Fundação Joaquim Nabuco

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PERSPECTIVAS NA GERAÇÃO ELÉTRICA: aos vencedores as batatas!


João Suassuna - Eng° Agrônomo e Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco



Quando não se falava em racionamento de energia elétrica, já escrevíamos sobre os apagões.

Não resta a menor dúvida de que o maior problema na geração de energia elétrica do Nordeste é que temos, praticamente, uma única fonte natural responsável por essa atividade: as águas do rio São Francisco. Caudal de múltiplos usos, tem apresentado limitações de vazão para o atendimento às diversas necessidades dos nordestinos, não sendo outra a preocupação de estarmos, desde 1995, escrevendo e publicando textos na Internet sobre as questões do ambiente natural por onde corre o Velho Chico. Quando não se falava ainda em racionamento de energia elétrica, já escrevíamos sobre os famigerados apagões.

Após esses 7 anos de muita luta, procurando entender as respostas da natureza às ações perpetradas pelo homem na região, chegamos à conclusão de que o planejamento hidráulico da bacia do São Francisco (incluindo aí a sua revitalização), aliado à elaboração de um orçamento hídrico que garanta volumes ao atendimento dos diversos usos de suas águas, seria a forma mais sensata para o enfrentamento de tão grave questão. A esse respeito, reportamo-nos aos nossos três últimos textos "UTILIZAÇÃO DAS ÁGUAS DO SÃO FRANCISCO: novos enfoques", publicado em outubro de 2001; "RACIONAMENTO: o golpe de misericórdia" , publicado em novembro de 2001 e "GERAÇÃO ELÉTRICA: um presente de grego", publicado em fevereiro de 2002, nos quais denunciávamos as baixas vazões do rio, com a conseqüente necessidade de se proceder aos racionamentos, e a forma prematura de como estes foram abolidos pelo governo federal, numa atitude que certamente trará seqüelas ao nosso cotidiano, até o início do próximo período chuvoso, que acontecerá por volta do mês de novembro de 2002.

Estamos em abril, portanto no mês correspondente ao final do período chuvoso nas cabeceiras do São Francisco. Daqui para frente, da represa de Sobradinho, que acumulou cerca de apenas 60% do seu volume útil, sairá toda a água acumulada no período chuvoso correspondente, para a regularização da vazão do rio, vazão esta que deverá se estabilizar numa média de 2.060 m³/s, caso não aconteça nenhuma outra intercorrência climática que venha a pôr fim às expectativas volumétricas futuras.

Ocorre que, sem o racionamento, o volume acumulado em Sobradinho no período das fortes chuvas caídas em 2002, estará, até novembro, em franca redução (significa dizer que a CHESF terá que administrar, e muito bem administrados, os 60% acumulados, até aquele período), motivado não só pelo crescimento normal da demanda energética da região (entre 4,5 e 6% ao ano), mas, e principalmente, pelo baixo volume alcançado por essa represa (que chegou a atingir, em novembro de 2001, cerca de 5,6 % do seu volume útil), principais motivos de nossas denúncias nos três textos acima mencionados. Nesse sentido, estimamos que Sobradinho, em novembro de 2002, com o uso continuado de suas águas, estará com um volume útil aproximado entre 10 e 20% e deveremos ser obrigados a ficar, mais uma vez, contando com as benesses do apóstolo Pedro para iniciarmos 2003 sem haver a necessidade de novos racionamentos. 

E se, por um acaso, os índices pluviais no próximo período chuvoso, nas cabeceiras do São Francisco, não forem significativos?

Com relação a esse assunto, algumas questões têm que ser levadas em consideração. Primeiramente, é alta a probabilidade de acontecer esse descompasso na caída das chuvas. A divulgação da informação, por instituições responsáveis pela meteorologia do nosso país, segundo a qual um novo El Niño formou-se nas costas do Peru no mês de março de 2002, é suficiente para que fiquemos em estado de alerta, com vistas a enfrentarmos as suas conseqüências. Em segundo lugar, é importante a divulgação do estudo sobre "Previsão de Período de Seca para o Nordeste do Brasil (junho/2001)", do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), de São José dos Campos (SP). Nesse estudo (depuração de dados de estudo anterior "Prognóstico do tempo a longo prazo, relatório técnico ECA 06-1978"), há previsão de um novo ciclo seco no Nordeste, a partir de 2003, com término em 2011, sendo que os piores anos tendem a estar entre 2004 e 2008. Essas informações de cunho científico são de fundamental importância para que a população se conscientize das conseqüências advindas, tendo em vista ser a nossa matriz energética calcada em hidreletricidade e, portanto, ainda sem a existência de sucedâneos economicamente viáveis para a questão da geração elétrica. Lembramos que o custo da energia elétrica produzida em térmicas a gás, é de 4 a 6 vezes maior do que o custo da geração em hidrelétricas e com o inconveniente de poluir demasiadamente o ambiente. Nessa briga de gigantes, quem sai perdendo é o consumidor, que terá de pagar mais cara a conta da energia consumida, numa ocasião em que já se encontra tão sacrificado. Em terceiro lugar, não se pode deixar de desprezar a informação de que existe hoje, no cenário mundial, um consenso de que a água de certos mananciais tornou-se um recurso natural escasso (principalmente no Nordeste brasileiro). Se medidas efetivas de gerenciamento não forem tomadas com certa urgência, a escassez dos recursos hídricos em nossas bacias hidrográficas (incluída aqui a do São Francisco), poderá acarretar um processo de decadência nas próprias bacias, com impactos irreversíveis, bem como o surgimento de graves conflitos entre os usuários da água nas suas diversas modalidades de uso. É bom frisar que, mesmo em grave crise energética, o governo federal tenta, a qualquer custo, transpor as águas do rio São Francisco para abastecer as populações sedentas do Nordeste.

Diante de toda essa problemática e esperançosos de que medidas estruturadoras seriam tomadas pelo atual governo, visando pôr em ordem o setor elétrico e garantir a geração firme de energia para os próximos anos, o que se viu foi, no mínimo, inusitado: diante das críticas dos técnicos com relação ao fim do racionamento (matéria editada na imprensa do Recife no dia 20 de fevereiro de 2002), o governo federal classificou-as como "batatadas".

Por tratar-se de um termo desconhecido no Nordeste brasileiro, acreditamos que o chefe da nação, por ser um cidadão educado, não estava querendo menosprezar a capacidade técnica nacional, na qual nos incluímos (a relação de textos publicada na internet, com elevado índice de acertos existentes nas suas previsões, bem denota a nossa preocupação com relação ao futuro do Nordeste). Cremos firmemente que Sua Excelência estava apenas querendo elogiar alguns técnicos que, na sua opinião, não tinham outra intenção senão a de estarem preocupados com o futuro do seu país. A esse grupo técnico vencedor, parafraseando o eminente escritor brasileiro, Machado de Assis, que na sua obra, Quincas Borba, escreveu "Ao vencedor as batatas", o recebimento desses tubérculos, enviados pela presidência da república, pode ser encarado como verdadeiro troféu. 

Recife, 01 de abril de 2002.

Texto publicado no encarte Nordeste, da Gazeta Mercantil, do dia 03 de abril de 2002

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