Fundação Joaquim Nabuco

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El Niño e La Niña: Instabilidade dos fenômenos cria dificuldades nas previsões meteorológicas.


João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco






Alterações na temperatura média da água do Pacífico vêm preocupando meteorologistas do mundo inteiro. Nos anos 90 o mar ficou mais quente.


Ultimamente, os pesquisadores do Instituto de Tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco têm-se preocupado com as conseqüências advindas dos fenômenos El Niño e La Niña sobre o clima do território nacional, em especial da região Nordeste.
Inicialmente, com o intuito de avaliar a influência desses fenômenos sobre o comportamento do período seco que se instalou sobre a região Nordeste no ano de 1998, os pesquisadores vêm acompanhando, sistematicamente, as informações geradas no Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos - CPTEC, bem como no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE e no Instituto Nacional de Meteorologia - INMET, com o propósito de entender melhor de que forma esses fenômenos se irradiam no oceano; acompanhar de perto as previsões de suas ocorrências e seus impactos na agricultura e, o mais importante, averiguar a estreita relação existente entre as ações desses fenômenos com a ocorrência de precipitações no sertão nordestino.
El Niño e La Niña são fases distintas - quente e fria - de um movimento oscilatório resultante da interação entre o oceano e a atmosfera. É mais uma força da natureza com leis e dinâmicas próprias, cujos fundamentos os cientistas desconhecem, razão pela qual é impossível, ainda, se prever o início de um e o fim do outro, e vice-versa.

O fenômeno La Niña ocorre, na maioria das vezes, ao final da ocorrência de um El Niño, funcionando através de uma espécie de inércia de reacomodação não regular, que foge aos padrões normais, através do esfriamento das águas a leste do Pacífico, nas costas do Peru, formando um bolsão, com as águas do oceano atingindo uma temperatura entre 3 a 3,5° C abaixo da sua média normal. Ventos alísios fortes "empilham" águas quentes no extremo oposto, a oeste, na Ásia, alterando sobremaneira a circulação dos ventos e da atmosfera em todo o planeta. Mesmo sendo considerado um fenômeno de intensa energia, os cientistas acreditam que seus efeitos, em regra geral, são menos danosos ao ambiente do que os do El Niño.

Uma fonte de propagação para a irradiação do fenômeno La Niña são as correntes de ar, também chamadas de jet-stream. Elas sopram a 400 quilômetros por hora no sentido horizontal da Terra, a 50 quilômetros de altura. No Brasil, cortam o país na região Sudeste, entre os estados de São Paulo e o Paraná. Quando ocorre El Niño, as diferenças de temperatura entre o Pólo Sul e o Equador se acentuam. Essa diferenças térmicas provocam deslocamentos de ar enriquecendo as jet-stream. Elas, por sua vez, se transformam então numa espécie de barreira de ar capaz de anular o avanço das frentes frias, que ficam estacionadas no sul do país, ocorrendo chuvas torrenciais. Com o fenômeno La Niña, dá-se o inverso. O resfriamento das águas do Pacífico diminui as diferenças de temperaturas entre o Equador e o Pólo, enfraquecendo as jet-stream, fazendo com que as frentes frias passem rapidamente pelo Sul do país, tornando as distribuições regionais das chuvas bastante irregulares. Nesse caso, poderão ocorrer longos períodos de estiagem no Sul e chuvas abundantes no Norte e Nordeste.

Nem sempre um El Niño é seguido de uma La Niña e, nem sempre, essa seqüência é seguida por uma regularidade precisa. Existem casos em que a fase fria segue imediatamente a quente. Em outros casos, essa fase pode levar até mais de um ano para se instalar. Nos últimos 20 anos, o Pacífico permaneceu 35% do tempo com o El Niño instalado, 23% do período com La Niña e nos 42% restantes, a sua temperatura permaneceu dentro da média. A variabilidade de aspectos existentes entre diferentes ocorrências dos fenômenos El Niño e La Niña é a tônica principal sobre a qual se envolvem os pesquisadores e especialistas do mundo inteiro. A única certeza, por enquanto, é que cada El Niño tem a sua própria característica e que jamais se confunde com a de uma ocorrência anterior. Isso é mais um complicador para os que tentam estabelecer linhas de periodicidade entre eles.

O INMET analisou os últimos seis eventos da La Niña (78/79, 81/82, 85/86, 87/88, 90/91 e 95/96) e comparou o desempenho agrícola gaúcho. Nesses casos, as safras de soja e milho sofreram queda de 28 a 40% e de 25 a 35%, respectivamente. A produtividade média do milho no Rio Grande do Sul, nesses anos, diminuiu em cerca de 36% por ha; a da soja caiu em 50%. Em 95/96, por exemplo, houve perda de 3 milhões de toneladas de grãos. As precipitações no período dezembro/fevereiro ficaram muito abaixo do necessário para o desenvolvimento normal dessas lavouras.

As previsões de ocorrência de chuvas no sertão nordestino em situações de La Niña passam, necessariamente, pela ação dos ventos alísios através da concentração e formação de nuvens no litoral do Nordeste. O encontro dessas nuvens com o ar frio que avança pelo Atlântico caracteriza o que os cientistas chamam de dipolo favorável com possibilidades de precipitações normais no semi-árido entre fevereiro e maio. Esse aspecto, no entanto, não garante em 100% a volta das precipitações normais na caatinga. O fator decisivo que influencia o clima do Nordeste é a estrutura térmica do Oceano Atlântico. E ela tem ciclos periódicos de registro. Alguns, com intervalos longos, de 10 a 15 anos, que podem modificar as tendências mais gerais da atmosfera no tocante às precipitações. O conhecimento da ciência sobre o Atlântico ainda é inferior ao do Pacífico que, desde o El Niño de 82/83, conta com 69 bóias-sonda instaladas em sua faixa equatorial, para monitorar a estrutura térmica do mar até 700 metros de profundidade. Agora, graças ao Projeto Pirata (uma cooperação técnica Brasil/França/Estados Unidos), o Atlântico Sul passa a dispor também desse recurso. Dezesseis bóias com sensores eletrônicos estão sendo distribuídas nas suas águas. Com elas, um velho enigma poderá ser elucidado no futuro: o elo de ligação entre o sertão e o mar.


Recife, 14 de dezembro de 1998.

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