Fundação Joaquim Nabuco

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A CAPRINOCULTURA NO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE: perspectivas promissoras


João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco



 

Semi-árido: no espaço físico no qual se cria uma vaca, pode-se criar oito cabras

Se houve um aspecto importante na condução do Programa de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico para o Nordeste - PDCT/NE na década de 80, este foi, sem a menor sombra de dúvida, a atuação dos especialistas convidados para avaliar os módulos produtivos do Subprograma de Geração e Adaptação de Tecnologias - GAT, sob a responsabilidade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. Dentre os diversos especialistas convidados, destacou-se, no módulo de caprinocultura o Dr. Aldomário Rodrigues, médico veterinário e pesquisador da Empresa Paraibana de Pesquisas Agropecuárias - EMEPA, técnico que, ao longo de sua carreira, especializou-se na criação de pequenos ruminantes, sendo atualmente um dos profissionais mais requisitados no Nordeste semi-árido para tratar dos assuntos relacionados a esse tipo de pecuária.

Foi na expectativa de tornar a avaliação técnica do GAT mais produtiva, que convidamos o Dr. Aldomário para fazer parte da equipe técnica assessora do programa no Estado do Rio Grande do Norte, tendo o mesmo apresentado vários relatórios que deram origem aos presentes comentários, advindos da assessoria de um programa de difusão controlada de tecnologia.

O esforço de tornar economicamente viável uma pequena gleba rural repousa, principalmente, na integração harmônica dos elementos que a compõem, aproveitando-se racionalmente todas as suas potencialidades e vocações.

Os projetos do GAT/PDCT-NE executados pela Escola Superior de Agricultura de Mossoró - ESAM, no Rio Grande do Norte, têm procurado, através do esforço de seus técnicos, tornar viável economicamente pequenas propriedades rurais localizadas no Semi-árido daquele estado. Entretanto, alguns ajustes foram sugeridos para que houvesse um incremento na produção de caprinos, através da redução de perdas de animais e aumento da produtividade.

Para tanto, é imprescindível que o corpo técnico envolvido no Programa receba, além de um assessoramento, treinamentos para que possa executar bem suas funções pois, pelo que pôde ser observado, a equipe encontra-se carente de conhecimentos na área de produção animal, o que se justifica pelo fato de todos os elementos componentes da equipe possuírem mais conhecimentos no segmento de agricultura irrigada.

Em cada unidade de produção, encontrou-se um ambiente favorável a exploração da caprinocultura como agente de aproveitamento do espaço de sequeiro comum a todos os módulos, assim como agente reciclador dos subprodutos provenientes da agricultura irrigada, convertendo-os em proteína animal de alto valor biológico. A cabra, com sua adaptabilidade ao espaço semi-árido nordestino, se credencia a integrar o sistema de forma marcante, pela participação na formação da renda familiar e pelo papel social que desempenha

Dentro de uma perspectiva mais ampla, a criação de cabras no Nordeste semi-árido deve ser entendida como parte de uma estratégia que objetiva a solução dos problemas de desnutrição regional e como elemento de desenvolvimento. Como tal deverá estar inserida num contexto de políticas substantivas, a exemplo dos programas já vivenciados na região, como o Chapéu de Couro, em Pernambuco, o Canaã, na Paraíba e o Sertanejo e o PDCT/NE implementados pelo Governo Federal, entre outros, e que venham alterar significativamente a estrutura sócio-econômica da região.

Com esse enfoque, e para que o caprino possa prestar esse serviço, é necessário que seja incentivada a formação de bons reprodutores e boas leiteiras, por entender-se que a vocação primordial do caprino é produzir leite. Para tanto, alguns cuidados e ajustes deverão ser tomados na unidade de produção a ser concebida, buscando-se um animal de tipo ou grau de sangue que se ajuste bem a ecologia ambiente à qual está submetido, de forma que possa desenvolver toda sua potencialidade de produzir.

Após a preocupação da escolha do animal ideal para cada situação de nicho ecológico, resta a busca do seu conforto, de forma que produzir, e produzir bem, seja sua característica maior.

Pelo que foi observado nos projetos do GAT-RN, muitas práticas poderão ser implantadas e problemas poderão ser contornados, através de práticas simples de manejo, alimentação e sanidade.

