Fundação Joaquim Nabuco

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A CAPRINOCULTURA NOS ESTADOS DO PIAUÍ E DO CEARÁ



João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco 




Caprinocultura - uma das principais alternativas agropecuárias supridora da carência protéica do Nordeste semi-árido brasileiro. 


Tendo sido indicado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq para coordenar o Subprograma de Geração e Adaptação de Tecnologias-GAT, do Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para o Nordeste-PDCT/NE , no período de 1986 a 1990, tive oportunidade de conhecer e convidar o Dr. José Ferreira Nunes para prestar sua colaboração técnica nos módulos de caprino e ovinocultura do citado programa.

O Dr. Nunes é médico veterinário, atualmente professor da Universidade Estadual do Ceará, um pesquisador extremamente criativo, que faz pesquisas sérias, utilizando materiais baratos e facilmente disponíveis no seu local de trabalho.

Não foi por outra razão que no final da década de 70, em Sobral, CE, no Centro Nacional de Pesquisas de Caprinos da EMBRAPA, teve uma idéia que revolucionou o conhecimento sobre a conservação do sêmen de caprinos e ovinos, para inseminação artificial. Ele experimentava, na época, como fazer o congelamento do sêmen de caprinos - assunto de sua tese de doutorado defendida entre 78 e 82 na Sorbonne, França - de modo a evitar a perda de células vivas, observada com os diluentes até então conhecidos no mercado. Nesse experimento, o Dr. Nunes observou que tratando o sêmen dos animais com água de coco, como diluente alternativo, os espermatozóides que normalmente dão origem a animais fêmeas possuíam uma motilidade maior naquele meio, ocasionando, em conseqüência, 70% de chances do nascimento de fêmeas, e que o tempo de vida dos mesmos aumentava consideravelmente, o que possibilitava, em muitos casos, o intervalo necessário para o preparo do material no laboratório e posterior inseminação nas propriedades, sem haver a necessidade dos congelamentos normais em botijões de nitrogênio líquido, os quais, entre outros inconvenientes, encarecem consideravelmente o processo.

O Dr. Nunes, com a idéia da utilização de um produto oriundo do mais tropical dos frutos, consegue ajudar no processo de continuidade da vida.

Foi na expectativa de tornar a avaliação técnica do GAT mais produtiva, que convidei o Dr. Nunes para fazer parte da equipe técnica assessora do programa, tendo o mesmo apresentado vários relatórios que deram origem aos presentes comentários advindos da assessoria de um programa de difusão controlada de tecnologia.

O Nordeste do Brasil possui um efetivo potencial da ordem de quase nove milhões de cabeças de caprinos, correspondendo, em termos percentuais, a 92% da caprinocultura brasileira. O rebanho do Piauí se apresenta em termos quantitativos como o segundo do Brasil, todavia, qualitativamente, o plantel é inexpressivo. A condição imprópria do manejo, principalmente os cruzamentos desordenados entre a população nativa e mesmo entre raças exóticas, condicionou uma consangüinidade muito estreita, advindo então uma série de problemas de taras genéticas, com a conseqüente queda da produtividade.

Atualmente os produtores pouco fazem para mudar a condição em que se situava a caprinocultura no século passado. O sistema de criação é ultra-extensivo, não emprega práticas de reprodução controlada e de vermifugação estratégica, não havendo, tampouco, vacinação sistemática dos seus animais. O caprino nativo do Piauí, como o de todo o Nordeste do país, apesar de bastante rústico, se tornou improdutivo, aspecto por todos considerado normal, visto que não haveria condição de produção em um meio desfavorável. 

O programa GAT, além de tentar introduzir tecnologias situadas dentro das prioridades produtivas na caprinocultura, conscientiza os produtores para a adoção do pacote tecnológico, traduzido pela construção de um aprisco, pequena área com gramíneas para complementação alimentar e ainda recomenda normas de manejo sanitário e de melhoramento, tentando, assim, minimizar os problemas do sistema de produção.

