Fundação Joaquim Nabuco

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UM HIATO DESCABIDO



João Suassuna - Eng° Agrônomo, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco



O gerenciamento dos recursos hídricos é tão importante quanto o suprimento da água às populações.


Participei recentemente na Paraíba, como conferencista, do I Simpósio Transposição de Águas do São Francisco: mito ou realidade?, promovido pelo Departamento de Geografia do Centro Universitário da Paraíba - UNIPÊ. Coube-me, no referido encontro, falar sobre os Impactos da Transposição na Bacia Hidrográfica do São Francisco.

O evento, realizado para se encontrar alternativas de abastecimento para a região (o São Francisco estava sendo considerado como a única alternativa de abastecimento disponível), foi dividido em duas partes: a primeira, reservada para apresentações técnicas e a segunda, para os questionamentos políticos.

Tornou-se fato curioso, e até mesmo intrigante, a avaliação dos propósitos do encontro nos aspectos acima referidos. No aspecto técnico, foram claramente percebidos os problemas existentes de acumulação, de acesso e de uso das águas, oriundos dos entraves naturais existentes na região, entraves esses que podem e que devem ser resolvidos para possibilitar o acesso das populações à água, nos limites impostos pela natureza. Para o alcance dessas possibilidades, os técnicos fizeram um rico relato, com informações preciosas, mostrando os desdobramentos que resultaram no quadro dramático de desabastecimento por que passa o Nordeste na atualidade.

Na esfera política, deu-se exatamente o inverso. Os depoimentos mostraram que os aspectos técnicos eram considerados irrelevantes, não cabendo falar nos problemas sob essa ótica, bastando apenas vontade política para a realização das ações e nada mais. Nesse sentido, os volumes hídricos existentes na região se multiplicariam com enorme velocidade, as águas subiriam, desceriam e penetrariam nos estados por diversos flancos, sem nenhuma cerimônia e, em questões de segundos, os estados estariam cortados por canais, tubulações e estações elevatórias e, num verdadeiro passe de mágica, a região viraria uma verdadeira bacia amazônica.

O resultado não poderia ser outro: o colapso iminente do abastecimento do Nordeste. E esse problema chegou a uma situação insustentável. Comenta-se, até, a possibilidade de se pôr em prática um plano para a evacuação de parte da população de Campina Grande (PB), caso não chova nos próximos quinze dias, por falta de condições mínimas de garantia de fornecimento de água a sua população.

Nos dois dias de duração do encontro pôde-se perceber o hiato enorme e descabido existente entre as informações técnicas que foram ali divulgadas e a vontade política de pô-las em prática. É realmente lamentável que esse hiato exista. Não se pode admitir que, após um dia inteiro de negociações e discussões técnicas, em um ambiente em que se tratava do assunto com conta-gotas nas mãos, onde a tônica era uma proposta de orçamento hídrico que possibilitasse a continuidade da existência de água nas torneiras para a população, essas questões fossem tratadas de forma tão fria e sem a menor importância.

Acho que é por questões como essas que o Brasil permanece como o país da imprudência. As situações de risco só costumam ser diagnosticadas quando os seus efeitos se tornam irreparáveis. Para o Brasil começar a dar certo, é preciso que se valorizem mais as informações técnicas e as pessoas que têm capacidade de colocar em prática uma idéia e levá-la até o fim. Porque hoje quem sabe e não faz perde uma oportunidade valiosa que talvez não se repita no futuro.

Recife, 03 de dezembro de 1999

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