Fundação Joaquim Nabuco

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Acervo de Josué de Castro mantém seu legado vivo na Fundaj

Por Thaís Schio
27.04.2018


Em frente ao Edifício Delmiro Gouveia, onde funciona o Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira (Cehibra), uma escultura gigante em formato de caranguejo chama atenção. A obra, idealizada pelo artista plástico Augusto Ferrer, remonta o movimento manguebeat e, como conseqûencia, a raiz da referência ao animal: “Homens e Caranguejos”, o único romance do médico, cientista social, professor e político combatente da fome Josué Apolônio de Castro.

Colocado durante a exposição Josué de Castro: profeta de um mundo sem fome em 2016, o caranguejo gigante relembra também a tamanha importância da conservação e divulgação da vida e obra do pernambucano para Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Uma Instituição que, em 2011, abriu as portas para receber e administrar seu arquivo privado. São pouco mais de 30 mil documentos pessoais e institucionais, dentre eles cerca de 24 mil cartas enviadas e recebidas, mapas, produção intelectual, recortes de jornais nacionais e internacionais. Além de 680 fotografias digitalizadas e 10 mil documentos bibliográficos, entre fascículos de periódicos, livros autorais e de sua biblioteca pessoal.

“Preservar a memória de Josué dignifica qualquer instituição, qualquer lugar do mundo, pois tem relevância científica, cultural e histórica. O acervo de Josué é tratado com prioridade aqui na Fundação, podendo ser comparado à coleções e arquivos como os de Joaquim Nabuco”, afirma Rita de Cássia, pesquisadora da Fundaj e ex-diretora de documentação. Para ela, a postura de Josué se equipara à postura da instituição. “A produção de conhecimento para subsidiar políticas públicas é uma preocupação da Fundaj e sempre foi de Josué. Salário mínimo e merenda escolar, por exemplo, foram bases do trabalho dele.”

Antes de chegar na Fundação, o arquivo privado de Josué estava preservado no Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro (CJC), mas acabou sendo transferido devido à dificuldades na preservação. “O acervo chegou na Fundaj em condições de conservação precárias, foi necessário muito investimento em higienização, acondicionamento e armazenamento para recuperá-lo”, relembra Rita.

Atualmente, o acervo, disponível à consulta pública, está sob a responsabilidade da Diretoria de Memória, Cultura e Arte (MECA) da Fundaj. Toda parte bibliográfica pode ser consultada na Biblioteca Blanche Knopf, enquanto que os acervos iconográficos e textuais, na Coordenação de Documentação. De acordo com Nadja Tenório, atual coordenadora da Biblioteca, além da manutenção do acervo, a Fundaj também mantém a memória de Josué viva através de exposições, conferências, seminários, círculos de cinema, reedição e publicação de livretos.


Sobre Josué

Médico, geógrafo, sociólogo, professor, político e escritor. Diversidade de méritos pertencentes ao pernambucano Josué de Castro. Nascido no Recife, em 5 de setembro de 1908, o filho de pai retirante da seca ganhou o mundo com suas ideias revolucionárias e feitos marcantes. Geografia da Fome, sua obra de maior repercussão, abalou o mundo ao mostrar a fome não como fatalidade geográfica ou étnica, pensamento comum na época, mas como manifestação biológica de males sociais, “um flagelo criado pelos homens contra outros homens”. Na política, Josué foi presidente do Conselho Executivo da FAO (Organismo das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura), deputado federal de Pernambuco, fundador e presidente da Associação Mundial da Luta Contra a Fome, embaixador do Brasil junto à ONU, entre tantos outros.

Cresceu em uma casa rodeada por mangue no bairro das Graças, onde estabeleceu os primeiros contatos com a lama, caranguejos e a fome dos homens. Estudou no Ginásio Pernambucano e formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1932, no Recife, trabalhou em um fábrica investigando as condições dos operários para melhorar sua produtividade. Como resultado, publicou a primeira pesquisa científica feita com inquéritos no Brasil, As condições de vida das classes operárias no Recife. Através dela, compreendeu que os funcionários sofriam com a subalimentação, fator ligado às más condições de trabalho. A pesquisa ainda serviu de fundamento para implementação do salário mínimo durante o governo Vargas, em maio de 1940.

Sem tirar o Recife e a fome da mente, Josué viajou pelo mundo, visitando países subdesenvolvidos, conhecendo o problema de perto e debatendo sobre o direito à alimentação, além de temas relacionados, como reforma agrária, planejamento, colonialismo e neocolonialismo. Construiu uma carreira política sólida, sempre alinhada ao conhecimento acadêmico. Suas pesquisas servem até hoje como base para entender os diversos aspectos da fome e das desigualdades sociais. É uma referência para nutricionistas, sociólogos e geógrafos. Foi indicado três vezes ao prêmio Nobel, um da medicina e duas da paz, foi um dos responsáveis pela instituição da Campanha de Merenda Escolar, em 1955, escreveu cerca de 30 livros, deixou mais de duas centenas de artigos, ensaios e conferências.

Um legado que conquistou a admiração de uns e a ira de outros. Em 1964, durante o regime militar, o nome de Josué apareceu na primeira lista de cassações. Até hoje, devido ao exílio e morte na França, onde atuava como professor de Geografia na Universidade de Vincennes, e a consequente retirada de suas obras de circulação durante o golpe militar, o pernambucano não recebe o prestígio proporcional ao tamanho de sua obra. Embora sua atuação de combate à fome ainda seja necessária e atual. “Josué foi relevante para o século XX e continua sendo. A questão da fome, que ele tanto trabalhou, não só permanece como aumenta, o Brasil acabou de voltar para o mapa da fome, apesar de tantas revoluções tecnológicas”, relata Rita de Cássia, historiadora e pesquisadora da Fundaj.

“Ele era um cidadão do mundo que nunca abandonou suas raízes pernambucanas, pelo contrário, sua inquietação surgiu daqui. É uma referência cultural e afetiva. Então por que Pernambuco não tem uma grande Avenida Josué de Castro? Um aeroporto? Um grande órgão? Onde é que tá essa memória dele, esse resgate na cultura e arte?”, questiona Rita.


Visite:
Biblioteca Central Blanche Knopf
Segunda à sexta-feira
Das 8h às 12h e das 13h às 17h
Rua Dois Irmãos, 92, Apipucos.
Fone: 81 3073-6540 / 3073-6535
E-mail: bibli@fundaj.gov.br

Coordenação de Documentação e Pesquisa
Rua Dois Irmãos, 92, Apipucos.
Fone: 81 3073-6548 / 3073-6549

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