As propriedades inseridas dentro do programa no Estado do Piauí, que trabalham com o módulo de caprinocultura, se encontram bem distribuídas dentro da condição ecológica para a exploração de caprinos.

As instalações recomendadas se apresentam como rústicas, mas bastante funcionais. Acredita-se que o aprisco rústico, ripado, de piso suspenso, age como um agente profilático contra doenças de casco (pododermites), bastante freqüentes em animais criados em "chiqueiros", sem condição de higiene. As bicheiras ou miiases, bem como as cimerioses, as mastites e a própria linfadenite caseosa são doenças que poderão ser minimizadas nos aspectos de morbidez e propagação dentro do plantel, através do uso do aprisco suspenso. Algumas propriedades avaliadas, mais precisamente aquelas situadas em Jaicós, não adotaram o aprisco suspenso de piso ripado, em decorrência do preço e dificuldade de se encontrar madeira na região. Seria oportuno destacar que o piso de cimento, se bem limpo e desinfectado com uma freqüência semanal, poderá se tornar também efetivamente funcional, todavia essa vigilância e esse cuidado geram uma atividade suplementar no dia-a-dia do produtor que, muitas vezes, não dispõe de mão de obra e de seu tempo para tal fim. Seria importantíssimo, inclusive, que se fizesse um acompanhamento sanitário, através de fichas, pelos responsáveis técnicos de cada núcleo do programa, o que possibilitaria efetuar uma comprovação prática entre o piso suspenso e o cimentado ou, ainda, o chão batido e limpo.

Os planteis, na grande maioria das propriedades trabalhadas, já apresentam um rebanho médio de 20 cabeças. Com a introdução de dez matrizes SRD (Sem Raça Definida) e um reprodutor mestiço Anglo-Nubiano não se modificará muito a resposta econômica do sistema produtivo, já que a qualidade genética não estará sendo significativamente melhorada em decorrência da própria condição qualitativa dos animais que constituirão o futuro plantel e do reprodutor utilizado.

A raça Anglo-Nubiana e seus mestiços há bastante tempo fazem parte dos cruzamentos entre os caprinos do Nordeste e a resposta econômica ainda não foi aquela almejada por muitos produtores. Na introdução de uma raça, condições de melhoria de nutrição e manejo são automaticamente requeridas para a expressão genética do potencial produtivo dos animais melhorados, o que nem sempre aconteceu no Nordeste até hoje. A simples introdução de um reprodutor puro, ou mestiço de qualquer raça, dentro do sistema de exploração tradicional, não modificará em nada a produtividade do plantel a não ser nos primeiros dois anos, quando a heterose e o vigor híbrido dos animais ainda continua a vigorar na primeira geração. Daí em diante, o mesmo processo de consangüinidade estreita entre a população nativa e a mestiça começa a gerar problemas de taras genéticas, diminuindo ainda a rusticidade dos animais nativos e incrementando, consequentemente, a mortalidade dos animais. Não é essa a situação do programa GAT, cujo pacote tecnológico poderá recomendar medidas de manejo, nutrição e ainda de genética, através da introdução de uma raça com maior produtividade leiteira, que poderá ser mais benéfica ao pequeno produtor. Caso o mesmo não queira consumir o leite, por uma questão de hábito, o produto reverterá aos cabritos que poderão, consequentemente, se desenvolver melhor. Não se justifica, zootecnicamente, se explorar o caprino para produção de carne, pois se sabe que fisiologicamente os caprinos leiteiros são trinta e nove vezes mais eficientes em termos de conversão protéica do que aqueles produtores de carne. Não se pode, todavia, modificar o hábito do nordestino de um dia para o outro, isto é, introduzir o leite de cabra na sua deficiente alimentação cotidiana, todavia, o programa GAT poderia estimular o emprego do leite excedente, na fabricação de queijos e o seu uso na alimentação e na merenda escolar.

