Fundação Joaquim Nabuco

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TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA NA AGRICULTURA: um decalque mal feito



João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco



 


Gado Holandês - inadequado para as condições do semi-árido


Existe um fundamento básico na natureza que deveria ser levado em consideração por técnicos e cientistas do mundo inteiro, quando da implementação de trabalhos e/ou pesquisas na Região Tropical. Esse fundamento baseia-se no princípio de que regiões de latitudes próximas possuem climas, solos, vegetação e, consequentemente, ambientes muito próximos ou semelhantes entre si.

Essa premissa é fundamental para as trocas de informações tecnológicas, pois ao se comparar o norte da Austrália, a Oceania, a Polinésia, a África Central, a Índia, a América Central, o noroeste da América do Sul e o sul do México - regiões inseridas na zona tropical do planeta (compreendida entre o Trópico de Câncer, com 23° de latitude Norte e o Trópico de Capricórnio, com 23° de latitude Sul) - com as regiões tropicais brasileiras, chega-se à conclusão de que existem semelhanças enormes entre elas e a principal condicionante dessas semelhanças é a latitude. Esse aspecto é importante de ser mencionado, principalmente quando o assunto é agricultura e, a partir dele, é que as definições e decisões das chamadas transferências tecnológicas deveriam ser tomadas.

Vários exemplos de transferências tecnológicas no setor agrícola que obtiveram êxito no nosso país podem ser aqui comentados, principalmente na Região Nordeste, a exemplo, entre outros, da introdução dos gados Guzerá e Sindi oriundos dos desertos da Índia; de sementes de capim Buffel melhoradas geneticamente na Austrália e introduzidas com êxito na região semi-árida; dos eucaliptos trazidos também da Austrália e difundidos por todo o país; da palma forrageira e de sistemas de irrigação localizada, provenientes de regiões áridas do México, que foram tão bem difundidos entre os pequenos produtores rurais nordestinos e dos coqueiros originários da Polinésia, que fazem parte das nossas paisagens litorâneas. A recíproca também é verdadeira se levarmos em consideração os exemplos da seringueira que foi exportada da região amazônica para a Malásia, constituindo-se em um dos principais agentes econômicos daquele país; das forrageiras coletadas no Carirí paraibano, levadas para a Austrália para serem melhoradas geneticamente e posteriormente introduzidas em várias regiões tropicais do mundo (inclusive reintroduzidas no próprio Carirí paraibano) e das tecnologias desenvolvidas pelo CPATSA/EMBRAPA, em Petrolina (PE), que vêm sendo utilizadas em várias zonas tropicais do mundo. Exemplos como esses são um fato inconteste e deveriam ser o princípio fundamental das ações para o desenvolvimento do setor agrícola em qualquer região tropical do globo.

No entanto, esses princípios às vezes não são levados em consideração aqui no país, pelos menos de forma sistemática. Alguns exemplos podem ser citados nas próprias Universidades de Ensino Agrícola, com a maioria da literatura constituída de versões americanas, nas quais, as práticas agrícolas alí existentes, são muito pertinentes para situações bem específicas de clima temperado, mas pouco sugestivas ou pouco indicadas para a realidade dos trópicos. Imaginem a prática de uma aração profunda, seguida de gradagem pesada nos solos rasos do Semi-árido nordestino? Os prejuízos certamente são difíceis de serem avaliados. Em frações de segundos, o solo tênue, com pouca matéria orgânica, que a natureza levou anos para formar, tem a sua estrutura física destruída pelo implemento agrícola e sua parte fértil deslocada para camadas mais profundas, não raro longe do alcance das raízes das culturas. É uma situação que merece uma pausa para meditação.

