Fundação Joaquim Nabuco

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Efeitos da associação do Sabiá no comportamento do Jacarandá da Bahiae da Peroba Brancana zona da mata de Pernambuco.


 

João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

 

 

 

 

As condições ambientais formadas no interior de uma mata são favoráveis ao desenvolvimento de essências florestais de lei.


RESUMO

 

 

Numa sucessão vegetal secundária, as essências pioneiras fornecem determinadas condições ao solo, modificando-o em sua composição química e estrutural e proporcionando-lhe espessura suficiente ao aparecimento das espécies arbóreas ditas de lei. Este trabalho refere-se a uma simulação de sucessão secundária, na qual foi utilizada, como pioneira, o Sabiá (Mimosa caesalpiniifolia Benth.), associada com a Peroba Branca (Tabebuia stenocalyx Sprague & Stapf.) e o Jacarandá da Bahia (Dalbergia nigra Fr. Allen.), havendo parcelas com essas mesmas essências, sem a associação do Sabiá, servindo como termo de comparação.

Foram feitas descrições das características do experimento, do local de sua instalação, seu clima e aspectos da vegetação existente, bem como da atual utilização dos solos. O experimento foi instalado e, 1975, tendo sido mensurado em 1978 e 1981, nas variáveis de alturas, diâmetros e volume. Nessa última data, foram determinados os mesmos parâmetros em 5 talhões de Sabiá existentes próximo ao experimento. Na contagem de "stand" realizada naquele período, verificou-se uma tendência na redução de perdas nos tratamentos associados ao Sabiá, julgando-se necessária a análise de um número maior de experimentos para fazer-se um prognóstico mais realista sobre a influência da associação na percentagem de sobrevivência das mudas no campo.

Foram calculados os volumes de madeira sólida das essências por hectare e dispostas as variáveis em histogramas de freqüência, nos dois períodos considerados. Os parâmetros obtidos das essências Peroba e Jacarandá foram obtidos, também, do Sabiá. Foram notadas certas tendências a um maior desenvolvimento dos tratamentos associados, com relação a alturas e volumes, e de um menor desenvolvimento, com relação aos diâmetros, variando esses dados de acordo com a densidade do povoamento. Foram determinadas as taxas de incremento médio dos tratamentos (embora com restrições quanto ao método utilizado) e mensurados os pesos específicos - básico, seco e verde - das essências.

Foi medido, também, o teor de extratos pelo álcool benzeno, de lignina e de holocelulose na madeira das essências, tendo sido igualmente determinada a massa vegetal caída durante o ano coletando-se o material, no final de cada mês, em coletores distribuídos no interior do experimento. A quantidade de nutrientes contida nesse material foi determinada mediante comparação com dados obtidos em estudos de ciclagem de nutrientes, nas matas de Dois Irmãos, Recife. Foi estimada, também, a composição das folhas fenadas do Sabiá (que tanto podem ser convertidas em feno como ensiladas), verificando-se serem as mesmas muito ricas em proteínas e hidratos de carbono, constituindo um excelente alimento para o gado, com o conseqüente aumento na produção de carne e leite.

As conclusões são de que as condições fornecidas ao ambiente pelo Sabiá (acúmulo de matéria orgânica no solo, incorporação de nutrientes através da decomposição dessa matéria orgânica, fixação de nitrogênio através de bactérias nitrificantes existentes ao nível de suas raízes, aumento da umidade, diminuição da temperatura etc.) estão compensando a intensa competição existente com a sua associação.

 

 

PRINCIPAIS RESULTADOS ENCONTRADOS NA PESQUISA


 

- Pelos dados obtidos na pesquisa pode-se afirmar que os efeitos da associação do Sabiá no comportamento das essências florestais em estudo, são benéficos.

 

- Evidenciou-se uma tendência para a redução de perdas de mudas nos tratamentos associados ao Sabiá, tendo sido julgada necessária a implementação de um número maior de experimentos, para se ter um prognóstico mais real acerca dessa tendência.

 

- Em 1978, a média das alturas do Jacarandá diferiu significativamente (a nível de 5% de probabilidade) em relação à média das alturas dos demais tratamentos.

 

- Com relação às médias das variáveis: diâmetros e volumes, em 1978, não houve diferenças significativas entre os tratamentos Peroba e Peroba associada, Jacarandá e Jacarandá associado.

 

- Em 1981, não houve diferenças significativas entre as médias das variáveis: alturas, diâmetros e volumes, dos tratamentos Peroba e Peroba associada, Jacarandá e Jacarandá associado.

 

- Em 1981, apesar de não ter havido diferenças significativas nas variáveis altura, diâmetros e volumes, dos tratamentos Jacarandá e Jacarandá associado, Peroba e Peroba associada, notam-se certas tendências a um maior desenvolvimento dos tratamentos associados, com relação a alturas e volumes, e um menor desenvolvimento, com relação aos diâmetros.

