Fundação Joaquim Nabuco

  • Full Screen
  • Wide Screen
  • Narrow Screen
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

A história do maior acervo sonoro do Nordeste

Por: Malu Didier

 

Interpretações originais de Luiz Gonzaga, Manoel G. Barreto e Jackson do Pandeiro, gravações de histórias da época de Agamenon Magalhães e discursos de Miguel Arraes no período da ditadura militar. Essas são algumas das obras que compõem a maior coleção fonográfica do Nordeste, e uma das maiores do Brasil; pertencente ao acervo sonoro da Fundação Joaquim Nabuco. 

Essas produções perpassam diferentes contextos históricos, tendências e estilos musicais. O acervo contém aproximadamente 11 coleções de suportes de diversas épocas, que se dividem em discos de 78 rotações, gravados de 1902 até a década de 60, os LPs, que compõem uma coleção de discos de 33 rotações, os compactos, de 7 rotações, as fitas cassetes, fitas rolos, partituras e arranjos. 

Contudo, o reconhecimento de documentos sonoros enquanto patrimônio cultural é relativamente recente por parte de arquivistas e pesquisadores. O grande pioneiro disso foi pesquisador Renato Phaelante, responsável pela fonoteca desde 1981. Na época, ele mantinha a coleção apenas com arquivos de gravações de seminários e congressos da casa. Com experiência em rádio e grande sensibilidade para música, Phaelante começou a organizar o acervo e lutou para que os áudios fossem reconhecidos como documentos. 

O pesquisador começou a comandar o programa Memória de Nossa Gente na Rádio Universitária em 1982, quando usou a plataforma como um meio para arrecadar tudo que podia sobre rádios e, a partir disso, nasceu a ideia de criar a fonoteca na Fundação. A luta para conquistar o título de documento para os arquivos veio, segundo ele, “a partir do crescimento do acervo e da credibilidade da instituição,” para então se transformar no que hoje é, baseado no conhecimento e na experiência do pesquisador, “o maior acervo fonográfico do Nordeste e um dos maiores do país.” 

“O que Renato fez foi ousado, pois o Instituto de Documentação tinha um olhar muito hermético sobre o que era considerado documento,“ afirma a assistente de Ciência e Tecnologia da Fundaj, Elizabeth Carneiro, acrescentando que  se você tem um objeto em casa e traz ele para uma instituição, onde o seu valor intelectual é levado em consideração, ele deixa de ser um objeto comum, e passa a ser um documento. 

A partir de quando a coleção começou a se expandir e contemplar não apenas arquivos institucionais, ao longos dos anos, foram acumulados em torno de 33 mil documentos. O material chegava na Fundaj por meio de doações de coleções tanto pessoais quanto cedidas por rádios pernambucanas, como a Rádio Olinda e a Rádio JC. 

“O acervo, não só pela coleção de música popular, que traz uma ampla esfera de conteúdos políticos, sociais e históricos, mas também por fonogramas que remetem a histórias importantes, é um aliado à preservação da história brasileira”,  explica. Ela dá como exemplo o jingle de Manoel G. Barreto ‘Ele vem aí’, da década de 60, que remete a temas contemporâneos. “Ele faz menção a eleição de Jânio Quadros e trata a questão da corrupção. Também temos as obras de Luiz Gonzaga e Rosil Cavalcanti, que revelam a dificuldade no cotidiano nordestino em termos da superação do povo.” 

O conteúdo documental do patrimônio, no entanto, não se resume à esfera sonora. De tempos em tempos, o acervo atrai universitários e pós-graduandos interessados em estudar não só a música e a história, como também o design das capas, devido ao seu valor estético. A assistente enaltece a importância de remeter o ritmo do conteúdo intelectual do disco a uma arte: “Existem obras mais visuais, como as de Alfredo Gama, que remetiam ao contexto de sua época (século XIX). Ele proporciona muito essa questão estética da música, não só da arte capa, como também da estética do estilo.” 

A digitalização 

Além das obras, uma outra memória está presente nos arquivos: a da própria evolução dos registros em áudio. A ampla coleção de suportes, por mais valiosa que seja, enfrenta uma dificuldade nos dias de hoje: a tecnologia que lhes dá acesso está se tornando obsoleta. 

Em 2005, foi criado na Fundaj o Núcleo de Digitalização como ferramenta de preservação. Já em 2013, deu-se início ao projeto de digitalização do acervo sonoro. O Coordenador do Centro de Documentação e Pesquisa, Lino Madureira, explica a relevância desse processo para a conservação dos documentos. “Toda digitalização tem um impacto de preservação, porque deixamos de manusear os originais. No caso do sonoro, boa parte do acervo tem essa característica muito forte da fragilidade.” 

A digitalização é feita a partir de licitações e é separada por época de acordo com os suportes. Os primeiros arquivos a fazerem parte do projeto foram os discos de 78 rotações; procedimento que garantiu experiência na digitalização dos outros. Em seguida, foi a vez das fitas cassetes e fitas de rolo. Atualmente, está em execução a digitalização de 4,6 mil discos de vinil de 33 rotações, fechando assim a meta dos projetos de digitalização. 

À medida em que vão se tornando digital, os áudios são disponibilizados na Villa Digital, onde todo o acervo pode ser acessado fisicamente na unidade da Fundaj/Dois Irmãos. Quanto ao acesso online, há limitações. A lei do direito autoral permite a disponibilização apenas de parte da obra. Por isso, foi criada uma portaria aprovada pelo conselho diretor da Fundação Joaquim Nabuco, em que foi consentida a liberação de 30% de cada faixa na internet. “Essas obras têm direitos e a gente precisa respeitar,” explica Lino. 

Mesmo com a assistência da tecnologia, o acervo original continua sendo preservado. O processo de digitalização nunca se fecha por completo, pois a instituição constantemente recebe novos documentos. Atualmente, boa parte deles é produzida e lançada em meio digital, então o uso tanto dos antigos suportes quanto de seus respectivos players vêm diminuindo. “Algumas tiragens continuam sendo feitas da forma tradicional, mas isso vem sendo reduzido significativamente. Esse projeto é uma ação contínua que fazemos em parceria com a equipe de T.I. da Fundação, e procuramos sempre estar nos renovando. O acompanhamento disso é o nosso próximo desafio,” ratifica o coordenador.

Navegando em: :: Outras Notícias A história do maior acervo sonoro do Nordeste