MELHORAMENTO ANIMAL

O lastro que forma todos os planteis visitados é constituído de animais Sem Raça Definida (SRD), com alguns exemplares com sangue de Anglo Nubiano e/ou Mambrino. Entretanto, é geralmente aceito que a produção de leite desse tipo comum de caprinos é muito baixa. Um aumento na produção de leite pode melhorar significativamente a economia da criação de caprinos, diretamente, pela venda do leite e dos produtos lácteos como o queijo e, indiretamente, por melhorar a sobrevivência e o crescimento inicial de cabritos.

Para o melhoramento genético, o método do cruzamento é um dos mais importantes processos de que o criador poderá lançar mão para a melhoria do seu rebanho, principalmente do ponto de vista do aumento de rendimento da máquina viva. Para o Nordeste, onde o estado da pecuária caprina é rudimentar, deve ser o método mais geral, mais útil e rápido a ser adotado.

Por esses motivos é que se torna imprescindível o melhoramento dos animais do programa GAT, através do cruzamento com reprodutores de alto valor zootécnico e com aptidão leiteira acentuada, a exemplo da Parda Alpina, cuja raça parece ser a melhor para se iniciar o processo de melhoramento.

É provável também que, no momento, não se possa estabelecer o grau de sangue prévio para se parar o processo de absorção do tipo nativo, o que depende, obviamente, da produção leiteira e da resposta econômica.

O processo de substituição do plantel nativo pelo produto do cruzamento deverá obedecer aos critérios de reposição, com a incorporação, ao lote, de toda fêmea produzida e que se encontre dentro das condições exigidas para a obtenção de animais superiores quanto a produção de leite.

Todos os produtores inquiridos nas visitas técnicas, manifestaram o desejo de criar cabras leiteiras, afirmando possuir mercado para o escoamento da produção. E como todos eles são pequenos produtores cujas propriedades possuem áreas irrigadas, a produção de alimentos - fator básico para se produzir bem - poderá ser assegurada, viabilizando, dessa forma, a exploração.

ALIMENTAÇÃO

Pode-se até imaginar que, em propriedades com área irrigada, a alimentação para os animais não constitua um problema. Deve-se ter em mente que o público meta do GAT é constituído por pequenos produtores que têm na agricultura sua principal atividade, e que as culturas ali exploradas são nobres e, por isso, de alta rentabilidade. Os subprodutos dessa agricultura poderão ser aproveitados e reciclados através do animal, contribuindo dessa maneira para um aumento da receita final do produtor.

Todas as propriedades apresentam uma área irrigada e uma outra de sequeiro, a qual, em conseqüência da adversidade climática regional, condiciona uma dominância de espécies vegetais de maior poder de adaptação às condições semi-áridas, na sua grande maioria xerófilas, com baixa quantidade de biomassa pastável, obrigando o produtor a tomar algumas providências visando a uma maior oferta de alimentos por unidade de área.

O pasto ainda é a maneira mais econômica de fornecer alimentos aos animais. Entretanto, o sucesso com a sua utilização depende, entre outros fatores, do conhecimento da taxa de lotação, da escolha de gramíneas e/ou leguminosas utilizadas e do manejo desse pasto. Do emprego de técnicas e forma de utilização depende a formação e manutenção da qualidade da pastagem pretendida.

Nas áreas cobertas por vegetação nativa, em particular nas áreas de sequeiro do GAT, deve-se proceder a um raleamento seletivo, ou seja, a retirada da população de plantas não forrageiras, objetivando oferecer condições para o extrato herbáceo manifestar seu poder de cobertura, com o aparecimento de um aumento na densidade de gramíneas e leguminosas herbáceas nativas, assim como o rebaixamento do extrato arbóreo de modo a oferecer aos animais um aumento de biomassa pastável e condições de pastejo.

Os bancos de proteínas deverão ser uma constante na criação de cabras leiteiras, por tudo que podem representar para se produzir bem. Espera-se que sejam multiplicados como forma de se reduzirem os gastos com concentrados industriais, indispensáveis quando se trabalha com animais leiteiros. Os bancos com Leucena que se encontram instalados nas propriedades necessitam, apenas, que a poda seja feita a cerca de 60 cm do solo, para que o animal possa ter acesso a toda massa foliar produzida e que sua permanência na área não seja superior a uma hora por dia.

Deve-se ter em mente a conservação de forragens através da silagem e fenação, para se oferecer ao rebanho no período de escassez de alimentação.