 

- A densidade do povoamento tem um efeito muito grande com relação ao crescimento do vegetal em diâmetro. Quanto mais denso o ambiente, menor a incidência luminosa, menor a taxa fotossintética, menor o crescimento do vegetal em diâmetro. Com relação ao desenvolvimento em altura, dá-se o inverso, em vista da busca constante do vegetal por luz plena em sua copa.

 

- Aos 6 anos de idade, os tratamentos forneceram os seguintes volumes, com os respectivos intervalos de confiança:

 

ESSÊNCIAS

(Tratamentos)

VOLUMES

(m³. ha¯¹)

INTERV. DE CONFIANÇA

(m³. ha¯¹)

Peroba associada

20,51

22,22 - 18,80

Peroba

20,28

22,94 - 17,63

Jacarandá associado

13,76

17,54 - 9,98

Jacarandá

9,75

12,80 - 6,70

 

 

- Para o Sabiá, com 6 anos de idade e espaçamento 2 x 2m, foi obtido um volume médio de 46,5 m³. ha¯¹ com um intervalo de confiança de 59,75 m³. ha¯¹ a 33,25 m³. ha¯¹.

 

- A média da taxa de crescimento das variáveis não parece retratar a realidade dos fatos, visto como não permite avaliar o incremento das variáveis ocorrido na primeira fase, ou seja, no período de 1975 a 1978; não é proporcional ao incremento das variáveis no tempo, e traz distorções consideráveis quando se trabalha com variáveis de pequeno valor.

 

- A Peroba associada apresentou valores superiores aos da Peroba, nos pesos específicos básico e seco, sendo inferior ao peso verde.

 

- O Jacarandá associado apresentou resultados inferiores aos do Jacarandá nos pesos específicos básico, seco e verde.

 

- Como já era esperado, o Sabiá apresentou valores de pesos específicos básico, seco e verde bastante elevados, com 0,87; 0,93 e 1,24 g/cm³, respectivamente.

 

- O Jacarandá associado apresentou menores teores de extratos pelo álcool benzeno, em comparação com o Jacarandá não associado, ocorrendo o inverso com a Peroba associada.

 

- Com relação à lignina, o Jacarandá associado apresentou teores superiores ao Jacarandá não associado, ocorrendo o inverso com relação à Peroba associada.

 

- Com relação à matéria vegetal, houve uma maior queda deste material nos meses mais secos (setembro, outubro, novembro e dezembro), nos tratamentos Peroba e Jacarandá, tendo ocorrido o inverso nos tratamentos associados.

 

- As quantidades de nutrientes na matéria vegetal coletada foram estimadas de acordo com dados de NUNES (1980) na Mata de Dois Irmãos, Recife, em:

 

NUTRIENTES

 

QUANTIDADES ( kg. ha¯¹ . ano¯¹)

Ca

21,0

K

17,2

Mg

5,6

Fe

0,5

Zn

0,0034

P

1,34

Mn

0,6

 

 

- Conforme dados de GOMES (1973), a folhagem do Sabiá obtida nesta pesquisa, fornece cerca de 3068,29 kg. ha¯¹ . ano¯¹ de matéria orgânica digestível. Já o seu feno, segundo SANFORD (1961), BRAGA (1960) e AZEVEDO (1959), fornece por ha¯¹ . ano¯¹, cerca de 989,65 kg de proteína bruta; 368,36 kg de extrato etéreo; 2552,44 kg de extrativos não nitrogenados; 857,39 kg de fibra bruta; 226,24 kg de resíduo mineral; 16,24 kg de fósforo em P2O5 e 93,40 kg de cálcio em CaO.

 

- Caso venham a ser implantados projetos de reflorestamento com essências nativas, a adoção do processo de associação trará benefícios, não só para o ambiente mas, também ao empresário que lucrará toda a madeira da essência associante (no caso o Sabiá) mediante cortes racionais da mesma.

 

- As sementes do Sabiá e Peroba caídas no interior dos tratamentos associados, encontraram condições de umidade e temperatura suficientes à germinação, o que não ocorreu nos tratamentos não associados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AZEVEDO, Guilherme de. - Pastos Arbóreos, SIA - n° 791, 2ª edição, Ministério da Agricultura - Serviço de Informação Agrícola, 1959, 32 p.

BRAGA, Renato - Plantas do Nordeste Essencialmente do Ceará, Imprensa oficial, 2ª edição, Fortaleza CE, 1980, 540 p.

NUNES, Katia Smera - Ciclagem de Nutrientes na Mata de Dois Irmãos, Recife, Tese de Mestrado, UFRPE, 1980, 108 p.

SANFORD, Paulo de Almeida - Forrageiras Arbóreas do Ceará, SIA n° 866, Rio de Janeiro, 1981

Obs - Tese de Mestrado defendida pelo autor na Universidade Federal Rural de Pernambuco em 1982.


Recife, 29 de setembro de 1998


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