Fundação Joaquim Nabuco

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A SALINIDADE DAS ÁGUAS DISPONÍVEIS PARA A PEQUENA IRRIGAÇÃO NO SERTÃO NORDESTINO


Caracterização. Variação sazonal.
Limitações de uso.



RECIFE
JUNHO - 1995

João Suassuna - Pesquisador do TRÓPICO/FUNDAJ

Pierre Audry - ORSTOM

No início dos anos 80, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq, contando com o apoio técnico da Fundação Joaquim Nabuco-FUNDAJ, firmou convênio com o Banco Interamericano de Desenvolvimento-BID, com vistas a implementação de um Programa de Difusão de Tecnologias no Nordeste semi-árido brasileiro, o PDCT-NE. No rol das tecnologias testadas, foi dado ênfase a Pequena Irrigação, através das mais variadas fontes hídricas existentes em 95 propriedades da referida região (Pequenos, médios e grandes açudes; poços amazonas e poços nos rios; rios perenes e perenizados), tendo em vista as dificuldades de se produzir alimentos com culturas de sequeiro, dependentes do regime natural das chuvas.

Para a sua execução, o Programa contou, não apenas com a participação de algumas Universidades da região (FUFPI, UFC, ESAM, UFPB e UFRPE), mas também com o apoio dos Institutos de Pesquisas Agropecuárias e do Institut Français de Recherche Scientifique pour le Développement en Coopération-ORSTOM (Entidade de pesquisa do governo Francês) na assessoria técnica das atividades de campo.

No desenvolvimento do Programa, constatou-se problemas de salinização nos projetos, o que motivou a Fundação Joaquim Nabuco, apoiada pelo CNPq, a realizar uma pesquisa para avaliar, durante dois anos consecutivos, a qualidade das águas que estavam sendo utilizadas. Foi produzido um primeiro relatório técnico contendo informações sobre as análises químicas das águas, em um número superior a 1000 amostras, no tocante a composição catiônica e aniônica, pH, condutividade elétrica, variação sazonal da salinidade, bem como o comportamento das culturas irrigadas.

Com base nos dados obtidos no primeiro relatório, partiu-se para interpretá-los através de uma pesquisa submetida e aprovada pelo CNPq, enfocando dois objetivos básicos: 1) refletir sobre os processos naturais que determinam a diversidade de qualidade observada, e daí propor algumas orientações para a extrapolação desses resultados; e 2) avaliar as conseqüências do uso dessas águas no que diz respeito à produção das culturas irrigadas e do risco de degradação dos solos por salinização e/ou sodificação, no sentido de precisar essas regras de uso e manejo.

Resultados obtidos nesta pesquisa.

A caracterização das águas estudadas, do ponto de vista dos riscos de salinização e de sodificação, permitiu reagrupar as fontes contempladas em dois sub-conjuntos: 1) de um lado, as que podem ser chamadas de águas superficiais e reúnem os rios perenes, os rios regularizados, os açudes pequenos, os açudes médios, os açudes grandes, os poços naturais e os poços nos rios; 2) do outro lado, os poços amazonas, onde para uma salinidade global comparável, observa-se um risco de sodificação sensivelmente maior.

O estudo comparado das composições iônicas confirmou que, em relação às águas iniciais pouco concentradas bastante diversificadas, mais freqüentemente de tipo bicarbonatado cálcico e, possivelmente, de tipo misto sódico, as águas mais concentradas são sistematicamente cloretadas sódicas: acima de 1.500 usiemens/cm de condutividade elétrica, não se observa praticamente nenhuma ocorrência de tipo bicarbonatado ou misto. Foi comprovado que isto se aplica também para as águas de poços amazonas, acerca dos quais se podia temer que os RAS (Rasão de Adsorção de Sódio) mais elevados observados correspondessem a águas evoluindo em um sentido carbonatado ou menos nitidamente cloretado. Esta característica de as águas mais concentradas serem sempre cloretadas sódicas é fundamental e constitui uma grande sorte para a região, pois se as águas apresentam em grande proporção um risco de salinização bastante alto, esta evolução natural das águas protege-as de riscos elevados de sodificação, que são muito mais delicados de manejar e muito mais perigosos em termos de danificação do patrimônio solos.

