Fundação Joaquim Nabuco

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A Pequena e Média Açudagem no Semi-árido Nordestino: uso da água para produção de alimentos.


João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco 



Pequeno açude no semi-árido. Com o constante uso da água e com a evapotranspiração acentuada, esses corpos de água secam invariavelmente.


As características climáticas e edáficas da região semi-árida nordestina - com irregularidades pluviométricas tanto em quantidade como em distribuição ao longo do ano; evapotranspiração média de aproximadamente 2000 mm anuais e déficit hídrico acentuado - aliadas à presença de um escudo cristalino em aproximadamente 70% de sua área favoreceram uma corrida para a construção de açudes no Nordeste (atualmente estima-se em 70.000 o número de açudes no semi-árido), visando ao armazenamento da água e posterior uso na época de escassez. 

O escudo cristalino, caracterizado por solos rasos (a rocha mãe está praticamente à superfície, chegando ao afloramento) e escorrimentos superficiais maiores do que a porção de água que se infiltra (ao inverso do que acontece no sedimentário), propicia condições favoráveis à construção de açudes. Nesse meio, em período de seca, as únicas possibilidades naturais de acesso à água ocorrem através das fissuras ou fraturas existentes nas rochas cristalinas, onde as águas são poucas e invariavelmente salinas, e nos aluviões sobre o embasamento cristalino, com restrições também na quantidade e qualidade. Artificialmente, o acesso à água se dá mediante acumulações superficiais em açudes, com restrições de quantidade e, em casos bem específicos, também de qualidade. 

Com relação ao uso das águas dos açudes para produção de alimentos, podemos exemplificar três alternativas: através da irrigação, da agricultura de vazante e da piscicultura. 
Nesse particular, quando o assunto é produção de alimentos, temos que fazer algumas ponderações e distinções no tocante aos açudes, principalmente no que diz respeito à escala que está sendo referida. 

No Nordeste brasileiro existem pequenos, médios e grandes açudes. Os grandes açudes, construídos pelo poder público, são aqueles em que se desenvolvem as principais atividades de irrigação, piscicultura e abastecimento das populações na região, e que evidenciaram a atuação de instituições como o DNOCS na sua construção e no manejo de suas águas, nos chamados perímetros irrigados. Esses corpos de água, por terem grandes volumes acumulados, não correm o risco de exaustão, permitindo, face à extensão da área de acumulação em suas bacias, a contenção de um volume de água apreciável, capaz de alcançar o período subsequente das chuvas, mesmo com o seu uso continuado. Entretanto, os terrenos à jusante desses açudes vêm apresentando problemas de drenagem, que têm ocasionado, com certa freqüência, prejuízos na produtividade das culturas, principalmente com a salinização (estima-se que 1/3 dos açudes construídos pelo DNOCS estejam com problemas de sais em seus perímetros irrigados). Por isso, eles necessitam de uma maior atenção por parte do poder público para a solução desse problema, a fim de continuarem a dar sua parcela de contribuição na produção de alimentos e fixação do homem no campo, assuntos muito importantes em locais onde há limitações hídricas. 

Os pequenos e médios açudes, com volumes compreendidos entre 10.000 e 200.000 m³, representam 80% dos corpos de água nos estados do Nordeste e são o principal objeto de nossa preocupação neste artigo. Para se ter uma idéia desse percentual, só no estado de Pernambuco, possuidor de 13 bacias hidrográficas, estima-se algo em torno de 1000 desses corpos de água por cada uma dessas bacias, o que eqüivale a uma média de 13 a 15 mil açudes, nessa escala, em todo o estado. Esses açudes, por apresentarem formas geométricas variadas devido à falta de planejamento inicial no momento da sua construção - em que o principal fator levado em consideração sempre foi a ânsia ou mesmo a vontade de se fechar um boqueirão - trazem inevitáveis problemas de dimensionamento, não sendo raro açudes que nunca vieram a sangrar. Esse aspecto, ao contrário do que muitos imaginam, traz problemas muito sérios de salinização, pois as águas ficam sujeitas à concentração salina devido ao fenômeno da evaporação intensa. Com esse fenômeno, a água se evapora, mas o sal permanece no açude e a sua concentração é progressiva. A evapotranspiração, que ocorre de forma contínua, raramente é levada em consideração, tornando-se comum, no meio rural, ouvirem-se dos proprietários colocações ufanísticas do tipo "o meu açude foi construído por meu avô e nunca sangrou" , como se represar unicamente, sem se perder uma única gota de água, sem se prever os sangramentos necessários, fosse uma grande virtude. Ao contrário, o não sangramento constitui-se em um grande mal para os açudes. 