Na irrigação, entre outras práticas, costuma-se utilizar os coeficientes de cultura "Kc" (coeficiente utilizado no cálculo da irrigação) com dados obtidos de vegetais que crescem nas condições de clima temperado (principalmente de gramíneas nativas), ou seja, com fisiologia completamente diferente daquela apresentada pelos vegetais nativos do Brasil, originando, como de regra, erros grosseiros nos cálculos da irrigação, sendo necessária a utilização de fatores de correção para minimizar esse problema. Outra questão sobre irrigação é a drenagem necessária para a eliminação de sais acumulados na região das raízes das culturas. Essa prática, apesar de muito bem explicitada e detalhada pelas Universidades, não é devidamente orientada para ser utilizada nas condições dos trópicos (notadamente no Semi-árido) onde, na maioria das vezes, os solos se apresentam rasos e pedregosos e a água com teores de sais muito além do recomendado para o uso na irrigação. Sobre esse assunto, foram desenvolvidos esforços na região Nordeste, no sentido de aplicar tecnologias apropriadas provenientes de Israel - país com larga experiência na prática irrigacionista - para assegurar o sucesso na implantação dos chamados perímetros irrigados, sob a responsabilidade do Governo Federal. No entanto, esse investimento técnico, com a participação de especialistas em irrigação, parece não ter obtido o êxito esperado. Estima-se que 1/3 da área de tais perímetros veio a apresentar problemas de salinidade nos solos. A principal causa dos insucessos verificados foi devida, provavelmente, à enorme diferença de latitude existente em ambas as regiões, a qual não foi considerada pela assessoria técnica convidada. Por tratar-se de uma região com elevada latitude (Jerusalém tem uma latitude de 31° 47’ norte), as diferenças climaticas e geológicas, tornam distintos, de forma significativa, os ambientes das citadas regiões. A evapotranspiração em Israel é inferior à existente na nossa região, pelo fato de os raios solares, em latitudes elevadas, incidirem no solo de forma obliqua. Este fenômeno também interfere diretamente na diminuição da temperatura média anual israelense, sendo um dos principais fatores para a ocorrência de neve nos invernos. Já na região Nordeste, por apresentar uma latitude menor (Recife tem uma latitude de 08° 06" sul), a evapotranspiração é mais acentuada, devido à incidência perpendicular dos raios solares no solo (algumas regiões do Nordeste semi-árido chegam a evapotranspirar cerca de 7 mm/dia). Ao contrário do que ocorre em Israel, no Nordeste as temperaturas médias anuais são significativamente mais elevadas, não havendo, por consequência, a ocorrência de neve nos invernos. Em termos geológicos, as regiões apresentam tipos estruturais bem distintos. Em Israel inexiste o embasamento cristalino - ao contrário do que ocorre no Nordeste semi-árido brasileiro - o que torna a drenagem dos seus solos mais fácil de ser realizada e o problema de salinidade mais tranqüilo de ser contornado. Dessa forma, constitui-se um erro crasso tentar-se fazer comparações entre a irrigação bem sucedida que é praticada nos solos arenosos de Israel, e isso é um fato inconteste, com aquela irrigação problemática realizada no embasamento cristalino nordestino, com os condicionantes climáticos envolvidos.

No tocante à produção de grãos, não se leva em consideração a instabilidade climática (ocorrência de seca) que é uma constante no Nordeste e que não ocorre nas regiões produtoras de grãos de clima temperado, pelo menos com a freqüência com que ocorre em nosso meio. A questão é colocada como se não houvesse seca, e como se a região possuísse as quatro estações do ano bem definidas.

Na pecuária, a ênfase é dada para o gado Bos tauros - principalmente de raça holandesa - sabidamente inadequado para criação nos limites do Semi-árido, onde as altas temperaturas prejudicam o seu desempenho de bom produtor de leite, ficando relegadas a um plano secundário as pequenas criações - de caprinos e ovinos - bastante adaptadas à região. Esses são apenas alguns exemplos ilustrativos para mostrar o quanto é problemática a questão de se decalcar tecnologias alienígenas pelos estabelecimentos de ensino superior em nosso país. Não há a menor dúvida de que a difusão dessas tecnologias está sendo feita de forma inadequada.