Um único sistema de dez ou quinze cabras formadas, desde o cruzamento inicial, de matrizes SRD e um reprodutor Saanen ou Pardo Alpino poderia proporcionar um padrão mínimo de produtividade de leite e secundariamente de carne dos rebanhos abatidos, que poderia ser economicamente viável dentro dos módulos bem delineados e socialmente importantes para os pequenos produtores da região nordeste.

A área de pastagem, ou seja, aproximadamente dois hectares de gramíneas, seria melhor aproveitada com a introdução, em metade da área, de leguminosas tais como: leucena, feijão guandú, siratro, cunhã, mucuna preta, etc.., constituindo-se em um banco de proteínas para a suplementação protéica em períodos críticos do ano e nos estágios fisiológicos difíceis das matrizes. A utilização de restolhos culturais do milho, feijão e a própria palha da bananeira também são fontes opcionais importantes na integração do caprino dentro do sistema de produção do rurícola.

O manejo desenvolvido na atualidade dentro dos módulos de caprinocultura é satisfatório, mas poderia ser melhorado ainda mais, com a introdução de normas de manejo tais como: estabelecimento de uma estação de monta para a região, baseada na distribuição de chuvas, permitindo os nascimentos em épocas finais das chuvas, ou fins d'água popularmente discutidos e defendidos por todos os produtores entrevistados e ouvidos durante a visita de supervisão técnica.

Um reprodutor melhorador, situado em um determinado local ou no próprio núcleo do GAT na região, poderia servir como padreador comunitário, utilizando o "efeito macho" para sincronizar os cios das fêmeas, ou ainda a própria reprodução programada, culminando com a monta controlada ou inseminação artificial em algumas propriedades para, inclusive, se mensurar a efetividade de testes de tecnologias como um meio de modificar o sistema de produção, de acordo com o nível e região do próprio criador. Todas essas comparações quando bem acompanhadas e catalogadas, poderão permitir aos pesquisadores e ao próprio CNPq uma série de informações até então não muito bem esclarecidas pelos órgãos que desenvolvem pesquisas no Piauí e em outras regiões do Nordeste. Em Alagoas, por exemplo, os resultados com os testes de tecnologias, se destacando a inseminação artificial, se mostrou eficiente e prática a nível de pequeno produtor, nos moldes desses que integram o programa GAT no Piauí.

Informações gerais tais como: distribuição e infestação verminótica nas diversas propriedades, bem como um acompanhamento de efetividade de métodos de controle entre a vermifugação estratégica e o acompanhamento por OPG (Ovos Por Grama) de fezes dos diversos tipos e gêneros de vermes, poderia se constituir em esclarecimentos e informações para diminuir a mortalidade dentro dos diversos módulos. Essas práticas seriam acompanhadas pelos técnicos responsáveis de cada região, através de fichas padrão que no final seriam catalogadas para análise, interpretação e divulgação para os demais caprinocultores.

O acompanhamento de informações de peso ao nascer, época de nascimento, índice de mortalidade, práticas adotadas nas propriedades, bem como o número de cabras paridas e de cabritos nascidos poderia não só oferecer as características de produção do sistema, como também potencializar uma avaliação técnica e econômica da evolução do rebanho.
A produção final do sistema como um todo, integrando produção agrícola e pecuária seria mensurada no final do programa, identificando assim os entraves técnicos e econômicos dos diversos sistemas.

Quanto ao Ceará, possui esse estado o quarto rebanho de caprinos do país. Todavia, esse efetivo numérico é destituído de qualquer qualificação. O rebanho hoje existente no Ceará, é característico de uma caprinocultura extrativista, como decorrência da falta total de assistência técnica ao plantel. Durante quase quatrocentos anos, a caprinocultura evoluiu numericamente, quase sem interferência direta do homem, propiciando uma série de falhas no manejo sanitário, nutricional, reprodutivo e genético (consangüinidade estreita), gerando, por fim, animais impróprios em termos produtivos, embora rústicos. Preservar essa rusticidade do caprino nativo deve ser um dos objetivos de qualquer trabalho de incremento produtivo da caprinocultura. Um trabalho de cruzamento, gerando um tipo mestiço leiteiro, utilizando as possíveis raças ancestrais leiteiras introduzidas na época do descobrimento do Brasil pelos portugueses , mas que foram degeneradas em decorrência da falta de cuidados zootécnicos, deveria ser perseguido.

