Fundação Joaquim Nabuco

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A PROPÓSITO DO CONSUMO DE ÁGUA E DA POLUIÇÃO DAS TERMELÉTRICAS


João Suassuna - Eng° Agrônomo e Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco




Termelétrica de Uruguaiana - RS

O uso da água em térmicas de ciclo combinado é mais racional.
Vivenciamos hoje uma situação esdrúxula no tratamento das questões da geração elétrica no Nordeste brasileiro. Por um lado, continuamos ainda na dependência de bons períodos chuvosos na bacia do São Francisco, para que não venhamos a ter problemas de racionamento de energia e, por outro, vivemos sob a tutela dos nossos dirigentes os quais, na tentativa de solucionar os problemas do setor, penalizam mais uma vez o cidadão, criando novos tributos, a exemplo do Encargo de Capacidade Emergencial, popularmente conhecido como Seguro Apagão, destinado ao contrato de termelétricas móveis, que utilizam diesel e óleo combustível, caso a hidrologia não se mostre suficientemente adequada ao atendimento da geração de energia na região. Aos desavisados, trata-se de um imposto que, antes mesmo da existência do problema, já vinha sendo pago pelo contribuinte, desde março de 2002, equivalente a R$ 4,90 para cada 1.000 Kwh consumido, representando um acréscimo médio de cerca de 2% em sua tarifa de energia. Em tal caso, o consumidor, que já anda tão sacrificado, é tratado como peru natalino o qual, nos festejos de final de ano, invariavelmente, costuma morrer de véspera.

No que concerne ao funcionamento das termelétricas, dois pontos relevantes, que preocupam especialistas do mundo inteiro, nos parecem merecer alguma atenção. Trata-se do enorme volume de água necessário à geração do vapor indispensável ao acionamento das turbinas, e da poluição que emana do sistema gerador, quando em operação, proveniente da queima do combustível utilizado, especificamente o diesel, o óleo combustível e o gás natural, esse último em menores proporções.

Acerca do consumo de água, é certo que a tecnologia das térmicas evoluiu bastante nos últimos anos, existindo, inclusive, sistemas que funcionam através de ciclo combinado (geração simultânea de energia e calor), os quais desperdiçam menores volumes de água no ambiente, resfriando parte do vapor que retorna ao estado líquido e é direcionado de volta ao processo. Mas, por outro lado, sabe-se que as térmicas, isso na sua grande maioria, continuam a ser as grandes vilãs em termos de uso excessivo desse precioso líquido. Entre as várias térmicas projetadas pelos governos, algumas têm trazido preocupações no meio técnico-científico, a exemplo de Carioba II, que será construída em Cubatão, São Paulo, projetada com cerca de 945 MW de potência. Essa usina captará um volume de água equivalente a 1.288 m³/h, dos quais 1.069 m³/h irão evaporar no processo gerador de energia, ao contato direto com equipamentos superaquecidos. Isso significa que 83% do volume de água que entra no sistema serão dissipados na atmosfera na forma de vapor. Para que se tenha idéia desse quantitativo, o volume evaporado seria suficiente para abastecer uma cidade de aproximadamente 200 mil habitantes, o que é significativo. Outra térmica que irá utilizar também um enorme volume de água é a de SUAPE, em Pernambuco, localizada a cerca de 50 km da cidade do Recife. Essa térmica, em fase de construção, projetada para funcionar com uma potência de 523 MW, queimando gás natural, irá consumir um volume de água de cerca de 36.000 m³/h (10 m³/s). Comparativamente, a Companhia Pernambucana de Saneamento (COMPESA) fornece à população da região metropolitana do Recife, estimada em cerca de 3 milhões de habitantes, um volume equivalente a 12 m³/s. Esses números eqüivalem a dizer que, uma única térmica no estado irá consumir praticamente o mesmo volume d’água que é fornecido a uma metrópole como o Recife. A gravidade dessa situação só é amenizada com a revelação de que o sistema de captação previsto para SUAPE opera com água do mar, o que não deixa de ser uma ótima notícia. Essas informações são extremamente pertinentes, se levarmos em consideração os problemas de abastecimento de água que existem atualmente nos grandes centros urbanos nordestinos. Para localidades distantes do mar, térmicas projetadas com essas características só iriam agravar ainda mais o problema.

No tocante à poluição atmosférica, apesar de já termos comentado o assunto no artigo "GERAÇÃO ELÉTRICA: a situação é delicada", publicado em 21 de maio de 2002, na Gazeta do Nordeste, a questão merece algumas informações adicionais. 

Fazendo referência à usina termelétrica William Aroja, construída em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, que possui atualmente três turbinas com outras duas em fase de montagem, ela foi projetada para utilizar gás natural ou diesel como elementos combustíveis. De acordo com as revelações do fabricante dessa térmica (Alston) e da empresa operadora do seu sistema (Tractebel), levando-se em conta o consumo de combustível, cada turbina, quando utiliza gás natural, libera para a atmosfera, em média, cerca de 45 g/s, 163 kg/h, 3917 kg/dia de óxidos de nitrogênio (NO e NO2). Quando o combustível utilizado é o diesel, a quantidade média de óxidos de nitrogênio produzida é bem maior, cerca de 83 g/s, 302 kg/h, 7245 kg/dia. Ao ser contabilizado o uso desses combustíveis, chega-se à conclusão de que essa usina lança no ambiente cerca de 12 toneladas de óxidos de nitrogênio ao dia, quando o combustível utilizado é o gás natural, e cerca de 21 toneladas diárias, quando o combustível empregado é óleo diesel. Essas informações são extremamente importantes quando relacionadas a estudos das áreas médicas, que têm revelado que o óxido nítrico (NO) está na base de diversas patologias humanas, tais como, impotência masculina, diabetes, supressão da imunidade, hipertensão, câncer, processos alérgicos e inflamatórios e problemas cardíacos, entre outros. 

Isso posto, entendemos que o assunto deva ser tratado com os cuidados devidos, principalmente em Pernambuco, onde as autoridades responsáveis pelo setor têm afirmado que as térmicas previstas para o estado irão contribuir com cerca de 50% de toda a sua demanda energética. 

Recife, 26 de junho de 2002

Texto publicado no encarte Nordeste, da Gazeta Mercantil, do dia 03 de julho de 2002.

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