REPRODUÇÃO

O uso indiscriminado de reprodutores tem sido um fator determinante de baixa produtividade no rebanho, portanto, para se inverter esse quadro, a observação mais lógica seria iniciar o trabalho pela escolha de um bom reprodutor, com a utilização de raças especializadas, observando-se o tipo de exploração (carne, leite e pele).
Fisiologicamente, os machos tornam-se púberes aos 4 meses de idade, atingindo a maturidade sexual, em média, entre o 6° e o 9° mês de vida, o que significa que a partir dessa faixa etária são capazes de cobrir e fecundar fêmeas, por esse motivo é aconselhável o seu afastamento do rebanho quando atingirem 120 dias de idade. São sabidas as limitações dos produtores rurais no tocante às instalações para manejar esses animais. Portanto, a castração aos trinta dias de vida é uma prática que poderá ser utilizada visando a se evitar cruzamentos indesejáveis.

Afastados do rebanho os machos jovens, e escolhidos os reprodutores que se responsabilizarão por 50% da carga genética do rebanho, resta então a escolha das matrizes, nas quais deve-se buscar, sobretudo, uma conformação de boa reprodutora e boa leiteira. Embora uma marrã possa entrar em puberdade entre 4 a 8 meses, só deverá ser usada como reprodutora apenas quando atingir 70% da média de peso corporal do lote de fêmeas adultas, quando terá condições de gerar crias saudáveis.
Essas considerações foram feitas porque observou-se alto percentual de machos jovens nos rebanhos visitados contribuindo para aumentar a freqüência de cruzamentos indesejáveis, quer pelo cruzamento precoce de fêmeas, quer pela utilização de reprodutores inferiores.

Talvez esses problemas sejam contornados com a utilização de controle de monta, utilizando-se rufiões no acompanhamento a campo das fêmeas nas estações de reprodução.

INSTALAÇÕES

O problema de instalar os caprinos e ovinos de maneira conveniente é bastante complexo, uma vez que é preciso considerar vários aspectos. De uma maneira geral, as instalações precisam preencher os seguintes requisitos: permitir fácil manuseio dos animais, fácil higienização, conforto e segurança ao plantel.

A localização das instalações quase sempre dita o modelo e a forma de construção. De um modo geral, os caprinos são muito susceptíveis às infecções pulmonares. A orientação do cabril deve ser feita no sentido de se evitar os ventos dominantes e as chuvas, permitindo, também, que as instalações recebam os raios solares no período matutino, a fim de favorecer uma desinfecção natural.

Nos projetos visitados, as instalações foram bem localizadas, entretanto, os produtores foram orientados para não cimentar o piso, como forma de facilitar a drenagem da urina dos animais, pois a higienização é indispensável como forma de se evitar a disseminação de determinadas doenças e para preservação da qualidade do leite produzido.

Lembrou-se, também, a necessidade de se colocar um obstáculo na porteira de entrada do centro de manejo, com cerca de trinta centímetros de altura, como forma de se permitir a saída para o campo apenas dos animais que não são presas fáceis de predadores.

SANIDADE

A sanidade dos planteis visitados demonstrou perfeitamente o tipo de manejo que os animais receberam. Naqueles bem manejados e bem instalados, por exemplo, no do Sr. Vital, da Propriedade Nova Esperança, no núcleo de Angicos, os animais encontram-se saudáveis e em franca produção, com altas taxas de prolificidade e baixas taxas de mortalidade. Por outro lado, na Propriedade Santana do Sr. Nicácio Nogueira, no núcleo de Mossoró, existe um verdadeiro celeiro de problemas tais como: verminose intensa, piolhos, queratoconjuntivite, pneumonia etc. Acredita-se que tudo será resolvido quando os animais passarem a utilizar o novo centro de manejo, principalmente porque os currais antigos apresentam dimensões diminutas e inadequadas para o tamanho do rebanho, além da promiscuidade pela não separação dos animais por faixa etária. Os produtores foram orientados, ainda, para a necessidade de se fazer um calendário de vacinações e vermifugações, além da locação correta das instalações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De um modo geral, o Programa de Caprinos e Ovinos no Rio Grande do Norte poderá despontar como um dos módulos de sucesso por tudo que representa dentro do sistema proposto pelo CNPq. Acredita-se no seu futuro promissor devido, principalmente, ao interesse do grupo de produtores pela criação e pela vontade de melhorar de vida.

Recife, 11 de novembro de 1998.


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