Fundação Joaquim Nabuco

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GERAÇÃO ELÉTRICA: um presente de grego.


João Suassuna - Eng° Agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco



A exemplo de 2002, haveria necessidade de vários períodos chuvosos nas cabeceiras do São Francisco, para restabelecer o processo de geração elétrica no Nordeste, em patamares satisfatórios. 

Finalmente, um verão típico nas regiões Sul e Sudeste do país (diferentemente da região Nordeste, que possui chuvas de outono/inverno, no Sul/Sudeste o período chuvoso é na primavera/verão). Em novembro de 2001, observou-se um divisor de águas com a ocorrência de um fenômeno que não aconteceu nos anos de 1999 e 2000 e que os meteorologistas chamam de Zona de Convergência do Atlântico Sul, a ZCAS. Essa zona é descrita como um encontro de diferentes massas de ar. No sul do país, uma massa oceânica, oriunda de latitudes mais altas e relativamente mais seca e fria, esbarra numa outra, mais quente, originária do continente (norte da Argentina, Paraguai, Bolívia e oeste do Centro-Oeste). Dessa conjunção bifurcam-se dois ramais: um toma o rumo sudoeste da Amazônia e o outro quebra no sentido norte-sul, conquistando o oeste baiano, entra por Goiás, passa pelo Tocantins e pode chegar até o Maranhão e Piauí. A esse estirão agregam-se, a leste, uma massa originária do oceano Atlântico tropical e, a oeste, outra proveniente do Hemisfério Norte. É essa última, mais quente e úmida, que irá trazer água abundante para alimentar as nuvens ao longo da ZCAS.

Nas nascentes do São Francisco, o período chuvoso (que se iniciou em novembro de 2001 e deve prolongar-se até abril de 2002) está sendo muito marcado pela ação dessa ZCAS. As chuvas começaram pelo Rio de Janeiro na época do Natal, subiram para o Espirito Santo, entraram pelo nordeste de Minas, atingindo o vale do Jequitinhonha, depois ocorreram nos estados de Goiás (a cidade de Goiás Velho foi parcialmente destruída pelas águas) e Maranhão (a cidade de Imperatriz ficou debaixo d’água com a cheia do Tocantins), sempre causando grande prejuízo para a população pois, devido a sua intensidade, vieram acompanhadas de muita destruição e, infelizmente, de mortes.

A energia dissipada pela ZCAS foi suficiente para antecipar o período chuvoso no Nordeste, em especial na sua região Semi-árida (o período de maior intensidade de chuvas no Carirí da Paraíba está compreendido entre os meses de março e abril). Em janeiro, o regime já foi por demais generoso no sertão, resultando na sangria de diversos açudes e na antecipação dos plantios das culturas de subsistência, notadamente do milho e do feijão. Para se ter idéia do volume de água caído, comenta-se que no município de Carnaíba, estado de Pernambuco, choveu, em uma semana, a média do que costuma chover em um ano inteiro no Semi-árido, ou seja, 500 mm. Isso foi o suficiente para interromper, em vários pontos, a rodovia que liga aquele município ao de Custódia (PE) e para a represa de Itaparica, a jusante de Sobradinho, acumular cerca de 90% do seu volume.

Comentamos os fatos acima para dar uma idéia do papel fundamental desempenhado pela represa de Sobradinho, reservatório responsável pela regularização da vazão média do São Francisco e, consequentemente, pela manutenção, em patamares adequados, do sistema gerador de energia no complexo da CHESF, em Paulo Afonso (BA) e em Xingó (AL). Em novembro de 2001, aquela represa chegou a atingir um limite mínimo nunca alcançado em sua história: apenas 5,6% de sua capacidade útil. Estamos em fevereiro de 2002, ou seja, em mais da metade do período chuvoso nas nascentes do São Francisco, e Sobradinho acumula cerca de 45% do seu volume, isso após ter recebido toda a água caída nos quatro primeiros meses de chuvas do período, na região Sudeste. 

