Fundação Joaquim Nabuco

  • Full Screen
  • Wide Screen
  • Narrow Screen
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

O PAÍS DOS CONTRASTES


 

João Suassuna - Eng. Agrônomo, Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

 

 

Peixe Boi: exagero na preservação

 

 

O país todo assistiu, no Jornal Nacional da semana passada, uma reportagem sobre o resgate de um Peixe Boi, que havia encalhado em uma das praias do estado do Ceará, o qual foi transferido para a cidade do Recife, a fim de ser tratado no Centro de Pesquisa do Peixe Boi da ilha de Itamaracá. Confesso que fiquei extasiado. Levando em consideração o grande empenho dos biólogos e especialistas ambientais pela causa dos animais sujeitos à extinção, não pude deixar de analisar o lado negro da questão. O dito mamífero passou por um tratamento de fazer inveja a qualquer mortal. Acondicionado em um cobertor térmico e alimentado com soro fisiológico acrescido de ervas medicinais para manter o seu estado nutricional e de hidratação em patamares adequados para suportar uma longa viagem, ainda recebeu passagem aérea de primeira classe, fornecida pelo governo do estado do Ceará, para transportá-lo até Recife. Essa atitude pareceu-me ultrapassar os limites da sensatez, sem contar, é lógico, com os custos dos profissionais que o acompanharam nessa maratona biológica de Fortaleza até Itamaracá. Os leitores, provavelmente, estarão se perguntando o "por que" desse relato crítico, numa ocasião em que os exemplos de cuidados para com a natureza são tão reduzidos no nosso país. Realmente, o caso parece incomodar aqueles mais apaixonados pelas causas naturais. Mas, o que me chama mais atenção é o fato de as pessoas estarem perdendo o senso de avaliar melhor o real valor das coisas. O mesmo estado do Ceará, que divulgou na mídia televisiva esse belo gesto de amor para com os animais, está com boa parte de sua população morrendo à mingua, de fome e de sede. Esse fato, também real, é merecedor de uma reflexão mais profunda, pois as coisas, realmente, estão em visível contradição. A mesma edição do referido noticiário mostrou famílias inteiras em verdadeiro desespero, com crianças chorando, desnutridas e, para elas, não vi cobertores térmicos nem tampouco a ingestão de soro fisiológico para melhorar um pouco o seu estado nutricional. Os interesses, os valores, a questão humana, principalmente com relação aos menos aquinhoados parece não ser prioridade para aqueles que possuem o poder de decisão no nosso país. Acho que defender a natureza não é, pura e simplesmente, cuidar apenas das plantas e dos bichos. A defesa da natureza não pode ser resumida, apenas, em buscar novo relacionamento de nossa espécie com o planeta, mas principalmente buscar um melhor relacionamento entre nós próprios, seres humanos. Viva o Peixe Boi mas, viva muito mais, o ser humano.

Recife, 02 de março de 1999

:: Retornar para a página de artigos João Suassuna 

Navegando em: Pesquisa A DIPES