A variação sazonal de salinidade, que representa mais uma complicação e uma limitação extremamente importante para o uso das águas da região em irrigação, foi estudada a partir de três parâmetros: os mínimos anuais de condutividade elétrica, os máximos anuais, e as amplitudes anuais de variação.

O caso das águas dos rios deve ser considerado à parte. As suas composições exprimem, a nível de uma bacia, a resultante dos processos biogeoquímicos que caracterizam a dinâmica do sistema e pelos quais as águas de escoamento adquirem os seus caracteres inicias; os dados disponíveis sobre rios perenes confirmaram a grande diversidade de concentração dessas águas, que variam amplamente no espaço e no tempo.

Para todos os outros tipos de água, assimilando uma fonte de água a um reservatório, chegou-se à conclusão de que o parâmetro mais importante para determinar as variações sazonais de salinidade é a inércia do reservatório, que condiciona a sua resposta aos fatores de variação de salinidade de origem climática, ou seja, o efeito de diluição das chuvas e o efeito de concentração da evaporação.

Assim, os grandes açudes, pela importância dos seus volumes de água, os rios regularizados, que são o reflexo das águas dos reservatórios de regularização e os poços amazonas, devido à importância dos volumes dos reservatórios - que também ficam protegidos, pela sua profundidade, da ação direta das chuvas e da evaporação - são os tipos de fontes de maior inércia e menor amplitude de variação sazonal de salinidade.

Ao contrário, os açudes pequenos e médios são reservatórios de inércia muito diversificada, conforme o dimensionamento, e os poços naturais e poços nos rios são fontes de inércia geralmente muito reduzida: é para estes tipos de fontes que se observam amplitudes de variação sazonal de salinidade até excessivas (a mediana para os poços naturais e poços nos rios é ligeiramente superior a 2.000 usiemens/cm), esta amplitude de variação sazonal de salinidade se tornando, então, o fator mais importante para decidir da possibilidade e da maneira de usar essas águas para a irrigação.

Tentando colocar os resultados obtidos por este trabalho em relação ao panorama geral de uso das águas no Nordeste, pode-se fazer os seguintes comentários: as águas dos rios sempre foram as esquecidas e ainda assim continuam, devido ao número restrito de rios estudados aqui; as informações coletadas sobre os açudes, embora reduzidas, se enquadram bem em relação aos dados abundantes e aos conhecimentos aprofundados já existentes sobre esses reservatórios. A contribuição mais importante diz respeito: 1) aos lençóis aluviais explorados pelos poços amazonas, para os quais a caracterização realizada é segura, devido a uma amostragem numericamente importante; 2) às águas do escoamento subalveolar dos rios, raramente consideradas, exploradas pelos poços naturais e os nos rios, para as quais, apesar de uma amostragem numericamente limitada, os resultados alcançados podem ser considerados como significativos, devido aos comportamentos contrastados e coerentes observados; 3) à variação sazonal de salinidade das águas que, fora o caso dos açudes, nunca tinha sido abordada de maneira sistemática.

Alguns assuntos de reflexão de ordem geral, relativos ao uso das águas da região em irrigação.

Não pode haver irrigação sem drenagem.

