Fundação Joaquim Nabuco

  • Full Screen
  • Wide Screen
  • Narrow Screen
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Reflexão e questionamentos sobre violência contra a mulher são gerados na Fundaj

O presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Luíz Otávio Cavalcante, anunciou na manhã desta segunda-feira (10), durante o seminário “A culpa não é delas: Cultura da violência contra a mulher”, que a partir de 2018, o Observatório da Fundaj será focado em levantar discussões e gerar conteúdo na temática “violência contra a mulher’’. De acordo com o presidente, o programa está sendo executado em parceria com a professora de Direito da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Marília Montenegro, e o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC). “Fundação Joaquim Nabuco é casa do pensar e fazer. Temos tradição quando o assunto é focar no social. Pensando em expressar, atualizar dados, informações de pesquisa e etc, vamos realizar uma alteração no observatório Fundaj com essa nova temática. O programa está sendo pensado pela professora Marília e, somente em 2018, ele será executado”, explicou Cavalcanti.

O evento começou às 9h30, quando o presidente realizou uma breve abertura. Logo em seguida, Sílvia Cordeiro, secretária da Mulher de Pernambuco, falou sobre os direitos das mulheres. “Falar sobre a mulher é estar atento ao processo civilizatório. Todas as mulheres são sujeitas de direitos e é obrigação do Estado saber e se interessar por esses direitos e, além disso, promover o direito das pernambucanas. Conquistamos um lugar no mundo e estamos buscando erradicar a violência contra a mulher. Diminuir é muito pouco, precisamos ter uma meta ambiciosa para acabar com esse abuso”, comentou Sílvia.

A intenção do seminário é causar uma reflexão a partir da série jornalística “A culpa não é delas”, produzida pela jornalista Ciara Carvalho, do Jornal do Commercio. As mesas do turno da manhã abordaram cuidado e prevenção à cultura da violência e reflexão sobre a série. “60% das mulheres assassinadas são negras. Esse é apenas um dos vários dados levantados. Foi muito gratificante fazer parte desse projeto tão de perto com essas mulheres que tiveram coragem de se mostrar. É importante discutir esse assunto desde a sua base, na escola, com o professor. Ele precisa começar da base”, comentou.

De acordo com Laurindo Ferreira, diretor de redação do JC, foram várias pesquisas levantadas e muitos métodos buscados para transmitir o conteúdo em diversas plataformas. “Incrível como o tema tem força e através disso buscamos transformar ele em diversas plataformas de compartilhamento. Tivemos envolvimento de diversas pessoas nesse projeto, de várias editorias. E quando resolvemos abordar esse tema, a gente já chega marcando o pé que estamos posicionados no assunto, e isso fica claro quando falamos: a culpa não é delas. Já estamos posicionados e decididos a falar sobre o tema”, finalizou. 

Os painéis da parte da tarde começaram com a delegada Gleide Ângelo, do Departamento de Polícia da Mulher (DPMUL) fazendo um apelo à sociedade. “Ajudem mais e julguem menos.” Ela participou da mesa “Cultura da Violência contra a Mulher em Pernambuco” ao lado de Fernanda Fonseca, professora de Direito da Unicap. “São 27 mil boletins de ocorrência de violência doméstica de janeiro a outubro de 2017. São crimes como ameaça, injúria e difamação. Esse número significa que as mulheres, aos poucos, estão se empoderando e encarando esses crimes de frente. Elas estão tendo a coragem de combater as violências”, ressaltou Gleide.

Horas antes de sentar à mesa da sala Calouste Gulbenkian, a delegada revelou que atuou na investigação de um assassinato de uma mulher pelo próprio companheiro e fez questão de afirmar que o feminicídio é um crime anunciado, já que as pessoas que convivem com a vítima, muitas vezes, desistem de ajudá-la por achar que ela continua com o companheiro por que "gosta de apanhar". "Se tiver uma chance, a mulher deixa o companheiro de lado. É preciso parar de julgar e entender o contexto que ela vive", desabafou. “Na maioria dos casos, a polícia não tem como evitar esses crimes. É preciso um trabalho em rede, de prevenção e de políticas públicas para que casos como esses não existam mais.”

Já para Fernanda Fonseca, é preciso mais capacitação na temática da violência doméstica e na formação de gênero. A professora da Unicap, no entanto, elogiou alguns pontos da Lei Maria da Penha. “A multidisciplinaridade é uma das questões positivas da lei, já que mesclou vários pontos de conhecimento presentes na sociedade.”

Para a professora, é preciso combater os conceitos machistas que existem na sociedade desde a infância. “É preciso usar a escola e, principalmente, os ensinamentos dentro de casa para que essas violências diminuam e acabem.”

A última mesa do seminário abordou a questão da “Cultura da violência contra a mulher no Brasil”. O debate aconteceu entre Ana Paula Ferreira, integrante da ActionAid Brasil, e Naymme Moraes, historiadora e doutoranda em Sociologia. Naymme aproveitou o momento para fazer uma análise histórica da questão desse ciclo de violência. “Essa cultura está nas raízes do Brasil”, afirmou.

“A gente construiu o Brasil à base da violência doméstica e de gênero. As índias, as negras e as sinhás sofreram. Convivemos com uma herança de abuso e precisamos mudar isso. Desde o começo da nossa história, pais e maridos abusaram de suas filhas e esposas. A mulher deixou de ter posse do seu corpo”, concluiu.

Navegando em: :: Outras Notícias Reflexão e questionamentos sobre violência contra a mulher são gerados na Fundaj