Fundação Joaquim Nabuco

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Prenúncios de nova seca no Nordeste

João Suassuna - Eng° Agrônomo e Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

Foi realizada no dia 23 de janeiro de 2003, no Centro de Extensão da Universidade Federal de Campina Grande, PB, a 1ª Reunião Nordestina de Análise Climática. Nela, os meteorologistas de todo o país foram unânimes em afirmar que o período chuvoso no Nordeste, para o corrente ano, terá precipitações abaixo da média, o que não foi uma surpresa, principalmente para nós pesquisadores da Fundação Joaquim Nabuco.

Em 3 de abril de 2002, publicamos um texto no encarte Nordeste da Gazeta Mercantil, intitulado "PERSPECTIVAS NA GERAÇÃO ELÉTRICA: aos vencedores as batatas!", no qual havíamos citado o trabalho Previsão de período de seca para o Nordeste do Brasil, dos pesquisadores Carlos e Roberto Girardi, do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), de São José dos Campos SP, contendo informações sobre as previsões da chegada de um novo ciclo seco no Nordeste, a ser iniciado em 2003, com perspectivas dos piores anos estarem compreendidos entre 2004 e 2008. Pelo visto é o que, infelizmente, está se configurando para o Nordeste brasileiro para os próximos anos, ou seja, as secas já são previsíveis, estão acontecendo e as medidas necessárias para o combate aos seus efeitos não estão sendo postas em prática, ou mesmo pensadas.

A esse respeito, publicamos outro texto, em julho de 1999, no qual havíamos divulgado uma proposta metodológica de Donald A. Wilhite, para a preparação do combate aos efeitos das secas nos Estados Unidos, para tomarmos conhecimento da forma como os americanos costumam lidar com o fenômeno e tentarmos, de alguma forma, adaptá-la ao nosso meio. A proposta de Wilhite, em si, foi estabelecida para ser executada em 10 etapas, a começar pela designação de uma comissão nacional para o combate aos efeitos da seca, passando pela formulação de uma política de execução do plano e seus objetivos; solução dos conflitos entre o setor ambiental e o setor econômico; levantamento dos recursos naturais, biológicos, humanos e das limitações financeiras e legais em vigor; elaboração do plano; identificação de necessidades de pesquisa e lacunas institucionais existentes; elaboração de síntese dos aspectos relacionados com a ciência e suas políticas; implementação do plano; desenvolvimento de um programa educacional de treinamento em vários níveis e desenvolvimento de procedimentos de avaliação do plano.

A forma pela qual essa metodologia foi estruturada pelo governo dos Estados Unidos dá para perceber que as questões da seca, naquele país, receberam alta prioridade de tratamento, e as respostas à sociedade americana já foram dadas há algum tempo.

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, aqui no Nordeste as secas são tratadas, quando muito, com medidas paliativas e não estruturadoras - a exemplo da distribuição de cestas básicas, do uso do carro-pipa, da bolsa renda, da criação de frentes de trabalho etc. - isso rotineiramente após as conseqüências do fenômeno já terem levado pânico à população. Os resultados dessa forma de procedimento na região, todos os brasileiros têm acompanhado pela mídia impressa e televisiva do país: uma verdadeira ciranda de descaso, falta de respeito para com o próximo e, como se isso não bastasse, facilidade de serem cometidos atos ilícitos na chamada indústria da seca.

No Brasil, o atual governo pretende dar, por dia, três refeições dignas ao seu povo carente, numa resposta às metas de campanha, na chamada Fome zero. O Nordeste, para dar a sua parcela de contribuição à referida campanha do governo federal, não pode simplesmente decalcar as ações realizadas em outros países no tratamento dispensado às secas. O que estamos necessitando, sim, é de termos consciência de que a seca deve ser tratada de forma prioritária, através de ações coerentes, sérias, levando-se em consideração o estabelecimento de uma metodologia doméstica para convivência com o fenômeno, medidas essas que poderão ser postas em prática em caráter permanente (com ou sem a existência de seca) e, sobretudo, levando-se em conta as especificidades locais de cada região. Com isso, acreditamos que estaremos dando um gigantesco passo para o estabelecimento de novos rumos para o desenvolvimento dessa região tão sofrida e, de certa forma, desmistificando a idéia de que o Nordeste é uma região problema: é, sim, um desafio a ser enfrentado pelo governo que se inicia.

Texto publicado no encarte Nordeste, da Gazeta Mercantil, do dia 13 de fevereiro de 2003.

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