Pode parecer até grosseiro lembrar um princípio tão básico, que ninguém deve ignorar e que, além do mais, não tem nenhum caráter específico em relação à região. Mas esta colocação se justifica por três motivos: o primeiro é que, para o pequeno produtor rural que não tem tradição na prática da irrigação, uma tendência geral freqüentemente observada consiste em superirrigar, pensando que, quanto mais água colocar, melhor. Deve-se tomar providências para se mudar esta mentalidade, pois, de imediato, este procedimento aumenta a necessidade de uma drenagem eficiente; o segundo motivo é que a conclusão de que as águas da região são pouco perigosas do ponto de vista do risco de sodificação pode levar a alguma liberdade em relação à exigência de drenagem; o terceiro motivo é que tal atitude é extremamente perigosa: a ausência de drenagem suficiente leva não apenas à salinizacão, mas também à sodificação, mesmo com águas de relativamente boa qualidade. E isto é amplamente comprovado na região: já em 1978, a SUDENE estimava entre 25 e 30% o total das áreas afetadas por salinização nos perímetros irrigados do DNOCS, e sabe-se que uma sensível proporção desta área afetada por sais também é sodificada e que este triste resultado, freqüentemente corresponde a solos irrigados com águas de qualidade aceitável, mas sem drenagem suficiente.

Necessidade de políticas alternativas de irrigação, para aproveitar as águas da região.

O PDCT tinha colocado a pequena irrigação em primeiro lugar dentro das tecnologias que deviam ajudar o pequeno produtor rural da região semi-árida nordestina a integrar a economia de mercado e melhorar a sua condição sócio-econômica. Considerando esta meta e o investimento a ser realizado para montar qualquer projeto de irrigação, mesmo de pequena irrigação, foram escolhidas culturas susceptíveis de maior retorno econômico no contexto do mercado, isto é, essencialmente culturas frutíferas (com uma posição privilegiada para a bananeira que, por infelicidade, é uma planta bastante sensível aos sais), as quais necessitam irrigação contínua, por se tratar de plantas perenes.

Os problemas ocorridos na produção devido à salinidade das águas, com casos de real fracasso, permitem concluir que esta solução deve ser limitada às condições favoráveis, e que devem ser procuradas soluções alternativas para aproveitar, tanto as águas de qualidade problemática, como águas apresentando grande variação sazonal de salinidade. E é bom lembrar, aqui, que as águas dos lençóis aluviais constituem uma reserva de volume, mas que são águas problemáticas.

Sem dúvida, resta adequar o aspecto econômico, mas tecnicamente essas alternativas são simples e vão ser apresentadas a seguir, por comparação ao caso ideal de água de boa qualidade, que não apresenta variação sazonal de salinidade limitante e, evidentemente, sem limitação sazonal de quantidade:

* a água é de qualidade medíocre, ou apresenta variação sazonal de salinidade, que, sem chegar a impedir o seu uso, constitui um fator limitante sério; pode-se conservar a irrigação contínua, mas há necessidade de escolher uma planta resistente aos sais;

* a água apresenta variação sazonal de salinidade que proíbe o seu uso na época do pico de concentração: a única solução consiste em usar plantas anuais, e programar o calendário de maneira a melhor aproveitar o recurso na época em que a qualidade fica aceitável. A atitude será semelhante no caso de limitação sazonal da vazão de um poço ou no caso de um pequeno açude de reserva limitada, que deverá ser aproveitada em vez de deixar a evaporação consumi-la e salinizar o reservatório;

* a água é de qualidade bastante ruim, ou a quantidade torna-se insuficiente logo que aparece a época seca: é possível a irrigação de complementação, às vezes chamada, na região, de irrigação de salvação. Este tipo de irrigação pode utilizar águas de salinidade bastante elevada, que permitirão as culturas sobreviverem, durante os períodos secos, no máximo por algumas semanas, os sais trazidos sendo, logo a seguir, lavados pelas chuvas naturais. A irrigação de complementação visa, em primeiro lugar, eliminar os riscos de fracasso das culturas pluviais tradicionais, regularizando assim a produção, mas deve-se encarar as possibilidades realmente oferecidas, incluindo o aumento da produção pela escolha de plantas mais produtivas e de ciclo mais longo, bem como a diversificação das culturas praticadas.

Sugestões para os irrigantes e os extensionistas.

