno dois números maiores, com o rosto tatuado de grafias indígenas da sua infância e juventude. Ele me contou a história do porquê estava com aquela roupa e do seu constrangimento. Que tinha que dormir com a luz apagada, porque senão os espíritos da floresta, irritados, batiam nele. E aí decidi fazer o filme sobre ele. Me preparei durante um ano e passei um mês com uma equipe pequena (5 pessoas), convivendo e acompanhando o cotidiano de Perpera, filmando flagrantes das coisas que ele vivia e acontecia, mas também com algumas encenações de coisas que aconteceram nas semanas anteriores a nossa chegada. Nesse convívio muito íntimo em que havia muita confiança de ambas as partes é que as coisas mais profundas afloraram. Daí tentamos fazer o uso poética da câmera e do som, percebendo as conexões dele. Então a principal função narrativa é a poética, foi de contemplar, observar e deixar o espectador ir formando uma percepção, ao invés de usar cenas super assertivas e didáticas que explicassem exatamente o que estava acontecendo. É um filme sensorial, no qual o espectador percebe o nível de bullying, angústia, conflito e humilhação em que o personagem está vivendo, além de uma resistência muito forte.

Qual foi a motivação para produzir a obra?
Eu tenho uma admiração e um encanto pelos povos nativos da américa, que chamamos erroneamente de indígenas. Já convivi com várias tribos e vi a potência dessa gente, a força dessa cultura justamente onde nós somos muito frágeis. Então tenho muito interesse de que o cinema tente traduzir, refletir e permitir que as pessoas pensem um pouco sobre a potência dessas culturas americanas, que as narrativas oficiais sempre fizeram questão de diminuir, dizendo que são povos que não valem nada, bichos primitivos e sem sofisticação só para conseguirem atacar, dominar, invadir e estuprar. Vejo o cinema como uma ferramenta para construir outra narrativa, daí vem o meu interesse de fazer cinema perto e com essas populações.

O faz você levar seus filmes para um lado mais antropológico normalmente?
Durante a minha formação, estudei ciências sociais na USP e cursei matérias optativas de antropologia. Então desde muito moleque, 18 anos, eu leio antropologia e continuo até hoje aos 52 anos. Estudei mitologia, Lévi-Strauss, então há fundo teórico neste trabalho, mas evidentemente cinema não é academia. E eu gosto do cinema justamente por isso. Então tomo muito cuidado para fugir desse universo. A primeira cena do filme, onde Perpera não consegue ler uma tese em francês, com todas as histórias sobre ele, já é uma espécie de crítica velada a esse saber acadêmico que não se volta para as próprias populações. Além disso, vem da minha vivência de campo, do meu convívio com as tribos.

Como você construiu o filme baseado no que foi observado lá?
É curioso porque, de um modo geral, sou roteirista. Costumo escrever roteiros para outros diretores, mas quando fui fazer meu filme, não tinha um roteiro pronto. E isso, na verdade, tem um sentido, já que eu pretendia traduzir, de uma certa forma, a potência desses povos nativos. Eles (os índios) optaram, por exemplo por não trabalhar com  a língua escrita, eles trabalham com narrativas orais. O conhecimento de quatro mil anos deles é preservado assim. Isso é uma escolha. Se você ler o livro do Davi Kopenawa, a “Queda do Céu”, ele fala claramente que ‘os brancos precisam de peles de papel, porque não escutam mais os espíritos. Nós que escutamos os espíritos não precisamos de peles de papel para guardar nossa história, nossas histórias são ouvidas todas as vezes que fazemos um ritual, coisa que os brancos não sabem mais fazer.’ Então eles têm essa conexão com a espiritualidade muito diferente. E a potência deles, seu modo de vida está muito ligado a viver fortemente o aqui e o agora. São civilizações americanas muito abertas ao devir, ao acaso. ‘O que vai acontecer amanhã, a gente vê. A gente espera acontecer.’ Enquanto nós, a civilização europeia branca que se construiu, somos totalmente fechados ao acaso. A gente planeja tudo, não vivemos o agora. Você está aqui e está pensando no que vai fazer mais tarde, que não vai dar tempo, que precisa entregar uma tese. Lidamos com o tempo sempre com déficit, porque a gente não suporta a mudança, chamamos o acaso de imprevisto e falamos dele como se fosse um incidente. Pra eles não é assim, o acaso é o sabor da vida, é estar tranquilo porque o acaso não se domina. O que gera, como consequência, uma civilização com baixíssima ansiedade. Enquanto nós, cheios de mercadoria, somos ansiosos, estressados, expostos à diversas doenças mentais. E para os índios é muito claro, não ter nada pra fazer não é tédio, mas degustação. Convivendo com eles, você os vê parados duas horas, observando o voo dos pássaros ou uma capivara como se fosse um filme, como se fosse “Vingadores”. Então como traduzir isso? Não escrevi um roteiro e deixei as histórias acontecerem. Também optei por não trabalhar com uma câmera leve, que pode ser carregada na mão, que corre atrás dos acontecimentos, como é geralmente nos documentários, porque achei que esse modo não traduz o modo de ser deles. Essa é justamente uma maneira ansiosa de lidar com a realidade. Por isso, optei por uma câmera CinemaScope estática, que contempla e deixa as ações acontecerem. A escolha foi pela poesia, pelo enquadramento maior, que captura a riqueza gigantesca. Não levamos luz, foi natural e o mesmo aconteceu com o som

Quais foram os maiores desafios?
Para a equipe toda, o maior desafio foi ficar um mês num lugar de conforto relativo. Sem wi-fi, sem telefone, televisão, rádio e conexão com as famílias, tendo que estar atento as filmagens e ao entorno. Lá tinha cobra, aranha, escorpião e onça. Então para a equipe, o desafio foi estar ali bem e focado no filme. Para mim, como diretor, era sobretudo uma reflexão. Eu não tinha roteiro, então ficava com medo de não ter nada, daquilo ali ser uma contemplação estéril, com valor somente para mim e pra eles, algo que não conseguisse traduzir conflitos pelos quais a audiência pudesse se identificar. Só fui saber que o filme funcionava quando foi selecionado para Berlim. Eu pensei “ah, não. Se os alemães, que assistem dois mil filmes para escolher dezesseis, chamaram é porque entenderam”. A partir dali, percebi que a audiência branca se conecta fortemente e que o risco que eu corria acabou sendo compensado.

O que você espera que o público tire da obra?
Vou falar um clichê, mas é o que realmente espero: surpresa e reflexão. O filme não fecha questões, ele levanta. Muitas delas incômodas e interessantes. Percebo que a plateia tem ficado muito silenciosa quando o filme acaba, o que eu acho ótimo. Espero que as pessoas reflitam sobre o que está acontecendo no Brasil hoje, em relação a esse processo de inquisição evangélica. Onde um segmento fundamentalista está perseguindo mães de santo, colocando fogo em terreiros, perseguindo pajés, os colocando na cadeia, porque usam plantas com propriedades alucinógenas.

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