Outro fator importante e que deve ser considerado no uso das águas de um açude é a qualidade dos solos que fazem parte de sua bacia hidrográfica, dada a capacidade que têm alguns tipos de solos de transferir sais para o seu interior. Trabalhos realizados pela ORSTOM (entidade de pesquisa francesa) em cooperação técnica com o governo brasileiro demonstraram que, de acordo com o tipo de solo da bacia, o açude terá maior ou menor possibilidade de se salinizar. Bacias hidrográficas que apresentem manchas de solos do tipo Planossolo Solódico ou mesmo Solonetz Solodizado, por exemplo, têm maior capacidade de salinizar os açudes. Nesses tipos de estruturas, as águas oriundas do escoamento superficial se mineralizam com facilidade e inevitavelmente são carreadas para o interior dos açudes, salinizando-os. Caso essas águas venham a ser utilizadas na irrigação, a sua qualidade irá refletir aquela que foi represada. 

A evapotranspiração elevada é fator importante a ser levado em consideração. Trabalhos nessa área estimam que os pequenos e médios açudes perdem cerca de 40% da água acumulada, através desse fenômeno. Um pequeno açude, por exemplo, com uma cota de 5 m chega a perder 2 m de lâmina de água com a evapotranspiração. 

Existe uma linha de estudos que orienta os proprietários de pequenos e médios açudes a utilizarem suas águas para a produção de alimentos através da irrigação, mesmo com a certeza de se promover a exaustão desses mananciais. Esses estudos foram realizados pela ORSTOM, através dos pesquisadores Molle e Cadier em 1992, e resultaram na elaboração de um "Manual do Pequeno Açude". A idéia básica foi a de se dimensionar corretamente os açudes e utilizar a água na produção de alimentos, independentemente de causar ou não a sua exaustão. Nesse ponto, entendemos que a premissa é válida, mas têm que ser considerados outros pontos fundamentais, tais como a existência de outras fontes hídricas na propriedade que assegurem o abastecimento do produtor e de seus animais. Esse ponto é muito importante, pois a exaustão dos açudes poderá pôr em risco a vida do sitiante e dos seres vivos que o cercam. Outro ponto que devemos levar em conta é que o referido manual orienta o produtor no dimensionamento correto de um açude para usos diversos, inclusive irrigação, mas não o orienta no que fazer com os já construídos e que não obedeceram ao referido dimensionamento (neste aspecto está incluída a grande maioria dos açudes nordestinos). Finalmente, achamos que faltam informações sobre o custo/benefício do uso das águas de um açude bem dimensionado, sob a ótica da ORSTOM. O que vale mais a pena: usar a água de um açude bem dimensionado para produzir alimentos, mesmo sabendo que ele irá entrar em exaustão com alguns meses de antecedência da chegada do período chuvoso ou tentar administrar melhor o uso de suas águas para abastecimento próprio e dos animais e, com isso, tentar chegar o mais próximo possível do período chuvoso e conseqüente reabastecimento do açude? São pontos que merecem alguma reflexão. 

No nosso modo de entender, o produtor já fez esse tipo de avaliação. Visitamos várias propriedades em diversos estados do semi-árido nordestino que, de uma forma ou de outra, já haviam tido alguma experiência com irrigação na produção de alimentos, utilizando a pequena açudagem. Parece-nos que os produtores que experimentam a irrigação uma vez não têm coragem de experimentar a segunda. A aflição do produtor em presenciar seu manancial se exaurir com certa rapidez tira-lhe o ânimo de tentar novas investidas. Foram várias as propriedades visitadas no Nordeste que haviam participado desse tipo de experiência e tinham as tubulações armazenadas em galpões, deteriorando-se com o tempo. A administração da vida, nessas horas, certamente parece ser mais forte do que a tentativa de qualquer experiência tecnológica. Nesse aspecto, achamos mais prudente a piscicultura e até mais simpática a cultura de vazante, na qual o produtor vai explorando a faixa úmida da margem do açude, à medida que a mesma vai se ampliando, deixando o uso das águas para fins mais nobres. Atualmente, esse é um assunto para ser mais discutido.


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