Fundação Joaquim Nabuco

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Entrevista: Roque Laraia, antropólogo

Por Juliana Costa

Foto: Gil Vicente/Fanzine/FundajFoto: Gil Vicente/Fanzine/FundajMineiro, de Pouso Alegre ("Ninguém sabe quem foi o cansado viajante que, repousando sob um céu estrelado, emoldurado pelas sombras das escuras montanhas, resolveu denominar de alegre o seu modesto pouso"*), e bacharelado em História, o professor Roque Barros Laraia foi o 401º palestrante convidado ao Seminário de Tropicologia, da Fundação Joaquim Nabuco (confira a cobertura do evento). Em tom descontraído e dando boas vindas a uma plateia que se apertava por vaga na sala, concedeu uma entrevista.

Qual a sua história com a Antropologia?

Eu, na verdade, nem sabia muito bem o que era Antropologia quando entrei na universidade. Foi no curso de História que eu descobri a Antropologia. O mais interessante é que eu fiz História em Minas Gerais e meu professor de Antropologia era um médico dermatologista. Os estudantes diziam”como dermatologista é um bom antropólogo e como antropólogo é um bom dermatologista”. Eu fiquei meio intrigado, porque eu achava que o que ele falava não tinha muito a ver com a coisa. Comecei a procurar uma bibliografia em Antropologia e descobri o livro de Ralph Linton — naquela época, o único manual de Antropologia americano traduzido para o português. E já me entusiasmei. Mas eu não tinha nenhuma perspectiva de fazer Antropologia, eu achava que ia fazer História. Quando eu terminei o curso de História eu vi um anúncio do Museu Nacional, um curso de teoria de pesquisa e Antropologia social, intensivo de um ano. Era uma especialização, não era mestrado. Eu me candidatei e fui um dos seis alunos do curso. Quando a gente terminou o curso, o Museu Nacional resolveu contratar os três primeiros colocados do curso — eu, Roberto da Mata e Alcida Ramos.

O que foi que lhe chamou atenção para estudar Antropologia?

Eu acho que a diversidade cultural. O fato de você ter uma unidade biológica, você ter uma espécie humana como uma só — todos os homens são iguais —, mas uma enorme diversidade cultural. Tudo foi criado de uma maneira independente  por exemplo, o sistema de parentesco, que é uma área que eu estudo muito. Cada sociedade humana criou um sistema de parentesco que não tem nada a ver com sistema biológico, porque quando essas decisões foram tomadas ninguém sabia nada de biologia. Então você tem uma sociedade fortemente “paternial”, que foram as que eu estudei, com parentesco só pelo lado do homem, e sociedades fortemente “materniais”, com parentesco só pelo lado da mulher. Tem várias conjugações, várias possibilidades.

Inclusive o senhor é autor do livro "Cultura: um conceito antropológico". Qual é, afinal, a relação entre cultura e antropologia?

O conceito básico da Antropologia é cultura. A Antropologia começou formalmente como uma ciência acadêmica em 1871 na Inglaterra, quando [Edward] Tylor, que eu considero o primeiro antropólogo inglês, definiu o conceito de cultura. Cultura é tudo aquilo que o homem faz e que depende do local em que está. Tudo aquilo que o homem faz depende de aprendizado, é o que eu quero dizer. Até andar, que é um ato biológico, a criança aprende a andar imitando os pais. De tal forma que um antropólogo sabe. Eu, por exemplo, sei quando é americano, quando é brasileiro porque as pessoas andam de forma diferente. Hoje a Antropologia é uma coisa muito mais... na década de 60, era muito tênue. Hoje nós temos uma Associação que tem 2300 sócios e é a 3ª maior Associação do mundo.

Em entrevistas anteriores, o senhor sempre procura acessar o que chama de "grande público". No caso desse Seminário de hoje, a gente percebeu uma grande comoção nas nossas redes sociais quando o nome do senhor foi citado como palestrante. Como o senhor vê essa adesão do público a suas palestras? É importante?

Ah, é sim! Quando você tá numa palestra, de certa forma, você dialoga. Você se adequa, vai mudando dependendo do público.

O que o senhor espera de hoje? Quais os principais objetivos desse evento?

Eu vim falar sobre a história da Antropologia brasileira, mas eu não trago textos dizendo “a história é essa”, eu trago as possibilidades de ser a história da Antropologia, porque há muitas interpretações. Por isso que eu fiz um texto aberto, eu não estou definindo as coisas, estou colocando as posições diferentes, as diferentes pessoas que consideram a história isso, aquilo. Para discussão. Tem gente que acha que é “a Antropologia começou na Semana de Arte Moderna, em São Paulo”. Tem gente que acha “a Antropologia começou com os médicos, eles são os primeiros antropólogos”, acreditam numa Antropologia biológica. Tem vários discussões, por isso deixei o texto em aberto. Quando eu falo para alunos eu falo minha opinião, hoje eu tô colocando a possibilidade para debate. Eu coloco de propósito questões que são discutíveis.

 


* http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832014000200014

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