Preocupados com as questões do racionamento de energia em vigor no país, no mês de novembro de 2001 escrevemos um texto intitulado RACIONAMENTO: o golpe de misericórdia, no qual denunciávamos ser prematura a forma adotada pelo governo federal para modificar a sistemática do racionamento no Nordeste. Acerca desse fato, não concordávamos com as mudanças postas em prática, pois o consumo de energia aumentaria em todo o Nordeste com a redução do racionamento de 20% para 17%, e, nas cidades turísticas, para 12%, isso numa perspectiva de se operar com a represa de Sobradinho em nível crítico e, portanto, sem nenhuma condição técnica de o setor elétrico voltar à normalidade. Nesse contexto, insistíamos no fato de que, para não precisarmos racionar mais energia nem importá-la de outros centros geradores, a represa de Sobradinho deveria estar, no mês de abril de 2002, com, no mínimo, 55% de sua capacidade útil. A água utilizada indevidamente através dessa mudança de regra no racionamento certamente nos faria uma falta enorme no futuro. 

Passados três meses da elaboração desse texto, voltamos a ficar estarrecidos com a divulgação, pela imprensa, de que a partir do carnaval o governo federal iria abolir, de vez, o racionamento no Nordeste. Presentemente vemos que, a exemplo do período momesco, o consumo de energia passará a ser uma verdadeira folia. Sob esse aspecto, alguns fatos precisam ser levados em consideração. Primeiramente, é preciso que se compreenda que não será em um único período chuvoso que o sistema elétrico nordestino irá voltar à sua normalidade. As represas regularizadoras das vazões do São Francisco (Três Marias e Sobradinho) estavam com níveis bastante críticos em 2001 e necessitariam de outras estações chuvosas semelhantes à atual para voltarem a operar a contento. No momento seria necessário um verdadeiro dilúvio bíblico nas nascentes do rio, para fazer com que Sobradinho alcançasse o volume adequado para não haver, em 2003, nem os racionamentos, nem as importações de energia de Tucuruí. Certamente, essa água que será gasta com a geração de energia no Nordeste, sem os racionamentos necessários, também nos fará uma falta enorme futuramente.

É certo que o governo, numa perspectiva de reduzir o consumo de energia sem recorrer ao racionamento, irá colocar em operação algumas termelétricas e sobretaxar o kw consumido (já se fala em 20% de aumento), onerando mais uma vez o bolso do consumidor, que já se encontra tão sacrificado. No entanto, alertamos que essas questões de se reduzir o consumo com o aumento de tarifas podem ser válidas para outras economias no resto do mundo, mas, para o Brasil, essas tentativas não costumam prosperar. Veja-se o exemplo do aumento da gasolina. Na primeira semana após o aumento, o consumo cai um pouco, em decorrência do impacto causado no bolso da população. Passadas algumas semanas, a população vai-se acomodando à nova situação e o consumo volta a crescer. Com a energia elétrica o processo é semelhante. Nunca vimos alguém dormir no calor e sob o zoar de muriçocas, se existe a alternativa do uso do condicionador de ar, embora se pagando um pouco mais caro por isso. Acerca desse ponto achamos, inclusive, que irá haver futuramente uma explosão de consumo. Existindo a possibilidade de novos racionamentos, é bem provável que a população aumente seu consumo no período sem racionamento, para se beneficiar das cotas que serão estipuladas pelo governo federal e enfrentar o período de escassez energética com maior conforto.

Com as chuvas generosas caídas nas nascentes do São Francisco, passamos a concordar com a diminuição dos percentuais de racionamento no Nordeste, mas, nunca, com sua abolição por completo. Seria por demais oportuno, inclusive, que medidas futuras a esse respeito só viessem a ser postas em prática ao término do período chuvoso (no mês de abril), período no qual o governo teria melhores condições para estabelecer as metas necessárias para o adequado funcionamento do setor.
Isso posto, achamos que existe um componente político muito forte nesse processo. Seria por demais constrangedor o presidente da república passar o cargo a seu sucessor com o país sob regime de racionamento de energia. O ano de 2002 é eleitoral e, certamente, em outubro (mês das eleições presidenciais e do final do período seco nas nascentes do São Francisco) o Nordeste estará importando, de Tucuruí, a carga máxima de energia (cerca de 1.300 MW) e não se falará em racionamento. Com atitudes desse tipo, já dá para se prever o tamanho do presente de grego que o futuro presidente irá ter em suas mãos, logo no início de 2003. 

Recife, 18 de fevereiro de 2002.

Texto publicado no encarte Nordeste, da Gazeta Mercantil, do dia 19 de fevereiro de 2002.

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