Por conta da improdutividade aparente do caprino nativo, alguns técnicos do próprio programa GAT no Ceará não acreditam na exploração de caprinos, como uma fonte de proteína para o pequeno produtor. A alternativa da substituição do caprino pelo ovino parece ser uma catástrofe zootécnica para o Ceará a longo prazo, já que a ovinocultura, também aqui introduzida pelos portugueses na mesma época dos caprinos, não evoluiu em termos quantitativos e não apresenta uma importância sócio-econômica para a região Nordeste.

A resposta econômica do caprino produtor de leite não poderá jamais ser comparada ao ovino produtor de carne. No Nordeste, os ovinos aqui criados produzem praticamente a mesma quantidade de carne dos caprinos, com o aditivo do leite para a última espécie, o que não ocorre com a ovinocultura. A capacidade de sobrevivência dos caprinos nas secas prolongadas é significativamente superior à dos ovinos. O leite e seus derivados, queijo e doce, podem responder efetivamente como um suporte protéico para as populações carentes do Nordeste.

A introdução de ovinos nos módulos do GAT no Ceará parece resultar de um desconhecimento técnico da eficiência produtiva dos caprinos, já que, inclusive, as regiões de Canindé e Boa Viagem, se caracterizam por apresentar um clima bastante árido, com um péssimo desenvolvimento da pastagem herbácea, imprópria, portanto, para ovinos, principalmente nos meses de baixa precipitação pluviométrica, onde a disponibilidade de folhas secas é o que resta. Os caprinos mestiços leiteiros, mesmo esses, terão maiores chances de produzirem do que os ovinos nessas condições.

A inadequação das instalações, para um verdadeiro sistema racional de exploração, mesmo rústica, aliada a erros de manejo reprodutivo, não modificarão em nada a condição sócio-econômica do produtor de pequenos ruminantes.

A introdução de pastagens tentando minimizar os problemas nutricionais não terá uma resposta satisfatória, em decorrência de erros preliminares cometidos na exploração quase extensiva do rebanho. Os animais, apesar de vermifugados e mineralizados, não responderão a esses cuidados. A aplicação do(s) vermífugo(s) não obedece a nenhum controle específico, não se recomenda mesmo uma mudança de pasto periódica durante a desparasitação do plantel, havendo uma provável reinfestação principalmente de animais jovens.
A possível melhora genética que poderia advir com a introdução de um reprodutor melhorador não acontecerá, pois os nativos não são castrados e, nesse caso, a própria relação reprodutor/matriz não é obedecida, aumentando a consangüinidade do rebanho e influenciando negativamente na eficiência reprodutiva do plantel. Na propriedade de nome Bom Jesus, no núcleo de Boa Viagem, constatou-se a presença de dois reprodutores deslanados brancos da raça Morada Nova, mas, em contra-partida, havia seis outros jovens reprodutores nativos, não castrados, inclusive um com grave problema genético.

O próprio sistema de criação extensiva, utilizando o reprodutor todo o ano com o rebanho, sem uma época ideal de nascimento, propicia a cobertura das fêmeas por outros reprodutores dos fazendeiros vizinhos.

Um redelineamento do programa, no que concerne a parte de manejo sanitário, reprodutivo e genético terá que ser considerado, objetivando também a modificação da aptidão da espécie, no caso com a substituição da ovina pela caprina, oferecendo assim, ao pequeno produtor, leite e carne como subproduto para aniquilar a fome protéica que assola o Nordeste. 

João Suassuna
Fundação Joaquim Nabuco


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