Precisamos abandonar o preconceito de deixar de investir no desenvolvimento de nossas próprias tecnologias. As Universidades brasileiras, especialmente as nordestinas têm meios suficientes para transferir, aos seus alunos, as tecnologias aqui geradas e que já são de domínio público. Essa é uma bela alternativa para se resolver nossos próprios problemas.

E essas questões não param por ai. É preciso que se reflita mais sobre o critério adotado, pelos órgãos públicos de fomento à pesquisa científica, na capacitação dos futuros cientistas da área agrícola, no exterior. Acerca dessa questão, já houve mudanças significativas. Anteriormente, era permitida a saída das pessoas para se capacitar em qualquer parte do planeta, bastando, para tal, um comprovante de aceitação do técnico por parte da Universidade detentora do curso no exterior, para que o mesmo fosse contemplado com uma bolsa de pesquisa fornecida pelo órgão nacional de fomento. Atualmente, essa questão se modificou. Só é permitida a saída de técnicos para realizar mestrado no exterior, mediante a comprovação da não existência, no país, do curso pretendido pelo candidato. Existindo um curso similar no país, sua solicitação de bolsa de estudo no exterior é negada. Concordamos com esse critério, mas achamos que, no caso da inexistência de outros cursos similares, deveria haver um critério que permitisse enviar os técnicos, apenas e tão somente, para países que apresentassem semelhanças climáticas com as do nosso país, como por exemplo o norte da Austrália, o sul do México e a Índia, nos quais esses técnicos, além de receberem informações preciosas, trocariam suas experiências de forma harmônica e tudo dentro de uma mesma realidade de conhecimentos. A esse respeito, é pertinente que se analise, com mais profundidade, o benefício da realização de cursos de pós-graduação em países com latitudes elevadas (acima de 23 graus) os quais possuem uma variação climática significativa com relação a do Brasil. Temos vários exemplos de técnicos, que fizeram seus cursos nos Estados Unidos, portanto em clima temperado, trabalharam com o que existe de mais moderno em termos de tecnologia de ponta no mundo e, ao retornarem ao Brasil, tiveram a maior decepção, pois não conseguiram, em momento algum, pôr em prática os ensinamentos adquiridos no exterior. Trabalharam com equipamentos movidos a energia atômica para determinação da umidade do solo, desenvolveram sensores ligados a computadores para operar sistemas de irrigação, desenvolveram máquinas robotizadas para colheitas agrícolas etc.., tudo isso para, em seu retorno, trabalharem na agricultura da região semi-árida do Nordeste brasileiro, onde a cultura das pessoas é diferente; os solos são extremamente heterogêneos e difíceis de trabalhar; há uma instabilidade climática de grande monta; a vegetação é diferente; a água é escassa, de má qualidade e a que existe é transportada para as casas das famílias no lombo de animais e onde o povo é pobre. Segundo depoimento da maioria desses técnicos, o que ganharam com o curso no exterior foi apenas o domínio da língua estrangeira e nada mais.

Diante desses fatos, achamos que é fundamental um maior investimento nas nossas próprias Universidades. É preciso que se ponha inteligência e mais atenção na capacidade de desenvolvermos nossas próprias tecnologias. Achamos que não é nenhum demérito se fazer cursos de pós-graduação em instituições como a Universidade Federal de Viçosa e Lavras, em Minas Gerais; a Rural de Pernambuco - UFRPE; Escola Superior de Agricultura de Mossoró - ESAM; a Faculdade de Agricultura do Médio São Francisco - FAMESF, em Juazeiro da Bahia; a Escola de Agronomia de Cruz das Almas, na Bahía; a Universidade Federal da Paraíba, Campus de Patos e Campina Grande, a Federal do Ceará em Fortaleza, entre outras, instituições essas que já deram uma parcela significativa de contribuição, com tecnologias desenvolvidas regionalmente, para o desenvolvimento do Trópico brasileiro. Apenas com soluções desse tipo é que passamos a vislumbrar uma saída para o verdadeiro desenvolvimento de nossa região.

Recife, 10 de fevereiro de 1999.


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