Medir a salinidade da água. Livrar-se da imprecisão das classes de risco.

Um condutivímetro portátil é um aparelho simples e robusto, que permite medições confiáveis, funciona meses com pilhas comuns encontradas no comércio e custa na faixa de 100 a 300 dólares. Uma medição se faz no campo em alguns minutos, não necessita formação especializada, exigindo só um mínimo de cuidado e de limpeza. O resultado é lido, diretamente em mili ou microsiemens/cm, sem necessitar cálculos. Até as calibragens que devem ser feitas periodicamente são extremamente simples.

São várias as vantagens em realizar tais medições:

** dispor de resultados imediatos e baratos, sem comparação com os prazos e os preços de análises realizadas por laboratórios especializados;

** livrar-se das classes de Riverside, pois a classe C3, que já é uma classe de risco sério de salinização e na qual se encontram um pouco mais que 50% das águas contempladas pelo presente trabalho, vai de 750 a 2.250 usiemens/cm. É evidente que uma água com uma CE de 800 usiemens/cm quase não apresenta limitação de uso, mas, a partir de 1.500, as restrições começam a se tornar realmente severas.

Uma vez medida a condutividade elétrica, utilizar os ábacos específicos para avaliar o RAS e o teor de cloretos.

Nunca tomar decisão sem ter uma boa estimativa não apenas da quantidade, mas também da qualidade da água, incluindo a variação sazonal de salinidade.

No que diz respeito à implantação, ao dimensionamento e, mais geralmente, ao manejo de um novo projeto de irrigação, a regra é simples:

Escolher com cuidado os tipos e os locais possíveis de captação de água. Evitar por exemplo, se for possível, os braços profundos de um açude; avaliar as vantagens e desvantagens entre um poço no rio e um poço amazonas afastado do rio, etc.

A seguir, não se deve deixar de realizar medições para avaliar a salinidade das águas e a sua variação sazonal. No caso de pequeno açude, usar o Manual do Pequeno Açude elaborado por Molle e Cadier, 1992, no qual se encontram todas as medidas para melhor avaliar o recurso e decidir do seu uso, não apenas com vista à irrigação, mas como um todo. Além do mais, alguns princípios e ferramentas daquele manual, principalmente os que tratam do dimensionamento de um perímetro irrigado em relação às quantidades e qualidades de água disponíveis, podem constituir um guia extremamente útil para outros tipos de fontes.

Sugestões de ordem prática para o manejo da irrigação.

As sugestões poderiam ser múltiplas, mas, dentro do nosso assunto de salinidade das águas, resumem-se a um princípio: incluir o fator salinidade da água no monitoramento da irrigação.

Sugestões aos poderes públicos.

Aos técnicos, extencionistas e irrigantes caberia apresentar aos órgãos públicos, notadamente ao CNPq, EMATER's, Universidades, Bancos de Desenvolvimento etc., as seguintes sugestões:

- incentivar todas as formas de pesquisas que visem a melhor entender a resistência das culturas aos sais, a avaliar a resistência efetiva aos sais das variedades disponíveis e produzir variedades de alta produtividade, resistentes aos sais;

- incentivar as pesquisas sobre o papel do solo na aquisição dos caracteres químicos iniciais das águas de escoamento, tanto a nível da análise dos processos, como por estudos integrados a nível de bacias;

- incentivar todas as formas de levantamento das águas disponíveis na região semi-árida do Nordeste, principalmente no cristalino, incluindo as fontes de extensão limitada, a avaliação da salinidade dos vários tipos de fontes de água e o aspecto de variação sazonal de salinidade, de maneira a se chegar, a curto ou médio prazo, a um zoneamento quantitativo e qualitativo dos recursos de águas realmente disponíveis na região para a pequena irrigação;

- criar um Banco de dados sobre a salinidade das águas dos vários tipos de fontes da região, tendo em vista as dificuldades de acesso às informações hoje disponíveis.


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