Fundação Joaquim Nabuco

  • Full Screen
  • Wide Screen
  • Narrow Screen
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

TRANSPOSIÇÃO: a gerência da torneira


João Suassuna - Engº Agrônomo, Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco




Gerenciar a retirada dos volumes pretendidos do Rio São Francisco será uma tarefa difícil de ser realizada.



O Nordeste brasileiro passa pela maior crise de abastecimento hídrico de sua história. Caso não chova no próximos dias, só no estado de Pernambuco, 39 municípios deverão entrar em colapso nos próximos três meses. Essa notícia foi divulgada no Diário de Pernambuco, na edição do dia 07 de abril de 2000. Para o final de abril está previsto o colapso dos municípios de Buíque e Pedra, no Sertão. Em maio, serão Agrestina, Aliança, Caruaru, Chã Grande, Escada, Glória de Goitá, Gravatá, Lagoa dos Gatos, Joaquim Nabuco, São José e as localidades de Rancharia, Bonança, São Pedro e Batatinhas. Já em junho, serão os municípios de Araçoiaba, Angelim, Belém de Maria, Brejinho, Carpina, Chã de Alegria, Condado, Feira Nova, Itapetim, Lagoa do Carro, Lagoa de Itaenga, Lajedo, Macaparana, Machado, Moreno, Orobó, Paudalho, São Vicente Férrer, Timbaúba, Vicência, Vitória de Santo Antão e o distrito de Sirigí. Esse quadro preocupante em Pernambuco, bem reflete a situação caótica de abastecimento que se instalou em todo o Nordeste brasileiro.

Diante desse panorama, a transposição de águas do rio São Francisco passou a ser considerada, pelas autoridades brasileiras, como prioritária para resolver, de uma vez por todas, essa grave crise de abastecimento que vem pondo em risco a vida das populações. Pretende-se retirar do rio, para fins de dessedentação (Programa Água de Beber anunciado pelo Governo Federal), um volume estimado em cerca de 70 m³/s e distribuí-lo nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Na possibilidade de realmente ser iniciado, neste governo, o processo transpositório do rio, uma questão nos vem preocupando sobremaneira: entendemos que atualmente, no Nordeste, isso será muito difícil de administrar, tendo em vista a situação de calamidade pública encontrada na maioria de seus municípios. Supondo que seja resolvido o problema de abastecimento de um determinado município, com água oriunda do São Francisco, por intermédio de ingerências políticas, e sendo esse gesto imitado, com êxito, por outro município igualmente necessitado, essas ações terminam por criar um núcleo reivindicatório que talvez seja mais poderoso do que a reação em cadeia de uma explosão atômica. É a reação em cadeia em busca de água para garantir a sobrevivência humana. Não temos dúvidas que os volumes previstos de 70 m³/s a serem retirados do rio atingirão valores fantásticos, proporcionais às necessidades das populações sedentas, numa perspectiva de impossibilidade de suprimento por parte do São Francisco, tendo em vista as limitações de vazão nele existentes. São questões como essas que temos o dever de levar à discussão, a fim de que tenhamos tempo suficiente para encontrar alternativas de soluções, antes mesmo de se iniciar o projeto.

Recife, 26 de abril de 2000.


OBS - Texto publicado na edição de número 03, da Revista Digital Água on Line (www.aguaonline.com.br).

:: Retonar para a página de artigos João Suassuna 

Navegando em: Pesquisa A DIPES